1. Análise de Discurso Crítica
1.8 Hegemonia, poder e ideologia
1.8.1. Censura e silenciamento
“É extremamente difícil falar muito sem dizer algo a mais”
(Luiz XIV)
Pode ser difícil aceitar que haja a compatibilidade entre censura e modernidade tardia ou internet. No entanto, há um afunilamento de entendimentos e discursos a ponto de estudiosos pensarem na formação de um imperialismo ou de massificação cultural (Negri e Hardt, 2005). Mas se há abertura de espaços (como a internet) para divulgação de informações, ideologias etc., como explicar essa redução de sentidos?63
Foucault (2001, pp. 8-9) faz a seguinte observação sobre esse assunto:
(...) suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.
61 Wikis são coleções de hipertextos formados de maneira colaborativa. 62 Também é conhecida como “Web Invisível”, “Undernet” ou “Web Oculta”.
63 Possenti (1996, p.187) faz a seguinte pergunta sobre o assunto: “se os textos não têm
sentidos, se são os leitores que atribuem sentidos aos textos, de onde vieram os sentidos que os leitores atribuem aos textos?” Ele mesmo responde dizendo que o sentido não é um ato individual, mas social e histórico.
Mas como se dá o processo de controle discursivo em período de globalização? Ele acontece de maneira impositiva, coercitiva, não pela força bruta, mas por mecanismos de poder implícitos, velados, às vezes, sutis. Uma das hipóteses desta pesquisa é a reificação e redistribuição de determinados sentidos implícitos. Em termos de cinema, como bem ilustrou o documentário Olhar estrangeiro (Europa Filmes, 2006), o filme que não perpetua o estereótipo de brasilidade é expurgado pela Indústria Cinematográfica, e, consequentemente, são lhe tiradas as possibilidades de divulgação64.
Spivak também nos ajuda a encontrar a resposta para isso em seu livro clássico Pode o subalterno falar? (2010), ao trazer para discussão a situação das viúvas indianas, das quais se esperava que se entregassem às chamas juntamente com seus esposos mortos, em sua pira funerária. As que não faziam isso eram tão rechaçadas e sofriam tanto que viver não lhes parecia uma opção muito razoável. Essa situação evidencia que a coerção para que as viúvas tivessem uma determinada atitude se dá não pela força física, mas pela imposição do sagrado para atingir o seu fim. O falar contrariamente a essa imposição implica muito sofrimento, embora seja, a princípio, possível. De forma semelhante, talvez a Comissão do Ministério da Cultura, juntamente com produtores, diretores e roteiristas, esteja agindo como as viúvas indianas, fazendo “sacrifícios” para conseguirem ser escolhidos para representarem o Brasil na premiação de Hollywood, mesmo que esses sacrifícios sejam reificar estereótipos do que seja a brasilidade.
Foucault (2001) afirma que determinadas legitimações, dentre as quais podemos incluir a que Spivak analisa, são apoiadas institucionalmente, exercendo uma espécie de pressão e coerção sobre os discursos, promovendo um desnivelamento entre eles, de tal forma que o texto sagrado é maior do que a atitude das viúvas de quererem viver.
Com a criação da internet, o senso comum acredita que há democracia, que nunca na história da humanidade esta pôde manifestar-se tão livremente até mesmo sobre temas polêmicos ou proibidos, relacionados, por exemplo, à sexualidade ou a governos tirânicos. Todavia, o que se percebe é que a globalização permite o ato de “falar”, mas isso não inclui o ato de “ouvir”.
64
Da mesma forma, em se tratando de filmes, constatamos, por exemplo, que há, sim, muita produção, vários filmes sendo feitos. Contudo, observa-se que aqueles que tentam romper com determinadas hegemonias discursivas não são ouvidos/vistos (como exemplificado com os documentários do DOCTV) em horários ou locais nobres. Uma das explicações pode estar relacionada ao fato de que produzir um filme é um processo milionário, uma vez que uma produção sofisticada (que geralmente atrai o público) ou mesmo o processo de publicidade do filme ou a distribuição comercial dos exemplares não estão dentro do orçamento previsto pelos produtores/diretores.65
Diante disso, não há como não criticar a participação de intelectuais brasileiros nesse processo de reificação de discursos hegemônicos. Quanto a isso, Spivak (2010, pp. 46-47) faz a seguinte observação:
Diante da possibilidade de o intelectual ser cúmplice na persistente constituição do Outro [sujeito colonial] como a sombra do Eu [Self], uma possibilidade de prática política para o intelectual seria pôr a economia “sob rasura, para perceber como o fator econômico é tão irredutível quanto reinscrito no texto social – mesmo este sendo apagado, embora de maneira imperfeita – quando reivindica ser o determinante final ou o significado transcendental.
De acordo com Fairclough, a criação de uma ordem de discurso66 é realizada historicamente, mas como se mantém por tanto tempo a legitimação arbitrária de verdades contestáveis? Sobre esse assunto, Foucault (2001, p. 25) expõe que
(...) dizer pela primeira vez aquilo que, entretanto, já havia sido dito e repetir incansavelmente aquilo que, no entanto, não havia jamais sido dito. A repetição indefinida dos comentários é trabalhada do interior pelo sonho de uma repetição disfarçada: em seu horizonte não há talvez nada além daquilo que já havia em seu ponto de partida, a simples recitação.
65
Um exemplo de filme que teve um orçamento pequeno (cerca de US$ 22.000) e uma audiência considerável (rendeu US$ 248.639.099) foi Bruxa de Blair, que se utilizou da internet para espalhar a notícia de que a história era realmente verdadeira.
66
De uma forma geral, a ordem de discurso é caracterizada pela totalidade das práticas discursivas dentro de uma instituição ou sociedade e a relação entre elas.
A repetição do mesmo acaba por silenciar outros significados. Dizer e silenciar andam juntos, o não-dito aparece de forma espectral, uma vez que ele também possui significação. O problema do silêncio é que ele é opaco, não “transparente”, assim como a imagem e as categorias linguísticas. Orlandi (2007: 102), sobre esse aspecto, afirma que “o silêncio não fala, ele significa. É, pois inútil traduzir o silêncio em palavras”. Como é possível contestar algo que supostamente não se afirma ou se materializa? Essa impossibilidade de refutá-lo/questioná-lo em virtude de sua não materialidade aumenta ainda mais o grau de sua opacidade. A formação de discursos hegemônicos está calcada na falsa sensação de que o que se diz ou se mostra não pode ser mostrado ou dito de outra maneira. A repetição mencionada por Foucault acaba por apagar a arbitrariedade não só da escrita como da própria significação.
O silenciamento e a hegemonia de temas, discursos, não são realizados sem exercer algum tipo de violência (geralmente não física), provocada pela constante repetição de alguns significados e apagamentos de outros, num movimento extremamente ativo e plástico, por se adequar de forma imperceptível aos mais variados contextos e textos, como bem constatou Foucault (2001, pp. 13-14):
Como se poderia razoavelmente comparar a força da verdade com separações como aquelas, separações que, de saída, são arbitrárias, ou que, ao menos, se organizam em torno de contingências históricas; que não são apenas modificáveis, mas estão em perpétuo deslocamento; que são sustentadas por todo um sistema de instituições que as impõem e reconduzem; enfim, que não se exercem sem pressão, nem sem ao menos uma parte de violência.
Nessa linha de raciocínio, pode-se dizer que todo e qualquer estereótipo representa uma violência, pois aplica a um determinado grupo características individuais e/ou arbitrárias de maneira geral e taxativa. Esse processo de inculcação, como postula Bourdieu (2002), é feito por meio da repetição que esse discurso realiza – por meio do dito ou dos silenciamentos.
2. Transitando entre Semiótica e Linguística: o filme como gênero