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4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.1 T RABALHO E S UBJETIVIDADE : E NTRE S ABERES E F AZERES

4.1.1 Centralidade do Trabalho

A noção sobre centralidade do trabalho é abordada por diferentes teóricos que tem o mundo produtivo como seu foco de estudos e intervenções. A identidade social dos sujeitos contemporâneos é moldada, em grande medida, pelas relações de trabalho, por isso este fator constitui-se como um elemento central. Assim, a atividade produtiva pode ser pensada como algo essencial no desenvolvimento de laços afetivos, trocas sociais e econômicas, que fundamentam a vida humana (LANCMAN; GHIRARDI, 2002).

A centralidade do trabalho foi algo bastante apontado pelas entrevistadas durante a pesquisa de campo. Percebe-se que há um reconhecimento de que o trabalho tem um lugar importante na vida dos sujeitos contemporâneos, muitas vezes organizando a vida e os afazeres fora do trabalho a partir das atividades laborais.

Neste sub-eixo aborda-se como as profissionais da saúde entendem o trabalho em suas vidas, bem como na vida dos usuários que são atendidos pelos serviços de saúde. Desse modo, pode-se perceber a maneira com que as participantes da pesquisa lidam com seus próprios trabalhos e a partir disso, estender (ou não) este entendimento na sua relação com o usuário quando este é acolhido pelo SUS.

Para Dejours (2004), o trabalho, ao contrário do que geralmente se acredita ser, não é algo com limite de tempo, aquele se passa no espaço físico da instituição onde se desempenha as atividades profissionais. O trabalho vai além das demarcações oferecidas pela jornada de trabalho, ele invade a vida e mobiliza a personalidade daqueles que trabalham por completo. O trabalho é uma atividade muito central na vida da gente né, não só pela carga horária, que a gente passa, mas pelo investimento né que se faz, e eu acho que tem ali, ele não pode ser ele em si o nosso projeto de vida né, mas em muitos momentos isso se mistura e o meu projeto de vida, por exemplo, passa muito por poder ser útil com a pessoa que eu sou e que eu procuro me tornar né, então ele tá muito integrado com o nosso bem estar, com a nossa realização, o nosso convívio com pessoas, com uma equipe de trabalho [...] (Entrevista Individual)

E eu acho que o trabalho vem também como um processo de liberdade né, quando uma pessoa assim que pode ter condições de trabalhar né, e se estruturar e se sentir mais feliz com isso [...]. Então eu acho que o trabalho é algo extremamente estruturante né, e todos nós assim para nós estar no trabalho ou não estar no trabalho muda [...] (Entrevista Individual).

O trabalho assume um papel central na constituição dos sujeitos e representa uma possibilidade de inserção social, um lugar no mundo (LANCMAN; GHIRARDI, 2002). O trabalho, nas palavras de Castel (1998), é propulsor da integração social, havendo uma nítida inter-relação entre as formas de inserção no trabalho (precarizadas ou não) e as formas de (des) integração social.

Assim as entrevistadas evidenciam a função social que o trabalho ocupa na vida humana. O quanto “[...] o trabalho ele dá uma função, ele te dá uma cara na vida [...], fazendo com que esse lugar seja socialmente respeitado. Ao contrário, aqueles que não têm trabalho acabam por ocupar um não-lugar em uma sociedade que vive-para-o-trabalho e depende deste para sobreviver.

O trabalho na nossa sociedade ele tem uma função social interessante (Entrevista Coletiva).

Mesmo que o que a pessoa tenha seja só trabalho na vida. Porque daí ela acorda, vive em função do trabalho, do deslocamento do trabalho, volta do trabalho, enfim

acaba sobrando pouco espaço, poucas possibilidades. Quando tu tira o trabalho tu realmente acaba tirando tudo que a pessoa tem, porque ela viveu para o trabalho. (Entrevista Coletiva).

[...] eu tô atendendo uma senhora agora que se aposentou [...] e entrou numa depressão profunda, profunda, de eu ficar uma hora lá na frente dela, mais até e ela não conseguir levantar os olhos assim, “acabou, ah tiraram o trabalho, acabou a vida para mim”. Como assim? Então é isso que vai se enraizando a coisa né... [...] ela não era uma trabalhadora apaixonada assim sabe, ela dizia “não, eu fazia o meu trabalho bem feitinho, não tinha muitos amigos porque eu acho que o pessoal fala demais e eu não gosto de conversar muito”, mas não era aquela coisa bah não, curtia, curtia... não, não... tinha que trabalhar né... (Entrevista Coletiva).

Em alguns momentos também é possível evidenciar o trabalho ocupando um lugar para além do desejado, como nos comentários acima. Não é incomum os relatos de pessoas que tem como única atividade da vida o trabalho e quando este falta, seja em função do desemprego, seja em função de afastamentos e licenças saúde, ou até mesmo quando há uma perda de sentido no fazer profissional, há uma sensação de que se perdeu tudo.

Essa observação do trabalho enquanto função social se refere tanto a percepções das entrevistadas na sua relação com o seu trabalho, quanto na relação com os usuários e seus respectivos trabalhos. Desse modo, aponta-se também para o caráter reabilitador que o trabalho pode apresentar, especialmente para os usuários dos serviços de saúde mental.

Porque o trabalho, [...] também tem uma questão que faz um laço social que é importante [...]. Pode ser organizadora. É uma identidade. Um lugar no mundo. Então, muitas pessoas vêm com desejo de poder retornar, outras não. Outras não se veem mais e querem até uma ajuda para se afastar disso. E outras querem retomar. Então, também, é uma análise uma avaliação que a gente tem que fazer com cuidado. Apesar de não sermos peritos né, não é a gente que vai decidir isso, mas... Poder ajudar um pouco o sujeito a pensar sobre isso, né? (Entrevista Coletiva). [...] tem uma situação de depressão bem grave assim, que foi, para mim foi uma situação de sofrimento do trabalho claro, ligado a outras questões da vida pessoal que não se separa mas vão acontecendo juntas e tem um processo sim, que foi um... um acidente físico que a pessoa ficou com sequelas que até hoje ela fala que o desejo dela é voltar a esse mercado formal onde ela se sente reconhecida enquanto trabalhador, onde ela tem sim algum dinheiro né, e acaba sendo um conflito entre o aquilo que a pessoa quer e este lugar que também é adoecedor e que não vai respeitar as individualidades dele né, com esse acidente que ele teve, então acho que sim, acho que isso é bem visível assim (Entrevista Individual).

De modo geral, a compreensão para as profissionais da saúde sobre o papel do trabalho para os usuários do SUS é muito mais o trabalho tendo uma função de resgate social, como algo terapêutico, do que algo que produz sofrimento e possível nexo causal relativo ao adoecimento. Isso pode ser visto nas palavras abaixo.

[...] a questão de trabalho entra nisso né ou em pensar em alguma oficina terapêutica, algum espaço que possa ser de socialização que possa também dar um retorno financeiro, ahm... por aí assim. Mas [...] eu acho que ele é mais uma perda, tu entende, entre tantas assim [...] (Entrevista Individual).

[...] de recolocar pessoas no mercado de trabalho, com aquelas vagas especiais que antes era só para deficientes físicos que agora tão levando em conta o sofrimento emocional, tem gente que tem um atestado do psiquiatra ou “neuro”, várias empresas têm aceitado e a gente tem recolocado e isso tem sido de um, tem sido muito terapêutico pras pessoas resgatarem de novo, poderem voltar ao mundo do trabalho com outro olhar dos seus chefes, com outro cuidado (Entrevista Individual). Nas palavras das entrevistadas, o trabalho convoca o laço social, possibilita o desenvolvimento da sociabilidade. Entretanto essa é uma percepção das profissionais da saúde, o que nem sempre é compartilhado com aqueles que realizam as contratações, já que as empresas estão focadas muito mais no lucro do que na (re) inserção social.

[...] na verdade a gente vem discutindo é que, por exemplo, o usuário da saúde mental, quando é que as empresas aceitam? Quando existe uma lei e elas vão ter um benefício por aceitar aquela pessoa. Uma cota, exatamente. Agora é aceitar porque vai ter um benefício, ninguém sustenta essa diferença. Então o mercado de trabalho ele é muito perverso. E isso, o quanto ele provoca a situação de doença, mas ao mesmo tempo, esta pessoa se sente autônoma, produtiva, fazer alguma coisa também pode ser saúde. Então é tu conviver o tempo todo com os paradoxos (Entrevista Individual).

Assim pode-se apontar a função do trabalho também como fonte de reconhecimento social. Ao mesmo tempo em que estar ativo no mercado de trabalho apresenta um caráter social inclusivo ele também responde a um chamamento do sistema capitalista que necessita de sujeitos produtivos para fazer a “máquina girar”.

Tem um paciente que, outro dia, encontrei com ele... Até perguntou o que eu estava fazendo lá para fiscalizar o trabalho dele (risos)... Mas, assim, tu sabe e tem notícias de pacientes que estão felizes da vida. Que estão lá, tão trabalhando, tão ganhando um extra né, razoavelmente bem, assim. Outros, sim, têm períodos que não estão tão bem, que tem problemas com outros pacientes, inclusive, problema de relacionamento, ou tá num período mais sensível, problema com a chefia. Mas, o pessoal do trabalho tem já uma sensibilidade e uma preocupação em acompanhar, e supervisionar, então, também, nos solicitam “olha não tá muito bem”, ou o familiar identifica e daí a gente faz algum atendimento para avaliar melhor essa questão. Mas, muitos pacientes, tem se beneficiado. Não só no ponto de vista financeiro, mas tem sido um fator de reabilitação, o trabalho (Entrevista Coletiva).

O que vem junto com esse encaminhamento do trabalho? É o que vem junto? [...]. Geralmente o encaminhamento para o trabalho é alta, que bom, estamos no ápice da inclusão porque está trabalhando, está produzindo para este sistema então (Entrevista Coletiva).

Há um imperativo social de que “todos têm que trabalhar”. Essa ideia está enraizada no enunciado de que “o trabalho dignifica o homem” e quem não trabalha não é considerado um ser digno. A relação das profissionais da saúde com o mundo do trabalho se dá muitas vezes quando o próprio usuário sugere um afastamento do trabalho, quando na verdade isso deveria ter sido percebido e orientado pelo profissional que realizou o atendimento anteriormente, quando o adoecimento se agravou.

Tem [preconceito com o usuário que se afasta do trabalho via INSS], principalmente quando é mais jovem. [...] Só que aí vem uma questão de cultura que atravessa a gente, quem é uma pessoa produtiva na sociedade? Quem trabalha. Quem não trabalha é vagabundo, o trabalho dignifica o homem né. Então assim, tá enraizado, temos que trabalhar, quanto mais tu trabalha, mais digno tu é. Então quem não trabalha, não faz, entre aspas, nada, não é digno. Então isso atravessa tanto os trabalhadores da saúde quanto os usuários... então não é algo que tá em discussão (Entrevista Individual).

[...] “ah não quer trabalhar, “[...] “ah ela fica sempre assim perto do verão, nas vésperas dos feriados”, então tem uma série de piadinhas que vem. E muitas pessoas fazem de fato e usam disso né, mas essa discussão ela não é feita, e não se conversa, “bom, como é que a gente vai investigar isso”, não tem essa, eu não vejo pelo menos... (Entrevista Individual).

É o sofrimento, a incapacidade né... E além de tudo a pessoa sofre na família as vezes isso né, “ah tu tá te fazendo, ah depressão é preguiçoso, só quer dormir”, a pessoa tá muito deprimida, não tem ânimo para nada e a família fica dizendo “ah reage” né, então sofre no trabalho, sofre na família, é um contexto todo muito perverso contra as pessoas sabe (Entrevista Individual).

[...] falar do trabalho com a ideia: “se a pessoa trabalha, ah coitada e se ela não trabalha, ah é vagabunda”, são essas duas concepções. [...] Mas pensar, problematizar a questão do trabalho, “o que que tu faz?” Não. Tanto que a pergunta é “tu tem ou não renda?”. Não é nem a questão se tu trabalha ou não, é a renda, a questão de dinheiro. [...] (Entrevista Individual).

[...] a pessoas tem dificuldade de estabelecer essa relação e de que, muitas vezes, na verdade o próprio adoecimento psíquico, muitas vezes, ele é muito cercado de muito preconceito, as pessoas, muitas vezes, se reconhecerem adoecidas já é difícil, e ainda reconhecer que aquele adoecimento é pelo trabalho é muito doloroso, então muitas vezes as pessoas acabam, elas vão buscar ajuda quando não estão mais conseguindo suportar né, muitas vezes porque já apareceu uma doença física ou porque estão num estágio de tanto sofrimento que não conseguem nem mais trabalhar, daí é pela incapacidade para trabalhar né, muitas vezes não é só pelo sofrimento, mas é pela questão de não conseguir mais produzir e daí que as pessoas vão buscar ajuda (Entrevista Individual).

Ao mesmo tempo em que o trabalho pode oferecer um lugar na sociedade àqueles que trabalham, ele também pode causar angústias e adoecer, tendo assim múltiplos sentidos e significados. Assim ele é visto como algo quase que obrigatório na sociedade contemporânea, que pode ser fonte de reconhecimento, prazer e satisfação, mas também

sofrimento, tanto em função das atividades produtivas, quanto pelo lugar de não produção que encontram as pessoas em situação de desemprego, licenças saúde e até mesmo trabalhos informais.

Que também é isso, a gente fica tão envolvida, o trabalho te dá um outro lugar, né? Assim como tu também fica um pouco mais, vamos dizer, angustiado, tem mais questões, adoece... Mas, também, o trabalho tem uma outra função né. Ele passa a ser, também, este outro lugar que tu desempenha, este outro lugar que tu estudou e te forma para poder desempenhar né (Entrevista Individual).

Tem aquela outra, [...] que foi cozinheira vários anos pra uma família. [...] Fazia banquetes. Tem parece que uma relação de dívida. Ao mesmo tempo tem as vezes uma coisa que tu observa de uma certa colagem, assim. Parece que elas têm que ficar cuidando e cuidando... E é uma dedicação excessiva ao trabalho que a gente vê, às vezes. Aquilo é organizador mas, ao mesmo tempo, suga porque parece que a pessoa não sabe fazer outra coisa (Entrevista Coletiva).

Desse modo, percebe-se no trabalho um caráter libertador, mas que, por vezes também se apresenta como alienante e explorador. Isso faz com que o trabalho coloque sim o sujeito que produz num lugar privilegiado da sociedade, mas que, por outro lado o sujeita a condições degradantes para manter-se incluído no sistema econômico.

Daí eu digo trabalho e não emprego né, a diferença entre trabalho e emprego né, acho que é o trabalho em si, pode ser remunerado ou não, mas aquilo que te traz o teu objetivo, o teu fazer, que trabalha com o teu potencial, com a tua criatividade, tua relação com as outras pessoas, com a capacidade de transformar, sabe, teu aprendizado, enfim tua própria, teu senso de utilidade também né sabe [...] (Entrevista Individual).

Eu acho que questão do papel do capital nessa história, da disputa que a gente precisa fazer né, que é fundamental e da compreensão do trabalhador, do ser humano que tem a sua identidade, seu caráter, a sua personalidade, estruturada em cima do seu trabalho né, essas duas coisas são fundamentais pra mim para gente conseguir começar a entender as relações de trabalho e saúde, e processo de saúde e doença no mundo do trabalho hoje, eu acho que é isso (Entrevista Individual). O trabalho assim, produz muito daquilo que conhecemos como identidade do sujeito: diz quem ele é e o que é capaz de fazer, podendo, além disso ser um potencializador de capacidades e sensibilidades antes ainda não reveladas. Passam a fazer parte desse sujeito por meio do contato desse com o seu fazer e o caráter transformador do trabalho, especialmente quando os indivíduos nele depositam o seu investimento cognitivo, físico e psíquico.

Como constituição da identidade entende-se um processo que ocorre ao longo de toda a existência do sujeito, também ligada a percepção sobre alteridade. É por meio do modo

como “o outro nos olha” que nos construímos como sujeitos, sendo nessa relação que se dá o reconhecimento de diferenças e semelhanças entre o eu e o outro (LANCMAN; GHIRARDI, 2002).

[...] a gente identifica a atividade trabalho como algo de identidade do sujeito e como promotora de identidade, bem se tu tá propondo isso é sinal que o trabalho não é o tripalium daquela época, mas é algo né que vai sim ser constituidor, né que vai ser algo de tu poder se nomear e ter orgulho disso assim né... (Entrevista Individual). As relações do cotidiano atravessam a constituição da identidade que perpassam a infância, adolescência e vida adulta. Quando adultos, os sujeitos encontram no espaço do trabalho elementos essenciais na permanente construção de si, sendo as trocas laborativas consideradas mediadoras centrais no sentido de desenvolver e complementar essa identidade que não pára de ser elaborada. “Assim, o trabalho tem fundamental importância para a vida psíquica e a valorização do trabalho vai significar um status positivo ao indivíduo.” (LANCMAN; GHIRARDI, 2002, p. 45).

A gente acredita, sabe? Em poder estar trabalhando com a saúde mental e não com a doença mental, que o trabalho é algo importante, né? Que ele é constituidor do sujeito, tem uma ação que vai fazer a diferença. Então, acho que a gente tem uma via aí, saúde e trabalho que nos une muito, que é o que a gente acredita enquanto equipe, assim (Entrevista Coletiva).

[...] e acho que nós que estamos nesse patamar de ter identificado que o trabalho constrói, constrói as pessoas e a saúde mental enfim, temos essa, acho que até o dever sabe de fazer isso, sabe, se a gente tem melhores condições porque não sabe, tu que tem que puxar, tu que tem que alavancar... (Entrevista Individual).

Também é ressaltado pelas profissionais da saúde o quanto o trabalhar atual promove modos de subjetivação ligados a construção de uma sujeição dos trabalhadores. Não se nega a produção de vida por meio do trabalho, mas há presente também um sentimento de desgaste e exploração que vai constituindo os sujeitos de um modo muito simbólico e característico do sistema econômico vigente.

Mas assim eu voltaria para algo bem peculiar, porque eu acho que foi tu quem falou não sei, acho que é se perguntar em que ponto o trabalho deixa de ser uma forma de subjetivação e de saúde entendeu, porque de subjetivação ele é né, mas é uma sujeição, de um modo de subjetivação bem específico, mas em que momento se perde isso né, porque o trabalho não é só algo que produz vida para ti e para os outros, mas pode ser algo que te desgasta né... (Entrevista Coletiva).

Eu fico pensando assim que a gente está falando de uma esfera né, de uma esfera social, que é a nossa, na qual a gente pode ter sonhos, idealização, mas que a maior parte da população ela não pode sonhar com um trabalho. O trabalho ele não é organizador da vida daquela pessoa não é o que ela idealizou, é a subsistência, é o

sobreviver, é o contribuir com esse sistema capitalista né, então assim, o adoecimento ele é ligado a um trabalho que não é um trabalho escolhido, é um trabalho forçado, é um trabalho que sustenta isso né. E aí eu acho que as vezes o nosso adoecer também é em reconhecer isso assim né [...] (Entrevista Coletiva). Assim o trabalho, na visão das entrevistadas, desempenha muito mais um papel de resgate da saúde mental do que de elemento que pode provocar o adoecimento e, muitas vezes, até mesmo a incapacidade laboral, já que esta última noção se torna muito mais opaca em relação a primeira. Desse modo, percebe-se que a centralidade do trabalho é afirmada pelas profissionais da saúde muito mais quando se referem às suas próprias vivências e relações com o seu trabalho, do que quando se refere ao trabalho do usuário que em muitos comentários verbais aparece como “paciente” e não trabalhador o que denota uma escolha por um termo carregado de simbolismo.

É como se afirmassem que o seu próprio trabalho afeta, produz sofrimento e pode até adoecer a si mesmo, entretanto, esse entendimento não é expressado do mesmo modo quando se referem ao usuário-trabalhador. Quando este apresenta um adoecimento psíquico, grande parte das entrevistadas encontram explicações para tal acometimento em questões intra-psíquicas, familiares e problemáticas individuais, o que será aprofundado no eixo-temático “Saúde Mental e Trabalho no SUS: Articulações em Rede”.

Desse modo, pode-se dizer que a centralidade do trabalho é percebida, mas de modo parcial e superficial, já que ocorre de modo definitivo quando se refere a si próprio e não tanto em relação aos usuários. É como se o trabalho do usuário fosse visto como algo acessório e não fundamental e constituinte do sujeito, como os seus próprios. Este elemento diz de um não reconhecimento dos usuários como trabalhadores, ignorando assim a estruturação do outro (mas não a de si mesmo) por meio da atividade produtiva. No entanto, existem algumas profissionais de saúde que conseguem perceber os usuários também como trabalhadores, o que pode ser evidenciado no comentário abaixo.