4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.1 T RABALHO E S UBJETIVIDADE : E NTRE S ABERES E F AZERES
4.1.3 Modos de Ver, Modos de Escutar: Acolhimento Integral
Um dos elementos que se destacou durante as entrevistas no que diz respeito a atenção à saúde dos trabalhadores é fato das participantes terem demonstrado desenvolver
suas práticas em saúde a partir de uma escuta sensível, não necessariamente para as demandas relativas ao sofrimento no trabalho, mas sim de modo integral. Mencionaram “olhar e escutar” para aquilo que é trazido pelo usuário, desfocando, de certa maneira, a sua especialidade e centrando-se no que é verbalizado pelo sujeito atendido.
[...] porque eu acho que começa por aí, tu olhar as pessoas como humanas, como iguais, e não com aquela separação que os profissionais fazem, eu tenho o saber e tudo e eu vou te tratar [...]. (Entrevista Individual)
Acho que pontualmente tu encontra algumas pessoas tanto capacitadas formalmente né, mas é raro, bem raro, ahm... como tu encontra algumas pessoas sensíveis como ser humano mesmo sabe? Que daí acaba levando em consideração o ser humano como algo mais complexo, mais integral mesmo assim e daí trazem a questão do trabalho (Entrevista Individual).
Esse modo de ver-escutar diz de uma escuta integralizadora, que permite olhar para as variadas interfaces do sujeito e daquilo que fazer sofrer, o que inclui o mundo do trabalho. São habilidades que podem ser adquiridas tanto a partir da formação acadêmica e formal, quanto a partir das vivências profissionais. Muitas vezes acontece algo que convoca a atenção do profissional da saúde e faz com que este passe a valorizar mais a questão relativa à saúde mental dos trabalhadores.
Não, como eu te falei antes assim ahm, se tu não tem um olhar integral, não é o olhar para a saúde do trabalho que vai ter, sabe. Poderia nem pensar, uma coisa é tu ter, buscar isso dentro de ti, de tu ter isso como princípio, de tá nesses princípios. “Bem eu só não sabia que podia relacionar com o trabalho”, daí tudo bem, ah sim, aí que bom vamos ver como isso funciona, sabe. Mas quando tu não busca, como eu te falei do trabalho mais robotizado aquilo que eu te falei sabe, que é uma questão de saúde mental, no meu ponto de vista (risos), que implica no seu fazer e no seu trabalho, sabe, tu não vai te “antenar” e mesmo assim não vai ter uma escuta mesmo que tu chega na frente dele e fale, a não ser que desperte alguma coisa lá, mas não, sabe... (Entrevista Individual).
[...] na verdade não acho que as pessoas não estão capacitadas, eu acho, tanto que eu gosto de usar mais o termo sensibilizar, porque eu acho que tu tem que tá aberto, disposto a poder enxergar aquilo, enfim senão por mais capacitado que tu esteja se tu não conseguir olhar, enfim, o outro como um trabalhador de que, e que é, na verdade se a gente for pensar ninguém mais tem as 8 horas de trabalho né, todo mundo trabalha mais que isso, ou se dedica, mesmo que não esteja trabalhando, enfim tá pensando no trabalho, tá se deslocando pro trabalho então assim, ocupa muito mais que um terço da nossa vida, então não tem como ele não impactar (Entrevista Individual).
Assim, nesse sub-eixo busca-se referenciar as práticas que acolhem as demandas trazidas ao serviço pelos usuários de modo integral. Sendo assim, o sofrimento no trabalho
também é considerado no cuidado em saúde mental, fazendo com que os campos da Saúde do Trabalhador e a Saúde Mental se entrelacem.
É e de ter esse olhar voltado, porque eu sempre digo assim, ontem até uma estagiária se despediu lá do local e eu disse, “olha não esquece do que eu te falei, de que a gente, independente de área de atuação a gente vai se deparar com situações de trabalho, então seja na Psicologia Escolar, seja na Psicologia Comunitária, seja na Psicologia Clínica vão ter situações de trabalho que a gente tem que...”. Na verdade, nem todo mundo vai atuar na saúde do trabalhador, mas se tiver esse olhar é isso que é importante, eu vou ter me sentido assim que eu contribui realmente com a formação desses futuros profissionais (Entrevista Individual).
Eu ainda acho assim que as coisas, que é das pessoas, sabe assim, que existe um lado que as vezes a gente quer negar, a gente pensa no coletivo tudo bem, mas existe o indivíduo dentro desse coletivo e se esse indivíduo não despertou essa sensibilidade, as vezes me pergunto porque que estão trabalhando aqui na saúde pública, vai pro privado, acho que cada um trabalha bem onde eu acho que dá, é sua proposta tudo bem, sua escolha tem que ser respeitada, agora já que tu está no público, que tu siga o público, sabe, é a minha opinião, sabe. Então assim, quando tu tem tudo disponível, e para todos, até para os agentes comunitários (Entrevista Individual).
Os comentários verbais emitidos pelas entrevistadas demonstram o quanto a disposição para um acolhimento integral pode produzir diferenças na relação entre usuários e profissionais da saúde. A Política Nacional de Humanização (PNH) prevê o acolhimento como uma ferramenta fundamental do trabalho em saúde pois perpassa todos os níveis de atenção ao usuário, desde a sua chegada ao serviço de saúde até a sua partida, não sendo responsabilidade de um único profissional.
Então assim eu acho que tudo é uma questão de cultura, eu digo assim, tudo que não é só da formação acadêmica, porque eu me lembro assim, eu posso dizer numa autocrítica de mim mesma sabe, porque eu [...] atendia, eu trabalhei no campo da Tuca, a gente implantou uma equipe no campo da Tuca, aquilo foi legal porque deu uma baita experiência assim e lá nós fazíamos plantões não era no Sanatório Paternon que nem é agora, era num “predião” lá bem antigo, caindo aos pedaços [...] E eu lembro de ter dito um dia para o meu pai, “bah pai eu vi aquelas pessoas na comunidade lá durante o dia, e elas foram de noite”, não foram consultar? E as vezes final de semana tinha 300 pessoas sabe e bah e ele olhou para mim e disse assim, “minha filha jamais perca a tua sensibilidade”, bem, não precisou outra coisa na vida né (risos). [...] Então tudo isso assim se a gente tá aberto vai escutando as coisas que aparecem, meu pai falou aquilo, não sei o que mais, tu vai vendo, vai ficando dentro de ti, e daí não sai mais, não sai de jeito nenhum, só melhora então (Entrevista Individual).
Em alguns serviços de saúde percebe-se uma compreensão equivocada sobre o acolhimento, em que alguns profissionais, e até mesmo serviços e gestores, acreditam que este seja um momento específico do atendimento, geralmente ligado à recepção ou triagem. Institucionaliza-se o acolhimento como uma etapa do cuidado, não atuando do modo que a
política orienta, em que o acolhimento deve ser transversal, presente em toda relação que se constrói no serviço de saúde. Essas definições limitadas e reduzidas a ações pontuais estão descomprometidas com o que se pensa como acolhimento integral, comprometendo o estabelecimento de vínculos nos serviços (BRASIL, 2010).
Assim é possível perceber o enlace de vidas no âmbito do cuidado, já que se considera o vínculo e a relação de confiança construída no “entre” como uma potência de afetar e ser afetado, e assim trabalhar (BRASIL, 2010). Desse modo, se constrói a humanização como uma política de saúde, em que não é possível separar a atenção e a gestão. Para se colocar em prática essa política é necessário fazer uso das “tecnologias relacionais” que enfatizam a abordagem das relações em detrimento daquelas instrumentais (BENEVIDES; PASSOS, 2005; GUERRERO, 2013).
Para Merhy (2013b, p. 176), há três maneiras de atuar das tecnologias de cuidado em saúde: as “tecnologias duras”, as “tecnologias leve-duras” e as “tecnologias-leves”. Enquanto a primeira se refere a uma caixa de ferramentas ligadas recursos materiais como um estetoscópio, uma caneta, papeis, entre outros, a segunda se refere ao campo de saberes estruturados, o que pode incluir a clínica, a epidemiologia ou a pedagogia. Já a última tecnologia referenciada pelo autor diz respeito àquilo que existe na relação entre usuários e trabalhadores, o “espaço-relacional”, existindo apenas em ato entre dois sujeitos. Uma das tecnologias leves se refere ao acolhimento, que pode ser realizado de diferentes formas por diferentes pessoas e serviços, mas que deve ter como base o sujeito que demanda cuidado, sua história e seu relato, numa tentativa de realizar um cuidado ampliado e integral.
E aí é isso, é a coisa de tu te colocar em escuta em abertura para aquele usuário e bom, aí a coisa vem. Aí tu consegue identificar né que é um sofrimento em função de alguma questão de trabalho enfim, mas... ahm é isso assim (Entrevista Individual). [...] é tá discutindo a ideia de que a atenção em saúde tem que ser mais ampliada possível né, o olhar sobre aquele paciente tem que ser integrado né e isso a gente não consegue se tiver muito distante né (Entrevista Individual).
E a gente sempre nesse olhar um pouco mais ampliado né, isso faz a diferença no atendimento (Entrevista Individual).
Quando se referem às questões relativas ao sofrimento no trabalho, a escuta atenta, o ato de “abrir o olhar e o ouvido” e conseguir escutar o usuário-trabalhador também é mencionado como uma atitude primordial. Assim, se a profissional de saúde está disponível
para acolher o que é expressado pelo sujeito, ela perceberá também o sofrimento produzido no trabalho e os impactos que isso tem provocado na vida do usuário, passando pelos sintomas e chegando até mesmo em um possível diagnóstico.
Então eu acho assim, é se tu abrir o olhar... tu vai atender muitas questões de saúde mental e trabalho mas tem que treinar o olhar a escuta né ainda esse é o melhor instrumento que tem (Entrevista Individual).
Acho que a questão é o nexo sabe, é tu ter a escuta aberta, pra saber que o trabalho, sabendo que o trabalho e daí tu fazer essa conversa sobre o trabalho da pessoa. Bah, chegar alguém “ah eu não consigo dormir”, “eu não tô comendo direito”, “eu tô triste”, “eu choro” e daí tu pode ouvir e, simplesmente dizer, “ah, tá deprimida, vamos falar sobre a tua mãe” sabe, mas daqui a pouco tu precisa abrir o teu ouvido para ouvir sobre o trabalho (Entrevista Individual).
Mesmo enfatizando a importância desse olhar cuidadoso, é referido pelas entrevistadas o fato de que alguns serviços ainda não estão preparados para isso. Tal situação se dá de modo a segregar as demandas do sujeito que, muitas vezes, não encontra acolhimento no SUS, fato que acontece com muita frequência quando há demandas de sofrimento relativo ao trabalho.
[...] só que no CAPS a instituição CAPS não... tem um outro olhar, é uma visão muito, ahm, muito difícil porque assim vai contra tudo que eu acreditava do que deveria ser um trabalho de CAPS (Entrevista Individual).
[...] como é que não se pergunta, isso é produzido, e é necessário esse não poder perguntar, esse não olhar para o outro, para poder manter isso que a gente está organizado né [...] (Entrevista Coletiva).
Dejours5 afirma em uma entrevista sobre a centralidade do trabalho o fato que o trabalho tem em si um potencial de desenvolver uma sensibilidade que antes não existia no sujeito, algo que está ligado a uma inteligência corporal que “só de olhar se percebe”. Assim pode-se afirmar que essa sensibilidade aliada às habilidades para com o fazer são aspectos humanos que podem ser desenvolvidos e que a prática é uma ferramenta potente no desenvolvimento de novas capacidades perante as dificuldades encontradas no contexto laboral. O comentário verbal sinalizado abaixo condiz com essa maneira de pensar.
[...] quando tu tá sensibilizado, tu olha, é como fazer um diagnóstico de um paciente né, se tu não pensa nas possibilidades de adoecimento tu não vai fazer o diagnóstico. Em relação ao sofrimento mental no trabalho também é assim, então quanto mais né tu tem experiência mais tu consegue perceber, tem ferramentas para tu fazer essa análise, então eu acho importante isso a gente discutir com os residentes e com os doutorandos a questão do sofrimento mental no trabalho, mas isso ainda não tá claro na cabeça das pessoas, né? (Entrevista Individual).
Assim a proposta de uma interlocução genuína entre trabalhadores e usuários do SUS é um dos objetivos dos serviços e do sistema a serem perseguidos, especialmente após a elaboração da PNH que prevê de modo claro a proposta da integralização no acolhimento. A integração entre os dois atores busca a construção e manutenção de vínculos e cooperação entre as pessoas envolvidas, construindo uma noção de corresponsabilidade no funcionamento do SUS e proporcionando uma abertura ao diálogo entre profissionais e usuários (GUERREIRO, 2013).
Assim sendo, fatores acima nomeados como sub-eixos temáticos desta pesquisa (centralidade do trabalho e trajetória acadêmica e profissional) vão afetar modos de ver e modos de escutar atentos àquilo que faz sofrer os trabalhadores, já que o entendimento do trabalho não é de um elemento neutro na vida social e sim algo que atravessa a existência humana. Esse modo de ver e de escutar integralmente o usuário do SUS faz a diferença no atendimento, já que este é visto com o ser humano complexo, em que há diversas forças atuando no processo de saúde-adoecimento. Essa perspectiva de atenção ampliada faz com que as demandas relativas à saúde dos trabalhadores também sejam consideradas e, a partir disso, intervenções possam ser pensadas em conjunto com o usuário. Afirma-se, dessa maneira, que as profissionais que tem uma inserção neste campo e que possuem em sua trajetória acadêmica e profissional noções sobre centralidade do trabalho acabam desenvolvendo uma sensibilidade para lidar com o sofrimento proveniente do trabalho.