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1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1.1 O Trabalho em Saúde: Exercendo o Protagonismo

O trabalho em saúde demanda uma especificidade própria deste fazer, que refere, essencialmente, ao caráter relacional implicado nesta profissão. Assim, pode-se dizer que todo trabalho em saúde se produz por meio de um trabalho vivo em ato: só existe a partir do encontro entre pessoas e a produção de relações a partir desse acontecimento. Por meio de momentos diversos vividos nesse encontro, intermediados pela fala, escuta, expectativas e interpretações se dá o acolhimento (ou não) dos sujeitos que demandam um cuidado em saúde. Por esse encontro passam sensações de confiança, afeto e cumplicidade que podem produzir o vínculo necessário (MERHY, 2013a).

O trabalho em saúde é marcado profundamente pelo exercício de liberdade, pois é importante que o próprio profissional da saúde escolha o modo de realizar o seu processo produtivo de cuidado. Assim, Franco (2013), expõe que a liberdade é uma potência para o cuidado no âmbito da saúde. Ela vem da natureza do trabalho neste contexto, que demanda constantemente a construção de relações que vão constituindo o trabalho vivo em ato (MERHY, 2002). A partir dessa lógica, o trabalhador vai imprimir no seu fazer a sua singularidade, optando por atuar de modo sumário e prescritivo ou então acolhedor, fazendo do cuidado, cuidador.

É a liberdade que permite o genuíno encontro com os outros, sejam eles usuários ou parte da equipe do serviço, fazendo com que a dinâmica do afetar-se seja colocada em movimento, estabelecendo vínculos e responsabilização. Por outro lado, é também a condição de liberdade que possibilita um cuidado burocrático, irreflexivo e prescritivo (FRANCO, 2013).

[...] não há um a priori um modelo de trabalho no cuidado em saúde a ser seguido, as práticas em saúde acontecem conforme o próprio trabalhador produz este acontecimento, ou seja, sua subjetividade que é dinâmica, opera produzindo o cuidado também com as variações que este sujeito sofre, na sua relação com o mundo do trabalho (FRANCO, 2013, p. 244).

A gestão atravessa esse processo de liberdade, que acaba, inúmeras vezes engessada pelas normas, protocolos e procedimentos prescritos pela gestão. Essa prescrição do trabalho atua, muitas vezes definindo e padronizando o comportamento a ser adotado pelos trabalhadores. Assim sendo, a singularidade do cuidado passa a dar lugar às regras fixas (FRANCO, 2013).

Mesmo a gestão buscando disciplinar os trabalhadores, estes podem fazer uso de sua liberdade tanto para deixar-se capturar quanto para romper, mesmo que minimamente, com a rigidez das determinações burocráticas do trabalho. “Essas regras, normas e protocolos são instrumentos usados para padronizar mas que, ao mesmo tempo, capturam o trabalho vivo, ou seja, retiram a liberdade do trabalhador e aprisionam seus atos assistenciais e de cuidado em um padrão [...]” (FRANCO, 2013, p. 245). Para atingir esse objetivo, a gestão faz uso de instrumentos reais e simbólicos que limitam o fazer dos trabalhadores.

Assim convive-se cotidianamente com a tensão entre captura e ruptura da lógica descrita, o que faz surgir lógicas de criação para dar conta deste trabalho juntamente com a luta contra os limites fixos da atuação. Os fazeres e saberes da prática em saúde vão configurando-se de modo que passam a assumir espaços e tempos diferenciado. O elemento paradoxal, portanto, passa a fazer parte do trabalho em saúde, pois é na tentativa de driblar a prescrição da gestão que se encontra espaços de invenção (FRANCO, 2013).

“Liberdade e captura vão atuar simultaneamente, e se inscrevem no sujeito-trabalhador da saúde, formando sua subjetividade nômade ou aprisionada” (FRANCO, 2013, p. 245). A subjetividade nômade refere àquela que é dinâmica e está sempre em movimento, se conecta com as singularidades dos usuários, produzindo diferença, criação e multiplicidade na relação com o outro. A subjetividade capturada costuma reproduzir comportamentos serializados de modo burocrático, considerando o usuário um sujeito padronizado com necessidades indiferenciadas. Institui verdades, não considerando as possibilidades de invenção e mudanças no meio de trabalho, construindo relações com o usuário ligadas a um cuidado fixo, regular e disciplinado (FRANCO, 2013).

É notável a produção subjetiva intermediada pelo trabalho, especialmente o trabalho vivo que tem a função de produzir o cuidado na relação com a equipe e com os usuários. Há

uma força que opera aí, a qual é denominada como desejo e/ou vontade que se refere a uma energia propulsora e age como força, no sentido de movimentar as ações do trabalhador a desenhar seu trabalho de modo singular e artesanal. Esse desenho é realizado a partir das possibilidades de fala e escuta, operação da clínica e dos afetos (FRANCO, 2013).

Esse movimento vai acontecendo com base nos encontros necessários para a produção do cuidado. Encontros estes com outros trabalhadores, porque o trabalho é sempre em rede; com os usuários, o destinatário das ações de cuidado; mas também com outros equipamentos de cuidado, as normas e protocolos, os saberes estruturados (FRANCO, 2013, p. 246).

Há uma dimensão subjetiva no trabalho em saúde, que deve ser considerada nas discussões sobre a gestão desse trabalho. Essa dimensão é constituída por interconexões que se dão por meio da execução do trabalho vivo presente no cuidado e que necessita viabilizar o protagonismo dos profissionais nesta construção que é, iminentemente, singular, atravessada pelos modos de subjetivação daqueles promovem o encontro entre sujeitos da/na saúde (FRANCO, 2013).

A gestão do trabalho em saúde precisa levar em consideração que as práticas de cuidado em saúde só poderão ser implementadas se este projeto for viável do ponto de vista do trabalhador. Os gestores estão acostumados a prescrever regras, protocolos e normas, ditando como os trabalhadores devem conduzir suas atividades. Encontra-se aí um equívoco: este modo de fazer gestão em saúde acaba gerando trabalhadores serializados, que apenas reproduzem práticas, muitas vezes, já ultrapassada, sem fazer uso da invenção. Quando se possibilita ao trabalhador operar novas modalidades de atuação, produzindo um cuidado singularizado ele altera as suas ações, instituindo outras possibilidades de intervenção diante das demandas dos serviços. Isso só é possível quando se permite a presença da dimensão subjetiva do trabalhador no seu ato de cuidar, e não apenas a repetição de ações já cristalizadas. “A construção de novas práticas só se faz a partir de processos autoanalíticos, em que a velha prática é analisada, podendo ser assim desconstruída para no lugar produzirem-se novas possibilidades de cuidar” (FRANCO, 2013, p. 248).

O cuidar é entendido como uma ação que ultrapassa as competências e fazeres técnicos. Refere-se a uma tarefa de caráter prático que tenha um enfoque na saúde coletiva. “Cuidar é querer, é fazer projetos, é moldar a argila. Querer é o atributo e o ato do ser. Cuidar

é sustentar no tempo, contra e a partir da resistência da matéria, uma forma simplesmente humana de ser” (AYRES, 2001, p. 71). Cuidar de alguém significa elaborar um objeto e sobre ele agir. Se faz necessária a construção de projetos e a sustentação de uma relação entre os envolvidos. Não pode se restringira a realizar pequenas tarefas relativas a saúde. É necessária uma dimensão expansora que inclua a amplitude de reflexões e intervenções necessárias ao atendimento das demandas de saúde (AYRES, 2001).

É importante que a gestão do trabalho em saúde considere que, até mesmo para operar protocolos e normas, a subjetividade do trabalhador está envolvida, já que isso refletirá inclusive no campo social. Entretanto, este aspecto tem sido pouco reconhecido pelos gestores. De modo geral, para a gestão, os trabalhadores são equiparados à insumos utilizados para o funcionamento dos serviços de saúde, porém os profissionais da saúde devem ser percebidos como protagonistas da produção do cuidado. Isso significa que ele “[...] é sujeito ativo que opera com seus saberes, é desejante, tem projetos, expectativas e atua no mundo do trabalho e cuidado com suas caixas de ferramenta adquiridas na formação, e sobretudo na experimentação do mundo do trabalho e da vida [...] (FRANCO, 2013, p. 250).

Desse modo, se constitui o desafio da gestão do trabalho em saúde: permitir aos trabalhadores ocupar o lugar de protagonistas no desenvolvimento de suas atividades profissionais. Pode-se, neste sentido, proporcionar a estes sujeitos uma alta potência para agir nas relações de cuidado em saúde (FRANCO, 2013).

É possível na gestão do trabalho em saúde manter o trabalhador com alta potência para agir no mundo do cuidado, que é também um mundo social e afetivo, é possibilitar que o trabalho produza no outro, os que com ele se relacionam, alta potência vital, formando assim uma cadeia de intensidades que em fluxo age com linhas de força na produção ilimitada das subjetividades (FRANCO, 2013, p. 250).

Assim se faz essencial a integração do trabalhador nas discussões sobre a elaboração das políticas de gestão do trabalho de modo que se reconheça o seu protagonismo e saber neste contexto. Desse modo se constrói possibilidades de criação e invenção para produzir bons encontros no trabalho em saúde, tanto com as equipes e a gestão, quanto com os usuários.