4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.2 S AÚDE M ENTAL E T RABALHO NO SUS: A RTICULAÇÕES EM R EDE
4.2.1 Compreensões em Saúde Mental: o Lugar do Trabalho
Para poder intervir no campo da Saúde Mental e Trabalho é necessário, antes, conhecer qual é o entendimento das profissionais de saúde a sobre o tema da saúde mental. As compreensões de saúde mental podem ser diversas e ligadas a diferentes áreas do campo humano. Como já dito anteriormente, saúde mental ainda é vista por muitos como sinônimo de doença mental. Além disso, a articulação entre saúde mental e trabalho, representa ainda um “nó” nas práticas de saúde do SUS, conforme evidenciado abaixo.
[...] a saúde mental é um nó na rede pública é sempre um problema né [...] (Entrevista Individual).
Eu acho que na saúde mental sim tá, a tendência é de cada vez mais das equipes assumirem, mas quando é para fazer a relação de saúde mental e trabalho aí morre, sabe. [...] Acho que têm um medo de se incomodar em geral, porque bom, vai tem uma empresa que vai tá envolvida e daí não tem nada palpável assim (Entrevista Individual).
[...] essa compreensão de sofrimento mental e trabalho não existe né. Poucas pessoas e aí tu vai pinçar, isso são momentos pontuais e mais na atualidade que a gente vai conseguir entender um pouco mais as questões do sofrimento mental no trabalho (Entrevista Individual).
[...] Eu não tenho essa prática assim direta né, de trabalhador vir nos buscar em função disso, né. [...] mas eu acho que é um... acho que é uma área que a gente não... que a gente tateia, sabe a gente desconhece, a gente não estuda a gente não vê, a gente tateia (Entrevista Individual).
As falas acima demonstram claramente que, na visão de muitas profissionais da saúde, há uma cisão entre ser trabalhador e ser usuário de saúde mental. É como se não fosse possível um trabalhador ser visto como usuário e vice-versa. Algumas entrevistadas tinham dificuldades em manifestar uma compreensão de que o usuário do SUS também é trabalhador. Muitas vezes quando se questionava sobre a relação entre saúde mental e trabalho dos sujeitos atendidos, a impressão é que havia uma cisão entre “quem trabalha e quem é usuário”.
[Sobre os atendimento de usuários com sofrimento mental no CAPS] Porque, assim, no CAPS II... A gente não atende, tu diz em termos de funcionários? De colegas? [...] Não. A grande maioria [dos usuários] já estava, tipo, dispensado, não tava atuando né. Alguns já viam há muito tempo né, nem chegaram a trabalhar, faziam algum curso. Eu não me lembro especificamente assim de alguém que tenha adoecido pela questão do trabalho (Entrevista Individual).
Olha, acho que tá indo de mal a pior assim né, a gente percebe, muitas vezes as queixas dos colegas assim, quando a gente fala em saúde mental e trabalho muitas vezes as pessoas tem dificuldade em enxergar o trabalhador, mas eles se enxergam,
enquanto trabalhador... [...] Então tanto questão, acho que falava-se a questão do SUS, o quanto a própria mídia muitas vezes massacra enfim os profissionais que tão lá e que enfim... [...] Culpabiliza pelo não funcionamento enfim, ou algumas situações que né acabam... as desgraças né, enfim, as pessoas usam muito isso assim, principalmente a mídia assim né (Entrevista Individual).
Tal percepção é ressaltada nas entrevistas, demonstrando o pensamento das entrevistadas em relação a dificuldade de perceber no usuário um trabalhador. Em alguns momentos as participantes afirmaram, criticamente, que a equipe e demais colegas tem esse modo de ver o usuário-trabalhador, sendo uma visão bastante comum nos serviços.
[...] eu me lembro que tinha uma paciente lá na residência que ela contou, ela tava sofrendo assédio moral né, claro que a gente não sabia disso na época, mas ela contou que o chefe dela tinha um quadro atrás dele escrito “O poder sem abuso perde o encanto”, o chefe dela. Ela era funcionária de uma empresa de aviação, eu não me lembro qual né porque isso tem muitos anos. Mas assim eu me lembro assim que eu escrevi, eu fiquei tão chocada quando ela colocou isso sabe e aí assim e o que que aconteceu, eu fui fazer a discussão do caso e se focou na lesão por esforço repetitivo que ela tinha e não conseguiu se compreender aquele sofrimento como um todo né, a gente fragmentou o sofrimento dela e respondeu de uma forma muito incompleta o que ela tava trazendo ali. [...] No geral me deparei com essas situações, muitas vezes sem ter como fazer uma intervenção adequada (Entrevista Individual). Primeiro, as pessoas não têm um entendimento, de modo geral, do quanto o trabalho pode ser tanto assim, fator de saúde, quanto fator de doença. [...] Quem conhece, é a assistente social que domina o que tem que ser feito. [...] Médico do trabalho eu nunca tive, nunca trabalhei junto com médico do trabalho. Mas entre psicóloga, com certeza o assistente social domina mais (Entrevista Individual).
Inúmeras vezes foi relatado nas entrevistas que, quando há uma pessoa na equipe que possui formação, interesse ou uma escuta sensível para com as demandas do sofrimento no trabalho do usuário, a discussão de caso é desvirtuada, seja para aspectos físico-orgânicos, seja para aspectos ligados exclusivamente a história pessoal do sujeito. Nessa ênfase direcionada a uma demanda pessoal é incluída também os conflitos familiares, ou seja, tudo aquilo que diz respeito à vida privada, excluindo o âmbito social vivenciado pelo sujeito.
[...] ele me apresentava muito a questão do trabalho né, quando eu falava com ele e eu disse “olha gente eu acho que esse caso ele tá relacionado ao trabalho né, é um sofrimento relacionado ao trabalho porque ele relata que ele era chapeiro e depois ele foi para as fábricas de calçados e ele tinha um trabalho extremamente repetitivo né”, que aquilo gerava uma série de sofrimentos depois do trabalho né, depois que ele saía, mas isso não foi identificado daí como sofrimento [do trabalho]... (Entrevista Coletiva).
Eu lembrei agora de um caso que eu atendi, não era nem no CAPS, foi na clínica escola da psicologia e o sujeito teve uma crise de pânico assim e foi no ambiente de trabalho e ele justificou a causa, colocou como causa daquilo a pressão que ele sofria no trabalho né, relatou caso de racismo, de pressão, de assédio moral e tal, e naquele serviço quando eu expus isso, só olhava para o pânico não olhava tipo, tinha outras
coisas em relação ao trabalho daquela pessoa, tratava a síndrome de pânico, aí regredi lá pra história do cara e tal de onde vinha, mais olhar para o trabalho causando isso né e o cara continuou trabalhando, depois ele saiu né desse emprego e saiu com muita dor, porque daí ele não tinha mais como, não tinha meio de subsistência mais (Entrevista Coletiva).
Até mesmo nas vagas de inclusão isso acontecia, pessoas que a empresa se utilizava desses diagnósticos mas no momento de adoecimento... e a equipe também tinha um desconhecimento por parte dessa legislação, por parte do direito dessas pessoas, das questões de carga horária reduzida, enfim acho que tem um grande distanciamento assim dos trabalhadores de saúde mental em relação ao trabalho assim, a reconhecer o trabalho como um lugar adoecedor, ou como um espaço que pode ser muito contraditório para a pessoa e também conhecer as legislações assim, isso é uma coisa que me chamou a atenção, são direitos do trabalhador (Entrevista Individual).
O fato de associar exclusivamente a história pessoal ao momento de vida e ao sofrimento dos trabalhadores está enraizado nas práticas “psis”. Tanto a psicologia quanto a psiquiatria tradicional têm como prática a análise voltada para o sujeito, deixando de lado toda a influência social e coletiva que pode estar associada a produção de sintomas. No âmbito do social encontram-se o trabalho e suas interações, mas que, em função dessa tradição, acaba sendo deixado de lado. “A herança genética, os aspectos orgânicos e/ou a história familiar e afetiva dos indivíduos geralmente foram vistos como as principais referências explicativas para problemas nesse campo.” (BORSOI, 2007, p. 103).
Muitas vezes quando a gente fala assim de sofrimento psíquico se tem alguma relação com o trabalho, as pessoas dizem “ah mas enfim”, rementem as questões da história de vida, das relações familiares né, o que não dá para se desconsiderar né, mas muitas vezes a gente percebe também, o que que acontece é muitas vezes o próprio o trabalho faz com que as relações familiares né fiquem complicadas, enfim que as pessoas se afastem, não estejam bem né, então acho que a gente tem que avançar muito nisso assim (Entrevista Individual).
E eu já vi assim ó, algo que eu também achei grave, é que foi de trabalhar essas questões como questões intrapsíquicas, como conflitos, que tu tá, que o teu chefe é o pai... essas coisas assim que pra mim são inadmissíveis assim quando tu vê uma situação de exploração no trabalho, de relações realmente assim muito adoecedoras assim... E eu, eu me lembro de ter ouvido isso assim e de ter dito assim “não, não é isso, é uma outra coisa, é real”, e aí “não é intrapsíquico”, “não, não é isso, é real”. [...] isso foi acho que bem dos psis assim, dos psicólogos com uma formação mais restrita assim... [...] Ou até vê o contexto social mas vê um como agravante do problema que ela já tem ou como, ahm... ou como eu disse agravante, disparador ou como algo que vai ajudar ela a lidar com isso, que é dela... né, numa suposta reabilitação, numa ideia de reabilitação pelo contexto assim, “eles vão dar conta disso...” (Entrevista Individual)
As clínicas do trabalho não negam a dimensão individual como influência do sujeito se constituir. Muito pelo contrário, elas afirmam a constituição do sujeito no “entre” singular, individual e o coletivo, social. Para Bendassolli e Soboll (2011, p. 3), “a associação entre
‘clínica’ e ‘trabalho’ depende [...] de uma reconhecida articulação do mundo psíquico com o mundo social”.
Assim o que se sugere não é que as questões individuais sejam desconsideradas, mas que o contexto social, e aí está incluído o trabalho, também seja reconhecido e considerado no acolhimento junto ao SUS. Sabe-se que as demandas pessoais e subjetivas afetam em grande escala o modo de ser e agir dos indivíduos, no entanto, o meio que este está inserido também possui este potencial.
Olha, já me deparei, já me deparei, sabe? Só que a gente pega uns casos tão cabeludos que já é uma mistura de tudo depois, né? Eu tive alguns relatos assim de pessoas que abandonaram e coisa, e ahm, mas que já tinham alcoolismo associado, né? Esses casos eu peguei, com alcoolismo e gente bem precarizada, né? Me lembro um que tinha também a coisa da acumulação junto, né? Então já peguei, assim (Entrevista Individual).
[...] mais importante assim de doença mesmo, burnout, um negócio assim, né, ou acidente de trabalho, esses, esses assim eu não tô me lembrando, no momento. Me lembrei de um outro caso, que daí, só que aí é uma... não era, na verdade era uma mistura de outras coisas porque, era um frentista que levou um tiro, tipo assalto. (Entrevista Individual).
Tem uma paciente que a gente atende aqui, que [...] teve uma história assim de ser uma pessoa que era cuidadora, numa casa, e fazia... trabalhava, a vida era trabalho. Ela tinha filhos que até ela não cuidava, porque ela morava no trabalho. [...] Isso é uma situação que tem que ver, assim, de... Vamos dizer, de crianças e jovens que se sentem meio abandonados pela família. Bom, não tem dinheiro, então tem que trabalhar. Aí vai ser empregada doméstica e aí fica aquela relação meio dúbia. “Ah, tá criando, adotando”. Mas aí tu vê, passa fome. Acho que uma vez, uma história assim que é uma coisa meio singela, mas é triste, assim, porque ela apanhou. A patroa dela xingou porque ela tinha pegado uma banana. Ela tava com fome e, mesmo assim, não tinha nem liberdade... Então agora, o que isso produz no sujeito assim de desvalorização, sabe? Até a gente tava falando no tratamento que ela tinha direito de lutar pelos direitos, vamos dizer assim, que ela podia se permitir. Que ela tava vendo uma série de coisas de FGTS e de tudo, mas assim tipo, “Bom, eu nasci, tipo assim, para ser escrava, para servir aos outros”. Isso, às vezes, também vai... É, isso vai repercutindo na pessoa coisas bem complicadas, até que em um momento estoura (Entrevista Coletiva).
Assim, desconsiderando a centralidade do trabalho para a vida do usuário, o trabalho entra como mais um fator que pode desencadear uma desorganização psíquica, mas, nas palavras de algumas entrevistadas, em sujeitos que já apresentam uma história prévia. Algumas das entrevistadas, principalmente aquelas vinculadas a serviços de saúde mental demonstram que os usuários desses espaços têm uma “estrutura frágil” e por isso podem não suportar uma vivência difícil no trabalho, assim como na família e na vida pessoal como um
todo. Não se leva em consideração que o trabalho em si, possa desencadear essa “fragilidade”, possa ser o motivo para uma desestabilização psíquica.
[...] só queria falar que o que acontece muitas vezes, como já tem essa, digamos, essa nossa clientela, esse nosso perfil. É um CAPS que atende psicóticos ou sujeitos com doenças mentais graves, mais graves, neurose grave... Enfim todo tipo de patologia que a gente chama de disruptiva assim, que por algum motivo interrompeu na sua vida o curso [...] E o trabalho, claro, muitas vezes entra nisso, como as gurias disseram, não como um fator desencadeante, mas, muitas vezes um sujeito com uma estrutura mais frágil, mais fragilizada, especialmente em termos de psicose ou esquizofrenia, frente a uma demanda de rendimento, de posição, enfim, de responder desde algum lugar, mais de uma resposta social, uma exigência, digamos assim, isso seria um disparador, poderia ser um disparador de uma crise, né. [...] pode vir a trazer uma crise de ruptura em função do trabalho mesmo, dessa exigência do trabalho, mas que tem a romper mesmo com algum limite que já é relativamente frágil né. Não que o trabalho em si não poderia provocar isso, mas no nosso caso, como a gente já tem este tipo de... É muito frequente acontecer... Assim como outras questões sociais, sei lá, um casamento, uma separação, uma morte, pode trazer também a crise, o trabalho entra as vezes como essa categoria de limite né (Entrevista Coletiva).
É. Pode ter acontecido um agravamento. Um sofrimento de uma situação de conflito que tenha desencadeado uma crise né. Porque, para nós, os pacientes que chegam têm o transtorno mental grave. Geralmente, já tem uma história que, muitas vezes, pode agravar no ambiente de trabalho, né? Aconteceu, a pouco tempo, de um paciente que apedrejou, inclusive, a empresa. Mas ele já tinha problemas e aquela situação de trabalho foi mais um conflito (Entrevista Coletiva).
Em outros casos aparece o preconceito das próprias equipes, em que estas afirmam que algumas pessoas, geralmente ligadas a uma classe social empobrecida deviam se contentar com qualquer trabalho, independentemente do quão explorador ele fosse. Aí se localiza também a ideia, mesmo inconsciente, de que quem não quer trabalhar ou não consegue trabalhar não é considerada uma pessoa digna.
Agora eu lembrei de outro caso que eu atendi de um menino que era super jovem e ele teve a primeira experiência de trabalho dele e era um trabalho horrível, horrível e ele podia ter outras experiências, mas ele tinha todo, questões dele também que atravessavam, e também muito, uma fala assim dele, e eu discuti com a minha supervisora enfim, com outras pessoas da equipe o caso dele até por essa dúvida assim, como abordar isso do trabalho com ele que é um trabalho que tá sendo tão ruim, tão desgastante. [...] e eu levava isso para discutir com a equipe e a equipe “não mas... é a primeira experiência de trabalho como é que ele já vai sair, ele tá há pouco tempo”, “Tá mas esse pouco tempo já tá servindo, ele já tá servindo para ele adoecer. [...] E a equipe ainda com uma compreensão de que qualquer trabalho era melhor que não ter trabalho assim, o que me incomodou bastante isso na época, eu me lembro disso assim (Entrevista Individual).
Desse modo, nota-se uma dificuldade em reconhecer o sofrimento no trabalho como algo legítimo, passível de adoecer e incapacitar o sujeito, mesmo que temporariamente para desenvolver suas atividades cotidianas, como trabalhar, dentre outras. Pode-se afirmar, assim
que há um entendimento superficial da problemática, fazendo com que muitas profissionais da saúde duvidem do relato dos usuários e de suas queixas.
É que assim, eu acho que se o usuário pelas questões que eu vejo na prática, se o usuário banca isso, “ah isso é do meu trabalho, não sei o que” ele repete várias vezes, acho que ele é até visto em alguma medida essa situação, mas não parte dos trabalhadores de saúde a investigação sobre isso (Entrevista Individual).
[...] acho que a gente precisa avançar também nisso, as pessoas que estão na política de saúde mental né fazer essa conexão de que os transtornos enfim, os transtornos mais graves também acabam interferindo, podem aparecer, ou até mesmo se agravar por situações de trabalho, então acho que isso é um desafio também para nossa região e para mim enquanto profissional de poder sensibilizar os colegas também para fazer essa relação né de que o trabalho não é só... que a questão do trabalho não tem que aparecer só quando, as pessoas... porque muitas vezes quando a gente fala assim de saúde mental e trabalho, as pessoas pensam assim de bom, um transtorno que incapacita para o trabalho... [...] é um causador... (Entrevista Individual).
É essencial que os profissionais da saúde tenham clareza sobre os impactos do trabalho na vida dos trabalhadores, para que seja possível estabelecer o nexo causal. No entanto, isso nem sempre acontece, dependendo do usuário enfatizar isso nos atendimentos e assim, quem sabe, seja possível o seu reconhecimento e notificação.
A inserção da psicologia no campo da Saúde do Trabalhador lhe abre um conjunto variado de possibilidades de atuação, entre essas, o estabelecimento do nexo causal entre o trabalho e o adoecimento mental. O reconhecimento deste vínculo permeia os diferentes campos de atuação da psicologia e implica uma compreensão do humano que dá conta de suas várias dimensões (JACQUES, 2007, p. 115).
Esse entendimento nem sempre é claro para o usuário, já que muitas vezes ele é levado aos serviços de saúde pelos seus sintomas e não por aquilo que os está causando. Assim, torna-se dever do profissional de saúde a iniciativa de fazer o nexo e não responsabilizar o usuário por esclarecer ou não a origem do seu sofrimento.
Em muitos casos atendidos, a compreensão que se tem é que o fato do sujeito sofrer no trabalho é quase uma escolha, não levando em conta a situação social e econômica do usuário-trabalhador. Oferece-se explicações ligadas a questões individuais que não abarcam a complexidade do mundo do trabalho e as relações de captura que se estabelece.
Ela trabalhava numa clínica, ou alguma coisa assim, odontológica. Só que tinha toda uma relação de exploração com o patrão. Mas, aí também... Isso é outra coisa de se pensar. Por outro lado, porque alguém fica num lugar que tá sendo maltratado, que o chefe é ruim. Porque a pessoa se submete a isso e, ao mesmo tempo, não tem recurso de sair? Porque sair de lá é mais saudável, aí fica meio... Ao mesmo tempo, que tu tem alguém que tá, precisa de dinheiro, precisa sobreviver. Mas é só isso?
Entende? Porque que a pessoa não tem recurso pra... Então tem as vezes alguma coisa dela já lá... Bom, que raio de relação de tortura que se estabelece com o chefe, assim? Pode ficar, assim, se perguntando assim. É bem complicado, às vezes, uma dívida, uma coisa... (Entrevista Coletiva)
Pode ser uma questão de sorte. Um trabalho protetivo, vamos dizer assim. Seria um fator de saúde. Mas aí também entra, às vezes o quanto o masoquismo e elas buscam lugares difíceis, né? Daí é complicado (Entrevista Coletiva).
E alguns trabalhos, que também né, fazendo o inverso, escolher alguns trabalhos que também se tornam, digamos assim, escolher uma palavra, se tornam campos férteis de vez em quando para que algumas coisas se tornam [...] por exemplo, outra coisa que acontece e aparece bastante para a gente é, por exemplo, é, como eu tava dizendo, psicóticos e pessoas com quadros mais graves, tem muitos sujeitos que tem, senão uma estrutura, mas um pensamento ou um discurso paranóico, de muita