Suponhamos acreditar em parte do que nos é contado. Alguns céticos não aceitarão isso e chamarão a atenção para a incerteza de todo conhecimento sobre a sociedade, lembrando-nos de que todas as afirmações que pretendem comunicar tal conhecimento repousam numa base de “fatos” escolhidos e interpretados de forma que distorcem os resultados tão irremediavelmente que não podemos acreditar em nada. Nesse caso, nada há sobre o que falar e podemos cancelar o resto.
As pessoas que falam assim não querem realmente dizer que não acreditam em representação da realidade social alguma. Acreditam, por exemplo, no catálogo telefônico, que se apresenta como uma listagem mais ou menos precisa de quem está do outro lado quando discamos um número? Os céticos poderiam apontar os inevitáveis erros cometidos pelos digitadores da informação original, ou os erros que surgem em decorrência de mudanças ocorridas entre o momento em que a informação é colhida e impressa e aquele em que consultamos a lista e a recusa de algumas pessoas a serem listadas, ou listadas sob seu verdadeiro nome. Mas esses céticos provavelmente, como o resto de nós, usa essa lista e seus números, na falta de coisa melhor. Os dados não são precisos, mas são “bons o suficiente” para a finalidade para a qual os usaremos, que é telefonar para alguém.
A mesma coisa aplica-se provavelmente a um mapa das ruas de uma cidade, que pretende nos dizer como ir daqui até ali usando ruas de superfície com nomes e números. Com todas as suas imprecisões e omissões, é bom o suficiente para satisfazer as finalidades da maioria das pessoas. Quando um motorista de táxi acende a luz do teto do carro e consulta um mapa de ruas à procura de um endereço, este provavelmente está lá, e a maneira de chegar a ele sem dúvida é mais ou menos clara. Se
queremos ir de carro de Seattle a São Francisco, e depois para um endereço particular nesta cidade, alguns mapas estaduais e um mapa urbano nos mostrarão o caminho. Os mapas não mostrarão onde estão os morros numa cidade (embora indiquem a altura de várias montanhas e passagens em montanhas atravessadas pela rodovia), mas me levarão aonde quero ir. “Bom o suficiente”, conhecimento satisfatório para o que quero fazer com ele.
E quanto ao censo dos Estados Unidos? Isso é mais complicado, porque muitas pessoas usam o censo para inúmeras finalidades, e embora ele seja bom o bastante para algumas pessoas e algumas finalidades, não é bom o suficiente para outras. Não foi bom o suficiente para várias finalidades quando a enumeração de 1960 errou gravemente na contagem de homens negros jovens, subestimando-os em até 20%. Essa contagem errada não foi boa o suficiente para a distribuição de assentos no Congresso e de votos eleitorais. Não foi boa o suficiente para o cálculo de taxas de crimes, porque a redução errônea do denominador de uma fração como a taxa de crimes infla a taxa acima de seu valor real. Se não contamos todas as pessoas numa categoria particular da população, tal como “jovem, negro e homem”, mas contamos todos os criminosos que recaem nessa categoria, a proporção resultante será maior do que se tivéssemos uma contagem precisa do denominador. Essa contagem errada teve consequências políticas, além de prejudicar o pensamento e a pesquisa nas ciências sociais com dados defeituosos.
Esses achados errôneos podem outrora ter sido bons o suficiente, pelo menos para quem estava em condições de fazer esse julgamento de uma maneira efetiva. Mas agora novas pessoas começaram a fazer suas próprias estimativas, e os dados não são bons o bastante para elas. A aceitação de um número que afeta a representação congressional porque “é bom o suficiente” tem um componente político.
Isso não quer dizer que a ciência seja “inteiramente política” ou que todas as questões epistemológicas possam ser resolvidas por meios políticos. Significa que quando consideramos uma operação tão científica
quanto o censo, parte do que foi feito não tem qualquer garantia “científica”, repousando num acordo entre partes interessadas para tratar algo como bom o suficiente para alguma finalidade, apesar das falhas. Os usuários aceitam a descrição resultante não porque ela tenha uma base epistemológica inquestionável, mas porque é melhor que nada para algo que querem fazer.
Assim, todos nós acreditamos em algumas dessas representações durante todo o tempo ou na maior parte dele, e alguns de nós acreditamos em uma parcela do que nos é dito em uma parte do tempo. Ninguém descrê em tudo o tempo todo. Mesmo com todas essas dificuldades, os usuários tratam as representações como “essencialmente corretas”, que é a maneira como os médicos falam sobre os achados de laboratório que, como eles sabem perfeitamente bem, envolvem muitos erros, mas são “bons o suficiente” para os objetivos em que serão empregados.
Mas as comunidades de usuários formulam diferentes perguntas e utilizam as respostas para diferentes fins, e o que é bom o suficiente para um não o será para outro. Meu mapa não precisa ser extremamente preciso, porque lanço mão dele apenas para chegar à casa de meu amigo. Se o estivesse usando para decidir uma disputa sobre propriedades, precisaria de outro tipo de conhecimento geográfico expresso de maneira diversa. Os dois usos e os dois pares pergunta-resposta não competem entre si para ver qual é o mais preciso ou o “melhor”; são animais diferentes num ambiente diverso.
Como juízo epistemológico, “bom o suficiente” não tem qualquer justificação filosófica. É um acordo social baseado em outro tipo de justificação. Isso não torna, porém, todo conhecimento completamente relativo. Depois que fazem esse acordo, os usuários podem chegar e chegam a conclusões confiáveis seguindo as regras acordadas de evidência.