• Nenhum resultado encontrado

Os cientistas sociais conhecem tipos ideais na versão proposta por Max Weber, que deu, como exemplo, a ideia que os economistas têm de um mercado e a economia de trocas a ele associada.8

Esse padrão conceitual reúne certas relações e eventos da vida histórica num complexo que é concebido como um sistema internamente coerente. Substantivamente, esse constructo em si mesmo é como uma utopia a que se chegou pela acentuação analítica de certos elementos da realidade. Sua relação com os dados empíricos consiste unicamente no fato de que onde se suspeita que existam na realidade, ou onde se descobrem, relações condicionadas pelo mercado, do tipo a que se refere o constructo abstrato, podemos tornar os traços característicos dessa relação pragmaticamente claros e compreensíveis por referência a um tipo ideal. Esse procedimento pode ser indispensável para fins heurísticos, bem como expositivos. O conceito típico ideal ajudará a desenvolver nossa habilidade em imputação em pesquisa: ele não é nenhuma “hipótese”, mas oferece orientação para a construção de hipóteses. Não é nenhuma descrição da realidade, mas visa a dar meios inequívocos de expressão dessa descrição. ... É uma utopia. A pesquisa histórica enfrenta a tarefa de determinar, em cada caso, a

extensão em que esse constructo ideal se aproxima da realidade ou diverge dela.

Fazemos um tipo ideal por abstração a partir da confusão da realidade, como Weber sugere com a ideia de “artesanato”:

Podemos introduzir a “ideia” de “artesanato” numa utopia [por “utopia” ele entende uma versão idealizada] arranjando certos traços centrais, realmente encontrados num estado obscuro, confuso, nos empreendimentos industriais das mais diversas épocas e países, num constructo ideal coerente por uma acentuação de suas tendências essenciais. ... Podemos ademais delinear uma sociedade em que todos os ramos da atividade econômica e mesmo intelectual são governados por máximas que parecem ser aplicações do mesmo princípio que caracteriza o “sistema artesanal” ideal-típico.

Weber usa frequentemente esse procedimento. Descreveu vários tipos de autoridade — carismática, tradicional, legal-racional — em termos ideal-típicos. Em seus estudos das religiões do mundo ele não esperava, e nós não esperamos quando fazemos nossa própria pesquisa em outras áreas da vida social, encontrar nenhum caso puro desses tipos de liderança. Os tipos nos dizem como as coisas seriam se as pessoas realmente seguissem um líder por julgarem-no dotado de dons especiais, ou porque era assim que sempre haviam procedido, ou porque essa pessoa era aquela a quem as regras lhes ordenavam obedecer. Mas não existe qualquer sociedade ou organização — nem deveríamos esperar isso — em que as pessoas ajam puramente em uma ou outra dessas bases. Weber descreveu a burocracia como ela seria se uma organização tivesse realmente todas as características que atribuiu ao tipo puro: atividades administrativas governadas por regras, trabalho feito por profissionais de tempo integral organizados numa hierarquia cuja carreira consistia em fazer esse trabalho, trabalhadores que não possuíam os meios de administração, com uma renda de salários, não de participação nos lucros ou bônus, e assim por diante. Mas não esperava encontrar nenhuma organização no mundo real com todas essas características.9

que é decisivo no caso que estão estudando, excluindo o historicamente contingente e acidental, tudo que não é necessário à ideia cuja essência querem expor. Isso lhes dá, como resultado, conceitos e ideias operacionais que, embora logicamente compatíveis e coerentes, têm suficiente relação com o que é observável para serem úteis no trato com materiais empíricos. Talvez o governo municipal que estou estudando não tenha todas as características de uma burocracia ideal, mas posso identificar um número suficiente delas para me dar pistas sobre o que examinar em seguida, que tipos de investigações poderiam levar a descobertas adicionais e assim por diante: um tipo de experimento mental, em que perguntamos a nós mesmos que aconteceria se certas tendências especificadas no tipo ideal operassem sem restrição. Isso nos permite ver traços daquelas possibilidades no que realmente acontece quando essas tendências operam apenas parcialmente, porque alguma outra coisa na organização refreava sua plena expressão.

O tipo ideal nunca é “verdadeiro”; a verdade não é uma questão relevante a se levantar acerca de um deles. Quando esses tipos fazem o que queremos que façam, mostram-nos interconexões entre os elementos, deixam-nos ver coisas influenciarem-se umas às outras no caso puro, permitindo-nos detectar sua operação nas condições menos puras do mundo real. Weber disse: “Há somente um critério, a saber, o do sucesso em revelar fenômenos culturais concretos em sua interdependência, suas condições causais e sua importância.” É como a história de Antin, em que o que poderia ter acontecido, se aquelas coisas tivessem ocorrido daquela maneira, pode nos levar a uma compreensão do que aconteceu em alguma situação que tentamos compreender. Não é verdadeiro, mas é “útil”, um critério muito diferente. Um tipo útil nos alerta para coisas presentes nos casos reais que estudamos, assim como a tipologia da autoridade de Weber nos ajudou a detectar diferentes modos de organizar a ação coletiva em grupos religiosos.

Dizer que um tipo ideal retrata como as coisas seriam se fossem daquela maneira significa que o produtor de uma representação como esta

especifica um conjunto de condições e processos a partir dos quais podemos descobrir o que acontecerá em seguida. No caso mais puro de um tipo ideal — um modelo matemático —, chamaríamos isso de estado inicial e regras de transição, e identificaríamos o que ocorre em seguida como os estados sucessivos de um sistema.

Modelos matemáticos

As histórias de Antin exemplificam as interconexões de elementos numa sociedade. Weber criou tipos ideais de organizações em palavras. Ambas as coisas tornam a sociedade menos realista e mais compreensível.

A versão mais pura dessas operações idealizadoras é o modelo matemático, que dá valores matemáticos numéricos ou abstratos aos elementos que contém. Modelos especificam uma população de elementos, os tipos de estados em que cada elemento pode estar, as operações que podem ser feitas com esses elementos. Membros de uma subclasse de modelos importantes para a sociologia listam a distribuição inicial de elementos entre estados possíveis, delineiam regras de transição que dizem como elementos podem mudar entre estados sucessivos do sistema completo e qual será a distribuição resultante dos elementos entre estados. Embora menos detalhados que um tipo ideal, eles produzem resultados correspondentemente mais claros.

John G. Kemeny, J. Laurie Snell e Gerald L. Thompson esboçam um modelo simples e produtivo: “Em algumas sociedades primitivas há regras rígidas que estabelecem quando os casamentos são permissíveis. Essas regras são destinadas a impedir que parentes muito próximos se casem.”10 As regras especificam quem pertence a um tipo de casamento

(pense nisso como um clã), que membros de que tipos de casamento têm permissão para se casar, a que tipo os filhos de tal união pertencem, e assim por diante. “É possível dar a essas regras uma formulação matemática precisa em termos de matrizes de permutação.”11

Eles definem uma matriz de permutação (pense nisso como uma tabela, com linhas e colunas) como “uma matriz quadrada [como uma tabela] tendo exatamente 1 em cada fileira e cada coluna, e 0 em todas as outras entradas [daquela linha ou coluna]”.12 Se você rotular as linhas e

colunas com os nomes dos clãs em que tal sociedade é dividida, os 1 e 0 representam os casamentos permitidos ou proibidos. A matemática dessas matrizes nos diz como efetuar adição, multiplicação e outras operações matemáticas, e os resultados dessas operações nos dizem a composição da geração seguinte.

Evidentemente, não muitas sociedades têm regras de casamento tão rígidas e complexas, e aquelas que as têm só obedecem “mais ou menos” a elas, de modo que a utilidade de tal esquema para o estudo de uma sociedade real é limitada. Como modelo, porém, tem muita utilidade, porque nos diz que tipos de sistemas são possíveis e nos dá uma maneira de identificar como e quando as regras são violadas, e muitas outras coisas de interesse para estudiosos do parentesco.

Harrison White estudou os complexos sistemas de parentesco dos povos indígenas da Austrália, bem como os sistemas de um grupo que vivia na fronteira da Indochina com Burma, para demonstrar as possibilidades da modelagem.13 Ele conclui que:

Casamento prescritivo inequívoco [do modelo delineado pelo tipo de regras mencionado acima] é um caso-limite, um tipo ideal. Não deveríamos perguntar se uma tribo tem um sistema de casamento prescritivo em contraposição a um preferencial, mas sim em que medida a tribo se conforma a um tipo ideal ou a alguma mistura de tipos ideais de sistemas de casamento prescritos, seja como uma unidade isolada, seja como parte de uma rede interativa de tribos. Resta a difícil tarefa de desenvolver uma estrutura de análise dentro da qual possamos definir de maneira significativa e com precisão a extensão da conformidade. ... Consegui apenas deduzir os tipos ideais.14

Podemos construir, por exemplo, um modelo matemático que faria esse tipo de análise de repertórios sinfônicos; este é meu próprio exemplo inventado da análise que William McPhee fez da classe geral de

fenômenos sociais que ele identifica como “sobrevivência de itens na cultura”:

Reunamos o que todas as orquestras sinfônicas nos Estados Unidos tocam num dado ano, e classifiquemos essas obras, digamos, pela nacionalidade do compositor (não precisa ser isso, poderia ser o ano da composição, o aniversário do compositor, a duração da obra ou até o tom). Descobrimos que X% das obras foram escritas por compositores alemães e Y% por compositores franceses etc. (Haverá ambiguidades e casos embaraçosos, compositores com dupla nacionalidade, por exemplo, como haveria para qualquer critério, e esses terão de ser resolvidos por definições um tanto arbitrárias, que, talvez surpreendentemente, não afetarão a utilidade do modelo.)

Suponhamos, além disso, que o repertório, ainda definido como tudo o que as orquestras tocam num ano, muda 2% anualmente. Cada ano, 2% das obras tocadas no ano anterior são abandonadas e 2% são acrescentadas. Suponhamos ademais que as obras adicionadas diferem em composição étnica, de alguma maneira especificada, da atual composição do repertório. Enquanto o repertório atual tem 30% de obras de compositores alemães e 10% de compositores franceses, entre as obras acrescentadas este ano 25% são de compositores alemães e 15% de compositores franceses. E suponhamos ainda que, como o repertório muda a cada ano, a nova proporção persista por dez anos. Qual será então a proveniência étnica do repertório?

Se este parece um exemplo frívolo, considere que o problema assim formulado é idêntico ao de saber quanto tempo se levaria para chegar a certa percentagem de mulheres com o posto de coronel na Força Aérea dos Estados Unidos, dado que a atual proporção de mulheres é X% e a taxa de substituição é Z% ao ano. O que quer que tenhamos descoberto sobre o modo como proporções de compositores de diferentes nacionalidades mudam ano a ano, isso será, em geral, verdadeiro para qualquer situação na qual um número fixo de elementos de vários tipos diferentes é substituído em taxas conhecidas a intervalos regulares.15

Assim como no caso dos tipos ideais de autoridade de Weber, é irrelevante queixar-se de que não é esse o processo pelo qual o repertório sinfônico muda. Não é isso que a análise nos diz. Ela nos diz simplesmente o que seria verdade se ela mudasse desse modo.

No documento Falando Da Sociedade - Howard S. Becker (páginas 195-200)