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Cicilia M.Krohling Peruzzo

No documento PORTCOM (páginas 47-79)

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As ideias expressas neste texto foram originalmente apresentadas em palestra proferida no II Colóquio Latino Americano de Ciências da Comunicação, promovido pela Intercom e realizado na Universidade Positivo, nos dias 4 e 5 de setembro de 2017, em Curitiba-PR, cujo tema central foi “Novos cenários mediáticos – olhares (críticos) sobre a pesquisa latino-americana em Comunicação”.

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Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo-SP. 3

fica entre as tentativas de conceituação e as críticas pela falta de autonomia objetual, e, consequentemente, teórica. Apesar da importância desses estudos, não entramos na discussão dessas problemáticas. O objetivo deste texto é resgatar as percepções históricas das noções sobre pensamento latino-americano de comunicação, situar aspectos constitutivos do campo da Comunicação nesse continente e discutir as “aéreas” ou linhas de abordagens teóricas que têm sido consideradas portadoras de singularidades da pesquisa na região. O texto baseia-se em pesquisa bibliográfica.

Olhar ad-intra (de dentro) - o que vemos e como nos vemos em matéria de pesquisa latino-americana em Comunicação

Esse olhar pode ser enfocado a partir de diferentes ângulos como sobre a existência de um campo científico, sua essência epistemológica, a diversidade temática, perspectivas metodológicas e/ou aprofundar algum recorte emblemático, como por exemplo, a polêmica “Escola Latino-Americana de Comunicação (ELACOM)” ou sobre os principais conceitos que diferenciam a pesquisa de recepção ou sobre a comunicação para a cidadania na América Latina, entre tantos outros objetos possíveis. Optamos por enfatizar aspectos gerais no intuito de situar breves aportes historiográficos e algumas perspectivas conceituais que marcam alguma distinção às pesquisas em Comunicação no continente, mesmo sabendo tratar-se de uma abordagem incompleta.

Para tanto tomamos a ideia de campo na perspectiva conceitual de Bourdieu (1997) que o reconhece como uma arena de convergências e conflitos. Para ele (1997, p.57), “um campo é um espaço social estruturado, um campo de forças [...] que é também um campo de lutas [melhor dizendo, disputas] para transformar ou conservar este campo de forças”. E o campo científico “é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial pelo monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder político”

(BOURDIEU, 1983, apud LOPES, 2003, p. 279). Essas noções ajudam a compreender a dissonância que há entre os pesquisadores sobre a própria a concepção da Comunicação como uma área de conhecimento e a pesquisa latino-americana de Comunicação como constituinte de uma “escola de pensamento”.

Nesse contexto, convém frisar que o campo acadêmico da Comunicação se constitui num “conjunto de instituições de nível superior destinadas ao estudo e ao ensino da comunicação e onde se produz a teoria, a pesquisa e a formação universitária das profissões de comunicação' (LOPES, 2003, p.278). Por sua vez, ainda segundo Lopes (2003), esse campo é formado por subcampos, quais sejam, o científico, o educativo e o profissional. O científico comporta a produção de conhecimento, ou seja, a pesquisa acadêmica que produz teorias por meio da construção de objetos e metodologias. No âmbito educativo estão as instituições universitárias de ensino que reproduzem o conhecimento gerado na preparação, em especial, para o exercício das profissões do campo da Comunicação. E o subcampo profissional comporta a aplicação dos conhecimentos no exercício das atividades de comunicação.

Embora, na prática, essas distinções sejam visíveis, conceitualmente fica complicado sua sustentação, pois se verificam convergências. Por exemplo, no âmbito do ensino não há puramente reprodução, mas também geração de conhecimento. Ou o que dizer dos programas de pós- graduação, que também são do campo do ensino, mas que geram conhecimento através da pesquisa científica, e do próprio processo de ensino. E, no universo do mercado profissional, também se pesquisa, a exemplo do suporte desta ao desenrolar das telenovelas.

Enfim, voltando ao tema central deste texto, no campo acadêmico- científico comunicacional nos parece que houve, num primeiro momento, um esforço investigativo no sentido de cartografar o campo acadêmico da Comunicação, tanto no que se refere à sua historiografia e amplitude quanto a um olhar no interior da pesquisa feita na região. Para tanto, têm sido feitos registros históricos, cartografias e outros estudos

que documentam a memória e procuram configurar a institucionalização do campo no nível acadêmico e científico. Num segundo momento identificamos estudos visando compreender o desenvolvimento do campo científico da Comunicação quando as ênfases recaem nos conteúdos da produção – suas tendências temáticas e influências conceituais e bibliométricas. Mas, há também um terceiro momento em que o olhar está mais centrado na perspectiva teórica e epistemológica, ou seja, quando se indaga a questão da Comunicação como objeto de estudo enquanto ciência. Contudo, reconhecemos a impossibilidade de demarcar uma fronteira precisa entre esses momentos.

a) Ênfase na historiografia

Há várias dimensões da pesquisa que procuram registrar, descrever e analisar a história dos acontecimentos e das iniciativas institucionais e de pesquisa no campo da Comunicação, internamente em alguns países ou em nível global da América Latina. Nesse sentido, são registrados tanto análises de matrizes teóricas quanto a origem da pesquisa, o histórico dos congressos e as realizações de instituições científico-acadêmicas, tais como centros de pesquisa, associações de pesquisadores, institutos e outras organizações pioneiras em diversos países da América Latina. Também são feitas análises dos contextos de surgimento da pesquisa e das entidades cientifico-acadêmicas e seu papel no desenvolvimento do campo . Durante certo tempo foram elaborados também resumos da 4 bibliografia corrente e emergente no campo como forma de identificar a produção científica e, ao mesmo tempo, difundi-la como incentivo a sua apropriação pelos acadêmicos. Contudo, nesse universo também tem havido esforço de pesquisa no sentido de entender o passado teórico e as pegadas deixadas pelos fundadores. Berger (2000, p.1), referencia-se a Beltrán (1980) para dizer que desde a década de 1930 existem “estudos sobre jornalismo vinculados a discussão sobre liberdade de imprensa e legislação”.

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Quanto aos “fundadores”, ou seja, os autores de referência nos primeiros tempos da pesquisa em Comunicação na América Latina, (BERGER, 2000) com base em enquete realizada por Gomes Palácios (1992) citada por Fuentes Navarro (1992), com 50 pesquisadores latino- americanos sobre as principais influências teóricas na região, estes tinham como ponto de confluência a reflexão crítica sobre indústria cultural e a perspectiva de interpretação da comunicação no contexto da América Latina.

Para Christa Berger (2000 ), mesmo sem reivindicar “uma teoria 5 latino-americana de Comunicação com estatuto epistemológico e teórico” próprio, reconhece-se um campo de estudo em torno da comunicação que foi adquirindo, desde os anos 1960, contornos próprios, “pelo modo como as teorias existentes foram assimiladas e pela introdução de problemáticas do continente” (BERGER, 2000, p.1).

Entre os pesquisadores que, inicialmente, início dos anos 1990, mais influenciaram a pesquisa, conforme apontado acima, tinham como ponto de confluência a reflexão sobre a indústria cultural, destacam-se em primeiro lugar os trabalhos de

Armand Mattelart e seu grupo do Chile; em segundo Antonio Pasquali da Venezuela; em terceiro, Luis Ramiro Beltrán da Bolívia; em quarto, Eliseo Verón, da Argentina e em quinto, Paulo Freire, [do Brasil] com seus trabalhos desenvolvidos no Chile. Todos imbuídos de uma abordagem crítica da comunicação, vinculando-a à realidade de seus países e na perspectiva do continente (BERGER, 2000, p,4).

A trajetória dos estudos latino-americanos de comunicação pode ser, em parte, contada a partir da identificação dos rumos dados pelos centros de estudos e associações de pesquisadores, “pelos temas que tiveram adesões significativas e pelos autores que mais produziram e marcaram a Área” (BERGER, 2000, p.1).

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Versão revisada foi publicada no livro “Teorias da comunicação. Conceitos, escolas tendências”, organizado por Hohlfeld, A; Martino, L.c. França, V. e publicado pela Vozes, 2001, p.241-277.

Nessa perspectiva, convém mencionar algumas dessas organizações da sociedade civil que tiveram e, algumas continuam tendo importante papel na configuração do campo da Comunicação na América Latina. Entre elas, mencionamos:

a) O Centro de Estudios Superiores de Comunicación em América Latina (CIESPAL) criado em 1959 pela UNESCO, em Quito-Equador; b) Instituto Venezolano de Investigaciones de Prensa de la Universidad Central de Venezuela, em 1959, mesmo ano da criação do CIESPAL; c) Instituto de Investigaciones de la Comunicación (ININCO), Venezuela, em 1973.

d) Centro de Estudios de la Realidad Nacional (CEREN )– (Chile, com a vitória de Allende) - 1970;

e) Centro Interdisciplinario de Estudios Bolivianos de la Comunicación - Bolivia, 1996;

f) Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM) – Brasil, 1963; g) Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) – Brasil, 1977;

h) Asociación Mexicana de Investigadores de la Comunicación (AMIC) - México, 1979;

l) Instituto Latinoamericano de Estudios Transnacionales (ILET) 6

–México;

j) Instituto para la América Latina (IPAL) – Perú;

l) União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC) – 1969;

m) Asociación Boliviana de Investigadores de la Comunicación (ABOIC) – 1981;

n) Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (ALAIC) – 1978 (reconstituída em 1989);

o) Associação Nacional de Escolas e Faculdades de Comunicação (ABECOM);

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O ILET nasceu no Chile, sofreu a repressão da ditadura Pinochet e se refugiou no México, de onde apoiou a preparação do Informe MacBride. “Entre as áreas de trabalho do ILET figuraram a estrutura e o funcionamento do sistema transnacional de comunicação, a informação internacional, a informação na América Latina, a industrialização da comunicação, as tecnologias da comunicação etc. (MORAGAS SPÀ, 2011, p.177).

p) Federación Latinoamericana de Facultades de Comunicación Social (FELAFACS) -1979;

q) Federación Argentina de Carreras de Comunicación Social (FADECCOS) - 1983 , cujo nome atual se registra em 2002;7

r) Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) –Brasil, 1991;

s) Associação Ibero-Americana de Comunicação (ASSIBERCOM - 1998, surgida do IBERCOM -1986);

t) –LUSOCOM Federação das Associações Lusófonas de Ciências da Comunicação (1997).

Para além de associações com origem na América Latina, existem outras entidades congêneres internacionais históricas, como a International for Media and Communication Research (IAMCR), criada em 1957, e a International Comunication Asociation (ICA), que iniciou suas atividades em 1950, com as quais pesquisadore/as latino/as se vincularam ao longo do tempo, além de associações europeias como a francesa Société Française des Sciences de l´Information et de la Communication (SFSIC), a portuguesa Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (SOPICOM), e a Asociación Española de Investigadores de La Comunicación (AEIC), da Espanha.

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Das organizações pioneiras mencionadas, muitas ainda existem. Mas, como o campo da Comunicação continua a expandir-se e a se estruturar, novas entidades científicas são criadas em países da América Latina nos anos recentes. Surgiram, por exemplo, a Asociación de Investigadores Venezolanos de la Comunicación (INVECOM), criada em 2007; Sociedad Ecuatoriana de Estudios Interdisciplinares de la Comunicación (SEICOM), fundada em 2009; Asociación Chilena de Investigadores de la Comunicación (INCOM), em 2011; e a Asociación Colombiana de Investigadores de la Comunicación (ACICOM), em 2012.

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Ver http://www.fadeccos.org/quienes-somos.html 8

No Brasil há também a tendência de criação de entidades segundo especialidades, ou subáreas, da Comunicação Social, como a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), criada em 2003, a Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp), fundada em 2006, Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber), em 2006, a Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom), surgida em 2011, e a Associação Brasileira de Pesquisadores e Comunicadores em Comunicação Popular, Comunitária e Cidadã (ABPCom), criada em 2017.

Em nível macro, há que se mencionar também a criação da Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura(ULEPICC) , em 2002; a criação recente da Federação Brasileira das 9 Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (SOCICOM), em 2008; e da Confederación Iberoamericana de Asociaciones Científicas y

Académicas de la Comunicación (CONFIBERCOM) que surgiu em 2009.10

Parte dos estudos cartográficos realizados enfocou o campo acadêmico institucional levantando o número de faculdades e de cursos de graduação e de pós-graduação, além do perfil dos cursos e dos egressos, o que também ajudou na legitimação da Área. Aliás, essa preocupação de mapear o campo segue atual como demonstra a pesquisa feita no espaço ibero-americano que levantou todos os cursos de pós- graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) no espaço ibero- americano (LOPES, 2012), no bojo dos trabalhos desenvolvidos pela Confibercom (Confederación Iberoamericana de Asociaciones Científicas y Académicas de la Comunicación). Um mapeamento e análise das condições de circulação dos periódicos científicos também foi desenvolvido nesse período (PERUZZO, 2017), além da formada a Rede

Confibercom de Revistas Científicas de Comunicação (REVISCOM) . 11

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A ULEPICC tem também seus capítulos nacionais, como ULEPICC Brasil e ULEPICC Espanha. Ver http://ulepicc.org/ ulepicc-2/

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Ver http://confibercom.org/confederacao/entidades-filiadas/ 11

Embrenharam-se incialmente na tarefa de construir memórias e de compreender os campos acadêmico e científico da Comunicação, pesquisadores latinos como José Marques de Melo, Rafael Roncagliolo, José Luis Aguirre, Marcelino Bisbal, Luis Ramiro Beltrán, Jesus Martin- Barbero, Raul Navarro Fuentes, Maria Immacolata Vassalo de Lopes e Margarida Maria Krohling Kunsch, entre muitos outros.

b) O olhar sobre o campo científico da Comunicação

A pesquisa sobre o campo científico da Comunicação na América Latina desenvolveu desde o início um olhar crítico sobre suas ênfases temáticas, tendências analíticas e influências conceituais e, alguns casos, é feita a identificação dos autores mais referenciados. Talvez esse debate tenha sido inaugurado por Luis Ramiro Beltrán, ainda em 1976, no artigo “Premissas, objetos, métodos forâneos na investigação em comunicação na América Latina”, seguido por muitos outros. Além dos citados acima, podemos acrescentar Miquel de Morágas, José Marques e Melo, Maria Luiz Gonzaga Mota, Immacolata Vassalo de Lopes, Jesus Galindo Cáceres, Erick Torrico Villanueva, José Luis Aguirre Alvis, Karina Herrera, Christa Berger, Maria Cristina Gobbi, Gustavo León Duarte etc. O tema das singularidades da pesquisa em Comunicação na América Latina também despertou o interesse, já nos anos 1980, de pesquisadores estrangeiros, como por exemplo do italiano Robert A. White, do escocês Philip Schlesinger, e da estadunidense Elizabeth Fox.

A revista espanhola Telos dedicou ao tema do pensamento comunicacional latino-americano, o seu número 19, publicado em 1989, com artigos analíticos de Robert A. White, Philip Schlesinger e de Elizabeth Fox que discutem as especificidades da pesquisa realizada no continente, além de editorial de Enrique Bustamante comentando sobre as motivações do interesse por esta pesquisa, na Europa, desde os anos 1970.

Existe abundante bibliografia sobre o campo científico da Comunicação na América Latina, principalmente no nível interno dos

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países , tanto com registros e levantamentos diversos sobre iniciativas institucionais, questões do ensino e memórias de eventos, como com análises sobre linhas de pesquisa, o estado da investigação, políticas de comunicação, comunicação para o desenvolvimento etc. Há também registros sobre as trajetórias de autores precursores. Recentemente, inclusive, o CIESPAL sistematizou as histórias e as contribuições teóricas de Luis Ramiro Beltrán, José Marques de Melo, Alfonso Gumucio-Dragon e Jesús Martin-Barbero, publicadas na revista Chasqui.

Enfim, entre históricos e cartografias também há expressivos esforços de auto reflexão teórica sobre a pesquisa em Comunicação. Nesse sentido, discute-se o próprio objeto – ou objetos - da Comunicação, assunto que será retomado no item subsequente. Mas, cabe antecipar que a pergunta sobre “o que é Comunicação” percorreu esses anos todos, e parece não totalmente respondida, visto que em 2016 voltou a ser o tema central de um evento da rede de Programas de Pós-Graduação do Estado de São Paulo, ocorrido na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo, Brasil.

As abordagens são diversas e feitas por vários autores, cujos artigos foram publicados em revistas científicas, capítulos de livros e em coletâneas específicas. Nos últimos anos parece ter crescido a preocupação com as questões epistemológicas da Comunicação enquanto campo científico, pelo menos no Brasil a notar pela publicação de livros como: “Teorias da comunicação” organizado por Hohlfeldt, Martino e França (2001), “Pesquisa empírica em comunicação” de Braga, Lopes, Martino (2010), e “Quem tem medo da pesquisa empírica?” organizado por Barbosa e Morais (2011).

Nessa perspectiva, para responder a indagação sobre o que se pesquisa em Comunicação, tem-se utilizado como bases de dados os trabalhos apresentados em congressos da área e/ou artigos publicados em revistas científicas. São estudos que procuram identificar os objetos de pesquisa explorados pelos pesquisadores na busca de uma caracterização do

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Veja-se por exemplo, no México: Fuentes Navarro (2008), Galindo Cáceres (1995), Cervantes Barba y Sánchez Ruiz (1994), Chávez Méndez y Karan Cárdenas (2008), e Veja Montiel (2009) etc. Na Argentina, entre muitos outros, o livro Rivera (1997). No Brasil, entre dezenas de livros, destaca-se Marques de Melo (1998, 2008, 2008a), Lopes (2003). Na Venezuela, Aguirre (1996). Na Bolívia, Torrico Villanueva (2005). E assim por diante.

estado da pesquisa em Comunicação na América Latina. Há, por exemplo, diagnósticos e análises feitos por Raul Navarro Fuentes (2008) tanto em pesquisas abrangentes no âmbito da América Latina, quanto estudos comparativos entre México e Brasil, bem como de Maria Cristina Gobbi, que no livro “A batalha da Comunicação” (2008), traz resultados de pesquisa sobre os 30 anos da ALAIC na qual traz o registro do histórico e de cenários de seu percurso, mas fez também estudo bibliométrico da produção científica apresentada nos Grupos de Trabalhos (GTs) dos congressos de associação, de 1998 a 2006. O mais recente e abrangente trabalho de pesquisa que sistematiza “La contribución de América Latina al campo de la comunicación” (BOLAÑO, CROVI DRUETTA; CIMADEVILLA, 2015) é este livro desta forma intitulado, e que busca registrar a história, enfoques teóricos, epistemológicos e as tendências da investigação na região.

c) Teoria e metapesquisa em Comunicação na América Latina

Mesmo não sendo possível separar de forma clara as vertentes, nem demarcá-las no tempo, pois em geral se interconectam em historicidades e objetos teóricos – explicando melhor, fazem cartografias, mas, ao mesmo tempo, desenvolvem conceitos ou discutem o objeto comunicacional, identificamos um terceiro momento. Trata-se de um estágio em que o olhar dos pesquisadores se direciona mais para dentro

do que é produzido buscando enxergar os achados científicos, portanto

as ênfases recaem na dimensão teórico-epistemológica. Como Bunge (1980, p.15), entendemos epistemologia “como uma reflexão crítica sobre a investigação científica e seu produto, o conhecimento, em outras palavras, é a ciência da ciência”. Nessa perspectiva, as pesquisas têm o interesse em determinar o estado da “questão”, ou o estado da “arte” da investigação em Comunicação na América Latina. As pesquisas desenvolvidas nesse âmbito poderiam ser vistas em três perspectivas, a saber:

Na primeira, desenvolvem-se estudos capazes de gerar teorias, conceitos e/ou interessados na discussão teórica de base epistemológica

na tentativa de estabelecer novos conceitos. Não temos a pretensão de dissecar todos os autores e obras, cuja contribuição representa o avanço teórico no campo do conhecimento, o que demandaria um esforço coletivo de investigação. A título de exemplo, mencionamos apenas os esforços de geração de teorias, por parte de pesquisadores latino- americanos, os quais podem ser identificados em obras de Antonio Pasquali, Eliseo Verón, Luis Ramiro Beltrán, Juan Diaz Bordenave, Mário Kaplún, Jorge A. González, Jesús Martin-Barbero, Guilhermo Orozco- Gomez, Muniz Sodré, Jesus Galindo Cáceres, Ciro Marcondes Filho, para ficar entre os pioneiros e mais famosos.

Em segundo lugar, é traçado um olhar teórico sobre a Comunicação - seu objeto ou objetos - de estudo, e/ou sobre o estado da pesquisa em Comunicação, portanto, no nível epistemológico. São estudos que, a partir da produção cientifica já realizada, pretendem ser definidores da Comunicação enquanto área do conhecimento científico, na linha no questionamento da Comunicação enquanto disciplina, seus achados teóricos (resultados científicos) e as limitações, bem como sobre os avanços metodológicos. Com poucos consensos, diga-se de passagem. Portanto, inclui-se, nesse âmbito, a pesquisa da pesquisa – ou metapesquisa - na busca do entendimento sobre o estado da mesma no nível disciplinário em termos amplos (Comunicação, Comunicação e Cultura) ou nas subáreas específicas (Jornalismo, Relações Públicas...) que a compõem, as características da investigação comunicacional, os métodos e técnicas empregados, seus avanços e limites.

Esse tipo de pesquisa tem sido liderada por Raúl Fuentes Navarro, José

No documento PORTCOM (páginas 47-79)

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