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CICLO DE VIDA DO ARTEFATO

Os obj etos não m orrem ; sobrevivem , nem que sej a com o lixo ou resíduos. É claro que os artefatos podem ser destruídos, no sentido de serem desagregados a ponto de perderem as especificidades form ais que os caracterizam . Surpreende, porém , o quanto são resistentes a isso. Mesm o artefatos reputados com o frágeis ou efêm eros conseguem , m uitas vezes, um a sobrevida im pressionante. Os m useus, arquivos e bibliotecas guardam cerâm icas pré-históricas, vidros m ilenares, papéis rabiscados com séculos de existência. Em m uitos locais do planeta, qualquer escavação do subsolo revela vestígios e caquinhos de eras passadas, para alegria dos arqueólogos. Nos últim os cinquenta anos, a hum anidade produziu m aior quantidade de artefatos do que em toda sua história pregressa. Com o resultado, estam os em processo de serm os soterrados pelo acúm ulo de coisas que descartam os. Lugar nenhum está im une, praticam ente. Na praia m ais deserta, a m aré traz garrafas de plástico. No Him alaia e na Antártida, j azem os restos m ateriais deixados por incursões de visitantes. A velha caracterização do ser hum ano com o Homo faber, o hom em que fabrica, poderia ter com o com plem ento um a expressão nova: homo prodigus, o hom em que desperdiça.

Diante da m agnitude do problem a am biental que é o acúm ulo de lixo, com pete a todos contribuir para soluções coletivas. Mas o que o design pode fazer, nesse sentido? Os designers não controlam políticas públicas, não com andam as redes de fabricação e nem são responsáveis pelo desenvolvim ento de novos m ateriais e tecnologias. Além de descartar m enos e reciclar m ais – algo que está ao alcance de qualquer indivíduo, independente de sua profissão – pode parecer que há m uito pouco a ser feito na hora de proj etar. Um ou outro profissional pode se negar a gerar novos artefatos, alegando que não quer contribuir para o acúm ulo de coisas no m undo, m as isso não vai im pedir que outras pessoas o façam . Contudo, existem sim contribuições im portantes que podem ser feitas na etapa do proj eto, contanto que se entenda o ciclo de vida do produto de m odo m ais abrangente.

Foi dito, no início deste capítulo, que lixo nada m ais é do que a m atéria desprovida de sentido. Para com provar essa afirm ação, basta observar os catadores de lixo e o extenso com ércio dedicado à com pra e venda de m ateriais usados – desde depósitos de ferro-velho e centros de m ateriais recicláveis, na parte inferior da escala econôm ica, até leilões e antiquários, na parte m ais alta, passando por sebos, brechós, m ercados de pulgas e outras instâncias revendedoras de artigos em segunda m ão. Quase tudo que pode ser encontrado nesses locais foi rej eitado ou recusado, de um a m aneira ou de outra. Alguém que não queria m ais algum a coisa decidiu se livrar dela, e “passou adiante” ou “botou fora” o traste velho. A diferença entre descarte e venda é a atribuição de valor m onetário. Tanto, que quando algo possui valor inestim ável, tam pouco pode ser vendido. Quando um rico colecionador quer se livrar de um a obra de arte de preço incalculável, é obrigado a recorrer ao expediente de doá-la. O que não deixa de ser um a form a m uito especial de descarte. Seria um absurdo com pleto, porém , sugerir que a obra assim “descartada” é um a espécie de lixo.

O oposto do descarte é a coleta, ou coleção (que é a coleta organizada e guardada). A diferença psicológica entre quem coleciona peças valiosíssim as e quem coleta lixo nas ruas nem sem pre é tão grande quanto im agina a m aioria das pessoas. No com ércio de artigos usados, há sem pre alguém que com pra o que o outro não quis m ais; e a atribuição de um valor pecuniário, “de m ercado”, garante o aj uste preciso entre o repúdio de quem vende e a cobiça de quem com pra. De todo m odo, tem que existir um a m argem considerável de negociação de valores, senão não seria possível aos revendedores ganharem a vida com esse tipo de com ércio. Felizm ente, para todos nós, o lixo de um é m esm o o luxo de outro. Quem duvidar disso, que j ogue um a latinha de alum ínio vazia na rua de um a grande cidade brasileira. Ao retornar ao local, horas ou m inutos depois, seu lixo terá sido catado por alguém que tira seu sustento do desprezo alheio. Aquele obj eto que havia sido esvaziado de sentido para quem o encarava apenas com o veículo volta a ser m ais do que apenas lixo a partir do instante que é encontrado por alguém que lhe atribua valor.

Se lixo é um a ideia que se faz do obj eto, então segue que é possível redim ir um a parcela das coisas que tratam os com o lixo pela requalificação do seu sentido. Ao lançarem um olhar diferenciado sobre os m ais variados artefatos descartados ou descartáveis, diversos artistas, designers e arquitetos vêm dem onstrando esse princípio ao longo das últim as décadas. Garrafas de plástico usadas viram obra de arte quando pintadas e arranj adas de m odo escultórico; viram peça de design quando transform adas em m obiliário; viram elem ento arquitetônico quando integradas a um a estrutura construída. O princípio da ressignificação pelo uso é bem m ais am plo do que esses exem plos, relativam ente restritos. A velha prática, com um em m uitos locais pobres, de sinalizar um a borracharia com pneus velhos, em pilhados ou pendurados, não deixa de ser

dem onstrativa dessa possibilidade. Ao adquirirem novos usos, para além do prim eiro descarte, os artefatos ganham um a sobrevida às vezes m uito m aior do que a “vida útil” que lhes fora destinada por seus fabricantes.{36}

A questão do “pós-uso” rem ete à concepção equívoca que fazem os norm alm ente do “ciclo de vida do produto”. Existem m ilhares de esquem as buscando ilustrar o que os livros de m arketing e engenharia entendem por esse term o. Seria im possível reproduzir todos aqui, ou dar conta das sutis diferenças que separam um do outro. É interessante observar que, de m odo m uito geral, os gráficos produzidos por estudiosos de m arketing tendem a representar o ciclo de vida do produto com o um a curva, partindo da introdução do produto no m ercado, do lado esquerdo, ascendendo para as fases de crescim ento e m aturidade no m eio, e descendo para a fase de declínio, à direita. Já nos gráficos produzidos por engenheiros – em especial, os am bientais – o ciclo de vida do produto costum a aparecer de m odo circular ou cíclico m esm o, envolvendo fases que vão desde a necessidade até o descarte, passando por m ateriais, tecnologia, proj eto, fabricação, com ércio, uso e, de preferência, prevendo instâncias de reciclagem ou recuperação para fechar o ciclo. Infelizm ente, esse m odelo de pensam ento cíclico ainda está pouco difundido no ensino de design.

É com um aos designers im aginarem o ciclo de vida do produto de m odo linear, com o um fluxogram a que passa pelas seguintes etapas:

concepção → planejamento → projeto → manufatura → distribuição → venda → uso → descarte

Contrariando as evidências do m elhor pensam ento am biental, poucos designers tentam fechar o ciclo, relacionando o descarte a um a nova m odalidade de concepção. Tem os aí um problem a sério. Não é fácil conceber o pós-uso! Nossa cultura proj etiva e fabril está toda voltada para a fabricação do novo, para a m anufatura de produtos acabados a partir de m atérias-prim as. Alguns buscam trabalhar com m atérias-prim as recicladas. É um prim eiro passo. Porém , é pouco, diante das m ontanhas de lixo que não param de crescer. Com o proj etar qualquer coisa para sobreviver além do seu uso previsto? Com o prever um contexto de uso que não existe ainda? Com o pensar nas necessidades de um usuário que não se conhece? Com o planej ar aquilo que, por definição, não pode ser antevisto? Parece im possível! Dá trabalho, com certeza. A necessidade de proj etar para o pós-uso abre um im enso desafio que prom ete revolucionar o pensam ento em design.

A prim eira parte do desafio é conceitual: repensar ciclo de vida para nossa era de crise am biental. Estam os acostum ados a conceber a existência dos produtos industriais em term os de vida útil ou durabilidade. O que é isso? Tom em os com o exem plos alguns artefatos característicos da sociedade de consum o. No extrem o m ais longevo da escala, um autom óvel ou um a geladeira

são considerados bens duráveis. Sua vida útil – a parte do ciclo de vida entre a fabricação e o descarte – corresponde a alguns anos ou até décadas. No outro extrem o, um j ornal é considerado em inentem ente efêm ero. Entre sair fresquinho da gráfica e ser usado para em brulhar a areia higiênica usada pelo gato, podem se passar m enos de 24 horas.{37} Todavia, do ponto de vista am biental, m esm o bens duráveis com o autom óveis e geladeiras possuem um a vida útil m uito curta se com parada com o longo período que levarão para se desagregar ou decom por em partes. A geladeira que perm aneceu dez ou quinze anos em uso pode sobreviver m uitas décadas ou m esm o séculos com o lixo. Calcula-se que alguns artefatos de plástico, cuj a vida útil consiste em dias ou sem anas, dem orem m ilênios para concluírem o processo quím ico de biodegradação.

Aquilo que o cam po do design costum a descrever com o produto corresponde a um a fração apenas da vida dos artefatos: o período de vida útil que vai da fabricação até o descarte. Trata-se de um a visão bastante restrita, com o se disse, pois o m esm o artefato pode sobreviver m aterialm ente por m uito tem po após ser inutilizado. De m odo análogo, os econom istas reduzem ainda m ais a questão ao em pregarem o term o “m ercadoria”, o qual descreve o artefato unicam ente durante o período curtíssim o em que está à venda. Am bas são visões essencialm ente centradas no proveito que pode ser tirado do artefato, sej a em term os do seu aproveitam ento pelo uso ou sua realização com o lucro. O presente im passe am biental nos obriga a adotar outro olhar para o artefato – com o cultura material, ou sej a: o vestígio daquilo que som os com o coletividade hum ana. Os artefatos são expressão concreta do pensam ento e do com portam ento que nos regem . O conj unto de todos os artefatos que produzim os reflete o estado atual de nossa cultura.{38} Tirando pelo enorm e acúm ulo de lixo, ou obj etos desprovidos de sentido, que nos cerca por todos os lados, som os um a civilização

profundam ente contraditória. Quanto m ais buscam os fabricar o sentido, refinando m atérias-prim as em bens acabados, m ais rapidam ente m ergulham os no inform e e no disform e.

Ao pensarm os em term os de cultura m aterial, percebem os que o ciclo de vida de qualquer artefato estende-se para m uito além do seu uso prim eiro e m esm o o seu descarte. O pós-uso é o horizonte distante da m aterialidade que se recusa a m orrer. Do m esm o m odo que a existência dos artefatos se estende de m odo insondável para além de sua vida útil, em direção a um futuro incerto, ela se estende igualm ente na direção contrária, para o passado, com o cultura e tradição. Antes m esm o das fases de concepção e proj eto, todo artefato participa de um a pré-história que reside no repertório de form as e nas técnicas de fabricação vigentes no contexto de sua criação. Nada vem do nada, com o j á se disse. Daí que m esm o as form as m ais originais são fruto de linguagens existentes. Para com preender verdadeiram ente os desafios a serem enfrentados por um

pensam ento proj etivo renovado, é preciso entender que a vida do artefato tem duração m uito longa. Toda form a tem raízes num passado im em orial, o do repertório, e abre-se para um horizonte ilim itado, o da linguagem m aterializada.

Munido dessa consciência am pliada de ciclo de vida, é possível chegar a alguns princípios recom endáveis para quem quer proj etar o pós-uso. O prim eiro deles é a reversibilidade. Toda form a ou estrutura que pode ser m ais facilm ente desm ontada, tendo suas partes com ponentes aproveitadas de im ediato, m inim iza o acúm ulo de lixo. O m étodo do design for disassembly (design para o desm onte), em pregado em alguns setores da indústria autom obilística, é um exem plo conhecido. O princípio da reversibilidade tange igualm ente soluções m uito sim ples e tradicionais ao design, com o o uso de m ódulos. Todo sistem a m odular prevê m últiplas possibilidades de uso e, portanto, gera um potencial para estender a sobrevida do artefato apenas pelo rearranj o de suas partes em novas com binações ou, então, por m eio da substituição delas por peças sim ilares ou com plem entares. A possibilidade de trocar peças, m antendo o sistem a em operação, tange a outro princípio im portantíssim o: m anutenção. Se um autom óvel j á tem vida útil relativam ente curta, im agine com o seria se fosse im possível trocar peças do m otor! O aperfeiçoam ento de com ponentes, sua organização em m ódulos trocáveis e a sim plificação dos processos de substituição são passos im portantes para pensar o produto não com o algo estanque, m as com o artefato inserido em um sistem a de uso.

O pensam ento sistêm ico talvez sej a o aspecto m ais im portante do design no m undo atual. Quando alguém pergunta: “qual a função do obj eto?”, a form ulação da questão j á condiciona a resposta a ser singular e necessariam ente lim itada no tem po. Por exem plo: a função da geladeira é m anter os alim entos resfriados. Seguindo esse tipo de raciocínio, a geladeira perde sentido e vira lixo assim que para de funcionar com eficiência. Se perguntarm os, ao contrário, quais seriam os sentidos possíveis do obj eto dentro de um sistem a com plexo, abrangendo um leque m ais am plo de usuários e situações, abrirem os a possibilidade de pensar o proj eto de m odo plural e polivalente. Os princípios gem inados de reutilização e reaproveitam ento são exem plares disso. O m esm o vidro que serve com o em balagem para geleia ou m ostarda, se for bem proj etado, poderá ser aproveitado depois com o copo, estendendo sua vida útil em m uitas vezes. Um exem plo corriqueiro, e antigo, de pensam ento sistêm ico está nos obj etos de uso m últiplo, ou m ultiuso. É bastante raro encontrar na lixeira um canivete suíço. Esse artefato se torna resistente ao esvaziam ento de sentido, por conta tanto da m ultiplicidade de funções operacionais que exerce quanto das funções psicológicas e afetivas que tam bém costum a cum prir.

O exem plo do canivete nos conduz a m ais um princípio proj etivo im portante para o futuro: durabilidade. De início, pode parecer paradoxal alinhar durabilidade ao lado de princípios fluidos e m utáveis com o reversibilidade,

m anutenção ou reaproveitam ento. Talvez o sej a, m as “o paradoxo é o pai da verdade”, segundo escreveu um velho poeta brasileiro.{39} A durabilidade em questão é m enos a dos m ateriais e da engenharia, e m ais a do sentido. Quanto m ais um artefato é capaz de agregar e sim bolizar valores reconhecidos, m ais resistente ele se torna ao esvaziam ento e ao descarte. Um bom exem plo são as canetas-tinteiro. Apesar de ultrapassadas em m atéria de tecnologia e cada vez m ais restritas ao uso em ocasiões de cerim ônia, as canetas-tinteiro dificilm ente encontram o cam inho da lixeira. Mesm o as de m arca m ais com um , as m enos valorizadas, continuam a reter um quantum suficiente de valor sim bólico que as im pede de serem descartadas com a m esm a falta de piedade que se j oga fora um a caneta esferográfica de plástico. Qual será o segredo das canetas-tinteiro? Será o fato de que estão associadas, com algum a frequência, a antepassados queridos de quem são herdadas? Será o poder da nostalgia, referido no início deste capítulo?

O princípio da durabilidade está por trás das m aiores histórias de sucesso do universo do branding, de m arcas centenárias que com andam fidelidade e reverência no m ercado de consum o de luxo. Há artefatos que não são j ogados fora nem na hora da m orte de seus proprietários, m as que são passados adiante com o herança e relíquia. A durabilidade do valor desses obj etos, m esm o que sej a um valor puram ente afetivo, transform a a própria noção de posse.

Norm alm ente, em nossa sociedade, possuir um obj eto quer dizer ter o poder de usufruir dele com exclusividade. No caso desses obj etos de valor inestim ável – com o alguns im óveis, obras de arte ou m uitos artefatos guardados em m useus – a posse passa a significar a responsabilidade por sua m anutenção e o com prom isso de zelar por sua integridade. Nesses casos, o proprietário adquire consciência de

que o valor do obj eto vai durar para além do ínterim em que está em suas m ãos. Os princípios esboçados aqui não devem ser vistos com o receita ou m étodo, m as antes com o observações esparsas, derivadas da reflexão sobre o processo de significação dos artefatos. Com o responder às questões levantadas é um desafio que será enfrentado por toda a com unidade de designers no adm irável abism o novo que se abre à nossa volta na era vindoura de predom ínio do im aterial. Esse é o tem a do próxim o capítulo.

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