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CAPÍTULO 2 – NOS TEMPOS DA FÁBRICA CARMEN

3.1 Nos labirintos da memória: cenas febris

3.1.4 O cinema, os festejos e outras práticas

Nos tempos dos Othon, “Fernão Velho só vivia de festa”, lembrava Dona Emília. Comemorava-se de tudo ao longo do ano: Carnaval, São João, Natal, padroeiro, etc. Sentimentos cívicos, de profanação e danação,240 esportivos, e sagrados, entre outros eram celebrados. Estes muitas vezes, imbricavam-se um no outro, ocorrendo simultaneamente. Em um mesmo festejo, que mobilizava os operários, a Fábrica e até pessoas de fora, havia espaço para todas as formas de sentimentos e seus efeitos. Era também um lugar de muitos banhos, porque esse território dispunha de diversos mananciais hídricos. Havia tempo para tudo, tempo para educação, produção, descanso, alegria, festas e fé.241

Além dos mananciais hídricos que também serviam como diversão, o Cineteatro era cenário bastante presente na memória dos operários de Fernão Velho. Em Maceió, havia o Teatro Deodoro242 e os cinemas Rex, Plaza, Ideal, Lux, e o Cinearte.243 Este último funcionou

até 1957, e, em 1959, reabriu como Cine São Luiz após reformas, exibindo o filme com o sugestivo título de “Tarde demais para esquecer.”

Em Fernão velho, as exibições predominantes eram de filmes hollywoodianos, muitos de grande sucesso de público naquele tempo. A apresentação de grupos teatrais não apareceu nos relatos de memórias de operários, o que não descarta sua realização.

Nesses relatos, sobretudo de homens, ressalta-se a frequência ao Cineteatro, constituindo uma prática cultural. Zequinha Moura era um frequentador assíduo:

O cinema era ali. Todo dia fazia isso quando vinha da escola. Assistia cowboy. [...] Às vezes tô aqui e ainda passa um filme daquela época e gosto de ver. Gosto é do bangue-bangue, daquela época. [...] Passava também os românticos, Romeu e Julieta, E o Vento Levou. Todo dia tinha sessão. E

240 Ato ou efeito motivado por fúria, raiva, oposição e negação do que é sagrado, tornando-se passível de

condenação moral e espiritual.

241 Segundo o historiador Pierre Mayol, são minúsculos fatos sociais, difíceis de analisar em sua banalidade, cuja

memória tende a apagar-se, mas indiciárias da extraordinária acumulação do desejo de vivenciar a cidade. CERTEAU, Michel. Morar, cozinhar. In: A invenção do cotidiano. 12. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. v. 2, p. 151.

242 O Teatro Deodoro foi inaugurado em 1910. Sobre este teatro, ver: A MALDIÇÃO do Teatro Deodoro. História de Alagoas, 2015. Disponível em: <http://www.historiadealagoas.com.br/a-maldicao-do-teatro-

deodoro.html>. Acesso em: 9 jun. 2015.

243 Esse cinema funcionou na Rua do Comércio desde os anos 1920, no bairro do Centro, Maceió. Foi um cinema

pioneiro na cidade. Foi conhecido como Cine Floriano e Capitólio. Como Cinearte, funcionou até 1957. Era o principal cinema recebendo grande número de público. Funcionou até 1996. O último filme nele exibido foi O Preço de um Resgate. Sucumbiu à concorrência das modernas salas de cinemas que abriam nos shopping centers da cidade, sendo agregados a esse entretenimento, outros serviços oferecidos como o comércio, estacionamento, segurança, e alimentação, todos disponíveis nos shopping centers. Ver: CINE São Luiz, o velho cinearte. História de Alagoas, 7 maio 2015. Disponível em: <http://www.historiadealagoas.com.br/ cine-sao-luiz.html>. Acesso em: 9 jun. 2015.

domingo era três vezes: matinal, matinê e soirée. Tinha três vezes. Na semana não, era só soirée. A gente pagava o ingresso. Poucos centavos. Era baratinho. Dava para todo mundo ir ao cinema todos os dias.

Foi pelo hábito de frequentar as sessões de filmes no cineteatro da Vila Operária que Zequinha Moura nutria o gosto por filmes de western e lembra a admiração que tinha pelos atores norte-americanos protagonistas nos filmes de seu tempo de infância e juventude. Aliás, tempo esse marcado por memórias que lembram a aventura humana, tornada ficção verossímil na linguagem narrativa da sétima arte. Os temas e tramas presentes nos filmes invadiam a imaginação dos frequentadores do Cineteatro, rendendo assunto nas rodas de conversa.

Fotografia 18 – Cineteatro São José em Fernão Velho

Fonte: OLIVEIRA JÚNIOR, 2013, slide 9. Autor desconhecido, [198-?].

O Cineteatro era um local de entretenimento, mas seu uso e função iam além da diversão dos operários. Possibilitava circular em Fernão Velho, práticas e ideias presentes culturalmente em Maceió e no Brasil. Entretenimento que ocupava crianças, jovens e adultos, evitando-se, nos tempos livres do trabalho, comportamentos que pudessem subverter os bons costumes e convivência entre todos. A ida ao Cineteatro representava momento de sociabilidade, de passeio na arborizada Praça São José, de reencontro entre amigos e companheiros de trabalho e estudo. Permitia o cuidado do estado mental dos operários, que, alegres pelo entretenimento, poderiam sentir-se mais satisfeitos com o morar nos limites da Fábrica e seu regime de trabalho.

Ao mesmo tempo, a presença da sétima arte também expressava o processo de modernização que os Othon estavam implantando em Fernão Velho, seja na Fábrica, seja no

conjunto de suas intervenções construtivas na Vila Operária, ou mesmo as transformações que a própria cidade de Maceió vivenciava a partir da década de 1940.

A modernidade na capital alagoana era expressiva não somente pela presença das fábricas têxteis, mas também nos costumes e no sistema de transporte ferroviário que permitia interligar a cidade e suas vilas operárias com o mundo.

O trem chegava a Fernão Velho em horários determinados, e sempre apitava avisando sua presença. Percorria vagarosamente os trilhos que passavam pela Avenida Teixeira Machado, uma das principais na Vila Operária. Do trem, já se avistava um dos conjuntos de casas operárias, todas dispostas uma ao lado da outra, com tamanho padronizado, queda d’água do telhado para a rua e uma fachada com uma janela e uma porta. Não eram casas muito espaçosas, mas atendiam às necessidades de uma pequena família. Muitas se localizavam paralelamente aos trilhos do trem.

Fotografia 19 – Companhia União Mercantil: Avenida Teixeira Machado, linha férrea e conjunto de casas operárias

Fonte: Acervo fotográfico do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Pasta 07, Col. Postais de Maceió, Postal n.º 15.

Logo, o trem parava na estação localizada em frente à Fábrica. Em muitos vagões, carregava-se algodão de qualidades diversas. Eram fardos e mais fardos dessa matéria-prima. Esse era um trem com mais cargas que pessoas. Vinham de Pernambuco e por aí afora. Geralmente saía da capital, Recife, às seis horas. De Maceió para lá, o mesmo horário, mas havia os trens com mais pessoas que cargas, e eles provocavam grande movimentação de pessoas. As crianças, filhos de operários, que gostavam da pesca na laguna, quando avistavam o trem, já saíam correndo para a estação levavam cordas de siri, peixes e sacos de sururu para vender aos que vinham e seguiam no trem. O sururu era uma carga muito transportada, chegando até a ocupar vagões inteiros.

Na estação, o trem permanecia por pouco tempo, pois seguiria adiante para outras estações. Era quando o apito tocava novamente. Agora avisava sua saída. Novamente, o frenesi de pessoas entrando e acomodando-se nos seus lugares. As crianças ainda vendendo seus produtos, recebendo e passando troco. Acelerava-se a finalização da disposição das cargas. Então, o trem, sob o comando do maquinista, movimentava-se e misturava o barulho de seu corpo metálico com o atrito de suas rodas nos trilhos, que as guiavam, somando sua presença à miscelânea de sons e movimentos daquela Vila Operária.

Dali de Fernão Velho, passaria, ainda, pelo Rio Novo e partiria para outras cidades, a exemplo de Rio Largo, que também possuía fábrica e vila operária. Ou, caso estivesse indo em direção a Maceió, findaria seu trajeto na Estação Central ou na Estação do Porto, passando por outras estações localizadas em diferentes localidades da cidade como Goiabeira, Bebedouro, Bom Parto, Mercado. Transportava constantemente pessoas e cargas diversas, tanto em Alagoas quanto para fora do estado. Contribuía para quebrar a sensação de isolamento dado pelas dificuldades de acesso e saída daquele território fabril.

Trem que, nessas memórias de Zequinha Moura, possibilitava aproximar Fernão Velho ao mundo. Em uma de suas lembranças, relata que, por volta de 1944 e 1945, o trem passou por Fernão Velho cheio de soldados. Eram os chamados “praças” que foram mobilizados em diversos municípios alagoanos e se concentraram em Maceió. No trem, deslocaram-se para Recife, de onde partiriam para lutar na 2.ª Guerra Mundial. Cá, ficava o choro de quem se despedia para talvez nunca mais revê-los em vida.

Como uma expressiva indústria, ampla em suas instalações e incrustada em uma região costeira, temia-se que a Fábrica Carmen pudesse ser alvo de bombardeio durante o conflito bélico. Necessitava proteger-se desse perigo. Alterou sua rotina, impôs comportamentos defensivos. Alterou até o som que demarcava as alternâncias de seus turnos de produção. O entrevistado Zequinha Moura rememorou:

Tinha sirene para controlar o povo na hora de trabalhar. Quando faltava dez minutos a sirene, uuuuuuuu. E todo mundo ficava sabendo, dez minutos. Aí entrava. Tocava de novo, era para o pessoal largar. Na época da Guerra essa sirene não funcionou. O que funcionava ali na porta da fábrica era um trilho grande. Ainda me lembro disso, 1944, 1945. Era um trilho grande. Bennnng!!!! Bennnng!!! Depois da Guerra voltou a sirene. Isso aí era uma prevenção.

Provisoriamente, durante a guerra, a sirene fora substituída. A alternância de turmas e horário de operários passou a ser demarcada com marteladas em um trilho em frente à Fábrica. Soava de forma mais discreta, ao contrário do estridente apito que de longe era ouvido.

O grupo de escoteiros ajudava nesse esforço de prevenção. Orientava a população para evitar qualquer iluminação externa à noite. Saiam às 21 horas procurando os menores de 18 anos e os levavam de volta para sua residência. Era uma lei! E o chefe dessa operação era o irmão do padre Cabral, nesse caso, Pedro Cabral conhecido como Pedrinho.244 Dona Emília também se lembra desse período, das pessoas que se reuniam à noite a contragosto da Fábrica. Ela relata que “reclamaram que tinha gente que ficava ali e fumava, daí ficava a claridade. Dizia que não queria que ninguém fizesse claridade. Tinha de ficar tudo escuro”.

São ações que faziam parte do esforço de guerra em Alagoas desde 1942, sobretudo tendo em vista a ocorrência de ataques a navios mercantes na costa do Nordeste. No litoral alagoano, o Navio Itapagé foi bombardeado e afundado por um submarino alemão, tendo sua tripulação sobrevivente resgatada por pescadores. 245 No estado, existia apenas o 20.º Batalhão de Caçadores do Exército, com um efetivo de aproximadamente 500 homens. Com a guerra, esse efetivo aumentou para 2 mil homens. Além disso, foi transferido um contingente de artilharia vinda do estado de São Paulo, instalando-se no prédio da antiga fábrica têxtil Santa Margarida no bairro do Jaraguá em Maceió. Foram construídos por americanos, nas margens da Laguna Mundaú, alguns galpões que serviram de base para o 20.º Batalhão. Foram ainda instalados núcleos e guarnições menores em outros municípios ao longo do litoral alagoano. A sociedade civil também participava, sendo suas atividades coordenadas pela Defesa Passiva

244 FERREIRA, 1997.

245 Sobre o Esforço de Guerra em Alagoas no período de 1942 a 1945, ver: O AFUNDAMENTO do Itapagé:

Alagoas na 2.ª Guerra Mundial. História de Alagoas, 3 jul. 2015. Disponível em:

<http://www.historiadealagoas.com.br/o-afundamento-do-itapage-alagoas-na-2a-guerra-mundial.html> e A DEFESA de Alagoas na 2.ª Guerra Mundial. História de Alagoas, 4 jul. 2015. Disponível em <http://www.historiadealagoas.com.br/a-defesa-de-alagoas-na-2a-guerra-mundial.html>. Acesso em: 17 jul. 2015.

Antiaérea, vinculada ao Ministério da Justiça, que visava preparar a população para possíveis ataques aéreos.

Essa prevenção noturna também era realizada nos espaços privados das famílias operárias, modificando sua rotina.246 A quantidade de lâmpadas em cada casa foi reduzida. Permitiam-se apenas duas lâmpadas. Geralmente usavam lâmpadas de 60 velas, que foram substituídas por lâmpadas de 15 velas. Deixavam uma na sala e outra na cozinha. Dos demais cômodos, geralmente dois quartos e um banheiro, foram retiradas. Sob as novas lâmpadas, foi ainda instalado um tipo de abajur, uma cúpula grande feita de palha. Direcionava o raio de luz para baixo, não deixando que iluminasse para cima, evitando que fosse vista do céu, caso aviões passassem. Os aviões, quando passavam e sinalizavam sua presença aérea, geravam certa apreensão, quando não desespero. Zequinha Moura relatou: “E a gente aqui, quando ouvia um som de avião, meu pai dizia, ‘chão’, e todo mundo ia para o chão. Medo de ser atacado.”

Até que, em uma madrugada de agosto de 1945, bateram repetidas vezes de forma muito afoita na porta de seu Gaudêncio, pai de Zequinha. Na Fábrica ele era contramestre de tecelagem e, ao amanhecer, tinha suas responsabilidades no trabalho. Mesmo assim, foi atender, possivelmente se perguntando o que se passava. Afinal, era madrugada, por volta das três horas. Então, disseram: “Gaudêncio, acorda que a guerra acabou!”, relatou seu filho, Zequinha Moura. Quando pôs os pés fora de casa, já se juntava uma turma em estado de euforia. Nessa época, Gaudêncio morava em frente à praça, em uma casa melhor em virtude de sua condição de contramestre. Além de suas atividades na fábrica, ele se dedicava aos seus dotes musicais. Tocava trombone de vara, violão e cantava. Então, foi “só sair de casa para o Coreto, onde ficou a tocar de madrugada, e o pessoal acordando, e a guerra acabou!”, disse o entrevistado Zequinha Moura. O medo de bombardeio cedeu à alegria e à festa. “Foi um carnaval medonho comemorando o fim da guerra.” quando a notícia circulou por Fernão Velho.

Esse operariado gostava de uma boa celebração. Lembram que, no Coreto da Praça São José, sempre se apresentavam diversas atrações a que assistiam. A principal era a Banda Othon,247 criada nos tempos da Fábrica Carmen, mantida com apoio dos seus gestores. Era

246 O sociólogo José de Souza Martins, em seu livro A aparição do demônio na fábrica, relata que, na região do

ABC paulista, onde há uma grande concentração de fábricas, a Fábrica Matarazzo também alterou sua rotina. Em suas memórias de infância durante o período da guerra, ele lembra a escassez de pão e a escuridão provocada pelo ato de apagar as luzes na tentativa de evitar possíveis bombardeios. MARTINS, José de Souza. A aparição do demônio na fábrica: origens sociais do Eu dividido no subúrbio operário. São Paulo: Ed. 34, 2008.

uma banda marcial, formada com operários que tivessem dotes artísticos e musicais. Ocupava parte de seu tempo fora da produção, evitando sempre que possível a ociosidade. Estimulava a manutenção da disciplina e da ordem, seja nos ensaios, seja na sincronia de cada instrumento que era tocado com outros, dando afinação à musicalidade que embalava o prazer de seus espectadores. Reforçavam-se também sentimentos de identidade em relação a Fernão Velho, a Fábrica Carmen, os Othon e entre os próprios operários. Estimulava o apreço dos operários com as referências daquele lugar. A banda era motivo de respeito para todos, não somente por sua beleza artística, mas também por ter os operários como membros. O próprio Veríssimo Ferreira foi maestro dessa banda e se orgulhava de ter sido um dos fundadores. Para os patrões, consistia em uma forma de positivação de seu sobrenome entre seus empregados, levando seu nome, Othon.248

Fernão Velho era conhecido como lugar de muitos festejos. Na memória dos operários e das operárias, fica evidente o gosto pelas celebrações e festas, sempre suscitando boas recordações.

Relatou Dona Emília:

Dia 1.º de Maio, vinha gente de fora. Tinha uma missa campal. Cinco horas da manhã tinha girândola de fogos e a gente se acordava. Aí vinha, era jogo, era o dia todinho. 1.º de Maio, dia dos trabalhadores. Desde menina era isso. Aí vinha o desfile, a gente pequena tudinho. Tinha banda de música. Era tudo pela fábrica.

A participação da gestão da Fábrica na organização e promoção de festejos era uma prática em Fernão Velho. Isso já ocorria desde os tempos dos Machados, lembrou Zequinha Moura.

Com os Othon, as festas também se tornaram uma forma de profilaxia da alegria. Nesse ensejo, a Fábrica Carmen construiu o Recreio Operário em 1948. Nele, aos domingos, sempre havia momentos dançantes para os operários. Ou mesmo em outros festejos, como o baile de carnaval, onde Zequinha Moura conheceu sua esposa, comportando-se respeitosamente. Lá, a Banda Othon também ensaiava suas apresentações, assim como a Escola de Samba. Era um lugar de múltiplas práticas, sempre reunindo o operariado. O sindicato sempre usava esse espaço para realização de suas assembleias, momento em que

248 Segundo reportagem da revista O Cruzeiro, os membros da banda nas vilas operárias mantidas pelo Grupo

Othon, recebiam salário extra por essa atividade. Sistematicamente realizavam ensaios. AS GRANDES..., 1941, p. 68.

concentrava maior número de trabalhadores sindicalizados. Embora fosse um espaço cuja denominação “recreio” emitisse signos de possibilidades de espontaneidade dos operários, a presença panóptica dos Othon era frequente.

Durante os festejos em Fernão Velho, a produção na Fábrica não era suspensa, continuava mesmo em momentos de grande comoção e sentimento nacionalista dos brasileiros como a época de Copa do Mundo. Muitos operários não possuíam rádio em casa, como lembra Zequinha Moura. Televisão nem existia lá. Os operários que não estavam ocupados em seu turno e nas atividades na Fábrica se concentravam no Recreio Operário ou em frente à Sede Othon, próximo da Fábrica, para acompanhar e celebrar os feitos da Seleção Brasileira de Futebol. Embora a Copa do Mundo de 1950 seja lembrada como uma das maiores tristezas para os que adoravam a seleção canarinha. Zequinha Moura, com o semblante de tristeza, relembrou:

O Brasil perdeu dentro de casa. Chorei! Já me entendia. Vi todo mundo chorando. O Brasil só dava de lapada. Só dava de 3, 4, 5... E no último jogo o Brasil apanhou de 2 a 1 do Uruguai. E todo mundo chorou. Ouvia-se lá na sede Othon, ainda me lembro. Nos jogos da Copa, não paravam nada. Nunca parou nada aqui. Não tem disso, não!

Enquanto alguns, do lado de fora da Fábrica se dedicavam intensamente à torcida, outros que estavam em seu turno apenas ouviam a distância. Nesse ouvir distante, de dentro da Fábrica, precisavam também estar atentos aos seus movimentos nas máquinas em meio ao intenso barulho de uma produção que não parava.249

Esse futebol também era suscitado na produção de uma identificação com o local. Os próprios operários tinham um time criado para representá-los. Era o time Othon, que contava com jogadores operários e não operários residentes em Fernão Velho. Era mantido pela Fábrica Carmen. Disputavam o campeonato alagoano de futebol. “Era uma torcida da bichoca”, lembrou o entrevistado Idelbrando. Mobilizavam os operários nos jogos. Contribuía com o sentimento deles em relação à própria Vila Operária, apropriada como se fosse deles, digna de torcida quando seu time era composto por seus pares. Contribuía também para

249 Sobre a produção fabril durante os períodos de copa do mundo, houve fábrica que optou por paralisar

momentaneamente sua produção para que os operários pudessem assistir aos jogos ou ouvir, tornando o espaço fabril um estádio abrigando torcedores. É o caso de fábricas metalúrgicas em São Paulo, estudadas pela socióloga Cristiane A. Fernandes da Silva. Com essa atitude, a Fábrica esperava assegurar melhores resultados na produção depois dos jogos, inclusive podendo intensificar a velocidade da produção. SILVA, Cristiane A. Fernandes da. A gestão de si na reinvenção das normas: práticas e subjetividade no trabalho. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

positivar a Fábrica, quando os jogadores carregavam a bola com raça e comemoravam os gols e as vitórias com o nome “Othon” no peito de seu uniforme, embora não ganhasse campeonato algum.

Idelbrando torceu muito. Relata que seu irmão jogava em outro time, o Fluminense de