Esta pesquisa é tributária de um elenco de autores já mencionados individualmente na introdução porém, a essa altura, a título de identificar a origem dos argumentos que serão discutidos nesse capítulo, torna-se indispensável destacar daquele coletivo a figura de Clifford Geertz. Não se trata de desviar o foco da discussão para a obra do autor americano mas, sim, de esclarecer - como e porquê - o pesquisador decidiu utilizar sua teoria para compor a abordagem teórico-metodológico de seu objeto de estudo.
Por conseguinte, de início, convém situar o autor no cenário da Antropologia contemporânea ainda “cordialmente” conflagrado em virtude da queda do estruturalismo, cujos excessos abstracionistas, como se viu, estiveram a um triz de expulsar o homem real do campo epistemológico das Ciências Sociais. Nesse contexto a obra de Geertz surge na disciplina como uma reação - e como um antídoto - aos exageros que marcaram o declínio da onda estruturalista.
Aos poucos, ele repovoou a Antropologia, a qual graças aos seus préstimos passou a acolher novamente gente de carne e osso. Gente móbil, táctil, ruidosa que se reúne em assembléias a pretextos tão variáveis e tão improváveis quanto discutir metafísica em meios rurais, aplaudir a cremação ritual de viúvas da realeza, trapacear imbuída de convicções morais e... disputar deslealmente subsídios acadêmicos. (GEERTZ, C. 1996)
Geertz naturalmente possui um estilo narrativo, ou, dever-se-ia dizer, etnográfico peculiar, exuberante, a léguas de distancia, por exemplo, da composição introvertida e da precisão cirúrgica característicos do estilo de um Malinowski. Além disso, não obstante a empatia e o respeito inalteráveis manifesto por seus “nativos”, em momento algum Geertz se propõe, ou propõe aos seus leitores, transformar-se temporariamente em um deles, à força de honrar as tradições da observação participante tão valorizadas pela Antropologia.
Geertz deliberadamente evita generalizar, evita sacrificar as características, a vivacidade dos seus observados em beneficio da demonstração de uma invariância, ou da construção das sempre “hipotéticas” teorias de longo alcance. Postura que, no entanto, jamais o impediu de deduzir “princípios gerais de fatos paroquiais” porém sem nunca exorbitar a validade de suas deduções a ponto de excluir, a priori, exceções contrárias ao seu enunciado.
Segundo seu entendimento, reflexo de suas convicções relativistas, no campo epistemológico da Antropologia princípios gerais têm, no máximo, valor heurístico: vale dizer, não têm valor axiológico. Razão pela qual, Geertz mantém-se sóbrio, cauteloso, mesmo perante a “abrangência” em tese reconhecível as suas próprias teses.
Outrossim, a não se perder de vista que o presente comentário à obra de Clifford Geertz constituí um pré-requisito da apresentação e da justificativa do modelo metodológico deste projeto de pesquisa, cabe assinalar, ainda, dois aspectos do pensamento do autor relevantes para o objetivo deste capítulo.
O primeiro deles corrobora a afirmação de que Geertz é um cientista cauteloso e não se deixa inebriar pelo próprio êxito: Geertz não se atira a conclusões. Talvez por haver interiorizado mais profundamente que outros colegas a idéia segundo a qual a Antropologia se desenvolve num universo qualitativo, e não quantitativo, o autor não demonstra - registre-se sob a condição de recurso metodológico - entusiasmo algum pelos saltos dialéticos: não lhe apetecem as soluções abruptas. Geertz anda, mas vai devagarzinho. Algo como se, a seu juízo, a afluência, a profusão de informações não constituísse presságio ou condição de progresso teórico na Antropologia.
O segundo ponto é mais íngreme, mais difícil de se explicar. A rigor, à semelhança de antropólogos filiados a paradigmas rivais, Geertz também crê que a Antropologia é, afinal,
uma ciência das estruturas. Porém, à diferença de seus colegas, Geertz não acha que as estruturas são fixas, invariáveis, nem tampouco, dialéticas, no sentido de estarem predestinada a caminhar em direção ao seu contrário até eliminar completamente suas contradições.
As “estruturas” de Geertz dão a impressão de estarem vivas. São sensíveis, reagem ao número, rebeldia ou submissão de suas partes. Exprimem-se, manifestam-se encarnadas em gente comum. Encolhem, esticam e, em casos extremos, até se disfarçam, embora sejam extremamente resistentes à ação do tempo e da adversidade, uma vez que por definição, toda estrutura, tende a permanecer. As estruturas de Geertz incorporam o “primum relationis” de Michel Maffesoli na medida em que exprimem não uma ordem perene transcedente mas a ordem imanente, e dever-se-ia acrescentar, visível da vida cotidiana.
Clifford Geertz é sob muitos aspectos um heterodoxo, e no entanto, sua etnografia não e tendenciosa, não é jornalística, não é ficcional: é cientifica. Equiparável, pela qualidade, as narrativas etnográficas já definitivamente incorporadas ao patrimônio teórico da Antropologia. Contudo, por que um autor tão pouco convencional haver-se-ia transformado, como ele indiscutivelmente se transformou, em chefe de escola, em representante de um “novo” paradigma teórico em um meio tão circunspeto quanto o é o meio acadêmico? A juízo do pesquisador, a resposta é simples porque fiel às suas convicções Geertz seguiu à risca a recomendação do seu mestre, Dilthey, - regressar a própria vida cujo enunciado resume sua visão pessoal da Antropologia. A Antropologia de Geertz está impregnada da espécie de subjetividade que Maffesoli e Boaventura chamam de “senso comum”, vale dizer, corresponde no vocabulário de Dilthey o “experiência vivida” dos seus observados.
“Seja a etnografia o que mais for - uma busca malinowskiana de experiência, uma
paixão straussiana pela ordem, uma ironia cultural benedictiana ou uma reafirmação cultural pritchardiana - , ela é, acima de tudo, uma apresentação do real, uma verbalização da vitalidade”.
(Clifford Geertz: Obras e Vidas, RJ, Zahar pg. 186)
Claro, algo despeitados, os adversários “naturais” de Geertz, os estruturalistas torturadores de textos, jamais o perdoaram por esse “excesso” de vitalidade e de clareza. Em contrapartida, talvez sem o perceberem, demonstram através de seus cochichos, de sua maledicência, as teses do autor sobre as “aldeias intelectuais”: portam-se como “Hopis” quando poderiam, por que não, portar-se como “Pueblos”. À boca pequena, circula entre eles o chiste segundo o qual, como antropólogo, Clifford Geertz haveria cometido três faltas
imperdoáveis: - ser americano; não ser francês; e escrever de uma forma que todos entendem...!
Como as demais Ciências Sociais, a Antropologia também admite a vigência simultânea de distintos paradigmas teóricos. Importa-lhe menos a teoria escolhida - visto todas serem igualmente respeitáveis - do que o resultado, a qualidade da pesquisa desenvolvida sob sua orientação.
Tolerância que, por um lado, proporciona aos antropólogos ampla e genuína liberdade de escolha do seu marco teórico porém, por outro, revela o quanto mesmo “antes” de realizada, a pesquisa já está impregnada pela personalidade do seu autor, pois a escolha do modelo teórico - metodológico resulta de uma afinidade eletiva e, não de uma imposição acadêmica.
Desse pluralismo de orientações paradoxalmente se origina a relativa previsibilidade de qualquer projeto acadêmico - conversível em critério de avaliação da coerência de seus resultados - pois do marco teórico escolhido pode-se deduzir como e em que direção o pesquisador irá conduzir sua pesquisa, no sentido em que um interpretativista jamais organizará os dados coligidos em campo da mesma forma que um estruturalista o faria e vice-versa.
Posto isso, convém esclarecer aqui que neste trabalho a escolha de Geertz não configura uma afinidade gratuita do pesquisador com o autor americano, e sim um desdobramento lógico, poder-se-ia dizer, até mesmo natural do seu percurso acadêmico, uma vez que o tema de minha dissertação de mestrado foi a influência de um trio de pensadores, naquele contexto, consideráveis três antropólogos avant la lettre - Vico, Herder e Dilthey - sobre a gênese do paradigma culturalista, o qual apesar de haver sido, de início, desenvolvido como uma crítica ao evolucionismo, mais tarde revestir-se-ia dos contornos do relativismo cultural, marcante, característico da visão antropológica de Clifford Geertz.
Ainda, não obstante a importância que se reconhece às contribuições de Hans-Georg Gadamer, e de Paul Ricoeur a obra do antropólogo americano, cumpre sublinhar que foi Dilthey o principal aliado, parceiro, do empreendimento teórico de Geertz, visto ter sido o autor (precursor) do correlato metodológico, do método hermenêutico, que possibilitou a consolidação da Antropologia interpretativa.
1967, Marrocos. O dia amanheceu em Sefrou ; seus habitantes afluem aos bazares sem suspeitar que um estrangeiro atento, avidamente os observa: registra-lhes os gestos, a fisionomia, a variedade - improvável - em uma cidade daquele porte. Mais tarde o estrangeiro conseguirá distingui-los com muito maior acuidade visto haver compreendido o que significa, entre eles, o conceito de “NISBA”, palavra árabe polissêmica simultaneamente traduzível como: “relação”, “correspondência”, “atribuição”, “correlação”, “afinidade” e “parentesco”, da qual os sefrouítas, concretamente, extraem a sua identidade. Em Sefrou, um sefrouíta é, em primeiro lugar, o que sua NISBA diz que ele é.
“Uma vez formadas, as nisbas são normalmente incorporadas aos nomes pessoais - Umar Al-Buhadiwi/Umar da tribo Buhadu; Muhammed Al-Sussi/Muhammed da região Sus - e este tipo de classificação adjetival atributiva é gravada publicamente como parte da identidade de um indivíduo. Não pude encontrar sequer um caso em que um indivíduo fosse conhecido, ou dele se soubesse alguma coisa, mas não se soubesse sua nisba. Na verdade, é mais provável que os habitantes de Sefrou ignorem o padrão econômico de um homem, sua faixa etária, seu caráter pessoal, ou onde ele vive, do que sua nisba, ou seja, se ele é Sussi ou Sefroui, Buhadiwi ou Adluni, Harari ou Darqawi. (Com relação a mulheres que não sejam parentes, a nisba seria provavelmente a única coisa que um homem saberia delas - ou, para ser mais exato, a única coisa sobre elas que lhe seria permitido conhecer.) Os “eus” que se atropelam e se acotovelam nas ruelas de Sefrou adquirem sua definição através das relações associativas com a sociedade que os circunda, relações essas que lhes são atribuídas. São pessoas contextualizadas.” (Geertz, C. O Saber Local, pg. 100, 101)
De regresso a sua terra o estrangeiro dará noticia de um local comparável a um “oeste de filme americano sem bares e sem vaqueiros” implantado em uma cidade muçulmana situada em um oásis cercado de oliveiras a vinte milhas ao Sul de Fez, habitada por “pessoas contextualizadas” - NISBANIZADAS - razão pela qual, não obstante a sua incrível diversidade, são facilmente identificáveis entre si: nativos, migrantes, árabes, berberes, judeus, mercadores de seda, burocratas, alfaiates. Quem imaginaria que “perto de Sefrou, Manhattan parece quase monótona”?
O trecho transcrito acima é exemplar da etnografia de Geertz. Compacta e densamente povoada. A despeito dos seus críticos, Clifford Geertz já tem assegurado o seu lugar na História da Antropologia, visto haver sido, contra a moda teórica do seu tempo, um “Antropólogo do Concreto”.
“Mas seja qual for nossa compreensão - correta ou semicorreta - daquilo que nossos informantes, por assim dizer, realmente são, esta não depende de que tenhamos, nós mesmos, a experiência ou a sensação de estar sendo aceitos, pois esta sensação tem que ver com nossa própria biografia, não com a deles. Porém, a
compreensão depende de uma habilidade para analisar seus modos de expressão, aquilo que chamo de sistemas simbólicos, e o sermos aceitos contribui para o desenvolvimento desta habilidade. Entender a forma e a força da vida interior de nativos - para usar, uma vez mais, esta palavra perigosa - parece-se mais com compreender o sentido de um provérbio, captar uma alusão, entender uma piada - ou, como sugeri - interpretar um poema, do que com conseguir uma comunhão de espíritos.” (Geertz, C. O Saber Local, Petrópolis, Vozes, 2004 pg. 107).