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Com a palavra, o Ser e a linguagem

No documento Paulo Freire (páginas 83-88)

De acordo com Brait (2005), a abordagem bakhtiniana da linguagem resvala

pela abordagem linguístico-discursiva, pela teoria da literatura, pela filosofia, pela teologia, por uma semiótica da cultura, por um conjunto de dimensões entretecidas e ainda não inteiramente decifradas (BRAIT, op. cit, p. 88).

Nas palavras de Souza (2002), em seu estudo Introdução à Teoria do Enunciado Concreto do Círculo Bakhtin/Volochinov/Medvedev

uma investigação concreta dos fatos da linguagem, ou seja, da vida verbal, traz no seu bojo a crítica a outras construções científicas, que se norteiam pelo pensamento abstrato ou idealista na análise dos fatos da linguagem como: a linguística, a psicologia, a estética e a estilística (SOUZA, op. cit., p. 15) .

Entretanto, refutá-las não implicava impugnar sua validade; o objetivo mesmo era acrescentar-lhes abordagens de natureza distinta: fenomenológica, histórica, sociológica, dialógica.

Acerca desse olhar bakhtiniano sobre a linguagem, Fiorin (2005, p. 121)

apóia-se em Williams (1979) para afirmar que a originalidade e o caráter de

vanguarda da concepção de linguagem de Bakhtin estão em tê-la olhado como atividade, como consciência prática, plenamente dimensionada no social; e em interrelacionar sistema e atividade.

Por exemplo, no texto O método formal nos estudos literários, o lugar da linguagem é no interior de uma situação real e concreta. Conforme afirma Brait

(2005, p. 77), ao confrontar o tratamento dado à linguagem neste escrito e em Para

uma filosofia do ato, a diferença entre eles parece residir na proposta de uma análise na qual sejam levados em conta a história, o tempo particular, o lugar da geração do enunciado, de um lado, e os envolvimentos intersubjetivos que dizem

respeito a um dado discurso. Aos envolvimentos subjetivos correspondem a

entonação, o tom do discurso a que Bakhtin se referiu em Para uma filosofia do ato. Em Problemas da Poética de Dostoiévski, Bakhtin (2003, p. 212) esclareceu

que o cerne de seu interesse pelos escritos desse artista da ideia era o discurso, ou

seja, a língua em sua integridade concreta e viva e não a língua como objeto específico da lingüística, obtido por meio de uma abstração absolutamente legítima e necessária de alguns aspectos da vida concreta do discurso. Ainda nesse texto, voltou a falar da linguagem, no interior da discussão acerca das relações dialógicas. A reflexão sobre a linguagem teve seu lugar mais especifico e intenso no

texto Marxismo e Filosofia da Linguagem, assinado Bakhtin\Voloshinov. A proposta

era mostrar o caráter essencial de uma concepção da filosofia da linguagem como

filosofia do signo ideológico, ou filosofia da palavra, da qual o locutor lança mão na elaboração dos enunciados.

Nessa perspectiva, a primeira preocupação do filósofo russo foi esboçar conceitos para situar as considerações sobre o signo verbal, tais como

1) ideologia,

2) criação ideológica, 3) produto ideológico

Assim, ideologia, para Bakhtin\Voloshinov (1997), é marca social, “produto” das condições nas quais estão inscritos os sujeitos:

Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signo não existe ideologia. Um corpo físico vale por si próprio: não significa nada e coincide inteiramente com sua própria natureza. Neste caso, não se trata de ideologia (BAKHTIN\VOLOSHINOV, 1997, p. 32, 33).

Bakhtin (op. cit.) defendeu a indissolúvel relação entre signo e ideologia, apontando os seguintes aspectos:

• o domínio ideológico e o sígnico são coincidentes e de correspondência mútua;

• o valor semiótico, ou seja, linguístico, da ideologia;

• o domínio dos signos abrange os mais diversos campos de criação

ideológica, os quais se relacionam de forma distinta com a realidade, refletindo-a e\ou refratando-a, cada um a seu modo;

• todos os campos de criação ideológica desempenham funções na

organização das relações sociais;

• o caráter semiótico desses campos é que possibilita sejam os signos – fenômenos ideológicos – definidos na mesma perspectiva.

Nessa perspectiva, os signos seriam, além de reflexo da vida real, fragmento desta, materializável como som, massa física, cor ou mesmo movimento corporal. Tais possibilidades de materialização viabilizariam o que Bakhtin\Voloshinov (1997,

p. 33) chamou de estudo metodologicamente unitário e objetivo.

Em síntese, o signo é um fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio

social circundante) aparecem na experiência exterior (BAKHTIN\VOLOSHINOV,

1997, p. 33).

As assertivas de Bakhtin orientam-se na direção de contrapor-se à filosofia

idealista e à visão psicologista da cultura, que consideravam o aspecto exterior do

signo como um simples revestimento, um meio técnico de realização do efeito

Tal equívoco, comum às duas referidas correntes de pensamento, seria decorrente da concepção que situava a ideologia na consciência, um fato desta. Para fortalecer seu ponto de vista contrário, recorreu a Ernest Cassirer (1923, vol. 1),

a quem considerou um kantiano moderno:

Embora continue se situando no terreno da consciência, Cassirer considera que seu traço dominante é a representação. Cada elemento de consciência representa alguma coisa, é o suporte de uma função simbólica. O todo existe nas suas partes, mas uma parte só é compreensível no todo. Segundo Cassirer, a idéia é tão sensorial quanto a matéria: no entanto, o aspecto sensorial introduzido aqui é o do signo simbólico, é uma sensorialidade

representativa (CASSIRER, 1923, apudBAKHTIN\VOLOSHINOV,

1997, p. 33).

O posicionamento de ambas as concepções – a filosofia idealista e a visão psicologista da cultura – defensoras da consciência como o locus da ideologia, estaria desconsiderando as seguintes realidades:

• o material semiótico, como o discurso interior, dá feição à compreensão;

• o embate signo versus signo;

• a consciência origina-se e se desenvolve através dos signos.

Para Bakhtin\Voloshinov (1997), então, a compreensão seria:

• o movimento de aproximação entre os signos – dados e novos;

• resposta – não necessariamente positiva – de um signo a outro;

• deslocamento de elos semióticos que constituem a ininterrupta cadeia de

criação e de compreensão ideológica.

Portanto, a consciência seria o locus do material semiótico, na medida em que se impregna de conteúdo ideológico, e por meio deste dá nova feição ao já existente, ao tempo em que é responsável pela geração de outros novos, nos mais diversos campos de criação ideológica. Todo esse movimento é gerado pelo

encontro de consciências, que se constitui a interação social

(BAKHTIN\VOLOSHINOV, 1997, p. 34, 35).

Entretanto, esclareceu, o ideológico só existe como tal no seu verdadeiro lugar, que é entre sujeitos organizados, mediando sua interação, o que Bakhtin

chamou de terreno interinidividual. Significa que não é suficiente estarem frente a

frente dois homines sapientes para que ocorra a constituição dos signos como tal.

Para isso, a condição seria a organização desses indivíduos em uma unidade social, em cujo interior se constituirá um sistema de signos, combustível e produto da consciência individual:

A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social. Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada. A imagem, a palavra, o gesto significante, etc. constituem seu único abrigo. Fora desse material, há apenas o simples ato fisiológico, não esclarecido pela consciência, desprovido do sentido que os signos lhe conferem (BAKHTIN\VOLOSHINOV, 1997, p. 36).

Então, a palavra é, dentre os signos, o fenômeno ideológico por excelência; como tal, sua função é materializar a comunicação social. Para Bakhtin, alguns aspectos da palavra justificam seja colocada no plano principal dos estudos das ideologias: seu valor exemplar; sua representatividade como fenômeno ideológico; sua nítida estrutura semiótica (BAKHTIN\VOLOSHINOV, 1997, p. 36).

Entretanto, acrescentou

a palavra não é somente o signo mais puro, mais indicativo; é também um signo neutro. Cada um dos demais signos é especifico de algum campo particular de criação ideológica. Cada domínio possui seu próprio material ideológico e formula signos e símbolos que lhe são específicos e não são aplicáveis a outros domínios. O signo, então, é criado por uma função ideológica precisa e permanentemente inseparável dela. A palavra, ao contrário, é neutra em relação a qualquer função ideológica especifica. Pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa (BAKHTIN\VOLOSHINOV, op. cit., p. 37).

Então, Bakhtin\Voloshinov (1997) apontava a neutralidade não na perspectiva da isenção, mas em contraposição aos signos não linguísticos, que pertencem a um campo específico da criação ideológica, nele se mantendo restritos. Para Bakhtin/Voloshinov, a palavra só apresenta a neutralidade quando em seu estado puro, ainda não introduzida no processo da comunicação. A partir do momento em que a palavra faz parte de uma enunciação, ela passa a desempenhar uma função ideológica, ela se impregna de um valor semiótico.

Mas é também a palavra o material utilizado de forma privilegiada na interação da vida cotidiana. Do mesmo modo, é produzida no âmbito do organismo

individual, como produto do consenso entre os sujeitos, sem lançar mão de qualquer

outro instrumento ou material extracorporal. Esse aspecto, fundamentalmente,

instituiu seu papel como material semiótico do discurso interior, responsável pelo desenvolvimento da consciência, graças a sua flexibilidade.

No documento Paulo Freire (páginas 83-88)