Para uma filosofia do ato (BAKHTIN, 2008) contém o embrião do que mais
tarde comporia a filosofia bakhtiniana que coloca a linguagem como mediadora da instauração do homem no mundo. Encontram-se nele já algumas considerações:
a. sobre a linguagem,
Historicamente, a linguagem cresceu a serviço do pensamento participativo e dos atos realizados, e começa a servir o pensamento abstrato apenas nos nossos dias.
Não se deve, é claro, exagerar o poder da linguagem: o Ser-evento unitário e único e o ato realizado que faz parte dele são fundamentalmente e essencialmente expressíveis, mas de fato é essa uma tarefa muito difícil de completar, e embora a adequação plena seja inatingível, ela está sempre presente como aquilo que é para ser alcançado (BAKHTIN, 2008, p. 48-49).
b. sobre a palavra, material através do qual a linguagem medeia os acontecimentos dos quais os sujeitos participam:
a expressão, do interior, de um ato realizado, e a expressão do Ser-evento único e unitário no qual esse ato é realizado, requerem a inteira plenitude da palavra: seu aspecto de conteúdo (a palavra
como conceito) tanto quanto seu aspecto palpável-expressivo (a palavra como imagem), e seu aspecto emocional volitivo (a entonação da palavra) em sua unidade. E em todos esses momentos a palavra plena unitária pode ser responsavelmente válida, isto é, pode ser a verdade em vez de alguma coisa subjetivamente fortuita (BAKHTIN, 2008, p. 48-49).
Ao tratar da palavra, Bakhtin (op. cit.) apresentou o conceito de atitude
efetiva e interessada. Seria a atitude valorativa em relação ao objeto através do uso
da palavra:
Do mesmo modo, a palavra viva, a palavra completa, não conhece um objeto como algo totalmente dado; o simples fato de que eu comecei a falar sobre ele já significa que eu assumi uma certa atitude sobre ele; não uma atitude indiferente, mas uma atitude efetiva e interessada. E é por isso que a palavra não designa meramente um objeto como uma entidade pronta, mas também expressa, por sua entonação, (uma palavra realmente pronunciada não pode deixar de ser entonada, porque a entonação existe pelo simples fato de ser pronunciada) minha atitude valorativa em direção do objeto, sobre o que é desejável e indesejável nele e, desse modo, coloca-o em direção do que ainda está para ser determinado, torna-se um constituinte do evento vivo em processo (BAKHTIN, 2008, p. 33).
Bakhtin colocou então a expressão tom emocional volitivo e conceituou,
definindo seu papel junto ao acontecimento que é o Ser-evento: é um momento
inalienável do ato realmente executado, mesmo do mais abstrato pensamento (BAKHTIN, 2008). Explicou o modo como a entonação se relaciona com o pensamento e seu caráter fundamental na expressão deste:
Nenhum conteúdo seria realizado, nenhum pensamento seria realmente pensado se não se estabelecesse uma interconexão essencial entre um conteúdo e seu tom emocional volitivo, isto é, seu valor realmente afirmado para aquele que pensa (BAKHTIN, 2008, p. 50).
O tom emocional volitivo consiste no movimento responsavelmente
consciente da consciência que torna real, atual, uma ação, antes apenas uma
possibilidade (BAKHTIN, 2008, p. 54):
Nós usamos o termo tom emocional volitivo para designar precisamente o momento constituído pela minha auto-atividade numa experiência vivida – a experimentação de uma experiência
como minha: eu penso – realizo uma ação por pensamento (BAKHTIN, 2008, p. 54) reiterou:
Tratar-se-ia, então, de uma iniciativa direcionada a um estado de coisas em sua totalidade, no âmbito da vida real unitária e única, em busca da expressão da verdade de determinado momento.
Bakhtin (op. cit., p. 58) apontou o ponto de origem da ação responsável e de todas as categorias do dever concreto, único e necessário: o reconhecimento, a afirmação de minha existência, posicionamento repleto de entonação, que o atualiza e lhe atribuiu o caráter de irrepetibilidade. O que só é possível devido à minha unicidade, condição humana inalienável. Desse lugar desprovido de álibi para minha existência, possibilito infinitos contextos de valor, ao subscrever o ato do meu pensar participativo, pois este introduz um tom valorativo que impregna o mundo unitário e único do ato realizado.
Para Bakhtin (2008, p. 72), os valores espaço-temporais e todos os valores
de conteúdo são atraídos por esses momentos centrais emocionais-volitivos em torno dos quais se concentram: eu, o outro e eu para o outro.
Essa assertiva é considerada por Amorim (2009, p. 36) como um ponto da discussão em que é possível uma síntese parcial do pensamento bakhtiniano: o
valor e a emoção consistiriam na relação com o outro e com o Outro; ou seja, valor é
relação, emoção é relação. Aqui estaria a origem filosófica, afirmou a autora, do
conceito de dialogismo presentes em escritos posteriores.
Concebendo o mundo da arte como o que mais se aproxima desse do ser evento, Bakhtin (op. cit., p. 79) analisou aquele para dar uma idéia preliminar de uma
arquitetônica valorativa concreta. Na visão estética, a unidade do mundo é
concretamente arquitetônica. O mundo se organiza em torno de um centro valorativo, constituído pelo ser humano, com o qual tudo está correlacionado.
Reiterando tal assertiva, o autor afirmou:
Tudo nesse mundo adquire significância, sentido e valor apenas em correlação com o homem e com aquilo que é homem - como aquilo que é homem.
Todo ser possível e todo significado possível se dispõe em torno do ser humano como o único centro e o único valor; tudo deve ser relacionado com o ser humano, deve se tornar humano (BAKHTIN,
Em outro ponto da discussão, acenou com um conceito que aprofundaria em
O Autor e o Herói: trata-se da posição de quem contempla algo e sua incidência sobre o valor atribuído ao objeto contemplado. Ao tratar de contemplação, Bakhtin referiu-se não só à posição exterior – mais tarde traduzido por Todorov como exotopia, mas também à relação estabelecida entre a pessoa e o objeto, ou seja, a valoração a ele atribuída pelo sujeito quando da contemplação:
Se eu contemplo um quadro mostrando a destruição e a desgraça inteiramente justificada de uma pessoa que eu amo, esse quadro será completamente diferente, do ponto de vista do valor, quando não tenho nenhum interesse pela pessoa destruída (BAKHTIN, 2008, p. 79-80).
Então, exotopia seria um posicionamento do lado de fora da visão estética
objetivada. Bakhtin (2008, p. 90) apontou a contemplação como a ativa, efetiva
exotopicidade do contemplador com relação ao objeto contemplado. Tratar-se-ia,
afirmou ainda, de um tipo especial de atividade: a objetivada.
Amorim (2009, p. 36) aponta a origem de outro conceito constituinte da arquitetônica bakhtiniana: o mesmo vale para o conceito de cronotopo que parece ter origem aqui quando Bakhtin dialoga claramente com Kant e suas categorias a
priori de espaço e tempo:
(...) todas as relações espaciais e temporais pensáveis adquirem um centro de valores, concentram-se em torno dele em um todo arquitetônico estável e concreto: a unidade possível torna-se singularidade real. Meu lugar ativo único não é apenas um centro geométrico abstrato (BAKHTIN, 2008, p. 77).
Bakhtin (op.cit., p. 77) ressaltou a diferença entre o que chamou de tempo e
espaço matemáticos e tempo e espaço de participação real, este considerado capaz
de garantir àqueles sua realidade valorativa, aproximando-os de uma quase
condição humana: como se os investisse de carne e sangue. Forjado para tratar especificamente para o âmbito da literatura, o cronotopo é uma unidade
espaço-tempo dotada de valor (Amorim, 2009, p. 36).
Bakhtin (2008) tinha como objetivo fazer
uma representação, uma descrição da arquitetônica real, concreta do mundo dos valores experimentados – não com uma fundação analítica à frente, mas com aquele centro real, concreto tanto
espacial quanto temporal, do qual surgem avaliações, asserções e ações, e onde os membros constituintes são objetos reais, interconectados por relações-eventos no evento único do Ser (BAKHTIN, op. cit., p. 78).
Assim, dentre as concepções acerca de fenômenos constituintes da arquitetônica descrita por Bakhtin em Para uma filosofia do ato, alguns dos quais mais tarde receberiam alguma denominação dada pelo próprio filósofo ou por
tradutores, encontramos: linguagem, palavra, consciência.
Além das concepções acima mencionadas encontram-se: as relações entre o mundo e o homem, sendo este o centro em torno do qual aquele se organiza; trata-se do dialogismo, o eixo, o princípio norteador da filosofia bakhtiniana. Tal princípio estaria subjacente, por exemplo, às relações espaço-temporais, as quais também só mais tarde receberiam uma denominação.
O aparecimento do conceito de linguagem já nesse primeiro escrito de Bakhtin confirma sua antiga preocupação com esse fenômeno, que foi tomando consistência em outros textos nos quais tratou dessas questões, conforme ele mesmo apontou: O método formal nos estudos literários; Marxismo e Filosofia da
Linguagem e Problemas da Poética de Dostoievski, datados do fim dos anos 1920,
período no qual se encontraria uma concepção comum de linguagem (FARACO, 2003, p. 87). No tópico a seguir, mapeamos o percurso desse conceito nessas obras mencionadas pelo próprio Bakhtin.