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Com Edison Carneiro, na “trincheira do folclore”

1 AS TRAVESSIAS DO CIDADÃO-DE-ARCO-E-FLECHA DO INTERIOR DO PARÁ ATÉ BELÉM, RIO DE JANEIRO E

1.2 O MOÇO VICENTE SALLES PARTE NUM ITA PARA O RIO DE JANEIRO

1.2.2 Com Edison Carneiro, na “trincheira do folclore”

A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB) foi criada em 1958,50 no governo do presidente Juscelino Kubitschek, como resultado de um movimento que se iniciou com a instalação, no Rio de Janeiro, do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), em 1946, e da Comissão Nacional do Folclore (CNF), em 1947. A criação da CNF incentivou a organização de entidades regionais nas diversas capitais brasileiras. O IBECC era a representação nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), fundada em 1945, portanto, logo depois da Segunda Guerra Mundial.

A criação da UNESCO esteve vinculada, entre outros fins, à necessidade de reconhecimento e valorização da cultura dos povos e a preservação do patrimônio cultural das nações em oposição às ideias totalitárias nazifascistas que estiveram no cerne da guerra, assentadas sobre a crença na superioridade de uma raça. Nesse contexto, o folclore se tornava um fator de valorização da cultura no intuito de alcançar uma identidade nacional, uma das bandeiras mais ativas do movimento modernista desde 1922, quando da realização da Semana de Arte Moderna, em São Paulo.

Intelectuais de áreas distintas da ciência e das artes participaram daquele movimento, que visava à institucionalização do folclore. Podem ser citados, entre eles, Renato Almeida, um dos principais articuladores, Gustavo Barroso, Arthur Ramos, Oneyda Alvarenga, Luís da Câmara Cascudo, Villa-Lobos, Gilberto Freyre, Cecília Meirelles, Rossini Tavares de Lima, Joaquim Ribeiro, Roquette-Pinto, Edison Carneiro, Guilherme dos Santos Neves e Manuel Diegues Junior (SOARES, 2009).

A criação da CDFB significava o ápice do movimento e de sua institucionalização. Pretendia, assim, chegar às universidades,51 com o ensino do folclore como disciplina, além de fomentar a criação de museus, bibliotecas e o estabelecimento de correspondentes em todo o Brasil. Fizeram parte do grupo de trabalho que a instituiu os expoentes políticos

50 Pelo Decreto 43.178 de 5 de fevereiro de 1958, sancionado pelo presidente da República, Juscelino

Kubitschek.

51 A trajetória do movimento do folclore no Brasil e sua institucionalização, com a criação da Comissão

Nacional de Folclore (CNFL) e a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB), estão bem documentadas e analisadas na obra Projeto e missão: o movimento folclórico brasileiro, de Luís Rodolfo Vilhena (1997). De acordo com o autor (1997, p. 106), foram celebrados convênios com as Universidades do Ceará e da Bahia para a realização de levantamentos do folclore naqueles estados.

do movimento: Renato Almeida, José Simeão Leal, Manuel Diegues Jr., Joaquim Ribeiro e Edison Carneiro (Figura 15).

De acordo com Maria Elisabeth Costa (2012, p. 20), essa equipe elaborou um programa baseado em três linhas de atuação: 1) Levantamento, pesquisa e documentação dos fatos folclóricos, 2) Proteção dos folguedos e 3) Inclusão das manifestações folclóricas no processo educativo formal a fim de complementar os meios tradicionais de transmissão informação da tradição folclórica.

A campanha começou a funcionar sob a direção do pesquisador de música Mozart de Araújo, indicado pelo próprio ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado, no governo de Juscelino Kubitschek (1956–1961). Araújo permaneceu no cargo por três anos, enfrentando restrições orçamentárias. Em 1961, convidado pelo presidente Jânio Quadros, Edison Carneiro substituiu Araújo, sendo mantido no governo de João Goulart (1961– 1964). Nesse período, considerado o auge da campanha (VILHENA, 1997), organizou uma equipe formada por Vicente Salles; o jornalista e folclorista pernambucano Bráulio do Nascimento; a atriz paraense Cléa Simões; o artista gráfico Mauro Vinhas de Queiroz, que produzia as capas dos livros da Editorial Vitória, editora do Partido Comunista

Figura 15: Edison Carneiro, ao centro (terno claro), entre funcionários da Campanha e convidados, na inauguração da Biblioteca Amadeu Amaral, em 1961. Fotografia cedida pela família de Vicente Salles. Reprodução: Rose Silveira.

Brasileiro; a folclorista Arminda Camargo, que atuava como executiva; e Heloísa Ramos, viúva de Graciliano Ramos, como secretária.

Edison Carneiro estabeleceu como metas de sua gestão, alinhadas ao programa geral da CDFB, compilar e organizar documentos fotográficos e fonográficos; inaugurar uma biblioteca especializada em folclore e criar a Revista Brasileira de Folclore. Pretendia ainda criar um museu e uma escola de folclore (COSTA, 2012, p. 20). De todas, a única não realizada foi a escola, e o museu foi criado depois de sua gestão, inaugurado em 1968 em homenagem a ele – Museu de Folclore Edison Carneiro.

Participar da campanha, entre outros aspectos, foi uma oportunidade para que Salles trabalhasse com Bráulio do Nascimento (Figura 16), de quem já era amigo por correspondência desde 1950. À época em que se conheceram, Bráulio era um dos editores

da Revista Branca, publicação criada em 1948, por ele, Saldanha Coelho, Haroldo Bruno, Rocha Filho, Augusto Franco e Nataniel Dantas.52

A revista destinava-se à divulgação da literatura e da crítica literária produzidas no Brasil e em outros países, tornando-se, em pouco tempo, uma referência no mercado editorial brasileiro. “Revista Branca em homenagem ao Marcel Proust, que tinha La Revue

52 Cf. REVISTA BRANCA.

Figura16: Vicente e Bráulio do Nascimento (centro) na inauguração da Biblioteca Amadeu Amaral, em 1961. Fotografia cedida por Vicente Salles. Reprodução: Rose Silveira.

Blanche, uma revista também de jovens. E o Vicente passou a trabalhar conosco como colaborador, a participar do grupo”, rememora Bráulio.53

Circulando nas principais capitais, a revista chegou às mãos de Vicente Salles quando ele já estava entrosado no meio intelectual de Belém. No número que trazia encartado o edital de um concurso de contos, Salles encontrou o contato de Bráulio e começou desde então a trocar correspondência com o jornalista. Nessas trocas, a direção da revista acabou aceitando patrocinar um concurso de contos idealizado por Vicente dedicado a autores paraenses, vencendo o ator e diretor de teatro Cláudio Barradas, que, décadas depois, ordenou-se padre. Trabalhando juntos na campanha, Bráulio e Vicente estreitaram a amizade e, com o tempo, já se consideravam irmãos.

As diretrizes da campanha tiveram importância na formação de Salles. Em texto destinado à celebração do centenário de Edison Carneiro promovida pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), declarou que o trabalho com o antropólogo baiano foi uma universidade. “[...] foi o melhor professor que tive na vida. Fiz uma universidade formal, mas a informal – o contato com o mestre e com folclore – foi a responsável pela minha formação” (SALLES, 2012c, p. 48). Vicente Salles ressalta, nesse aspecto, a metodologia de trabalho de Edison Carneiro de delegar tarefas, dando autonomia aos funcionários da campanha na realização delas.

Por exemplo, a Vicente coube, inicialmente, organizar uma biblioteca especializada em folclore, conquistada a partir de doações recebidas pela campanha. “A tarefa mais importante da minha vida. Ora, montar a biblioteca do folclore, eu que não era biblioteconomista, apenas um executor de tarefas”, declarou. A Biblioteca Amadeu Amaral foi inaugurada em 1961, em homenagem a um dos pioneiros dos estudos de folclore no Brasil, um dos primeiros a defender a autonomia do folclore como disciplina, a criação de um museu de folclore, uma biblioteca especializada e a articulação entre os estados através de correspondentes. Atualmente, a biblioteca que o homenageia integra o CNFCP e reúne inclusive os documentos produzidos pelo próprio Salles quando de sua participação na CDFB.

Em seguida, coube a ele editar os boletins bibliográficos do IBECC para a Comissão Nacional de Folclore, como demanda de Renato Almeida, e do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD), substituindo Edison Carneiro, a

53 Entrevista em 6 de setembro de 2013, na Biblioteca Amadeu Amaral, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (RJ).

pedido do próprio. Salles também o substituía por vezes nas aulas de Bibliografia do Folclore, no curso de Biblioteconomia da Biblioteca Nacional, e no Instituto Villa-Lobos.

Para lidar com esses conhecimentos, Vicente aprendeu com o antropólogo a dominar sistemas de classificação utilizados em Biblioteconomia, mesmo sem ter habilitação na área. Deu preferência à Classificação Decimal Universal de Bruxelas, ou Sistema Decimal Universal, ao sistema Dewey, usado pela Biblioteca de Washington, pela Escola de Biblioteconomia e pela Biblioteca Nacional, por uma razão ideológica: é um sistema norte-americano.

Essa experiência o conduziu a outra que se tornou instrumental e, ao mesmo tempo, indutora de seu processo criativo como pesquisador: a produção de bibliografias. Essa técnica consistia, inicialmente, na elaboração de fichas contendo resumos analíticos das obras, sistematizadas por aproximação temática, e depois disponibilizadas à consulta pública. Toda obra de Vicente Salles foi produzida, portanto, a partir dessa metodologia, estendendo-se o tratamento às fontes primárias: documentos, recortes de jornais, arquivos sonoros e imagéticos etc. A coleção que leva seu nome no Museu da Universidade Federal do Pará também se baseia na Classificação Decimal Universal de Bruxelas, conforme a organização original feita por ele.

A propósito, na apresentação de Os mocambeiros e outros ensaios, Vicente Salles destacou sua preocupação com a elaboração de bibliografias analíticas “num país tão carente de trabalhos desta natureza”.54 E informa que esta pesquisa fazia parte da

“Bibliografia do negro brasileiro, preparada ao longo do tempo para a Fundação Nacional Pró-Memória, dentro do Projeto Etnias e Contextos Culturais, coordenado na época por Olympio Serra” (SALLES, 2013a, p. 8).

Comentando, nas entrevistas, um pouco mais a respeito desse trabalho e da publicação da bibliografia, ele sustenta:

Com o fato de você publicar a bibliografia, você tem uma grande responsabilidade, que é a leitura do livro, a intimidade do livro, não apenas a visão técnica com que fazem, em geral, os bibliotecários que arrumam as estantes: sabem classificar, sabem a sua topografia, mas não sabem, muitas vezes, o conteúdo. O grande problema das bibliotecas é a parte extremamente técnica daquela mão-de-obra e a pouca oportunidade que eles tiveram, têm [_] interesse de ler o livro – senão eles perdem tempo também.

54 No Catálogo de Obras de Vicente Salles, editado pela Academia Brasileira de Música (2009), constam nove

bibliografias, entre elas, Bibliografia Analítica do Folclore Brasileiro (Funarte/Instituto Nacional do Folclore, 1984); Memória Bibliográfica – Cabanagem (MicroEdição do Autor, 2004) e Bibliografia Analítica do Artesanato Brasileiro (Funarte/Instituto Nacional do Folclore, 1984). Cf. SALLES, 2009.

A respeito da organização de bibliografias, a socióloga Glaucia Villas Bôas, que estudou o acervo da Biblioteca Nacional relacionado às ciências sociais, entre os anos de 1945 e 1966, também verificou a escassez dessa produção naquela instituição. Para ela, ainda se atribui pouca importância a esse conhecimento entre os pesquisadores da área – o que pode ser estendido à pesquisa em ciências humanas.

Apesar do avanço da pesquisa científica no Brasil, do sistema nacional de pós-graduação e da formação de pesquisadores, parece que o entendimento da importância das bibliografias é acanhado, sendo necessário ensinar aos jovens que se iniciam na pesquisa o uso desses meios insubstituíveis de trabalho. As consequências do descaso pelas bibliografias são muitas. Primeiro, a falta de informação sobre livros e revistas constantes em acervos de bibliotecas e arquivos contribui para o desconhecimento e a ausência de diálogo com a tradição de intérpretes e conhecedores do Brasil. Segundo, o fato de não se recorrer às bibliografias concorre para que a produção do saber, sobretudo na área das ciências sociais, corra o risco de repetição ao invés de seus avanços (VILLAS BÔAS, 2007, p. 20–21).

Acrescente-se a esse aspecto do trabalho de Vicente Salles o fato de não se acanhar em citar fontes. Seus livros, por vezes, trazem muitas notas de referência no rodapé das páginas, esclarecendo ao leitor a respeito das informações citadas. Para ele, a circulação da informação é o mais importante, possibilitando a recuperação e o compartilhamento de fontes e referências.

Outras tarefas surgiram entre 1962 e 1963, quando Edison Carneiro mobilizou a equipe para a produção do Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro, registrando a música proveniente de rituais de umbanda, candomblé, folia de reis e pastorinhas do Rio de Janeiro. Salles participou especialmente da documentação de rituais de umbanda e de candomblé em terreiros da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense, nesta ordem: o famoso Terreiro João da Gomeia, em Duque de Caxias; Tenda Caboclo Tupinambá, da ialorixá Mariazinha, na Praia do Pinto (onde hoje é o bairro do Leblon); Tenda de Maria Conga, em Realengo; e Tenda de Caboclo Tupinambá, na favela do Jacaré, na Zona Norte do Rio.

É importante informar que Edison Carneiro, vivendo na Bahia até o início da década de 1940, pesquisou os terreiros de candomblé a ponto de se tornar um ogã (ajudante), envolvendo-se ativamente em questões políticas sobre a defesa da liberdade de culto e de funcionamento das casas. Circulava entre as lideranças religiosas, era respeitado por elas e, nesse contexto, entre 1938 e 1939, acompanhou e orientou a antropóloga norte- americana Ruth Landes no desenvolvimento da pesquisa sobre a figura feminina nos

terreiros: o clássico A cidade das mulheres, cuja edição brasileira, de 1967, recebeu a revisão e notas de Carneiro.

No Rio, as gravações, na maior parte, foram feitas pela equipe da Rádio MEC. A exceção foi o registro no Terreiro de Maria Conga, realizada por uma equipe da BBC de Londres, em articulação da antropóloga argentina Juana Elbein dos Santos. Ela não fazia parte da equipe da campanha, mas aproximou-se de Edison Carneiro, pedindo-lhe consentimento para participar do trabalho, e ele aprovou o pedido. “Vê como a mulher era esperta, espertíssima essa mulher. A equipe dela era nada mais, nada menos que a equipe da BBC de Londres! Aquela aparelhagem inglesa!”, comenta Salles, chamando a atenção para outro ponto: tão intensa foi a vivência da antropóloga com a umbanda, por meio da pesquisa participativa, que ela acabou se convertendo, tornando-se mãe de santo na Bahia, onde se casou com Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos), pai de santo de renome. “É muito perigosa para o pesquisador a pesquisa participante, porque você acaba aderindo”, declarou, dando pistas sobre sua conduta diante de fatos e sujeitos abordados, e a questão da religiosidade em sua vida.

Mas é interessante observar que a pesquisa participativa, muito utilizada nas Ciências Sociais – Antropologia, Etnografia, Sociologia – e em História, apresentava uma perspectiva política ao pesquisador e aos sujeitos envolvidos em seu trabalho. Por esse método, o pesquisador compreende a necessidade de reduzir, ou eliminar, a distância entre ele e o outro, para que se estabeleça uma relação dialógica e colaborativa – algumas variáveis sugerem que o outro construa com o pesquisador o percurso da pesquisa. É o caso da pesquisa ação.

O pesquisador pode se pautar por uma observação participante na qual entram as entrevistas livres e as narrativas de histórias de vida, o que pressupõe a expressão das subjetividades tanto do entrevistado quanto do entrevistador. De acordo com o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão (1984, p. 13), o outro não é apropriado como um objeto, torna-se “um sujeito vivo mas provisório da ‘minha pesquisa’”. Indo a um ponto caro ao método e suas implicações políticas, sustenta que, nessa relação de alteridade, o sujeito entrevistado torna-se “companheiro de um compromisso cuja trajetória, traduzida em trabalho político e luta popular, obriga o pesquisador a repensar não só a posição de sua pesquisa, mas também a de sua própria pessoa” (BRANDÃO, 1983, p. 13).

Salles, de um lado, distanciou-se do “perigo” de aderir aos aspectos religiosos das pesquisas ao não se envolver, muito menos se converter. Por outro, integrou-se ao ponto de vista dos seus sujeitos – o que será visto melhor no segundo capítulo. Este último

aspecto, de ter por onde olhar os sujeitos, vale tanto para as pesquisas antropológicas, as que ele realizou como folclorista e musicólogo em vários estados brasileiros, como as historiográficas, nas quais se valeu de outras ferramentas de coleta e análise de fontes.

Na observação de Marena Salles, que o acompanhou em diversas atividades de campo, responsabilizando-se pela transcrição em partituras do material sonoro, ele se tornava “um igual”, falando o mesmo linguajar dos caboclos da Amazônia, por exemplo. “Ele se torna uma pessoa do povo quando pesquisa. Por isso que ele tem um acesso fácil. Eu acho que isso é que é a diferença de alguns pesquisadores que vão com aque la empáfia. Nisso consegue muito mais informação”, argumenta.

A serviço da campanha, Salles e técnicos da Rádio MEC, num total de três pessoas, no máximo, viajaram por várias cidades brasileiras, documentando manifestações de todos os tipos. “Norte, Nordeste. Alguns pontos, não atingi. Eu gostaria de ir, por exemplo, para o Acre, que eu sempre sonhei em chegar ao Acre, mas não consegui. Mas do Rio Grande do Sul ao Amapá eu tive presença física. Até Manaus eu tive presença física, Amazonas”, recorda. E iam no carro da CDFB, ou no carro particular de alguém da equipe, munidos de equipamentos de som pesadíssimos: “Um trabalho para atleta carregar um aparelho que pesava 24 quilos”, relembra, informando um pouco mais sobre os procedimentos da pesquisa de campo, a coleta e o tratamento das fontes.

O Edison Carneiro me determinou várias tarefas dentro da pesquisa urbana e, não diria rural, mas interiorana. Isso me levou muitas vezes... Ele me despachava a fazer, por exemplo, uma pesquisa no Triângulo Mineiro, onde eu passava um tempo fazendo a pesquisa. A ir a Cuiabá, ao entorno de Cuiabá. A ir a São Paulo e algumas localidades, sempre por ocasião em que aconteciam os fatos folclóricos. Isso fazia com que o pesquisador entrasse em contato direto com o objeto da pesquisa e deixasse de especular o lado da informação [...] aquilo que vem pela imprensa. Aquilo que vem pela imprensa é sempre o produto de um interesse que chamam de divulgação, que, na verdade, acaba sendo, hoje principalmente, de venda de padrões de informação [...]

A menção à imprensa como fonte nesse trecho suscita sempre uma via de mão dupla: de um lado, a crítica à “indústria cultural”, tema recorrente em suas argumentações, sobretudo quando em defesa do folclore, ou cultura popular – conceitos indistintos para ele. De outro, sob influência de Gilberto Freyre, Salles considerava os jornais fontes privilegiadas para o entendimento das relações de poder em uma sociedade, como foram os anúncios de jornais na compreensão da engrenagem escravista e do tráfico de negros escravizados.

A documentação sonora obtida durante aquelas pesquisas de campo, além de compor a base de dados da campanha, passou a ser divulgada no programa que Vicente produzia para a Rádio MEC entre 1963 e 1964: O assunto é... Folclore.55 Com duração de 30 minutos e irradiado aos sábados, o programa era temático, iniciando-se com uma explicação sobre o conceito de folclore, ou folk-lore, como os locutores, diversificados, marcavam a pronúncia da palavra. Em seguida, era apresentado o tema do dia, podendo ser a capoeira, o samba, a música de feitiçaria, o pastoril, as pastorinhas, os causos e as personalidades, como o cangaceiro Lampião e o maestro César Guerra-Peixe, para citar alguns.

Havia ainda a propaganda oficial dos produtos e serviços públicos oferecidos pela CDFB, que a esta altura funcionava na rua Pedro Lessa, 35, 6º andar. Entre esses produtos estava a Revista Brasileira de Folclore, editada por Bráulio do Nascimento. A publicação, iniciada em 1961, reunia artigos, resenhas, bibliografias, informes sobre cursos, exposições e festivais folclóricos. Tornou-se leitura obrigatória entre especialistas e o público interessado no tema, circulando até 1976 e totalizando 41 fascículos. Mas a campanha também promovia premiações, como o Concurso Sílvio Romero de Monografias, ainda vigente, cursos e outros eventos.

Pessoalmente, esse foi para Vicente Salles um momento ímpar em sua trajetória como pesquisador, atuando sob a orientação direta de Edison Carneiro, que era, para ele, um mentor intelectual. Foi nessa atmosfera que o antropólogo sugeriu ao discípulo um trabalho acadêmico sobre o negro no Pará, o que Salles acatará, projetando esse trabalho para a monografia de conclusão de curso. Eles discutiriam a respeito de fontes e procedimentos. Edison Carneiro orientaria os primeiros passos daquela pesquisa, leria seus resultados iniciais.

Era um momento afortunado viver, na prática, o percurso de uma pesquisa que havia iniciado, de forma insuspeita, naquelas andanças com o poeta Bruno de Menezes. Por sinal, a nota triste do ano de 1963 foi a morte do velho amigo. Em 2 de julho, representando o Pará em um festival folclórico em Manaus (AM), Bruno de Menezes sofreu um enfarto fulminante. No dia seguinte, foi velado na Academia Paraense de Letras e enterrado no Cemitério de Santa Izabel, em Belém.

55 Na vinheta de abertura do programa, a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro é apontada como

colaboradora da produção. O programa de estreia, sobre o samba de partido alto, foi ao ar provavelmente no dia 5 de outubro de 1963.

Não só Bruno de Menezes, mas o violonista e compositor paraense Tó Teixeira, negro, seria uma figura de importância na formulação daquela pesquisa, por sua história