A
UM significa tanto, tantas, e tão transcen-dentes coisas que, se o pronunciamos inde- vidamente, podemos evocar, em resposta, tremendos poderes, os quais podem causar incalculáveis desa- venças e misérias. Por isso não se deve pronunciar esta fórmula mágica em estado de cólera ou com fi- nalidades puramente egoístas, nem tampouco quan- do nos sentimos possuídos de impulsos instintivos grosseiros e indignos. Estes procedimentos desenca- deariam consequências terríveis e fatídicas.
A maioria das pessoas não percebe este impor- tante fato e pronuncia estas palavras de significação sagrada em qualquer circunstância, sem tom e sem som, provocando assim, ignorantemente, escapes de tremendas forças que, não encontrando nelas veículos adequados de expressão, redemoinham dentro e fora do indivíduo, criando nele confusão e caos e predis- pondo-o assim, para toda a classe de misérias que, inexoravelmente, não deixam de tomar corpo nele.
Ao evocar estas forças ingentes, extraímo- las de nossa própria Consciência e do ambiente suprassensível, místico, do universo. Quando se pronuncia uma maldição contra alguém ou alguma coisa, o autor ou maledicente se sente como veículo de forças superiores que cumprem uma missão; sente-se
possuidor e possuído de certos poderes ameaçadores de extraordinária efetividade. O supersticioso crê, então, que obra em nome dos mais santos desígnios, e da própria divindade.
Por isso as maldições sempre se realizam, e somente são próprias e dignas unicamente de indivíduos de mente primitiva e plena de paixões inferiores. As
forças superiores não devem nem podem ser utilizadas para motivos inferiores; neste caso ocasionam atos
criminosos, porquanto se recorre a poderes de que as vítimas não suspeitam ou não esperam que atuem contra elas. Não é outro o motivo pelo qual nas antigas escrituras sagradas se vedasse completamente o uso do nome de Deus em vão. Por isso mesmo os Mistérios Sagrados sempre foram reservados no que diz respeito à sua administração àqueles indivíduos de comprovada retidão e probidade e de especial preparação mística.
Os “sacramentos” nada mais são do que meios de empregar as forças superiores mediante a invocação da divindade. Desta maneira se toma a própria divindade como testemunho do que se faz. Se o Oficiante é sincero, estas forças atuarão, não importa que se as evoque por motivos perversos ou indigno. O que sucede é que estas forças têm sua raiz no mais profundo de nosso ser e, em sentido místico em todas as coisas, e qualquer evocação, embora seja de forma ignorante, elas são “energizadas” ou colocadas em ação. Somente quando estivermos nas melhores disposições mentais devemos nos entregar a meditação e a evocação das forças superiores (Buddhi), a Consciência Cósmica inerente ao Espírito Santo. Desta maneira se consegue
os maiores poderes da vida. Quando aprendermos a dispor nossa mente para que sirva de veículo adequado às forças que pretendemos colocar em ação, poderemos, com certeza, obrar edificantemente e conseguir operar verdadeiros milagres, isto é, fatos notáveis que a natureza demoraria séculos, idades ou éons para realizar de forma semelhante.
Normalmente se requer muita circunspecção e uma sinceridade à prova do menor desvio para propósitos negativos ou destruidores e, ainda, uma devoção incondicional, para poder dedicar-se ao domínio do infinito como o pressupõe as práticas da Alta Magia com o uso dos Tattwas e da fórmula AUM. Mas, ai daquele que, acreditando-se com direitos, se arroga prerrogativas não merecidas e, assim, faz uso indevido de AUM!Não recomendamos a ninguém recorrer a estes transcendentais meios se não cursou previamente os elementos fundamentais desta Ciência Secreta. E acrescentamos ainda: antes de cometer desatinos com as forças superiores, é mil vezes preferível ignorá-las, pois elas estão latentes em todo ser vivente e se avivam e despertam tão logo se as evoca por meio de uma fórmula mágica.
AUM é a mais transcendente de todas as fórmulas mágicas, porém os rituais de Alta Magia e os Sacramentos Religiosos e, também, as evocações simbólicas das escolas gnósticas são poderosos motivos que criam canais para essas forças superlativas. Na verdade, qualquer atitude mental resoluta, profunda e definitiva serve igualmente de canal, pois se consegue com ela excitar forças antes adormecidas ou que
simplesmente esperavam um empurrão ou um veículo adequado para expressar-se.
Devemos ter muito cuidado com nossos estados mentais, sobretudo quando se caracterizam por pro- fundas funções da consciência. As resultantes podem ser extraordinárias e grandiosas se os motivos são edificantes e dignos; daninhas se são negativos, pois os motivos denegridores e deprimentes ou, ainda, ba- seados em falsidades ou apreciações errôneas, deter- minarão consequências prejudiciais e destruidoras, dando origem a condições ignominiosas e a misérias sem conta, tanto para as pessoas a quem vão dirigi- das como para quem as promove.
É óbvio que existe uma base moral de caráter “natural” na função inteligente das forças da natureza, as quais não podem ser manejadas impunemente. Mas quando as colocamos em ação, com sentido edificante, elas se constituem em fontes de inefável felicidade. Nisto se baseia todos os mistérios dos tão decantados “poderes mentais”, pois tudo se reduz a utilização consciente das forças da natureza pelo mero funcionamento das faculdades que constituem a engrenagem da inteligência, e cujo bom manuseio se circunscreve a uma técnica em concordância com os desígnios da Natureza Universal. O pensamento harmonioso que tem seu fundamento em noções enaltecedoras e se assenta em princípios fidedignos é edificante por si mesmo, tanto para quem o alenta como para os que o recebem ou recolhem.
A maioria dos acontecimentos da vida se baseia em tais funções, mas não chegamos a nos dar conta
disto porque nunca nos detemos em pensar com su- ficiente atenção em sua natureza e, por conseguinte, não chegamos a compreender quais são suas verda- deiras causas. Atribuímos tudo ao “acaso” e à “sorte”, palavras que ninguém sabe definir com exatidão ou, então, há um “Deus” que dispõe tudo de acordo com razões inescrutáveis; em outros casos, imputamos a esses acontecimentos “de motivos inexplicáveis”, o que não passa de cômodo subterfúgio de nossa fan- tasia para desculpar nossa própria ignorância ou jus- tificar nossa vaidade e deficiências em relação ao que está acontecendo.
A PROVIDÊNCIA
A
vida se desenvolve velozmente, independente de nossas previsões ou de nossa insensatez, e isto faz com que a consideremos como algo indefinível e imprevisível; geralmente desfere golpes repentinos, cuja origem desconhecemos. Porém, um atento exa- me, corroborado pela experiência, nos faz ver que a vida nada mais é, em cada caso individual, do que o disposto pela própria mente, ou seja, assim como pen-samos, assim somos e vivemos. Pensar é ser e é viver!
Todo pensamento definido, claramente exposto e suficientemente sustentado, cedo ou tarde se converte numa brilhante verdade. Nisto não existe outra coisa além da magia do jogo funcional que constitui a coordenação das forças mentais.
Em que consiste então a Providência, essa be- névola cornucópia, eterna e sobrenatural, que tanto seduz a fantasia dos estultos e “pobres” de espírito? Do nosso ponto de vista1, a noção e conceito da Pro-
vidência não é mais que um recurso para subornar a credulidade humana, pois nos afaga sobremaneira utilizando para isto lugares e criaturas fantásticos; se fossem verdadeiros, teriam realizados nossos mais queridos anseios e os nossos mais acariciados sonhos.
Assim sendo, a pessoa desperta e de grande
1 Aqui se trata da opinião pessoal do autor do livro e seu entendimento
imaginação, versada em cosmologia e animada pelo desejo de satisfazer sua mais clamorosa sede de justiça, na qual se sentem viver os iludidos com suas ânsias irrealizáveis, teria a feliz oportunidade de idear um ser onipotente de suma mercê, que se compadeceria de todos os infelizes e os proveria abundantemente, em um certo momento, de tudo quanto os homens necessitam para viver folgadamente em eterna comunhão com a divindade suprema, em plena felicidade.
No decorrer dos tempos, esta fantasia teve a virtude de manter a “esperança” de milhares de pessoas, às vezes com resultados realmente profícuos, pois tem sido fonte de verdadeiras conquistas e conseguiu que, por causa dessa mesma fé, os homens tivessem valor para persistir em seus esforços frente as mais variadas adversidades. Mas, por outro lado, à sombra de tais noções, muitos que nunca acreditaram no que predicam, souberam tirar proveito da ignorância e paciência de suas próprias vítimas que, por certo, foram a “providência” para aqueles aos quais proporcionaram bem estar material, ou seja, aos quais eles elegeram como “guias” e “condutores”.
Estes têm sido os erros próprios da ignorância e malignidade humanas, e não nos devemos deter muito neles, senão, unicamente o necessário para particularizá-los, pois nosso propósito não é meramente criticar e encontrar falhas nas crenças alheias, mas sim, ir atrás de realizações e em busca da verdade.
Para nós, pois, a providência é a própria capacidade da função mental de produzir efeitos consequentes com seus esforços, isto é, conseguintes às causas
promovidas. Tal pensamento, produz tal realidade; aquele pensamento aquela outra manifestação. Dito de outra maneira, tudo na vida se reduz a pensamentos, em maior ou menor quantidade, que cobram atualidade e extensão, e se cristalizam em forma de realidades.
Não existe uma “potência provedora” sobrenatural, quer se chame “Deus”, “providência” ou “graça”. Em nenhum reino da natureza universal encontraremos uma conta corrente bancária contra a qual possamos sacar, nem “dispensário” algum que nos abasteça gratuitamente do que necessitamos. Se existisse tal poder, com tais atribuições, ou coisa parecida, não seria achado a não ser nos foros íntimos de nosso próprio ser. Queremos com isto dizer que “a fonte provedora” é nossa função mental, ou então, que o pensamento é quem provoca todas as possibilidades. O restante ocorre como por acréscimo. Porém em tudo isto não existe nada de misterioso, como nos contos de fadas ou dentro da ótica teológica.
O pensamento é a atividade ou função da energia mental. Sendo assim, a atitude faz o pensamento ter
determinado “valor”. Se o pensamento é profundo, in- tenso e insistente, pode fazer com que os Tattwas se atualizem. Então manifesta-se criador. Se, por outro lado não chega a tanto, pode ser qualificado de mera- mente edificante. Se seu caráter é simples, débil, sem transcendência, ou melhor, negativo, as consequências são correspondentemente insignificantes ou destruidoras.
Daí se estabelece que o caráter de nosso pensamento determina a importância de nossa vida e a valia de nossos atos. Em outras palavras, o
pensamento constitui a tônica de nossa vida. Quanto mais transcendente é o pensamento, mais criador e cheio de benefícios resulta. Por isso mesmo quando alguém consegue uma determinada conquista de significação filosófica ou mística, se exclama em louvor: “mais força para ti!”
Efetivamente, quanto mais exato, intenso e insistente é nosso pensamento, mais criador se faz. Sua própria consumação, como função mental, produz novos estados de consciência, provoca novas realizações e esplendentes visões, aumenta o horizonte de nossas percepções e, por último, nos engrandece.
Verdadeiramente o pensamento “engrandece”. Em primeira instância, eleva o caráter, dá firmeza aos nossos sentidos, estabelece normas enaltecedoras e, por fim, esclarece os diversos problemas da vida. Tudo isto é um milagre ainda mais maravilhoso que “caminhar sobre as águas”, “deter a marcha do sol”, “separar as águas do mar”, “converter a água em vinho” ou fazer com que um vil metal se transforme em reluzente ouro, considerando que tudo isto seja realmente factível.
Se conseguirmos transformar nossos desejos e impulsos, nossos pensamentos e sentimentos, ou nossas emoções e imaginações em vontade, podemos ter a certeza de que realmente conseguimos efetuar o mais significativo de todos os milagres, a mais mara- vilhosa obra de “transmutação” de que nos possamos vangloriar; a vontade é, todavia, mais valiosa, por ser real e efetiva. Uma vez conseguido isto, já não existe “impossibilidades” no curso da existência.
Não esqueçamos, porém, que a “possibilidade” não é senão a soma de todas as efetivas realizações accessíveis à inteligência, dentro do infinito. Com isto não queremos dizer que o infinito se diversifique, mas, sim, que assume múltiplas formas de aparência em suas qualidades reflexas. Não é que o infinito se manifeste, pois não poderia fazê-lo sem deixar de sê- lo. Só o “finito” é manifestável. Mas, no manifestado, percebe-se o fundamental e o eterno que subjaz em tudo, como característica inconfundível do “infinito”; a isto chamamos “valor”. As “possibilidades”, portanto, são infinitas na mesma proporção em que existem ocasiões ou oportunidades de expressarem-se nas mais diversas formas.
A inteligência é a capacidade que temos de conseguir oportunidades de expressão variável e diversa no infinito e, igualmente, de compreender suas possibilidades. A inteligência colocada como contribuição em prol de aspirações edificantes ou motivos nobres, contribui para o desabrochar da consciência metafísica, ampliando o campo de ação da mente. Esta função, em suas fases e aspectos superiores, constitui um contato com a Consciência Universal ou Cósmica (Tathagathata), a qual já convencionamos chamar Consciência Mística.
Por conseguinte, é óbvio que as possibilidades têm suas “raízes” no próprio ser, em nós mesmos, e não no infinito, ou em outras palavras e com mais exatidão, têm suas “raízes” precisamente em nossos processos de expansão e em nossos estados e con- dições de consciência metafísica. Deve-se agregar a
isto que a condensação do pensamento, ou seja, o torná-lo mais denso, que é uma precipitação de ener- gia, tem a virtude de modificar os estados e as condi- ções de consciência metafísica ou cognoscitividade e, portanto, criar oportunidade de expressão para maiores possibilidades.
Não existe, portanto, outra Providência que não seja o produto de nossos contatos ou comunhão com a Consciência Universal. Os pensamentos criam as oportu- nidades e as possibilidades surgem do seio do Infinito2.
Quanto maiores sejam os motivos de nosso inte- resse mental, mais tensos e precisos serão os pensa- mentos, ou seja, nossas funções energéticas e biopsi- cofisiológicas3.
2 Consulte-se, para uma melhor compreensão deste assunto, a obra “A
Sugestão Criadora”, do mesmo Autor.
3 A obra “Os Fundamentos da Vida”, também do mesmo autor, esclarece