ELABORAÇÃO DO DSC FINAL 431 ANEXO PROJETO DE PESQUISA
1 COMO NOS ENCONTRAMOS IMPLICADOS NOS NOSSOS OBJETOS DE ESTUDO?
Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos – e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? [...] Quanto ao mais da vida, as chamadas ‘vivências’, qual de nós pode levá-las a sério? Ou ter tempo para elas? [...]
(NIETZSCHE, 2013a, p. 7) No prólogo da obra “Genealogia da Moral”, Nietzsche faz a reflexão acima epigrafada com nuance paradoxal ao referir-se aos homens do conhecimento que não conhecem a si mesmos. Quem demorar um pouco mais no texto citado, poderá ler ainda o que o autor escreve sobre as experiências presentes, quando, por vezes, estamos ‘ausentes’ e, supostamente, somente depois perguntamos “surpresos e perplexos inteiramente ‘o que foi que vivemos?’, e também ‘quem somos realmente?’” (NIETZSCHE, 2013a, p. 7).
Ainda que estas considerações sejam parte de uma argumentação própria do autor - sujeita a contestações e discordâncias - do texto de Nietzsche destaco uma pergunta para iniciar este estudo: qual a relação das nossas vivências com nossas escolhas de pesquisa? Nietzsche (2013a, p. 9), na obra citada anteriormente, rememora que as questões relacionadas à origem do bem e do mal o incomodavam numa idade em que tinha seu coração dividido “entre brinquedos e Deus” e considerou tal reflexão como primeiro exercício filosófico.
Hess (2005, p. 26) em “Produzir sua obra: o momento da tese” pergunta “Como nos encontramos implicados nos nossos objetos de estudo?”. Para o autor essa é uma das questões centrais das pesquisas em ciências humanas e um caminho para o ato de escrever. Partindo desta pergunta de Hess, inspirada pela escrita autoral de Nietzsche, prosseguirei por esta “estrada” a partir da relação do meu objeto de estudo com vivências3 que,
3 Inicialmente destaco que neste texto, dependendo do assunto tratado nas seções, será utilizado tanto a explicitação na primeira pessoa do singular quanto na terceira pessoa, de acordo com as circunstâncias, levando em
possivelmente, impulsionaram a busca por novos conhecimentos por ocasião do desenvolvimento desta tese doutoral.
Em primeira experiência mais profunda com pesquisa acadêmica (SILVA, 2014), durante três anos dediquei-me a investigar os fundamentos éticos mobilizadores dos líderes de bibliotecas comunitárias criadas no Brasil para a instalação e manutenção destes espaços e respectivos serviços. Tendo como objeto de interesse e trabalho os espaços e serviços públicos de leitura e cultura, eu ainda não havia pensado sobre muitas questões que esses líderes de bibliotecas comunitárias expressaram em suas narrativas sobre as ações que realizavam. Ao encontrá-los e dar voz a estas pessoas, oriundas de diversas formações e ocupações, que alteraram o curso de suas vidas para liderar estes trabalhos, com posicionamentos e reflexões que poderiam contribuir potencialmente com o fazer da classe profissional bibliotecária, muitas perguntas se estabeleceram como possibilidades para eu prosseguir pesquisando.
Uma questão em especial, assim que percebida, acompanhou-me durante toda a pesquisa: a possibilidade da biblioteca instituída como pública, mantida pelo orçamento do Estado, ser sentida por algumas pessoas como um espaço que privilegia determinados setores da sociedade, um espaço não inclusivo. O empenho desta pesquisa se deu no sentido de escutar o bibliotecário, agente atuante em bibliotecas públicas estatais, para colher sua percepção acerca desta possibilidade, conhecer o que compreende como exclusão social. Entretanto, não parte somente das questões oriundas da pesquisa desenvolvida anteriormente. Ao refletir sobre os motivos que me conduziram a sentir, perceber e eleger o tema da exclusão social (relacionando-o com o bibliotecário atuante em bibliotecas públicas estatais) para os estudos de doutoramento emergem outras nuances do meu vivido.
Como neta e filha de mulheres católicas (apostólicas romanas), predominantes em minha formação, da infância eu recordo ser esta religião uma parte de minha identidade, talvez a mais marcante. Ainda que compartilhando o mesmo ambiente com outras pessoas, meu desenvolvimento até meados da minha consideração que ora os assuntos correspondem a uma corporeidade, ora não.
adolescência se deu mediante as concepções de viver segundo regras católico-cristãs, tendo como parceiros constantes o sentimento de renúncia e resignação, o temor sobre o julgamento divino, a busca pela “vida eterna” prometida aos seus seguidores, a fuga do diabo e das tentações, lamentando a sorte dos que supostamente vão para o inferno e outras questões inerentes a muitas pessoas que estão inseridas e comprometidas com estas doutrinas. Quando criança vivia em sobressalto de imaginar que, se a morte me “abraçasse” e eu tivesse algum pecado não confessado, poderia ser condenada a uma infinita tormenta. Um ambiente com pouca abertura para a diversidade, com uma única opção, um único caminho, ensinado como ‘verdade’. Um ambiente em que com frequência excluímos e somos excluídos por pessoas e grupos de pessoas. Um ambiente em que incluímos e somos incluídos por grupos específicos.
A influência da arte, principalmente a musical, na percepção do momento em que escrevo, serviu de contraponto, como outra referência. Por certo, não teria outra possibilidade de contato com crenças e direcionamento de vida diferentes, não fosse a vivência com manifestações artísticas que despertaram em mim grande apreciação: os choros com seus ritmos de maxixe que fomentaram a umbigada; a admiração por Clara Nunes e outros intérpretes que cantavam músicas com o ritmo do candomblé; Vinícius de Moraes com poesias musicadas que exaltavam outras entidades espirituais; Chico Buarque com seus versos que pareciam incitar a mulher e a desordem com sedução; sambistas boêmios que evidenciavam em suas canções um estilo de vida, um ambiente e um feminino muito diferente do aceito na realidade preponderante construída em meu ambiente familiar.
Na adolescência, um tempo em que pude transitar com meu corpo por outros lugares e “descolar” dos laços familiares, o envolvimento com outras crenças religiosas, com pessoas que vivenciavam outras expressões artísticas como teatro, dança, bem como o engajamento com movimentos políticos, por exemplo, representaram um “descortinar”, uma possibilidade de reinventar meu vivido. Também, a experiência de mudar de cidade aos 15 anos, de viajar e compartilhar a vida privada com um companheiro com outra cultura, foram algumas das situações
que, creio, também aguçaram o meu olhar capacitando-me a perceber questões promotoras de exclusão social.
Iniciar este texto a partir da contextualização particular de quem escreve não configura necessidade de exposição da vida privada, mas sim um desejo de coerência na escolha teórico- metodológica. Friedrich Nietzsche não está no início deste escrito por acaso. De vários filósofos lidos para dar início à pesquisa, seus estudos e suas vivências se me impuseram como significativos no contexto pretendido, assim como o foram Vilém Flusser e o sociólogo Alfred Schutz. Estes constituem o eixo teórico-filosófico e sustentam o caminho metodológico que direcionou o estudo. Inicialmente, pode-se expor que Nietzsche e Flusser, em especial, como investigadores da ação e conduta humana também formularam desta maneira seus escritos, assumindo a relevância de suas vivências pessoais e ocupando- se em situar “de onde falam”.
Em 2012, logo que terminei minha dissertação de mestrado, fiz uma viagem por três países da América do Sul. Em território boliviano, embarquei num ônibus que me conduziria de La Paz a Cochabamba e encontrei um companheiro de viagem também brasileiro que buscava no roteiro turístico um tempo de reflexão diante de um suposto desencontro amoroso de sua vida (ao que me pareceu). Trazia em seu discurso o pensamento de Nietzsche, seu autor predileto, que eu pouco conhecia. Todas as ideias da pesquisa que eu acabara de concluir e que pretendia estender como pesquisa de doutorado não ficaram na Universidade, em Florianópolis. Viajaram comigo e estavam presentes nas cenas, nas situações cotidianas enquanto viajava em países que, como o Brasil, tinham um contexto semelhante de dominação e exploração humana e territorial. Foi impossível não fazer conexão entre todas estas ideias e o discurso em “conversa solta” de meu novo companheiro de viagem “nietzschniano”.
Logo após iniciada a rotina de estudos em doutorado, em reuniões com o grupo de pesquisa4 que faço parte, o nome e nuances do pensamento do filósofo estavam novamente diante de mim e se demonstraram relevantes no contexto que eu procurava para formular a tese, no sentido de buscar a essência
4 Grupo de Pesquisa Informação, Tecnologia e Sociedade (Grupo ITS) - http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/0253206695837277
da valoração moral, o sentido presente no discurso dos bibliotecários. No estudo, Friedrich Nietzsche (1844-1900) contribuiu com várias ideias mas principalmente a partir de suas reflexões (e de sua própria vida) sobre a origem da moral, sobre a valoração do bem e do mal, perseguindo um caminho a partir da linguagem e qualificação (ou desqualificação) moral, ou seja, em que contexto se designou certas coisas como sendo boas ou más.
Como Nietzsche e outros estudiosos, Vilém Flusser entende a realidade não como algo dado, mas como construção, como possibilidade. Flusser morou no Brasil por mais de 30 anos, de 1940 até o ano em que nasci, 1972, e escreveu dentre outras a obra “Fenomenologia do brasileiro” (FLUSSER, 1998), que auxilia no entendimento deste povo tomado a partir do olhar assumidamente estrangeiro adotado pelo autor.
Flusser aprendeu com Husserl (1859-1938) - reconhecidamente a maior referência da corrente filosófica da fenomenologia - que a vida não é descoberta; que a vida é doação de significado, uma reverente e espantada nomeação dos fenômenos. (BERNARDO, 2011, p. 17)
Nietzsche e Flusser, conforme ressalta Bernardo (2011, p. 17), aproximam a filosofia (e a fenomenologia) e arte e tal aproximação é instigante uma vez que a partir destas duas áreas – arte e filosofia – pode-se “ver o que não via”. Ambos propagaram a ideia de inventar a si mesmos e inventar o mundo da vida cotidiana. “Nada é verdadeiro [...] agora podemos deixar nossa força criativa brincar para inventar verdades que sirvam à vida e que a intensifiquem", “quero ser o autor da minha vida” – diria Nietzsche (SAFRANSKI, 2011, p. 285, 295).
Tais autores oferecem o eixo central do quadro teórico- metodológico adotado para esta pesquisa proposta ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PGCIN) na linha “Organização, Representação e Mediação da Informação e do Conhecimento” – Eixo “Profissionais da informação, competência informacional e leitura”, que se particulariza pela temática relativa aos aspectos humanos e sociais. São identificados como filósofos que trataram da vida com todas as suas possibilidades de criatividade e invenção (SAFRANSKI, 2011; BERNARDO, 2011). Ambos buscaram proposições na perspectiva em que me “encaixo” na ciência, na ideia filosófico-científica, que se
demonstra coerente com minha visão de mundo, ou seja, fenomenologicamente.
Sob a perspectiva do pensar fenomenológico, almeja-se voltar às coisas mesmas, voltar às essências. Para Sokolowski (2012), evidenciar como as coisas são. Ao descobrir os objetos de estudo, enfatiza o autor, descobrimos a nós mesmos, como “dativos de revelação, como aqueles para os quais as coisas aparecem” (SOKOLOWSKI, 2012, p. 12). Nesse caso, dentro do contexto de sociedade, um terceiro autor, Schutz, se apresenta como uma fonte de diálogo importante no meu processo de estudo.
Alfred Schutz compôs uma sociologia sobre a fenomenologia de maneira sistemática e abrangente (WAGNER, 2012) e do quadro geral da sociologia fenomenológica de Schutz foram extraídos os fundamentos uma teoria subjetiva da ação humana (ação no mundo da vida) e sobre o mundo das relações.
Schutz (2012, p. 81) ao mencionar as investigações de Husserl destaca a importância dos movimentos corporais para a constituição do mundo exterior. Nietzsche, Flusser e outros estudiosos que serão interlocutores nesta pesquisa, expõem suas ideias consoantes com um olhar fenomenológico, isto é, com a valorização do sensorial e trazem como potencialidade uma coerência teórica e metodológica requerida pelo estudo que busca o sentido presente em discursos, na linguagem, na interação. Ocupam-se em explicar o mundo da vida a partir dos fenômenos que se constituem em si mesmos, nas pessoas, a partir do que sentem, no âmbito de suas subjetividades.
Husserl (1990), reconhecido como o grande mentor do conceito filosófico de fenomenologia no século XX, preconiza que os fenômenos se dão nas pessoas e estão inicialmente nas sensações, em suas subjetividades inerentes. O termo fenomenologia não eclode em Husserl, entretanto, ele atribuiu um conteúdo novo para o termo. Ao comparar, por exemplo, Husserl com seus antecessores que também empregaram o termo - Kant (sob a influência de J. H. Lambert5) e Hegel – é possível afirmar que “enquanto a fenomenologia kantiana
5 Discípulo de Cristian Wolf, filósofo alemão que viveu de 1679 a 1754,
é no texto de Lambert intitulado “Novo órganon”, em 1764, que figura pela primeira vez o termo fenomenologia como a teoria da ilusão em suas diferentes formas. (DARTIGUES, 2008).
concebe o ser como o que limita a pretensão do fenômeno ao mesmo tempo em que ele próprio permanece fora de alcance”, inversamente, na fenomenologia proposta por Hegel “o fenômeno é reabsorvido num conhecimento sistemático do ser” - a fenomenologia de Husserl preconiza que “o sentido do ser e o do fenômeno não podem ser dissociados”. (DARTIGUES, 2008, p. 11).
Uma ideia central é a de “volta às coisas mesmas” que, para Husserl, não seria um lugar celeste onde as ideias teriam sua residência caindo na especulação metafísica, mas a consciência – já que é como vivências de consciência que as ideias se dão a nós. Para não reduzir essas ideias a fenômenos psíquicos Husserl recorre à noção de intencionalidade. (DARTIGUES, 2008).
Consciência é um termo que também precisa ser contextualizado neste estudo à luz da corrente fenomenológica, entretanto, para sua melhor compreensão, inicialmente, faz-se necessária a apreensão do termo intencionalidade, que representa uma “doutrina nuclear em fenomenologia” e aplica-se à teoria do conhecimento não à teoria da ação humana, onde é mais associado. (SOKOLOWSKI, 2012, p. 17). O uso da palavra na fenomenologia implica uma relação entre consciência e objeto que fornece uma maior compreensão do lugar da fenomenologia nas ciências. (SOKOLOWSKI, 2012).
Na relação entre consciência e objeto, a consciência será sempre a consciência de algo ou de outrem – este é o princípio da intencionalidade, a consciência de alguma coisa que só é quando dirigida a um objeto. (SOKOLOWSKI, 2012; DARTIGUES, 2008). Essa ideia é relevante no entendimento das ciências de tradições cartesianas em que a consciência era tomada como um gabinete fechado, impressões e conceitos ocorrem nos limites deste espaço, um predicamento egocêntrico que é rompido com a fenomenologia que entende a consciência como coisa pública, fora de seus limites, estabelecendo que mente e mundo são correlatos. (SOKOLOWSKI, 2012). Husserl (1990) denominará como nóese a atividade da consciência e como nóema o objeto constituído por essa atividade, no qual a consciência aparece como se projetando para fora de si própria em direção a seu objeto e o objeto como se referindo sempre aos atos da consciência. O objeto só será definido quando em
relação com a consciência será sempre um objeto-para-um- sujeito. (DARTIGUES, 2008).
Consciência e objeto também são conceitos explorados mediante os termos imanência e transcendência: o primeiro vinculado ao ente, ao ser, sua consciência e o segundo, os objetos em si, que são vinculados ao ser, mas encontram-se fora dele. (HUSSERL, 1990). Dartigues (2008) esclarece que se o objeto é sempre um objeto-para-uma consciência, as essências não existem fora do ato de consciência que as visa e do modo sob o qual ela os apreende na intuição.
Quanto à intuição, trata-se de outro termo que pode ter interpretação inadequada e necessita esclarecimentos para o contexto abordado. Intuição, na fenomenologia concebida por Husserl é a intuição intelectual das essências ou significações (CHAUÍ, 2000). Sokolowski (2012, p. 42, 43, 44) destaca que não se trata de “algo místico ou mágico”, mas de termos presente para nós algo em detrimento de intencionarmos em sua ausência. Fenomenologicamente, a intuição é possível quando estamos diante do “objeto” - as chamadas intenções cheias - e quando este objeto deixa de estar presente não há intuição, estamos de volta às intenções vazias.
O discurso filosófico deve constantemente estar em contato com a intuição para não se dissolver em especulações vazias, o que Husserl chama de princípio dos princípios, já que se pretende, com o exercício filosófico proporcionado pela fenomenologia, voltar às coisas mesmas. Se os fenômenos nos chegam pelos sentidos, os mesmos são dotados de sentido, de uma essência – para além dos dados dos sentidos, a intuição será uma intuição da essência ou do sentido. (DARTIGUES, 2008).
Surge outra questão relevante no âmbito da fenomenologia para esta pesquisa, as noções de presença e de ausência, que conforme Sokolowski (2012, p. 42, grifo do autor) são “correlatos objetivos para intenções cheias e vazias”.
As coisas são dadas numa mistura de presenças e ausências [...] Nessa interação de presença e ausência, atenção especial deve ser dada, filosoficamente, ao papel da ausência, da intencionalidade vazia. De fato, a ausência é geralmente negligenciada e evitada: tendemos a pensar que tudo aquilo
de que temos consciência deve estar atualmente presente para nós; parece que somos incapazes de pensar que podemos verdadeiramente intencionar o que está ausente. Nós nos esquivamos da ausência até quando ela está toda em nossa volta e nos preocupa todo o tempo. [...] (SOKOLOWSKI, 2012)
O autor continua mencionando alguns sentimentos próprios do ser humano que não podem ser compreendidos exceto como resposta a uma ausência sentida: esperança, desespero, arrependimento, saudade – sentimentos ligados a passado e futuro. A vivência do passado e do futuro, do distante, do desconhecido, do imaginado é também uma vivência para além da que vivemos no presente com nossos cinco sentidos. (SOKOLOWSKI, 2012, p. 45).
O empenho da fenomenologia será o de analisar as vivências intencionais da consciência para perceber como nelas se produzem o sentido dos fenômenos, o sentido desse fenômeno global que se chama mundo. Metaforicamente, trata- se de distender o tecido da consciência e do mundo para tornar aparentes seus fios, tão finos que não apareceriam na atitude natural. (DARTIGUES, 2008).
Para Husserl (1990) a atitude natural é o senso comum. O senso comum é elemento primordial deste tipo de pesquisa. O senso comum pode ser a atitude de um cientista ou de um homem da rua, leva em consideração que o indivíduo está no mundo “como algo que o contém ou como uma coisa entre outras coisas, perdido sobre uma terra, sob um céu, entre objetos e outros seres vivos ou conscientes e, até mesmo entre ideias, que encontrou ‘já aí’ independente de si próprio.” (DARTIGUES, 2008, p. 24 ).
A atitude natural é, portanto, diferente da atitude fenomenológica. Enquanto na primeira estamos imersos em nossa postura original, orientada para o mundo ao intencionar coisas, situações e fatos, na segunda (também chamada de atitude transcendental) estamos com postura reflexiva sobre a atitude natural e sobre todas as intencionalidades ocorridas dentro dela. (SOKOLOWSKI, 2012, p. 51).
incorporados às representações de um grupo profissional específico, e estas são baseadas nas crenças e costumes dos indivíduos, no senso comum. Na análise fenomenológica, o senso comum é matéria-prima. Para o conhecimento de uma realidade social, não se leva em consideração uma hipótese causal ou genética, mas o senso comum e suas inúmeras interpretações pré-científicas e quase-científicas sobre a realidade cotidiana, que admite como certas. Para descrever a realidade do senso comum temos de nos referir à mesma, as suas interpretações. Cada indivíduo possui sua perspectiva de mundo, seu projeto que pode conflitar com o de outros, mas compartilham um mundo vivido em comum, de significados correspondentes. A atitude natural é a do senso comum, via de expressão humana. (BERGER; LUCKMANN, 2007). É a realidade por excelência, impondo-se sobre a consciência das pessoas de maneira ordenada, objetivada e ontogenizada. (ARAYA UMAÑA, 2002).
A Teoria das Representações Sociais (TRS), de Moscovici, que serviu de fundamento para o instrumental metodológico empregado neste estudo, elege como campo de trabalho o senso comum e o saber popular. Para Moscovici (2009, p. 60) “cada fato, cada lugar comum esconde dentro de sua própria banalidade um mundo de conhecimento, determinada dose de cultura e um mistério que o fazem ao mesmo tempo compulsivo e fascinante”.
A fenomenologia reconhece a realidade, “o modo como as coisas aparecem é parte do ser das coisas”. (SOKOLOWSKI, 2012, p. 23). Alguém que não esteja acostumado com a utilização de tais métodos e pressupostos teórico-filosóficos poderá fazer perguntas como a que simulou Dartigues (2008): “[...] para captar a profunda intenção de uma atitude ou de um ato e, portanto, para compreendê-los, bastará deixar-se impressionar por sua aparência imediata, limitar-se à intenção simples que o sujeito enuncia?” Também Sokolowski (2012) levanta outra questão: “O que dizer das alucinações e enganos? Às vezes as coisas não são como elas parecem. Podemos achar que vemos um homem, mas damos a volta e é só um arbusto [...]”
Um comportamento pode não ter nenhum sentido aparente e terá que ser tratado como desprovido de sentido, como é o caso de atitudes neuróticas ou psicóticas. Entretanto, é
necessário admitir que a compreensão do outro e a