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ECOSSISTEMA DO LINUX E A EMERGÊNCIA DO OPEN SOURCE

3. TÉCNICAS DE APROPRIAÇÃO: TRABALHO, VALOR

3.1 COMO SE GANHA DINHEIRO COM SOFTWARE LIVRE?

O objetivo desse capítulo é realizar uma análise das relações de trabalho, de compartilhamento e de apropriação estabelecidas entre empresas e comunidades a partir do software livre e através do open source, tomando o open source como linguagem, método de produção e modelo de negócio. Realizo um estudo de caso sobre o desenvolvimento de um sistema operacional baseado no Linux para uma linhagem de computadores móveis da NOKIA, buscando indicar e descrever a ocorrência do aproveitamento econômico de um tipo de trabalho disperso, diluído e quase imperceptível. Um trabalho de inovação realizado em rede e por uma rede, o qual conecta e atravessa indivíduos, grupos e coletividades que interagem e produzem informação, tecnologia e conhecimento.

Acompanhei este processo desde 2008, estimulado pela curiosidade em torno de um negócio: a aquisição da empresa norueguesa TROLLTECH pela finlandesa NOKIA. Uma transação de 155 milhões de dólares209 pelos copyrights

comerciais, pelo know-how e pela liderança (condução) do desenvolvimento da plataforma Qt, uma tecnologia open source de desenvolvimento de interfaces gráficas (GUI) que possuía grande potencial para ser aplicada no desenvolvimento de sistemas embarcados multiplataforma.

Esta operação representou um importante movimento na direção da adoção de uma estratégia open source por parte da NOKIA em um contexto e em um momento de risco, pois realizada na ocasião em que o mercado, no qual a NOKIA ocupava a liderança absoluta de operações, se tornava mais complexo e competitivo para seus negócios devido à entrada novos players (APPLE e GOOGLE) e do lançamento comercial de novos dispositivos no mercado – como o

209Cf.:

http://arstechnica.com/information-technology/2008/01/nokia-buys-trolltech-will-become-a-patron-of-kde / . Para informações complementares e outras indicações de materiais que repercutem esse acontecimento, consultar o ANEXO WK-13.

iPhone e aqueles baseados no sistema operacional Android, sobretudo os da SAMSUNG.

Antes de abordar diretamente este caso e seus desdobramentos, considero necessário reconstituir alguns aspectos importantes da evolução da relação entre software livre e mercado. Considero pertinente como ponto de partida uma questão com a qual é bem provável que todos os entusiastas, defensores, estudiosos e militantes do software livre já tenham se deparado pelo menos alguma vez. Uma questão que é muito comum de ser evocada diante dos primeiros contatos com os conceitos e os produtos do software livre, e que parece acompanhar o SL desde sua criação, uma vez que desde o manifesto GNU, Richard Stallman (1985) já se preocupava em responder a uma formulação bastante próxima.

Quando o software livre é apresentado a alguém pela primeira vez é muito comum que, após a apresentação das implicações da liberdade para o acesso e o uso do código fonte, do funcionamento das redes de cooperação, e do potencial do desenvolvimento técnico através da colaboração originar tecnologias cada vez mais robustas e eficazes, não é nada raro o interlocutor, ainda não familiarizado com o tema e a abrangência de suas implicações, devolver o seguinte enunciado, muitas vezes acompanhado de uma expressão de espanto ou de surpresa:

Mas... e como se ganha dinheiro com isso aí se é de graça... se não é preciso pagar pelos programas210?!

Não deixa de ser interessante notar em relação a esse ponto, que o espanto expressado neste enunciado seja causado por uma certa naturalização da ideia da propriedade e, também, de uma certa supremacia da propriedade

210 A formulação toma a seguinte forma no Manifesto GNU: "Os programadores não irão morrer de

fome?". Rafael Evangelista (2010: 138-139) traz uma interessante análise de como a resposta de Stallman,

apesar de apontar que uma “outra organização do modelo de negócios em torno do software” surgirá a partir do software livre, não especifica as bases dessa outra organização. E, ainda, destaca que Stallman admite a possibilidade de perda de valor do trabalho do programador, e aposta na banalização da atividade de programação, a qual, é importante destacar, não é vislumbrada como algo negativo.

sobre o trabalho, contida na percepção que considera mais óbvia e mais lógica, a relação entre o software proprietário e a remuneração dos programadores que o desenvolveram. Ou seja, uma naturalização da relação do trabalho alienado, que fica evidente pois o produto do trabalho é tomado como algo naturalmente produzido para ser alienado. E que, por isso, aparece como um regime de trabalho e de produção mais próximo do real ao ser portador de uma lógica – ou sentido social – mais inteligível do que o produto de um trabalho que não é separado de seu processo social de produção.

No Brasil, por volta de 2003, questões como a contida neste enunciado eram recorrentes. Na virada dos anos 1990 para os anos 2000, o uso de computadores ainda estava muito associado ao uso da plataforma Windows da MICROSOFT, e o cenário de distribuição do acesso às tecnologias digitais marcado pela exclusão ou fronteira digital211. A este arranjo sócio-técnico

correspondia uma economia-política que consolidava um padrão tecnológico proprietário que cobrava pelo acesso, restringia a circulação do conhecimento, e informava uma relação de uso de tipo usuário-consumidor. No plano político, este tipo de relação não pressupõe uma relação de conhecimento sobre o funcionamento do computador e sobre quais processos são executados durante este funcionamento. Implica uma escolha por uma suposta eficiência do funcionamento do aparelho em detrimento do controle, comando, autonomia e liberdade que se tem sobre e através deste processo. Um dos segredos do sucesso do Windows era que o usuário podia simplesmente usar o computador, sem ter de se preocupar com a parte operacional, que sempre podia ser resolvida por uma terceira parte. Como consequência do código fonte ser fechado, o conhecimento passa a ser raro e, em alguns casos, até mesmo impossível.

Dessa forma, a difusão da ideia do software como mais um objeto de consumo disponível na paisagem capitalista do mercado, foi acompanhada também pela difusão da imagem do programador como o nerd que

invariavelmente ficaria rico e poderoso – vide o célebre enunciado “nerd today,

boss tomorrow” – em virtude de dominar esse conhecimento raro e cada vez mais

valorizado212.

Diante desse cenário, não era de se estranhar que os conceitos e métodos do software livre, ao proporcionarem outras práticas de uso, de interação com a tecnologia e de produção de conhecimento, contrariavam a percepção comum. Como afirma Christopher Kelty (2008), esta práticas diferentes pareciam “violar a

lógica econômica e os princípios da posse privada e da autonomia individual”. Daí

também o espanto de perceber que ao invés de um gênio e uma empresa global impulsionando o desenvolvimento técnico, tínhamos redes que praticavam uma colaboração impessoal e descentralizada, que congregavam milhares de programadores ao redor do mundo, muitos deles atuando voluntariamente e por prazer. E ao invés de um produto fechado e baseado numa estratégia centralizada e secreta, um novo ambiente informacional cujo potencial se confundia com a capacidade cognitiva e energética das próprias redes de inteligência que o informavam.

A raiz desse espanto ou estranhamento acredito que possa ser encontrada na ambiguidade entre as ideias de liberdade e gratuidade. Menos pela questão de nome decorrente dos sentidos possíveis do termo free em inglês (grátis e livre), trata-se de uma questão pragmática, uma questão técnica: aquilo que se pode

fazer com um código livre regulado por licenças livres.

A implicação deste regime legal de licenciamento é que o lançamento do código implica na possibilidade dele ser usado para qualquer fim e de ser compartilhado sem restrições desde que replique este regime adotando a mesma licença em suas versões futuras e derivadas. Dessa forma, mesmo que alguém tenha o direito de cobrar por seu desenvolvimento e por sua distribuição, não

212A autoria do enunciado citado entre parênteses é atribuída a Bill Gates, o fundador da Microsoft, considerado no final dos anos 1990 como o homem mais rico do mundo e, para muitos, o mais inteligente também. Seu nome era, na ocasião e em menor escala até hoje, tomado como sinônimo de gênio. E a ele atribuía-se a responsabilidade pela revolução tecnológica causada pela popularização dos computadores pessoais e mesmo do avanço computacional daquela década.

poderá impedir seu uso e seu compartilhamento.

Contudo, se não se pode impedir o uso e o compartilhamento, não é obrigatório pagar pelo acesso. E se não é obrigatório pagar pelo acesso, não de se estranhar que a primeira pergunta que geralmente é suscitada é: por que, então, alguém pagará?

A ambiguidade livre-gratuito somente se realiza, no entanto, justamente pela ocorrência do contrário da ideia contida nessa questão: pois que, mesmo não sendo necessário pagar, enormes mercados se abrem interessados em pagar. Ou seja, mesmo estando todos os códigos disponíveis, não se trata de apenas poder

usar, mas de saber usar e de fazer funcionar. Assim, como já foi mostrado com

bastante pertinência por Eric Raymond (1997), paga-se pelo know-how e por serviços associados: instalação, customização, desenvolvimento de novos códigos, suporte, manutenção, entre outras atividades que podem complementar, corrigir, desenvolver e adaptar o código a um uso específico ou a uma necessidade particular.

No entanto, enquanto o software livre ainda se aproximava de um público maior ao começar a se tornar conhecido e, por que não, popular, sendo assimilado e apreendido como comum, já era uma realidade muito instigante para várias empresas. Yochai Benkler (2006), em seu importante livro “The Wealth of the

Networks” invoca um forte exemplo de um novo modelo de negócio que, nessa

mesma época, surgia em torno de um regime de não-exclusividade sobre o código.

Como podemos ver na tabela abaixo, extraída de seu texto que acabo de citar, já em 2003 a IBM lucrara dois bilhões de dólares com “serviços relacionados

ao Linux”. Mais do que o dobro do que lucrou através de licenciamento,

transferência e royalties de propriedade intelectual. Apenas 4 anos após começar a praticar esse tipo de negócio, e logo depois de acumular, nos 10 anos anteriores, a incrível marca de 29.000 patentes registradas, que garantiu a IBM o posto de maior produtora de patentes do mundo (2006: 46-47).

FIGURA 04: «Selected IBM Revenues, 2000-2003» (BENKLER, 2006)

Fica evidente, portanto, que o enunciado recorrente sobre como ganhar dinheiro com software livre não fazia muito sentido para corporações que, utilizando a terminologia de Benkler, conseguiam estabelecer uma profícua relação de complementaridade e até mesmo de simbiose com as redes de produção do software livre.

Diante disso, podemos concluir que, na verdade, o enunciado do espanto expressa um certo descompasso entre a cultura e a técnica, ou, talvez com mais precisão, entre a cultura e a economia política de um emergente novo modo de produção. Este descompasso será analisado adiante, e o interesse é interrogar: em que medida ele é, no mínimo, funcional para esta nova economia política? Que tipos de conflito este descompasso informa e enseja?

Benkler chama essa relação de complementar, se não simbiótica, pois informa que neste ano de 2003, a IBM, em contrapartida, investiu mais de um bilhão de dólares contratando desenvolvedores de software livre, alocando alguns deles no desenvolvimento do kernel do Linux; outros, em projetos até mesmo fora de seus domínios, mas estratégicos para seus negócios; e doando patentes para FSF213.

O termo simbiose é forte, pois implica numa inter-relação de caráter obrigatória, que pode acarretar especializações funcionais entre as espécies envolvidas. No caso de Benkler, considero que a ideia de complementaridade ou simbiose é levantada para mostrar que a IBM não estaria apenas se alimentando das redes, mas também contribuindo para expansão de seu ecossistema. Esse ponto é central, pois é justamente nessa relação de expansão/contração do comum que procuraremos identificar as zonas de conflito e a prática de acumulação por espoliação realizada sobre – para utilizar a terminologia deste autor – a riqueza das redes.

Voltando ao enunciado sobre “ganhar dinheiro com software livre”, talvez ele estivesse mais direcionado para aqueles que desenvolvem os códigos, ou seja, para o trabalho; e buscasse perguntar: por que os programadores trabalhariam de graça para desenvolver programas que geram lucros bilionários para grandes empresas?

Nessa linha, a conversa ficaria, de fato, muito mais interessante. Pois não estaria questionando o potencial da inteligência e da esperteza do sistema capitalista em se apropriar de riquezas produzidas coletivamente ou sobre bens e meios comuns – algo que, ademais, é próprio do capitalismo e que está relacionado com sua emergência/criação, com suas raízes, como podemos ver desde os escritos clássicos de Marx sobre a acumulação original, e também com sua reprodução, como podemos ver nos estudos recentes de David Harvey sobre

213 Cf.: Stephen Shankland, IBM Offers 500 Patents for Open-Source Use, CNET News.com, Jan. 10, 2005,

acumulação por espoliação (2003, 2007). Ao contrário, o questionamento seria endereçado à adesão e à associação das redes com práticas que historicamente vão em outra direção em relação à colaboração e ao compartilhamento. Ou seja, um questionamento dos motivos e mesmo das condições que levam uma forma cooperativista de produção continuar existindo dessa forma apesar de seu estrondoso aproveitamento capitalista – que necessariamente é anti-cooperativista, pois baseado na competição.

Por que as pessoas trabalham de graça? Essa seria a questão de fundo, colocada de maneira direta. Uma resposta possível é que elas atendem a outras motivações que não a econômica, ou atendem a outras motivações econômicas não mais baseadas na lógica do trabalho, mas na lógica do investimento e da valorização do capital humano (Lopéz-Ruiz, 2007). Uma lógica em que a experiência social e a própria existência individual é mediada pela forma e pela lógica do capital, ou seja, uma experiência social e individual experimentada e vivida enquanto capital – capital de si.

Não à toa, entender o que motiva e mobiliza as pessoas trabalharem de graça é hoje setor estratégico de qualquer empresa que lida com informação no mundo digital – sendo inclusive um promissor campo profissional para cientistas sociais (os mais espertos e antenados, obviamente). E motivar e mobilizar pessoas para trabalharem de graça constitui parte fundamental daquilo que informa esse novo tipo de linha de produção, ou melhor, rede de produção.