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Nós queríamos nos integrar com comunidades vibrantes para assegurar que o sub-sistema selecionado continuaria se desenvolvendo adiante no tempo. Quando mais ativa a

comunidade, melhor232.

Ari Jaaksi

Uma característica importante de ser considerada em qualquer tentativa de caracterização do trabalho realizado pelas redes de colaboração é a de que se trata de um tipo de trabalho que não é percebido como trabalho, e que funcionará melhor e produzirá mais quanto menos parecer com trabalho. Acontece que não estamos tratando de atividades dispendidas em um tempo determinado que serve como referência e base de cálculo para que sejam remuneradas, nem de atividades totalmente mobilizadas para fins específicos, e sim de atividades cujas formas ficam algo entre a vida e o trabalho, muitas vezes confundindo-as.

No entanto, para uma melhor compreensão, nossa percepção precisa até mesmo desassociar-se da noção de trabalho e, principalmente, da noção de indivíduo para que acompanhemos a formatação deste modo de produção. Afinal, o trabalho em rede é um trabalho dividual, disperso, distribuído e residual. Um trabalho diluído não só entre indivíduos, mas também através dos indivíduos.

A noção de trabalho dividual aparece aqui inspirada na utilização que Gilles Deleuze (1992) faz do termo em sua descrição do que chama Sociedades do

Controle, descrição formatada em oposição, mas ao mesmo tempo em

continuidade, ao conceito de Sociedades Disciplinares, tal como trabalhado por Michel Foucault em seu clássico Vigiar e Punir. A partir da leitura de Deleuze é

232 (Jaaksi, 2006: 3) “We wanted to integrate ourselves with vibrant communities to ensure that the selected

possível definir a diferença que informa esta oposição como uma passagem de um

tipo de sociedade para o outro, através da passagem de um tipo de coerção social

que modula corpos através de determinações do espaço, para uma que modula fluxos através do controle informacional sobre o ambiente. Há uma diferença no modo como o indivíduo é abordado por essa segunda lógica, a qual quebra com o próprio sentido da noção de indivíduo – “aquele que não se divide” – pois a abordagem do controle ocorre através da dimensão infra-individual.

Se praticamente toda ação social gera um rastro informacional que pode ser capturado digitalmente, armazenado em um banco de dados e processado através de técnicas de data mining, não se trata mais de moldar o espaço para disciplinarizar o corpo. O controle não incide sobre o corpo do indivíduo. O controle incide sobre os fluxos de informação gerados por populações de corpos em movimento apreendidos enquanto informação (genética, financeira, cultural), atravessando e sendo atravessados por outros fluxos de informação. O mesmo indivíduo, ou melhor, certos aspectos ou rastros de sua individuação, podem, portanto, pertencer a grupos estatísticos diferentes, dependendo daquilo que interessar ao corte de seleção.

No que concerne nosso objeto de pesquisa, é interessante recorrer às palavras de Tim O'Reilly (2005) acerca do que se convencionou chamar de Web 2.0, que seria uma segunda era dos negócios na internet, numa clara e direta referência ao colapso do que se chamava new economy e que ficou marcado como o a bolha da internet233, período iniciado em 1997 e cujo clímax – o estouro

– ocorreu em 2000. Alguns conceitos apresentados por O'Reilly a respeito da

arquitetura de participação forjada no que chama de Web 2.0 são pertinente para

que entendamos um modelo de negócio cujos métodos de aproveitamento do trabalho de rede realizado em rede foram diretamente inspirados nas práticas de produção de conhecimento do open source:

Somente uma pequena porcentagem dos usuários se dará ao trabalho de acrescentar valor ao seu aplicativo através de meios explícitos, diretos. Portanto, empresas Web 2.0 apresentam dispositivos inclusivos para agregar dados dos usuários, construindo valor como efeito colateral do uso ordinário da aplicação. (...) Elas constroem sistemas que ficam melhores quanto mais as pessoas os usam .

As palavras do Guia do Open Business234também são reveladoras:

Se você puder encontrar uma maneira de controlar, modular e

conduzir (harnessing235) os dados que são jogados fora

cotidianamente por um usuário, isto aumentará suas chances de hospedar um serviço de conteúdo bem sucedido. Exigir muito trabalho dos usuários produzirá o efeito contrário.

O que interessa aqui é a ideia do aproveitamento de resíduos, rastros e restos da ação do usuário para a construção de valor como efeito colateral. Além disso, é importante destacar a importância da arquitetura de processamento de informação, que pode extrair informação e, portanto, valor, do processamento em tempo real de um conjunto enorme de interações entre pessoas, entre pessoas e dados, e entre dados produzidos a partir dessas interações, que podem informar perfis de comportamento a partir do processamento da memória do uso, ou seja, da reação e da escolha das pessoas diante de uma informação.

Na tentativa de estabelecer um fórmula para o cálculo econômico do valor produzido em rede, Rishab Ayer Gosh (2005: 153-168) cria o conceito de

234 Este documento, “The Icommons Open Business Guide”, foi produzido pela organização iCOMMONS (cf.: http://icommons.org/ ), uma organização voltada para a “adoção de ferramentas, práticas e modelos

que facilitem a participação universal nos domínios culturais e de conhecimento”, que se articula em

torno em um conceito de “Cultura Livre” de forte inspiração no Creative Commons. O documento foi acessado originalmente por volta de 2007 a partir de um link que não se encontra mais acessível. Como a tentativa de encontrar o mesmo documento não obteve sucesso, disponibilizo uma cópia deste documento na plataforma wiki da tese, na seção LEAKS.

235 O verbo em inglês to harness, que aparece citado aqui em duas ocasiões em sua forma gerúndio,

harnessing, é traduzido como “controlar, modular e conduzir”, inspirado no sentido da aplicação de uma

de suas traduções diretas possíveis, a de encabrestar. Ou seja, submeter um cavalo colocando-o sob o cabresto, em seguida assumindo as rédeas e modulando seu movimento, extraindo com destreza o máximo possível de sua potência.

“cooking-pot markets”, para designar um modelo de economia não monetária de

transações implícitas na internet. Enuncia que se deve levar em conta o cálculo racional do quanto o colaborador avalia que ele ganha ao dispender sua força de trabalho ao estabelecer uma relação de colaboração e de compartilhamento de algum produto de seu trabalho. É preciso ver que em muito casos, ele pode sair ganhando nessa troca, como quando ele encontra uma informação precisa em um link no instante em que nem procurava, mas distraía-se interagindo em uma rede social como o Facebook. Nas palavras de Gosh:

O princípio básico desse modelo é que o acesso a uma vasta coleção de recursos diversos – pessoas, bens, ou informação – é mais valioso para as pessoas participando desse sistema do que o

custo do próprio trabalho dessas pessoas236.

A imagem dos cooking-pot de Gosh parte de uma analogia a uma

“hipotética panela tribal” na qual membros de uma tribo compartilham seus

produtos nessa panela comum em “uma troca implícita por um produto final de

maior valor”. Ou seja, inserem diferentes alimentos em um caldeirão como, por

exemplo, batatas, cenouras, carne etc., dando origem a um produto que será compartilhado entre todos e cujo valor individual de cada porção é maior do que se cada investidor realizasse o valor individual de seu produto. Dessa forma, a troca entre os indivíduos não ocorre através de um paradigma de equivalência, mas o de complementariedade. E o ganho estaria nas propriedades produzidas pelo encontro das diferenças de cada produto, no caso, no caldo.

A partir de uma outra perspectiva, poderíamos descrever esse valor produzido pela complementariedade entre diferenças específicas como sinergia. Buckminster Fuller (1985: 13-16) define o conceito de sinergia como um comportamento integral e agregado presente em sistemas que não pode ser

236 “The basic principle of this model is that access to a vast collection of diverse resources – people, goods,

or information – is more valuable to people participating in this system than the cost of their own work” (p. 154)

previsto pelo comportamento individual de qualquer um de seus componentes quando abordados isoladamente por resultar de resoluções produzidas pelas interações e associações realizadas entre seus componentes. Um valor que é maior do que a simples expressão da soma dos trabalhos individuais que se engajaram em seu processo de constituição, assim como a força de tração (tensile strength) de uma liga de aço é superior a capacidade individual de cada material que a compõe.

Numa perspectiva crítica, Dmytri Kleiner e Brian Wyrick (2007), definem os modelos de negócio baseados no aproveitamento do trabalho das redes, como um modo de produção baseado na capacidade de conduzir, controlar e modular (harnessing) a inteligência coletiva. E destacam os aspectos negativos que contrariam o próprio movimento de evolução e impulso evolutivo da internet por fortalecer estruturas que centralizam a propriedade dos meios de compartilhamento e da própria atividade de compartilhamento de informação, aniquilando o potencial da produção p2p descentralizada.

Dessa forma, apesar de baseados no estabelecimento de uma certa relação de reciprocidade com a reconhecida inteligência dos sistemas de redes, estes modelos centralizadores, justamente por centralizarem e controlarem a colaboração difusa, colocam em risco a própria imanência desse sistema: a rede de inteligência distribuída que depende de descentralização. Pois, o processamento de informação descentralizado e distribuído constitui o cerne das redes: a descentralização é a própria inteligência das redes. A definição que estes autores oferecem para o conceito de produção web 2.0 é bastante direta e precisa:

Web 2.0 é o boom de investimento na Internet 2.0. Web 2.0 é um modelo de negócio que significa: captura privada de valor criado comunitariamente.