C) Estruturação do trabalho
2. O SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS
2.3. A Corte Interamericana de Direitos Humanos
2.3.2. Competência contenciosa da Corte Interamericana
A competência contenciosa, por sua vez, como é chamada a função jurisdicional da Corte Interamericana de Direitos Humanos, será exercida apenas sobre os Estados partes do Pacto de São José que a tenham expressamente aceito, nos termos do seu artigo 62(1), de modo a conhecer de casos relativos à interpretação e aplicação das disposições da Convenção Americana sobre Direitos Humanos que lhe sejam submetidos.219
Cumpre inicialmente esclarecer que, no âmbito dos tribunais internacionais, jurisdição e competência são expressões sinônimas, em que pese a distinção técnica da natureza de cada qual no âmbito do direito interno estatal. A Corte Permanente de Justiça Internacional chegou a abordar a questão dessa sinonímia, embora não tenha afirmado serem ou não, efetivamente, sinônimas.
Assim enunciou aquele tribunal:
The Court has not to ascertain what are, in the various codes of procedure and in the various legal terminologies, the specific characteristics of such an objection; in particular it need not consider whether “competence” and “jurisdiction”, incompétence and fin de non-recevoir should invariably and in
every connection be regarded as synonymous expressions.220
No âmbito de sua função contenciosa, a Corte Interamericana decidirá sobre casos a ela submetidos proferindo sentenças, que devem ser cumpridas de boa-fé pelos Estados partes denunciados e por ela condenados, em caso de proclamação de sua responsabilidade internacional por violação de obrigações internacionais assumidas por referidos Estados.
219 Cf. PCIJ. The Mavrommatis Palestine Concessions. Judgment on August 30, 1924. Ser. B, nº 3.
220 “A Corte não tem que afirmar quais são, nos vários códigos de direito processual e nas várias terminologias legais, as características específicas de tal objeção; em particular a Corte não precisa considerar se “competência” e “jurisdição”, incompetência e fim de não receber devem ser encaradas, invariavelmente e em toda conexão, como sinônimos” (tradução livre). PCIJ. The Mavrommatis Palestine
Diferentemente da competência consultiva, que é obrigatória e automática para todos os Estados partes do Pacto de São José, e extensiva aos demais Estados americanos face à sua tão-só condição de Estados membros da OEA, com base na Carta da OEA, na Declaração Americana e “outros tratados”-221 que lhes imponham obrigações
internacionais de proteção aos direitos humanos, a competência contenciosa da Corte Interamericana é facultativa.
Por ocasião da ratificação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, ou de adesão a ela, o Estado parte pode, ao depositar o respectivo instrumento de ratificação ou adesão, ou em qualquer momento posterior, aceitar a competência contenciosa da Corte Interamericana para processar e julgar casos a ela submetidos em que o Estado seja denunciado por violação de direitos humanos amparados no sistema interamericano, obrigando-se a suportar as sentenças daquele tribunal internacional.
É o que reza o artigo 62(1) do Pacto de São José, verbis:
Todo Estado Parte pode, no momento do depósito do seu instrumento de ratificação desta Convenção ou de adesão a ela, ou em qualquer momento posterior, declarar que reconhece como obrigatória, de pleno direito e sem convenção especial, a competência da Corte em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação desta Convenção.
Assim, a Corte tem competência para conhecer de qualquer caso que lhe seja submetido, relativo à interpretação e aplicação das disposições contidas na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, desde que o Estado parte no caso tenha reconhecido ou reconheça a referida competência.222
Desta sorte, os Estados partes da Convenção Americana que porventura não estejam submetidos à jurisdição contenciosa da Corte, por não a terem aceito
221 Cf. Corte IDH. “Otros Tratados” Objeto de la Función Consultiva de la Corte (art. 64 Convención
Americana sobre Derechos Humanos). Opinión Consultiva OC-1/82 del 24 de septiembre de 1982. Serie
A, nº 1.
222 O reconhecimento da competência contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos poderá
ser feita incondicionalmente, ou sob condição de reciprocidade, por prazo determinado ou para casos específicos, devendo ser apresentada ao Secretário-Geral da OEA, o qual encaminhará cópias da mesma aos outros Estados membros da Organização e ao Secretário da Corte. Cf. artigo 62 (2) e (3) do Pacto de São José.
expressamente por ocasião da ratificação da Convenção ou adesão a ela, estarão sujeitos à supervisão da Comissão Interamericana com base na Carta da OEA, na Declaração Americana e, também, com base nas disposições da Convenção Americana em virtude de sua tão-só condição de Estado parte.223
É o que ressai do tríplice regime jurídico para os Estados no sistema interamericano de direitos humanos, com situações e consequências distintas: no primeiro, todos os Estados membros da OEA, signatários ou não do Pacto de São José, sempre estarão sujeitos à supervisão da Comissão Interamericana com base na Carta da OEA e na Declaração Americana; no segundo, em virtude de sua tão-só condição de Estados partes da Convenção, estarão também submetidos às suas disposições além de estarem sujeitos à supervisão da Comissão com base na Carta e na Declaração.
No terceiro, para além das implicações decorrentes dos dois regimes anteriores, estarão ainda submetidos à jurisdição contenciosa da Corte Interamericana os Estados partes do Pacto de São José que a houverem expressamente aceito, mediante declaração formal e inequívoca nesse sentido, a teor do artigo 62(1) do Pacto. 224
Até a presente data, dos trinta e cinco Estados membros da OEA apenas onze não estão sujeitos à competência contenciosa da Corte Interamericana, a saber: a) Antigua e Barbuda, b) Bahamas, c) Belize, d) Canadá, e) Cuba, f) Estados Unidos da América, g) Guyana, h) Santa Lúcia, i) São Cristóvão e Névis, j) São Vicente e Granadinas e k) Trinidad e Tobago.
223 Ressalte-se que, além de Estado membro da OEA, o Brasil é também Estado parte na Convenção
Americana sobre Direitos Humanos e, além disso, aceitou expressamente a jurisdição (competência contenciosa) da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Assim, assumiu o dever de fazer respeitar e proteger os direitos consagrados no Pacto de São José, submetendo-se à jurisdição da Corte inclusive para efeito de controle de convencionalidade.
224 O Estado membro da OEA que se incluir nesse terceiro regime jurídico estará proporcionando aos
indivíduos sob sua jurisdição a mais ampla garantia de seus direitos humanos, completamente integrado aos mecanismos de proteção do sistema interamericano e em franca elevação dos seus padrões de proteção à pessoa humana. Isso implica dizer, em outras palavras, que o Estado parte submetido à jurisdição contenciosa da Corte Interamericana revela o firme compromisso de respeitar e proteger os direitos consagrados na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, demonstrando de forma irrestrita o seu pendor para a valorização do ser humano.
Quanto a Trinidad e Tobago, deve-se realçar sua adesão ao Pacto de São José em 03/04/1991, com ratificação em 03/04/1991 e depósito do respectivo instrumento em 28/05/1991, ocasião em que reconheceu como obrigatória a competência contenciosa da Corte Interamericana. Porém, esse Estado denunciou o Pacto de São José em 26/05/1998, fulminando, assim, a possibilidade de ser julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em sede de sua competência contenciosa.225
No tocante ao Brasil registra-se que, embora a Convenção Americana sobre Direitos Humanos tenha sido assinada na Conferência Especializada de 22 de novembro de 1969, a “longa noite do autoritarismo”226 postergou a adesão brasileira em vinte e três
anos, que se deu apenas em 09 de julho de 1992, com o depósito do respectivo instrumento em 25 de setembro de 1992, não obstante tenha ela entrado em vigor desde julho de 1978, com o depósito do 11º instrumento de ratificação.227
A adesão brasileira ao Pacto de São José originalmente não reconheceu a jurisdição contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos, mas ainda assim se deu sem reservas. Fez, contudo, uma declaração interpretativa sobre os artigos 43 e 48(d) do Pacto: “O Governo do Brasil entende que os artigos 43 e 48, d, não incluem o direito automático de visitas e investigações in loco da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que dependerão da anuência expressa do Estado”.228
225 Trinidad e Tobago permanece, porém, como Estado membro da Organização dos Estados Americanos,
podendo ser monitorado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos enquanto órgão da própria Organização, com base na Carta da OEA e na Declaração Americana de Direitos Humanos.
226 Na expressão do Presidente José Sarney, em discurso perante a Assembleia Geral da ONU em
setembro de 1985, apud ALVES, José Augusto Lindgren. A Arquitetura Internacional dos Direitos
Humanos. Coleção Juristas da Atualidade (Coord. Hélio Bicudo). São Paulo: FTD, 1997, p. 286.
227 A adesão brasileira ao Pacto de São José da Costa Rica foi autorizada pelo Congresso Nacional por
meio do Decreto Legislativo 27, de 26 de maio de 1992.
228 Artigo 43. Os Estados Partes obrigam-se a proporcionar à Comissão as informações que esta lhes solicitar
sobre a maneira pela qual o seu direito interno assegura a aplicação efetiva de quaisquer disposições desta Convenção. Artigo 48(1)(d). A Comissão, ao receber uma petição ou comunicação na qual se alegue violação de qualquer dos direitos consagrados nesta Convenção, procederá da seguinte maneira: (d) se o expediente não houver sido arquivado, e com o fim de comprovar os fatos, a Comissão procederá, com conhecimento das partes, a um exame do assunto exposto na petição ou comunicação. Se for necessário e conveniente, a Comissão procederá a uma investigação para cuja eficaz realização solicitará, e os Estados interessados lhes proporcionarão todas as facilidades necessárias.
Tal declaração, como realçado, não constitui reserva de acordo com o Direito Internacional, tendo-se limitando o Estado Brasileiro a ressalvar, como de praxe fazem os Estados, o direito de aceitar ou não inspeções in loco em seu território, decidindo caso a caso.
A teor do artigo 2(1)(d) da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, eis o significado de reserva:
d) “reserva” significa uma declaração unilateral, qualquer que seja a sua redação ou denominação, feita por um Estado ao assinar, ratificar, aceitar ou aprovar um tratado, ou a ele aderir, com o objetivo de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas disposições do tratado em sua aplicação a esse Estado.
Ainda mais tardiamente, o Brasil aceitou a jurisdição contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos em 10 de dezembro de 1998, podendo a Corte a partir de então exercer a sua competência judicial para conhecer de denúncias formuladas contra o Estado Brasileiro, proferindo sentenças.229
Portanto, a Corte Interamericana de Direitos Humanos poderá exercer sua jurisdição contenciosa contra o Estado Brasileiro, sendo competente para apreciar casos que envolvam denúncias de violação das suas obrigações internacionais à luz dos instrumentos normativos que o vinculam no âmbito do sistema interamericano de direitos humanos.
Deve-se chamar a atenção para o fato de que ainda se faz muita confusão no Brasil quanto à competência contenciosa da Corte Interamericana, patenteando-se a falta de uma
229 Por meio do Decreto Legislativo nº 89, de 03/12/1998, em resposta à Mensagem Presidencial nº 1070,
de 07/09/1998, o Congresso Nacional autorizou a aceitação da competência contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos pela República Federativa do Brasil, o que se concretizou com a transmissão de Nota do Presidente da República ao Secretário-Geral da OEA, em 10 de dezembro de 1998. Digno de registro é que, a rigor técnico, não havia necessidade de novo decreto executivo para promulgar o reconhecimento da competência contenciosa da Corte, como de fato inicialmente não o houve, pois o Decreto Presidencial nº 678, de 06 de novembro de 1992, que promulgou o Pacto de São José, é que inovara a ordem jurídica nacional e era por si só suficiente para autorizar a aceitação da competência contenciosa da Corte. Porém, em 08 de novembro de 2002 foi editado o Decreto Presidencial nº 4.463, promulgando o ato de reconhecimento da competência contenciosa da Corte. Cf. RAMOS, André de Carvalho Ramos. Responsabilidade internacional por violação de direitos humanos.
Seus elementos, a reparação devida e sanções possíveis. Teoria e prática do Direito Internacional. Rio
adequada compreensão do alcance das obrigações convencionais assumidas pelo Estado Brasileiro no âmbito do sistema interamericano de direitos humanos.
Como bem observa José Augusto Lindgren Alves, a Corte é instância judicial por decisão soberana de cada qual dos Estados partes do Pacto de São José, que o ratificaram ou a ele aderiram por ato volitivo. Não pode, pois, a Corte ser encarada como uma imposição externa, nem tampouco é correto dizer que suas sentenças malferem as soberanias nacionais:
A “supranacionalidade” da Corte Interamericana, assim como a de todos
os órgãos multilaterais, da ONU e da OEA, é decorrência da vontade soberana dos Estados que os integram. Resulta da percepção individual dos próprios
Estados de que seus interesses se acham mais bem protegidos pela coletividade organizada do que pela anomia do “estado de natureza”, ainda predominante em muitas áreas das relações internacionais. Ao
reconhecer e aceitar a competência judicial da Corte Interamericana os Estados do continente recorrem a uma intermediação tão neutra e construtiva quanto possível, bastante assemelhada ao instituto de arbitragem tradicional para a solução pacífica de controvérsias, que os ajude a resolver problemas pendentes
e reparar irregularidades.230 (destaques nosso)
Essa observação é necessária e, com efeito, vai ao encontro da perspectiva sistêmica do estudo a que fizemos referência no início do presente trabalho, evidenciando o caráter de sistema das estruturas interamericanas de proteção aos direitos humanos.
Enfim, deve-se ainda lembrar que a Corte Interamericana de Direitos Humanos poderá, em casos de extrema gravidade e urgência, determinar medidas provisórias visando à proteção da pessoa humana, conforme previsão no artigo 63(2) do Pacto de São José da Costa Rica,231 bem como no artigo 25 do Regulamento da Corte.232
230 Essa observação vai, com efeito, ao encontro da perspectiva sistêmica do estudo a que fizemos referência
na introdução do presente trabalho, evidenciando o caráter de sistema das estruturas interamericanas de proteção aos direitos humanos. ALVES, José Augusto Lindgren. A Arquitetura Internacional dos Direitos
Humanos. Coleção Juristas da Atualidade (Coord. Hélio Bicudo). São Paulo: FTD, 1997, p. 283.
231 “Artigo 63(2). Em casos de extrema gravidade e urgência, e quando se fizer necessário evitar danos
irreparáveis às pessoas, a Corte, nos assuntos de que estiver conhecendo, poderá tomar as medidas provisórias que considerar pertinentes. Se se tratar de assuntos que ainda não estiverem submetidos ao seu conhecimento, poderá atuar a pedido da Comissão”.
232 “Artigo 25. Medidas Provisórias. (1) Em qualquer fase do processo, sempre que se tratar de casos de
extrema gravidade e urgência e quando for necessário para evitar prejuízos irreparáveis às pessoas, a Corte, ex officio ou a pedido de qualquer das partes, poderá ordenar as medidas provisórias que considerar pertinentes, nos termos do artigo 63.2 da Convenção.”.
Essas medidas provisórias, contudo, somente podem ser ordenadas pela Corte contra Estados partes do Pacto de São José, e que previamente tenham aceito a sua competência contenciosa, na fora do artigo 62(2) da Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
A esse respeito, assim observa Cançado Trindade:
Na prática, a Corte tem ordenado tais medidas – que já salvaram muitas vidas – com base em uma presunção razoável (prima facie), mais do que uma demonstração cabal ou substancial, da veracidade dos fatos alegados. Em todos os casos, ao ordená-las, a Corte verifica previamente se os Estados em questão já reconheceram – sob o artigo 62(2) da Convenção Americana – como obrigatória sua competência em matéria contenciosa. As medidas provisórias de proteção revelam, assim, a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos dirietos humanos.