C) Estruturação do trabalho
2. O SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS
2.4. Processo perante a Corte Interamericana
Qualquer Estado parte do Pacto de São José está legitimado para iniciar um processo perante a Corte Interamericana, além da Comissão Interamericana de Direitos Humanos em representação aos peticionários denunciantes, desde que esgotados os processos previstos nos artigos 48 a 50 do Pacto e, ainda, que o Estado denunciado tenha aceito a competência contenciosa da Corte Interamericana.233
O trâmite dos procedimentos na Corte Interamericana está disposto no seu Regulamento aprovado pelo Tribunal no seu 49º período ordinário de sessões, celebrado entre 16 e 25 de novembro de 2000 e reformado parcialmente pela Corte em seu 61º período ordinário de sessões, entre 20 de novembro e 4 de dezembro de 2003.
Os idiomas oficiais da Corte são os mesmos da OEA, ou seja, o espanhol, o inglês, o português, e o francês, dentre os quais pode a Corte adotar anualmente idiomas
233 Artigo 61(1). Somente os Estados Partes e a Comissão têm direito de submeter caso à decisão da Corte.
(2) Para que a Corte possa conhecer de qualquer caso, é necessário que sejam esgotados os processos previstos nos artigos 48 a 50.
de trabalho, além de, para um caso determinado, também poder adotar como idioma de trabalho o de uma das partes, sempre que seja oficial. 234
Os Estados serão representados por seus respectivos Agentes, acreditados perante o Tribunal, sendo a Comissão representada por Delegados designados para tal fim. O novo Regulamento da Corte passou a permitir que as supostas vítimas, seus familiares ou seus representantes devidamente acreditados apresentem suas petições, argumentos e provas de forma autônoma durante todo o processo, consagrando o jus standi perante o Tribunal.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos poderá, em casos de extrema gravidade e urgência, determinar medidas provisórias visando à proteção da pessoa humana, conforme previsão no artigo 63(2) do Pacto de São José da Costa Rica,235 bem
como no artigo 25 do Regulamento da Corte.236
Sobre a adoção de medidas provisórias pela Corte, anota Cançado Trindade:
Na prática, a Corte tem ordenado tais medidas – que já salvaram muitas vidas – com base em uma presunção razoável (prima facie), mais do que uma demonstração cabal ou substancial, da veracidade dos fatos alegados. Em todos os casos, ao ordená-las, a Corte verifica previamente se os Estados em questão já reconheceram – sob o artigo 62(2) da Convenção Americana – como obrigatória sua competência em matéria contenciosa. As medidas provisórias de proteção revelam, assim, a importante dimensão preventiva da proteção internacional dos dirietos humanos.
No Caso Urso Branco contra o Brasil, a Corte Interamericana determinou medidas provisórias por meio de Resolução do seu Presidente em data de 18 de junho
234 Cf. Artigo 20 do Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Caso alguma pessoa não
tenha conhecimento suficiente de algum idioma de trabalho da Corte, ela poderá autorizar que a pessoa se expresse em seu próprio idioma, “mas em tal caso adotará as medidas necessárias para assegurar a presença de um intérprete que traduza a declaração para os idiomas de trabalho. Dito intérprete deverá prestar juramento ou declaração solene sobre o fiel cumprimento dos deveres do cargo e sobre o sigilo a respeito dos fatos de que tome conhecimento no exercício de suas funções”, a teor do artigo 20(4) do mesmo Regulamento.
235 “Artigo 63(2). Em casos de extrema gravidade e urgência, e quando se fizer necessário evitar danos
irreparáveis às pessoas, a Corte, nos assuntos de que estiver conhecendo, poderá tomar as medidas provisórias que considerar pertinentes. Se se tratar de assuntos que ainda não estiverem submetidos ao seu conhecimento, poderá atuar a pedido da Comissão”.
236 “Artigo 25. Medidas Provisórias. (1) Em qualquer fase do processo, sempre que se tratar de casos de
extrema gravidade e urgência e quando for necessário para evitar prejuízos irreparáveis às pessoas, a Corte, ex officio ou a pedido de qualquer das partes, poderá ordenar as medidas provisórias que considerar pertinentes, nos termos do artigo 63.2 da Convenção.”.
de 2002, a que se somaram outras quatro datadas de 29 de agosto de 2002, 22 de abril de 2004, 07 de julho de 2004 e 21 de setembro de 2005, diante da não cessação das violações dos direitos humanos dos detentos na Casa de Detenção José Mário Alves, conhecida como Presídio Urso Branco – daí o nome do caso perante a Corte.
Em sede de instrução processual, é admitida uma amplitude de provas perante a Corte Interamericana, inclusive com realização de audiências, produção de prova pericial e comparecimento dos peritos e assistentes para esclarecimentos, ouvida de testemunhas, em moldes similares ao devido processo legal comumente existente nos sistemas jurídicos nacionais dos Estados partes do Pacto de São José, facultando-se à Corte a realização de audiências no território do próprio Estado, com sua aquiescência.
Em rico artigo sobre o sistema de provas no sistema interamericano de proteção aos direitos humanos, o Prof. Alberto Bovino, da Universidade de Buenos Aires, observou que tanto o Pacto de São José quanto o Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos são omissos acerca do tratamento da atividade probatória:
Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos demanda um Estado- parte em um procedimento contencioso perante a Corte Interamericana, a prova se torna uma questão central. Tanto a Convenção Americana sobre Direitos Humanos como o Regulamento da Corte se caracterizam por omitir o tratamento da atividade probatória.
Por isso, a Corte tem abordado do ponto de vista da jurisprudência as particularidades de cada processo. Na jurisprudência encontraremos os seguintes aspectos referentes à atividade probatória:
(a) particularidades da atividade probatória no sistema interamericano; (b) constituição da prova do caso;
(c) ônus da prova;
(d) regime de valoração probatório; e
(e) padrões para demonstrar violações à Convenção.
Diante das características peculiares dos casos de graves violações de direitos humanos, esse assunto é de crucial importância, e os casos apresentados à
Corte têm levado em conta tais singularidades.237
237 BOVINO, Alberto. A atividade probatória perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. In:
Revista Internacional de Direitos Humanos, ano 2, nº 3, 2005, pp. 60-83, tradução do original em espanhol por Luis Reyes Gil, disponível em <http://www.surjournal.org/index3.php>, acesso em 03 jun. 2008.
É certo que o processamento do caso na Corte Interamericana de Direitos Humanos comporta, assim como no Direito Processual Civil brasileiro, o instituto da revelia, como já assentou a Corte em sua jurisprudência:
Al respecto, la Corte considera, como ya lo ha hecho en otros casos, que cuando el Estado no contesta la demanda de manera específica, se presumen verdaderos los hechos sobre los cuales guardó silencio, siempre que de las pruebas presentadas se puedan inferir conclusiones consistentes sobre los mismos.
Seguidamente la Corte apreciará el valor de los documentos, testimonios y dictámenes periciales que integran el acervo probatorio del presente caso, según la regla de la sana crítica, la cual permitirá llegar a la convicción sobre la
veracidad de los hechos alegados.238
A teor do artigo 56 do Regulamento da Corte, as suas sentenças conterão: a) o nome do Presidente e dos demais juízes que a tenham proferido, do Secretário e do Secretário Adjunto; b) a identificação das partes e seus representantes; c) uma relação dos atos do procedimento; d) a determinação dos fatos; e) as conclusões das partes; f) os fundamentos de direito; g) a decisão sobre o caso; h) o pronunciamento sobre as reparações e as custas, se procede; i) o resultado da votação; e j) a indicação sobre o texto que faz fé.
No que tange especificamente às consultas formuladas à Corte Interamericana sobre a interpretação das leis internas dos Estados membros da OEA, a solicitação de parecer consultivo deverá fazer-se acompanhar do texto da lei e, ainda, indicar: a) as disposições de direito interno, bem como as da Convenção ou de outros tratados concernentes à proteção dos direitos humanos, que são objeto da consulta; b) as perguntas específicas sobre as quais se pretende obter o parecer da Corte; c) o nome e endereço do Agente do solicitante. 239
238 “A respeito, a Corte considera, como já o fez em outros casos, que quando o Estado não contesta a
demanda de maneira específica se presumem verdadeiros os fatos sobre os quais guardou silêncio, sempre que das provas apresentadas se possam inferir conclusões consistentes sobre os mesmos. Em seguida, a Corte apreciará o valor dos documentos, testemunhos e pareceres dos peritos que integram o acervo probatório do presente caso, segundo o princípio do livre convencimento do juiz, o qual permitirá chegar à convicção sobre a veracidade dos fatos alegados” (tradução livre). Corte IDH. “Otros Tratados” Objeto
de la Función Consultiva de la Corte (art. 64 Convención Americana sobre Derechos Humanos).
Opinión Consultiva OC-1/82 del 24 de septiembre de 1982. Serie A, nº 1, § 14.
Os atos praticados pelo Presidente na condução do processo, se não puserem fim ao caso, são passíveis de recurso para a Corte, mas contra a sentença do Tribunal não cabe qualquer impugnação, a teor do artigo 67 da Convenção Americana e do artigo 29(3) do Regulamento da Corte. Em caso de divergência sobre o sentido ou alcance da sentença, o Tribunal a interpretará, a pedido de qualquer das partes, desde que o pedido seja apresentado dentro de noventa dias a partir da data da notificação da sentença.
3. O BRASIL NO CONTEXTO DO SISTEMA INTERAMERICANO DE