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Competência do tribunal singular (art.º 16.º, n.º 3, do CPP) – uma intenção

Capítulo II – Os institutos de consenso no processo penal português

2.5 Casos especiais

2.5.1 Competência do tribunal singular (art.º 16.º, n.º 3, do CPP) – uma intenção

O artigo 16.º, n.º 3, do CPP, enquadra-se num espaço de consenso, como, aliás, refere o próprio preâmbulo daquele diploma485. Tal disposição permite ao Ministério Público determinar,

nos crimes cuja pena máxima, abstratamente aplicável, seja superior a 5 anos de prisão, e que, como tal, deveriam ser da competência do tribunal coletivo, que os mesmos sejam julgados em tribunal singular, por entender que não deve ser aplicado, ao caso concreto, pena de prisão

483 Diretiva n.º 1/2016, de 15-02-2016, Notas complementares, p. 1. 484 MESQUITA, Paulo Dá, “Os processos especiais…”, op. cit., p. 49. 485 Preâmbulo do CPP, ponto II, n.º 6, al. b).

superior a 5 anos. Neste caso, o tribunal singular deverá, na sua decisão, respeitar este limite, conforme enunciado pelo n.º 4 daquele artigo.

Sobre esta disposição pronunciou-se, em 1989, o Tribunal Constitucional486, mais

concretamente, no sentido de aferir se aquela disposição violaria os princípios previstos nos artigos 206.º e 224.º, da CRP, relativos aos princípios da reserva da função jurisdicional e da legalidade da ação penal, respetivamente. Concluiu aquele tribunal superior pela inexistência de qualquer violação aos preceitos mencionados, estando, portanto, imaculada a constitucionalidade do artigo 16.º, n.º 3, do CPP. Assim, determinou-se, no referido acórdão, que o julgamento continua a ser realizado pelo juiz, mantendo a reserva da sua função, competindo-lhe fixar a medida concreta da pena. Como refere o acórdão: “Sucede é que o juiz, ao fixar a pena do caso, não pode exceder três anos487 (cf. citado artigo 16. °, n.º 4). Isso,

porém, significa tão-só que ele não pode utilizar toda a moldura abstracta constante do tipo”. A decisão do Ministério Público enquadra-se no seu exercício da ação penal, pelo que será equiparada a qualquer outra que neste âmbito se verifique, como, por exemplo, a decisão de acusar ou não488. Também quanto à compatibilidade constitucional do artigo 16.º, n.º 3, do CPP

com o artigo 224.º, da CRP, concluiu o Tribunal Constitucional em sentido afirmativo, não se afigurando inconstitucional o acometimento, ao Ministério Público, do exercício da ação penal, no quadro daquele primeiro artigo. O princípio da legalidade da ação penal não se mostra ferido, pois que não se trata aí de entregar ao Ministério Público a decisão de exercer ou não a ação penal, pois que, como se refere no acórdão, “o que tão-só se lhe faculta é que requeira a intervenção do tribunal singular, desse modo fixando à pena aplicável um limite máximo inferior ao que consta do tipo legal respectivo”489. Está-se aqui perante uma certa margem de

oportunidade, que, conforme nos indica o TC, não é incompatível com o princípio da legalidade. De facto, assim afirmam: “o artigo 224. ° da Constituição, ainda que nele se consagre o princípio da legalidade da acção penal, não pode ser obstáculo à introdução no sistema

486 Acórdão n.º 393/89, processo n.º 417/88, de18-05-1989, relator Messias Bento. Não foi, aliás, o único acórdão do TC sobre a temática. Vide,

por exemplo, acórdãos n.º 211/89, 407/89, 407/89, 291/90, 31/91.

487 Cinco anos na atual redação do artigo.

488 Sobre o argumento Vide DIAS, Jorge de Figueiredo, “Sobre os sujeitos processuais no novo Código de Processo Penal”, in O Novo Código de

Processo Penal, Jornadas de Direito Processual Penal, CEJ, Coimbra, Almedina, 1995, pp. 1-34.

processual penal de uma expressão tão moderada do princípio da oportunidade, como é — se o for — a do artigo 16.°, n.º 3, do Código de Processo Penal”490.

Acrescenta, ainda, o referido acórdão que inexiste qualquer incompatibilidade entre o disposto no artigo 16.º, n.º 3, do CPP, com o artigo 32.º, n.º 7, da CRP, que consagra o princípio do juiz natural/legal, afirmando que “o preceito sub indicio, ao determinar o tribunal competente, não o faz de forma arbitrária, discricionária ou discriminatória. Lançando mão de critérios objectivos, como são os critérios legais para a determinação concreta da pena, limita-se ele a permitir que o tribunal competente para o julgamento de certos crimes seja encontrado pelo recurso ao chamado método de determinação concreta da competência”491. Por último, não

existe, de igual modo, incompatibilidade constitucional do artigo 16.º, n.º 3, do CPP, com aquele artigo 32.º, n.º 1, da CRP, concluindo que “o facto de o arguido ser julgado pelo tribunal singular (em vez de o ser pelo tribunal colectivo) não importa uma diminuição das garantias de defesa tal que deva ser havida como constitucionalmente ilegítima”492.

A norma do artigo 16.º, n.º 3, do CPP, propugna os objetivos de celeridade e eficácia do processo penal, uma vez que promove uma melhor gestão da atividade do tribunal coletivo, reservando a este a resolução dos casos e das questões que se apresentem uma complexidade acrescida e que pressupõem sempre um maior dispêndio de recursos. Tal exigirá, claro está, um juízo de prognose por parte do Ministério Público, sob ponderação de um conjunto de fatores que se apresentam no caso concreto, enquadrado pelos critérios legais relativos à aplicação das penas. Como refere Henriques Gaspar, “a formulação do juízo pelo MP pressupõe uma compreensão e avaliação prévias da dignidade penal e da gravidade do objecto da acusação, situando-os em concreto, com fundamento em motivação objectiva, dentro de uma sub-moldura da pena inferior à moldura prevista para o respectivo tipo legal de crime”493. Assim, como já

referiu a jurisprudência, “ao aliviarem-se os tribunais colectivos — que são tribunais de funcionamento naturalmente mais «pesado» (e, por isso mesmo, mais lento) do que os tribunais singulares —, pretende-se tornar mais eficaz a justiça penal, sem que, com isso, se desprotejam os cidadãos”494.

490 Acórdão n.º 393/89, processo n.º 417/88, de18-05-1989, relator Messias Bento. 491 Idem.

492 Idem.

493 GASPAR, António Henriques et.al., Código de Processo Penal comentado, Coimbra, Almedina, 2014, p.77. 494 Acórdão n.º 393/89, processo n.º 417/88, de18-05-1989, relator Messias Bento.

Atualmente, a lei processual não faz qualquer imposição quanto à intervenção do juiz, assistente e arguido, na decisão do Ministério Público de atribuir a competência ao tribunal singular. Não obstante, o projeto do CPP, no seu artigo 16.º, n.º 3, previa a possibilidade de oposição pelo assistente e arguido, à opção do Ministério Público, que, conforme ali se indicava, de forma expressa, determinava, “definitivamente a incompetência singular e a remessa dos autos ao tribunal colectivo competente para o julgamento”495. Tal previsão viria a ser excluída na

versão final do Código496. O mesmo sucedeu ao n.º 4, do mesmo artigo, que determinava o

reenvio para o tribunal coletivo sempre que o tribunal singular, a quem foi inicialmente acometida a causa, por determinação do Ministério Público, obtivesse convicção fundada de que, ao caso, deveria ser aplicada pena ou medida de segurança superior a três anos, decisão essa irrecorrível497. Sobre estas previsões iniciais do artigo 16.º, contidas no projeto do CPP,

refere-se, na exposição de motivos da proposta de lei n.º 21/IV (autorização para legislar em matéria de processo penal) 498, que se estabelecem “a este propósito e como não poderia deixar

de ser, salvaguardas estritas, consubstanciadas no necessário acordo do assistente e do arguido para que esta atribuição de competência ao tribunal singular possa ter lugar. Estipula-se o reenvio obrigatório dos autos para o tribunal colectivo, logo que o tribunal singular conclua pela justeza de medida criminal de severidade superior àquela que ditou provisoriamente a sua competência. Tudo a clamar por uma razoável cooperação entre os participantes processuais, tanto quanto à validade de prognose efectuada em matéria de pena aplicável como quanto à definição dos casos de reenvio, deixando assim claro que o futuro processo criminal sintoniza o seu sentido fundamental bem longe do adversarial system com tudo o que ele implica de unilateralidade para o Ministério Público, passividade para o juiz e indiscriminada autonomia privada para o arguido e o assistente”499.

Assim, não se prevê atualmente a possibilidade de oposição do assistente e do arguido, nem a remessa do tribunal singular para o tribunal coletivo, em caso de entendimento diferente do Ministério Público. As razões para este recuo são avançadas, nomeadamente, pelo Tribunal

495 Proposta de lei n.º 21/IV, Diário da Assembleia da República, 2.a série, n.º 49, suplemento, de 4 de abril de 1986, p. 1808 – (26).

496 Tendo a Autorização legislativa fixado um sentido diferente daquele que foi inicialmente pedido. Vide, Proposta de lei n.º 21/IV, Diário da

Assembleia da República, 2.a série, n.º 49, suplemento, de 4 de abril de 1986, p. 1808 – (18), artigo 2, al. 55 e Lei 43/86, de 26 de setembro,

artigo 2, n.º 2, al) 58, p. 2735. Para uma síntese sobre a temática, Vide Acórdão n.º 393/89, processo n.º 417/88, de18-05-1989, relator Messias Bento.

497 Proposta de lei n.º 21/IV, Diário da Assembleia da República, 2.a série, n.º 49, suplemento, de 4 de abril de 1986, p. 1808 – (26). 498Diário da Assembleia da República, 2.a série, n.º 49, suplemento, de 4 de abril de 1986.

Constitucional, referindo que “têm a ver, por um lado, com a necessidade de maior eficácia da justiça penal: pretendeu-se evitar que o assistente, por simples vingança pessoal, por exemplo, se oponha à intervenção do tribunal singular como forma de retardar o julgamento do arguido; e quis também contornar-se a tendência que alguns juízes poderiam manifestar de remeter, por sistema, os processos para o tribunal colectivo. Essas razões têm, por outro lado, a ver com a necessidade de adoptar soluções quiçá mais conformes com a pureza dos princípios: se o Minis- tério Público é o único titular da acção penal, então é ele — e só ele — quem há-de fixar o objecto do processo e deduzir a pretensão punitiva”500. Para Figueiredo Dias, a eliminação da oposição

do assistente e arguido, bem como a possibilidade de remessa do processo do tribunal singular para o coletivo deveu-se às preocupações da Assembleia da República de “eficácia do sistema, ligada ao maior alargamento possível da competência do tribunal singular”501.

A atuação e o poder-dever atribuído ao Ministério Público justifica-se pela posição que este assume no processo, enquanto titular do exercício da ação penal, “representante do Estado e porta-voz, portanto, do seu poder punitivo”502, interessado, unicamente, na descoberta da

verdade. Por este motivo, e ainda aquele outro relacionado com a obrigação imposta ao Ministério Público de investigar os factos, quer contra, quer a favor do arguido, justificam a faculdade atribuída àquela magistratura de determinação da competência do tribunal singular, naquele caso específico do artigo 16.º, n.º 3. Além do mais, o estatuto do Ministério Público impõe-lhe um conjunto de deveres que, por si, só, garantem o respeito pelos direitos e garantias do arguido, nomeadamente a vinculação da sua atuação aos princípios da legalidade e objetividade, justificando qualquer crítica que a esta possibilidade se coloque quanto à diminuição daquelas garantias503. O artigo 16.º, n.º 3, apresenta-se como um afloramento do

princípio da oportunidade504, pelo que a atuação do Ministério Público surge como uma faculdade

conformadora do processo505.

500 Acórdão n.º 393/89, processo n.º 417/88, de18-05-1989, relator Messias Bento. 501 DIAS, Jorge de Figueiredo, “Sobre os sujeitos...”, op. cit., p. 20.

502 Idem, p. 21.

503 De acordo com Costa Andrade, esta forma de determinação da competência, prestando homenagem à ideia de uma procura de consenso

“como ambiente de pacificação e de reafirmação intersubjectiva e estabilizadora das normas”, realiza-se, “à custa do sacrifício assumido – com todas as implicações decorrentes – da verdade material” - Cf. ANDRADE, Manuel da Costa, “Consenso e Oportunidade...”, op. cit., p. 338.

504 PINTO, Ana Luísa, A celeridade no..., op. cit., p. 114.

Ora, uma vez que a atual previsão legal do artigo 16.º, n. º3, do CPP, não prevê qualquer consenso ou concordância, por parte dos restantes sujeitos processuais, aquele mecanismo, apesar de contribuir para a celeridade e eficácia processual, não se afigura como uma solução consensual, atualmente prevista no nosso ordenamento jurídico-penal. Em todo o caso, é curioso detetar uma certa supremacia daquelas ideias de celeridade e eficácia sobre o consenso inicialmente pretendido para esta solução, facto que levou à sua eliminação. Seja como for, as ideias que presidiram inicialmente à previsão do artigo 16.º, n.º 3 e 4 demonstram uma preocupação de direcionamento dos delitos de menor gravidade para os ideais de consenso e de aproximação dos sujeitos processuais, na resolução do conflito penal. Demonstra também que existe já entre nós uma faculdade atribuída ao Ministério Público de uma diminuição da moldura penal do crime, uma sub-moldura, que o tribunal terá de respeitar, o que, vermos mais adiante, poderá suceder com os acordos sobre a sentença.