CAPÍTULO II Competência e Formação
3- Competência e o ciclo de vida profissional
Ao longo do percurso profissional, os professores sofrem interferências de uma panóplia muito grande de fatores que consequentemente influenciam de uma forma direta ou indireta o seu desenvolvimento profissional. A globalização, as diferentes funções que os docentes atualmente desempenham na escola, a relação com a família, a própria avaliação de desempenho, as modificações curriculares, enfim, as várias condicionantes a que estão sujeitos, acarretam a necessidade de um processo contínuo
Competência do professor de Educação Física
facto, a trajetória da carreira docente não é linear, sendo afetada, por um lado, por múltiplos fatores inerentes as suas experiências pessoais, e por outro lado, por mudanças operadas no sistema educativo que acabam por se refletir nas organizações escolares (Costa et al., 2004). Vários são os autores que abordam esta temática, visualizando-se uma discrepância no que concerne às terminologias apresentadas. A classificação mais utilizada na literatura tem sido a apresentada por Huberman (1995), que organiza os anos de docência dos professores em várias fases no ciclo de vida profissional: entrada na carreira (1 a 3 anos de docência; 21-28 anos), que é caracterizada por duas fases, a de sobrevivência, que se traduz pelo choque com a realidade, a preocupação consigo mesmo, as diferenças entre os ideais e a realidade e de
descoberta, em que predomina o entusiasmo, a experimentação, o orgulho de ter uma
classe, de fazer parte de um grupo profissional. O professor tem alguma dificuldade em dar respostas adequadas as necessidades da escola e dos alunos. “Este período será crucial para os professores principiantes concetualizarem o ensino e as suas visões pessoais de como de comportar como profissionais” (Day, 2001, p. 102); estabilização (4 a 6 anos de docência; 28-33 anos), vinculada por uma independência, marcada pela consolidação de um repertório básico de técnicas de ensino e subjacente a um forte sentimento de competência pedagógica. Assume outras responsabilidades, tendo uma grande preocupação com a componente didática de ensino, em que tem a necessidade de demonstrar um razoável conhecimento e uma adequada competência, para atuar no ambiente de trabalho, portanto, o professor tem a perceção de conseguir controlar mais facilmente as suas turmas, bem como uma melhor racionalidade na seleção de métodos e recursos didáticos que favorecem o trabalho em aula (Huberman, 1995);
diversificação (7 a 25 anos de docência; 33-40 anos) diz respeito à fase em que o
docente se sente mais motivado, entusiasmado e dinâmico. Equaciona o sistema educativo por diversos ângulos de interação, acabando por estar, nesta fase de desenvolvimento profissional, interessado em diversificar as suas experiências educativas, por um lado, no que concerne ao processo ensino aprendizagem, diversificando e experimentando novos materiais, métodos de avaliação, as formas de agrupamento dos alunos e a perspetiva programática, por outro lado, alguns equacionam uma promoção profissional, desempenhando funções e cargos diretivos; A fase da
serenidade/estabilidade (25 a 35 anos de docência; 40 a 50/55 anos) é caracterizado
pela diminuição do empenho e ambição. Encontra-se num estado de acomodação na carreira, fruto, também, das suas experiências e competências adquiridas nas fases
Competência do professor de Educação Física
anteriores. O professor não perspetiva uma evolução profissional, não estando interessado nem preocupado com o seu desenvolvimento profissional, assumindo uma atitude conservadora bastante adversa a mudanças, Day (2001). Huberman (1995), salienta que nesta fase os professores sentem-se menos sensíveis à avaliação exterior de colegas, diminui consideravelmente o afeto pelos alunos, sendo que a relação existente com o aluno passa a ser mais distante. Os professores questionam-se sobre a sua eficácia no processo ensino aprendizagem; Por fim, surge a fase de desinvestimento (mais de 35 anos de docência, desde os 55 anos), em que passam a investir mais nos seus interesses pessoais do que na aquisição de novas competências que poderiam ser profícuas para esta fase da carreira.
Por outro lado, Nascimento e Graça, (1998), estabeleceram uma outra classificação para caracterizar o desenvolvimento profissional dos docentes. Sendo assim, estes autores utilizando a terminologia de fases ou etapas, dividiram em: fase de
entrada na carreira (0 a 3 anos), que diz respeito aos primeiros anos de docência,
correspondendo à transição entre a profissionalização e a profissionalidade;
consolidação (4-6 anos), quando ocorre a ampliação do conhecimento curricular e o
consolidação das experiências profissionais e ações pedagógicas; diversificação (7-19 anos), fase da carreira em que as atividades são caracterizadas pelos professores como monótonas, contudo procuram uma variação das suas práticas pedagógicas e a fase da
estabilização (20 a 35 anos), em que os docentes questionam a própria profissão.
Um estudo realizado por Costa et al. (2004), onde tinham como objetivo analisar a evolução da autoperceção de competência profissional dos professores de Educação Física brasileiros, identificar o perfil de potencialidades e necessidades profissionais de acordo com os ciclos de desenvolvimento profissional, os resultados indicaram que os professores se autopercepcionam mais competentes no domínio das habilidades do que no domínio dos conhecimentos, em todos os ciclos do desenvolvimento profissional. Por outro lado, constatou-se que no ciclo de consolidação5 os docentes demonstraram possuir elevada competência no domínio dos conhecimentos e das habilidades, sendo que estes profissionais foram os que atribuíram maior importância a estes dois domínios. No que concerne aos resultados da variável sexo e as fases de desenvolvimento profissional, nos docentes masculinos, foram encontradas diferenças significativas entre as competências do domínio de conhecimento e o domínio de
Competência do professor de Educação Física
habilidades na fase de entrada na carreira. Em suma, da análise da perceção de competência dos profissionais de Educação Física de acordo com as fases de desenvolvimento profissional, os resultados permitiram mostrar que não se verificaram diferenças significativas.