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Os oceanos poderão fornecer a alimentação das gerações futuras em quantidade adequada, dependendo do sucesso da gestão dos recursos e de implementação de políticas nacionais e

34 internacionais, baseadas numa maior compreensão das variações sazonais dos stocks, tanto naturais como induzidas (Reis, et al., 2001). O peixe é o recurso básico das pescas e uma fonte de proteínas saudáveis para os humanos, interessando assim a sustentabilidade deste sector a toda a sociedade, num contexto de procura por qualidade (CE, 2011). O consumo de peixe normalmente encontra-se associado a regimes alimentares mais saudáveis, tendo em Portugal, atingindo cerca de 55,6-57 Kg per capita ano em 2001, um 3º lugar em termos globais, após o Japão e a Islândia, apesar da produção nacional satisfazer apenas 23Kg/per

capita (PROMAR, 2008; MADRP-DGPA, 2007; INE, 2011), podendo ter de importar cerca de

dois terços da procura, o que torna Portugal no maior importador de produtos de pesca da União Europeia (UE), com um registo negativo consistente na balança comercial (CE, 2011; ENM, 2013; Ocean2012, 2008). A relação entre produção/consumo atingiu 48% em 2005 e 51,9% em 2010, do qual resultou um défice comercial de 656 milhões de euros. No entanto, Portugal também exporta sobretudo para Espanha 74,9% do total de volume e 63,4% do total do valor (PROMAR, 2008; MADRP-DGPA, 2007; INE, 2011). Em 2010 a frota portuguesa capturou 222 246 t, sendo 166 304 t de peixe fresco ou refrigerado com um valor de 271 972 000 euros, tendo as capturas continentais aumentado 10,5% em volume e 5,4% em valor, situando-se Lisboa em 4º lugar em volume e em 3º em valor de desembarques (PROMAR, 2008; INE, 2011).

A força do sector é um elevado consumo de peixe per capita, o desenvolvimento de aquacultura offshore, mercados de transformação de elevada qualidade, técnicas de produção tradicional e artesanal, a abundância e diversidade de recursos pelágicos para a indústria, o conhecimento e tradições dos pescadores, uma capacidade da frota especializada adequada à disponibilidade de recursos, investigação, formação e uma ZEE extensa (MADRP-DGPA, 2007; PROMAR, 2008). Muitas das espécies exploradas são desembarcadas vivas com as inerentes dificuldades logísticas até à sua venda, a que acrescem flutuações ou alterações sazonais do preço de mercado, podendo levar os pescadores a abster-se tendo em vista uma venda estratégica, sendo assim o nível de dependência local, regional, nacional e internacional e respectivos canais de comercialização importantes, assim como a sua rotulagem e certificação de captura artesanal ou regras ambientais (IFREMER, 2007). A qualidade é uma das principais preocupações para qualquer indústria que comercialize produtos frescos. Entre os parasitas, os maiores, mais numerosos e mais diversificados são os trematodes didymozoides e os nematodes anisaquídeos, que levam à deterioração do peixe e perda de valor de mercado (Pascual, et al., 2006). Em Portugal, a contaminação de bivalves por biotoxinas aumentou na última década em frequência, intensidade e distribuição geográfica, restringindo a sua captura por razões de saúde pública, com impactos socioeconómicos significativos nas comunidades costeiras (IFREMER, 2007).

No Plano Operacional para as Pescas, a avaliação ambiental estratégica para a saúde e segurança alimentar visa maximizar a higiene e qualidade dos produtos, tendo como objectivo uma evolução positiva da tendência de consumo de peixe per capita, através da diversificação e certificação de produtos e processos por marcas e sistemas de gestão estratégica, garantindo a formação dos profissionais, a modernização industrial e sua participação em mercados externos. A Directiva 2001/42/CE estabelece que a avaliação ambiental estratégica deve ser articulada, coerente e convergente com medidas de protecção ambiental, prioridades específicas da pesca, programas para o desenvolvimento sustentável e conservação dos

35 oceanos numa abordagem integrada de planeamento territorial, não obstante os riscos inerentes ao aumento de artificialização e assimetrias, criando oportunidades ao nível da biodiversidade, desenvolvimento humano, promoção da saúde e segurança alimentar, redução da intensidade do uso dos recursos e ecossistemas (PROMAR, 2008).

Uma pesca mais diversificada em termos de produtos e mercados, torna-se menos vulnerável a choques económicos. Os produtos de pesca reduzidos a rações de peixe ou óleos são obviamente distinguíveis das destinadas à alimentação humana, sendo sujeitos a diferentes dinâmicas de mercado e implicações sociais. As comunidades piscatórias podem vir a ser afectadas por impactos nas infra-estruturas e costa, que para além de interromperem os movimentos das populações para o litoral, também alterarão a produtividade da pesca através dos meios biofísicos, fazendo diminuir os rendimentos disponíveis para a aquisição de alimentos nas comunidades mais pobres, quando se trata de pescas de subsistência ou mercados locais, que são mais sensíveis à procura dos países mais ricos, levando à exportação dos produtos. A tendência das pescas é para aumentar a sua comercialização global, alcançando o mercado internacional 40% em volume e 33% em valor (Dawn, et al., 2009). Para as pescas de pequena escala, a exportação pode ser um activo em termos de competitividade internacional, adicionando valor aos seus produtos frescos através da promoção da sua diferenciação (IFREMER, 2007), que constitui uma adaptação de contexto, não obstante o aumento das tarifas de exportação, dos requisitos sanitários e fitossanitários, regras de rotulagem de origem, da pesca subsidiada nos países desenvolvidos e da liberalização dos mercados (Sheldon, 2014). Os produtos tradicionais devem ser valorizados e direccionando-os a nichos de mercado ou gastronomias tradicionais, potenciando e maximizando as oportunidades, mobilizando assim outros subsectores para a tendência de perfil dos consumidores (PROMAR, 2008). A rotulagem da UE para produtos de pesca estabelece alguns requisitos mínimos obrigatórios, como nome comum da espécie, área de exploração e método de produção (IFREMER, 2007).

A ausência de quotas individuais, as TAC, pode induzir à intensificação da pesca, levando à sobrepesca e a uma “corrida ao peixe” através do aumento da potência e esforço de pesca das embarcações, mas também alterações, aumento e diversificação das espécies alvo, artes de pesca e mesmo modo de vida dos pescadores, dependendo o consumo de combustíveis por tonelada desembarcada de cada local e da distância e profundidade das suas zonas de pesca (Sheldon, 2014; IFREMER, 2007; Dawn, et al., 2009). Os planos anuais das Organizações de Productores aliam a sustentabilidade das pescas a uma oferta mais adequada em quantidade e qualidade face à procura. A comercialização deve centrar-se nos interesses e confiança dos consumidores, promovendo a qualidade dos produtos através de uma rotulagem ambiental voluntária e de informação sobre os processos de produção, possibilitando assim a melhor procura através da inteligência dos mercados (CE, 2011; ENM, 2013). A transformação e comercialização são áreas de elevada empregabilidade directa e indirecta, que aumentam o valor acrescentado dos produtos, assim como a dinâmica e competitividade do sector através da evolução, expansão e internacionalização dos mercados e geografias de forma a atenuar o défice da balança comercial nacional. Esta indústria induz ainda a modernização dos canais de distribuição comercial, logística e organizacional ao nível da sua articulação e gestão, reduzindo a sazonalidade associada ao turismo através de campanhas promocionais, novas

36 tecnologias e inovação, assim como incentivando a imagem de qualidade, protecção ambiental, condições de saúde e higiene dos seus produtos (PROMAR, 2008).

Os subsídios anuais entre 2007-2012 alcançaram a nível mundial ca. 30 mil milhões de euros, dos quais 3,55 mil milhões do Fundo Europeu de Pesca da UE, que para Portugal foram de cerca de 219 milhões (Ocean2012, 2008). As políticas nacionais que desencorajem as pescas economicamente inviáveis levam à diversificação das restantes, assim como aumento da sua resiliência, sustentabilidade ou valor acrescentado através de eco-rotulagem (Sheldon, 2014). Um sector forte e eficiente não depende de apoios públicos e opera de acordo com os mercados na estabilização e transparência dos preços, beneficiando assim os consumidores, sendo para tal necessária uma gestão mais activa da redução da sobre-capacidade das frotas, que é a principal causa de sobrepesca (CE, 2011; ENM, 2013). Em Portugal, o mercado é regulado, sendo a exploração sazonal das espécies determinada pela procura (IFREMER, 2007). É indispensável uma gestão e políticas sectoriais coordenadas que promovam a competitividade, através da inovação, diversificação e valorização dos produtos, assim como de uma restruturação dos circuitos de produção e comercialização para modelos mais eficientes e dinâmicos, que assegurem o desenvolvimento económico das comunidades piscatórias mais dependentes, de forma a garantir a coesão social (MADRP-DGPA, 2007; PROMAR, 2008; ENM, 2013; Ocean2012, 2008).

Tabela 1 – Dinâmicas históricas e tendências futuras das actividades marinhas (MAMAOT,

2012 in ENM, 2013).

Histórico 1994-2009 Tendência 2010-2020

Actividade Dinâmica Socio–

economica Degradação das águas marinhas Dinâmica Socio– economica Dinâmica das águas marinhas Pesca comercial ↓ → → → Aquacultura/transformatção → → ↑ → Algas/Outros productos ↓ → → →

Bioprospecção e genética negligenciável negligenciável ↑ →

O Plano Estratégico Nacional para as Pescas apoia o consumo de determinados produtos das indústrias tradicionais através de campanhas de promoção, tais como para a sardinha e o atum nas suas diversas facetas, como por exemplo em azeite, mas também através de investigação de novos produtos e formas de empacotamento, respondendo assim à procura e reduzindo a sazonalidade do consumo. A conservação e armazenamento do peixe permitem que a captura e consumo difiram no tempo e espaço. A transformação e comercialização, apesar de requererem investimento, são determinantes para a valorização e diversificação dos produtos (PROMAR, 2008; MADRP-DGPA, 2007). Em 2010 as exportações de produtos preparados e enlatados aumentou 17,4% para 123,2 milhões de euros, de peixes frescos ou refrigerados 15,5% e de congelados 13,6% (INE, 2011).

Com o actual aumento de internacionalização do comércio de peixe, também aumentarão as emissões de CO2 devido ao transporte aéreo e terrestre, com possibilidades de mitigação pelo transporte marítimo ou consumo local (Dawn, et al., 2009). As pequenas embarcações pescam e disponibilizam os seus produtos em proximidade do seu porto, beneficiando assim as

37 comunidades rurais (ECOTRUST-b, 2008). Na pesca, a maioria das emissões derivam do transporte, que normalmente se realiza por via marítima ou no caso de espécies de elevado valor comercial por via aérea com emissões 3,5 vezes superiores que atingem os 8,5 Kg CO2/Kg de peixe, que quando comparadas com um consumo local a menos de 400Km da zona de pesca são 90 vezes superiores, dependendo assim da distância, processamento e armazenamento. Assim, com transporte marítimo ou preferencialmente com um consumo local são possíveis reduções entre 2-780% das emissões (Sheldon, 2014; IFREMER, 2007; Dawn, et al., 2009).

O novo Plano de Ordenamento do Espaço Marítimo e Lei Base de Gestão tem como objectivo a definição de um enquadramento jurisdicional de sustentabilidade, promovendo a economia do mar articulando interacções públicas e privadas em relações económicas locais, aproveitando as oportunidades através de sinergias, que integrem de forma inclusiva, cooperante e de forte independência as diferentes iniciativas e vontades, tal como as apresentadas na tabela 1, contribuindo para acções transectoriais de investimento prospectivo através de um fórum de pensamento estratégico (ENM, 2013; EC-DGMARE, 2013). O planeamento territorial em zonas oceânicas visa minimizar conflitos, compatibilizando a utilização do mar e métodos de produção com a conservação. Os Planos Estratégicos Integrados por sua vez têm como objectivo promover a preservação ambiental e desenvolvimento sustentável das pescas, restabelecendo o equilíbrio inerente às actividades tradicionais com vantagens ambientais óbvias, ao nível do turismo, cultura do sal, aquacultura, lazer, conservação e recuperação ambiental (MADRP-DGPA, 2007; PROMAR, 2008).

A costa é afectada pelos oceanos que a modelam e pelas indústrias marítimas, que nela se instalam. Cada sector económico, além das oportunidades socioeconómicas e ambientais, produz diferentes impactos negativos, incluindo emissões de carbono e consequentes alterações climáticas, que requerem medidas de mitigação e/ou adaptação, para não resultarem num acréscimo de competição, desemprego, instabilidade social, perda de desenvolvimento e destruição da memória cultural (EU, 2012). Em termos de capital existem 5 activos, o humano, o natural, o financeiro, o social e o físico, sendo todos mediados por politicas, instituições, mercados ou organizações que realizam uma análise socioeconómica mais ampla das pescas num contexto de alterações climáticas, para além da simples relação comunidade-produção (Dawn, et al., 2009). A pesca artesanal de pequenas escala tem sido ignorada ao nível das politicas nacionais e europeias, ficando expostas à competição e interacções de outros segmentos no sector, tais como aquacultura, pesca recreativa ou pesca ilegal, que restringem os mercados, competindo também por espaço para desembarques e estruturas de apoio à pesca com a indústria do lazer marinho, por zonas de pesca com a exploração de sedimentos para construção, parques eólicos offshore, navegação de recreio e comercial, assim como com medidas de conservação (IFREMER, 2007). A relação das pescas com o turismo é ambígua, tendo igualmente um efeito negativo devido à competição por recursos, fraca coordenação, ausência de marketing e aumento dos custos locais de habitação (EC-DGMARE, 2013). Não obstante, os seus maiores competidores são embarcações de arrasto espanholas, arrastos manuais e a recolha estival manual não selectiva de recreio, que alcança quantidades consideráveis (IFREMER, 2007).

38 Nas pescas a possibilidade de crescimento a longo prazo é fortemente condicionado por limites biológicos de segurança ou planos de recuperação, sendo assim a aquacultura decisiva para a capacidade de auto-fornecimento nacional (MADRP-DGPA, 2007). A pesca representa cerca de 2/3 e a aquacultura 1/3 do sector, apesar da sua tendência para aumentar (Dawn, et al., 2009). A indústria da aquacultura é um competidor por mercados globais, mas também um grande mercado para as pescas na área da alimentação de peixes (Dawn, et al., 2009). Em Portugal a aquacultura alcançou em 2005 cerca de 3% ou 6801 t, estimando-se um aumento para 15000 t em 2013 (PROMAR, 2008).

A maioria da frota de pesca de pequena escala da UE é constituída por embarcações de armadores auto-empregues, que são os seus únicos operadores ou têm acordos de partilha de rendimentos, existindo também porém um frota altamente capitalizada com trabalho partilhado e recompensa. A principal fonte de financiamento é o auto-financiamento, empréstimos, subsídios e outros. Como indicadores de competitividade referem-se o custo de entrada e a dependência de subsídios (IFREMER, 2007; EC-DGMARE, 2013). O Plano Estratégico para o Mar promove o empreendorismo, inovação, partilha de conhecimento entre organizações do ensino superior, empresas e centros de investigação de forma a actualizar competências nas pescas tradicionais, desenvolver modelos multiespecíficos, artes de pesca, técnicas e tecnologias de mitigação de emissões de carbono e de redução de danos no fundo marinho, rejeições e pesca acessória. Visa também promover a investigação sobre impactos socioeconómicos e ecossistémicos da gestão, em termos de crescimento, produtividade, competitividade, sustentabilidade ambiental, capacidade de resposta às necessidades de mercado e melhoria dos produtos da pesca através do seu processamento, rotulagem, rastreabilidade e certificação (EC-a, 2013).

Em Portugal >90% das empresas são micro e pequenas empresas, que baseiam a sua competitividade na qualidade, valorização, diversificação e inovação dos produtos sobre a qual depende a viabilidade do sector, adaptando o esforço de pesca aos recursos disponíveis através de técnicas ambientalmente mais favoráveis baseadas no melhor conhecimento científico disponível, apesar de persistirem problemas estruturais de fragilidade financeira, reduzida qualificação dos recursos humanos e gestão profissional, assim como de evolução e melhoria dos circuitos comerciais, controle de preços e de renitência em investir em factores imateriais para promover a competitividade, sendo assim grande parte do valor acrescentado transferido para o sector terciário. O Plano Estratégico Nacional para as Pescas apoia especificamente a pequena pesca local, de forma a melhorar a gestão e controle, reforçar as competências, aumentar a selectividade e segurança nas capturas, melhorar os circuitos comerciais e ajustar o esforço de pesca aos recursos disponíveis (MADRP-DGPA, 2007; PROMAR, 2008).

As pescas enfrentam desafios cruciais à sua existência devido a uma conjugação de factores, incluindo a sobrepesca, poluição e alterações climáticas, que induzem o declínio local das espécies alvo tradicionais das quais se encontram importantes unidades populacionais em perigo, assim como devido a mudanças económicas e sociais profundas, tais como o aumento do consumo de produtos de aquacultura e produtos preparados. Uma análise SWOT evidencia as dificuldades e restrições no sector tradicional, ao nível da idade média da frota, condições operacionais, deficiências na organização e gestão e escassez dos recursos, sendo expectável

39 uma desvalorização do peixe por unidade, um decréscimo da relevância das espécies tradicionais e um dinamismo insuficiente da aquacultura. Como oportunidades destacam-se o aumento da procura de produtos inovadores e pré-confeccionados de qualidade certificada, a relação afectiva com o mar, um aumento da segurança e modernização da frota com tecnologias ambientalmente mais favoráveis e eficientes, a extensão das AMPs em complementaridade com as pescas, assim como um maior conhecimento científico e tecnológico inerente ao planeamento das zonas costeiras (MADRP-DGPA, 2007; PROMAR, 2008). As ameaças para o sector são a competição, as fracas estratégias de mercado, uma baixa capacidade de estabelecimento de preços e a recessão (EC-DGMARE, 2013).

A restruturação e redimensionamento dos vários subsectores das pescas, reforçam a necessidade de aumentar a sua competitividade, sustentabilidade (PROMAR, 2008), qualificações tecnológicas e de gestão, assim como o investimento em energias alternativas e parcerias estratégicas, não obstante a dimensão familiar da pesca tradicional, os elevados custos de exploração, o envelhecimento, baixo nível de educação formal dos pescadores, assim como a menor valorização de investimentos imateriais, em capital humano e inovações tecnológicas, mas também a insuficiente diversificação dos produtos. Verificam-se dificuldades de recrutamento devido à severidade da actividade, irregularidade de rendimentos e à sua imagem social (MADRP-DGPA, 2007; PROMAR, 2008). O trabalho familiar não remunerado ou não declarado, e por vezes actividades ilegais de carácter regional levam a uma inflação dos dados do emprego e rendimento (EC-DGMARE, 2013).

Em Portugal os mestres têm mais idade e habilitações, não havendo mulheres na pesca para além das suas esposas que ajudam na escolha do peixe. Durante os defesos, condições meteorológicas adversas ou períodos de reparação da embarcação, os pescadores procuram trabalho no sector sem accionarem o desemprego. Em média o rendimento diário de um pescador local situa-se nos 69,36 ± 20,44 euros e de um pescador costeiro nos 74,74 ± 15,45 euros, de um mestre local nos 209,91 ± 94,99 e e de um costeiro nos 206,10 ± 107,26 euros, atingindo mensalmente o salário líquido de um pescador 1065 euros e de um mestre 3020 euros, dependendo do tamanho da embarcação, quantidade e valor da captura, sendo mais elevado com condições favoráveis. Nas embarcações com <8 m é apenas cerca de 46%-55% destes valores, tendo havido vários programas nacionais e comunitários de apoio da pesca local e costeira, para a sua renovação e modernização em 1997-2004. O rendimento de um pescador pode alcançar os 75% do orçamento da sua habitação. Mais de 80% dos pescadores nasceram em locais em que a pesca é importante na comunidade, tendo a maioria permanecido no mesmo local desde o nascimento com um pai ou avô pescador, apesar de preferirem outras actividades mais bem pagas para os seus filhos. Apenas 16% são pescadores de primeira geração, tendo alguns emigrado devido a melhores condições sociais, área de pesca, oportunidades de emprego, por razões familiares ou políticas (IFREMER, 2007).

A figura 1 evidencia que os armadores/pescadores lutam para manter a sua empresa viável, sendo um banco de licenças uma oportunidade de diversificar as suas pescas e aceder a financiamento alternativo através de redes, de partilha de riscos de investimento com outros pescadores e parceiros, assim como a activos dos membros, fundos governamentais, bolsas de fundações e empréstimos (Sutcliffe, et al., 2008). Devido ao elevado risco atribuído pelo sistema financeiro às micro, pequenas e médias empresas de pesca tradicional, estas têm mais

40 dificuldades em aceder a créditos a médio e longo prazo para a sua modernização, expansão ou inovação e têm de suportar custos financeiros mais elevados perante dadas garantias, havendo no entanto outros instrumentos de apoio, tais como subsídios a fundo perdido, reembolsáveis ou com bónus nas taxas de juro e modalidades de financiamento inovadoras em que os riscos associados são parcialmente cobertos ou compensados através do Programa Operacional de Pescas, mecanismos de capital de risco, fundos tecnológicos ou outras garantias (PROMAR, 2008).

Os bancos não aceitam licenças ou quotas como colaterais, tendo os pescadores de usar os seus próprios activos como garantia. Os planos de negócio devem reconhecer a natureza imprevisível, frequentemente incerta e variável das pescas e incluir estratégias de redução de riscos, tais como a diversificação de compra de quotas e licenças para várias espécies, devido à incerteza, tendo de ser flexíveis para se ajustarem a alterações por aprendizagem (Sutcliffe, et al., 2008). Sem pescadores uma licença é apenas um pedaço de papel, havendo várias possibilidades de gestão, incluindo bancos de licenças, cooperativas, empresas de responsabilidade limitada, organizações não-lucrativas financiadas por fundações e governos ou corporações de accionistas com partilha de dividendos. Um banco de licenças inicia-se com uma reunião de grupo com 5 a 10 pescadores convidados ou publicitada em jornais comunitários e revistas sectoriais. O acordo entre os pescadores e o banco beneficia também grupos ambientalistas e municípios visto incluir preços justos para aluguer de quotas e medidas de conservação por pressão de pares ou por sanções financeiras. É crucial que os pescadores sejam os principais actores nos processos decisórios, não obstante a participação