A definição de tempestade é um evento de elevação significativo do mar que excede a tendência média anual durante 5% do tempo, indicando as projecções que estas vão aumentar ligeiramente na costa oeste de Portugal (Andrade, et al., 2006), especialmente de inverno, com consequências para a pesca, infra-estruturas costeiras de suporte e comunidades piscatórias (Reis, et al., 2006), num contexto de aumento do nível médio do mar. As recomendações para adaptação às alterações climáticas consistem no reforço dos portos, construção de paredões e esporões adicionais e mais avançados de forma a reduzir o impacto das ondas, mas também no restauro de zonas húmidas ou mesmo uma retirada gerida não obstante os custos (Reis, et al., 2006; Dawn, et al., 2009). No Atlântico NE são comuns tempestades com grandes ondas, encontrando-se no entanto progressivamente a menores latitudes. A sua força advém de ventos muito fortes e da altura das ondas, com períodos de picos de onda excepcionalmente longos. Estes eventos extremos estão incluídos em padrões persistentes das perturbações troposféricas da corrente de jacto, que por sua vez providenciam condições favoráveis à ciclogénese ou seja à formação de depressões, das quais dependem. Sabe-se que o El Nino e o seu correspondente La Nina influenciam fortemente os padrões meteorológicos globais, alterando ondas e a posição da corrente de jacto. Apesar de nenhuma tempestade poder ser vista como excepcional, o seu agrupamento e persistência tem sido invulgarmente elevado, com períodos de picos de ondas muito longos, em que cada onda transporta muita energia e inflige danos significativos nas infra-estruturas costeiras. No Atlântico, de inverno, o aumento da sua intensidade verifica-se progressivamente a sul, a que acresce um aumento da humidade devido ao aquecimento subtropical. É necessária mais investigação para permitir o desenvolvimento de modelos climáticos de elevada resolução de forma a sustentar processos decisórios sobre futuros investimentos, protecções costeiras, interrupções de viagens e fornecimento de energia. Um mundo mais quente terá também uma precipitação diária mais intensa, como já se verifica (CEH, 2014).
63 No Atlântico Norte nas proximidades dos 30º N, em 2013/14, as temperaturas do oceano e consequentemente a humidade atmosférica mantiveram-se acima da média dos últimos 30 anos (1981-2010) e substancialmente acima das décadas anteriores (1951-1980). Em termos de tempestades, os ventos foram muito mais fortes em Dezembro/Janeiro, mostrando os satélites como as ondas na corrente de jacto levaram ao desenvolvimento de grandes ciclones e a que esta corrente perdesse força, apesar das grandes variações diárias. A compreensão das complexas interacções entre ondas e a corrente de jacto são essenciais para permitir previsões meteorológicas, que avançaram bastante nos últimos anos em termos do entendimento da influência dos mecanismos estratosféricos nos padrões meteorológicos da troposfera, assim como na influência do ciclo solar de 11 anos nos invernos mais frios. Na estratosfera tropical os ventos circulam em redor do globo de O-E e E-O, variando a cada 2 anos na Oscilação Quasi- Bienal. Os ventos oeste de inverno tornam-se muito fortes, excedendo por vezes o dobro da sua força normal, precedendo períodos de uma corrente de jacto forte e um padrão do índice NAO positivo consistente com o aumento da intensidade da tempestade, que culmina em danos e cheias (CEH, 2014). Alterações nos ventos influenciam a circulação, zona de mistura e afloramento (Rijnsdorp, et al., 2009).
Na costa portuguesa dominam dois regimes eólicos sazonais, que se alternam em menos de um mês, ocorrendo Outono/Inverno os ventos SO e na Primavera/Verão os ventos N ou NE, sendo também conhecidos por ventos de afloramento e de relaxamento. Os ventos Oeste são os mais comuns (Lavín, et al., 2007; Otero, et al., 2008; Otero, et al., 2009), apesar do seu decréscimo no final do século XX, que levou à intensificação da estratificação e afloramento, o que por sua vez afectou as espécies de águas frias (Reis, et al., 2001; Reis, et al., 2006). A intensidade do vento apresenta um padrão cíclico de 3 anos no contexto do Padrão do Atlântico Este e da anomalia dipolar N-S, abrangendo E-O num ciclo de 4 anos (Santos, et al., 2012). A fiabilidade das previsões sobre a velocidade e direcção do vento é relativamente baixa (Jansen, 2014). Alterações na posição e intensidade da convecção atmosférica numa área podem levar a um ajustamento das células de pressão nas áreas adjacentes, alterando os padrões dos ventos e correntes oceânicas globais (Barange, et al., 2009).
A sobre-elevação do oceano resulta de processos físicos da atmosfera, que aumentam o nível do mar devido às marés de forçamento astronómico, após as ondas originadas pelo vento serem filtradas, correspondendo portanto a uma parte das marés não-periódica que exclui os efeitos das descargas fluviais e que é relevante para a propagação de tempestades sobre a plataforma continental. Quando a sobre-elevação é positiva dão-se cheias. Assim a avaliação de risco deve ter em conta os níveis do mar excepcionalmente elevados resultantes da coincidência de marés elevadas e da sobre-elevação derivada de uma grande amplitude das marés astronómicas (Andrade, et al., 2006). O vento gera ondas progressivas à superfície, que dependem da sua intensidade e das trajectórias do sistema depressionário onde este é mais intenso, sendo necessários modelos numéricos para calcular as ondas no clima de referência e futuros, de forma a aferir o seu regime. Em Portugal os resultados sugerem invariância ou apenas um ligeiro declínio na altura significativa média anual das ondas, sendo a sua sazonalidade mascarada pela elevada variabilidade intra-anual. Os cenários futuros indicam alterações especialmente de verão, sugerindo invariância ou uma ligeira diminuição da agitação marítima no inverno (Andrade, et al., 2006). A Escala de Mar de Douglas mede a altura das ondas e ondulação (Cabanellas-Reboredo, et al., 2012).
64 Entre os efeitos negativos mais dramáticos das alterações climáticas sobre a produtividade das populações de peixes pode estar o aumento da frequência de eventos extremos (Rijnsdorp, et al., 2009; Rijnsdorp, et al., 2010). O aumento da severidade das tempestades induzirá um aumento da pesca fantasma, devido à perda de mais artes de pesca e armadilhas, resultando num acréscimo de mortalidade ictiológica e de danos ao habitat, que poderão ser mitigados por programas de recuperação das artes perdidas ou através de design de impacto mínimo com materiais biodegradáveis (Sheldon, 2014).
As pescas sempre foram influenciadas por variações do clima, que incluem aumento da frequência de eventos extremos raros e da severidade dos fenómenos habituais, como tempestades, cheias e ausência de afloramento, sendo provável que estes impactos sejam experienciados mais que a subida da temperatura. No entanto, é necessária mais investigação sobre a forma como as pescas vão reagir a curto prazo e adaptar-se a pontos de não retorno para delinear políticas de gestão adequadas aos impactos para além dos quais as condições são qualitativamente diferentes. As comunidades piscatórias de pequena escala, situadas perto do mar, estão muito expostas em termos de propriedade e infra-estruturas devido ao aumento da erosão costeira, do nível médio do mar, da própria frequência e intensidade dos eventos meteorológicos extremos, assim como de alterações dos padrões meteorológicos e oceanográficos locais, que impedem a pesca baseada no conhecimento tradicional (IPCC, 2007; Dawn, et al., 2009). A Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas para ser bem sucedida requer o envolvimento de todos os actores públicos ou privados (DR, 2010), dependendo a eficácia da resposta por parte da sociedade da forma como cada cidadão as compreende (Bostrom et al, 1994), baseando-se na ciência, mas também na sua responsabilidade, conhecimento, valores, moral e práticas locais. A própria adaptação leva à procura de novos conhecimentos relativos ao futuro, assim como de sociedades e ambientes distantes (Buckeley, 2000).
A melhoria dos sistemas de informação, conhecimento e previsão no planeamento de estratégias dos diferentes sectores costeiros é também relevante. Não obstante uma possível centralização das pescas, implicará deslocações mais longas com maior consumo de combustível em terra e mar, assim como repercussões negativas para as menores comunidades piscatórias (Reis, et al., 2006; Dawn, et al., 2009). As comunidades piscatórias estão bem familiarizadas com as previsões meteorológicas na internet, em que baseiam as suas decisões de pesca, legitimando-as colectiva e individualmente através da sua confirmação local por observação directa. No entanto, a definição de conceitos como previsão e projecção ou meteorologia e clima são facilmente confundidos, assim como os processos físicos subjacentes às alterações climáticas, tendo uma compreensão diferente da relação científica entre sociedade e ambiente global, visto não estarem familiarizados com o discurso científico (Buckeley, 2000). Actualmente, no oceano a sazonalidade apresenta apenas duas estações, uma de Primavera/Verão com águas subsuperficiais estratificadas e outra de Outono/Inverno em que estas se misturam (Lavín, et al., 2007). As projecções indicam para a Europa ocidental um decréscimo na frequência dos invernos mais frios e um aumento dos verões mais quentes (Rijnsdorp, et al., 2010). A década de 2001-2010 foi a mais quente desde que há registos há 160 anos e 2010 o ano mais quente, seguido de 2005, especialmente na Europa e Ásia. Com o ar mais quente, há mais evaporação e este pode reter mais vapor de água, que é um gás com efeito de estufa (GEE), aumentando a intensidade do ciclo hidrológico e consequentemente a
65 probabilidade de eventos extremos e cheias, sendo as recentes tendências consistentes com os impactos esperados das alterações climáticas, a que acresce o aumento do nível médio do mar (WMO, 2013).