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Complementos teóricos sobre tomada de decisão gerencial

4 METODOLOGIA DE PESQUISA E BASE TEÓRICA COMPLEMENTAR

4.3 Complementando a fundamentação teórica a partir das observações

4.3.2 Complementos teóricos sobre tomada de decisão gerencial

A idéia central do modelo de gestão proposto é que toda decisão gerencial seja tomada com base em análise de fatos e dados. Esta idéia contrapõe-se à voz corrente dos arautos do empreendedorismo389, segundo os quais o sucesso empresarial decorre de ações perspicazes, rápidas e indolores – transparecendo, muitas vezes, ações quase que milagrosas – e que as competências que mais contam são a astúcia, a coragem, a intuição e a atitude.

387 STEINDL, op. cit., 1990.

388 Nota do autor: tais fatos, por si só, não tornam a empresa economicamente insustentável, apenas alteram os números a serem trabalhados, definindo parâmetros de rentabilidade distintos das grandes empresas.

389 Vide justificativa desta tese.

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O processo decisório defendido pelo modelo está fundamentado em métodos científicos de pesquisa e produção de conhecimento em ciências sociais390, na teoria da racionalidade circunscrita de March & Simon391, bem como na regra dos 80/20 de Pareto392.

A referência a métodos científicos de produção do conhecimento deve-se ao fato de que a tomada de decisão nas empresas não pode prescindir dos processos de: 1) coleta de dados;

2) processamento de informações; 3) análise de informações; e 4) conclusões. O volume de recursos e “energia” despendidos nesses processos, por sua vez, deve ser determinado a partir de uma rigorosa análise dos custos e dos benefícios gerados pelos mesmos.

Conforme exposto na seção 3.4, March & Simon colocam que a racionalidade clássica na tomada de decisão humana mostra-se empiricamente inconsistente. Desta forma, na decisão empresarial, há a necessidade de se analisar apenas as variáveis essenciais interferentes no processo, desviando-se da hipótese de maximização de lucros no curto prazo.

Sua crítica à teoria neoclássica da gestão empresarial repousa fundamentalmente em dois argumentos:

1) A negação do pressuposto de que os empresários detêm o conhecimento de tudo que envolve o seu mercado;

2) Negando-se este pressuposto, a dedução de que o empresário das teorias clássicas não seria real, mas um ente ideal (alguém que “deveria existir”).

Em decorrência desse entendimento, a teoria neoclássica de gestão é normativa e não positiva. O empresário real não procura a maximização de todas as variáveis na solução de seus problemas. Ele procura, na verdade, selecionar o mais importante e desconsiderar o secundário. Nesse contexto, o aspecto cognitivo passa a ser relevante para a redução do grau de incerteza na tomada de decisão.

Igualmente referida na seção 3.4, a regra de Pareto é usada como ferramenta de priorização, pois, por mais complexos que sejam os objetivos empresariais (seja na função lucro ou rentabilidade), constata-se que 80% dos efeitos advêm de apenas 20% das causas.

Com o advento da Tecnologia da Informação (TI), multiplicam-se os recursos para processar dados e transformá-los em informação. Aliás, as observações trazidas à pesquisa, conforme ver-se-á adiante, demonstram que o recurso informacional é abundante dentro de todas as organizações, porém ineficazmente empregado. Além disso, o processamento de dados é custoso e os gerentes não sabem o que é principal e o que é secundário. Desta forma,

390DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1981.

391 SIMON, op. cit., 1980; MARCH; SIMON, op. cit., 1981.

392 PARETO apud ISHIKAWA, op. cit., 1985.

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acabam caindo no intuicionismo. Para March & Simon393, não adianta, nem processar tudo, nem ignorar tudo. É preciso processar e analisar apenas o principal. Por isso os autores dizem que o sistema de tomada de decisão é racional, mas não é de maximização.

Mesmo para a informação de caráter externo (mercado e concorrência), com o uso da Internet, estão cada vez mais fáceis os caminhos para a busca de informação relevante à análise do posicionamento no mercado, até mesmo quanto aos concorrentes, quanto mais em mercados regionalizados onde os players, normalmente, se conhecem pessoalmente.

O modelo fundamenta seu conceito de sustentabilidade empresarial na obra de Schumpeter394 de que a única fonte de lucro das empresas é a inovação. Dessa forma, a crise está associada à disseminação da inovação, pois a taxa de lucro das empresas tende a cair quanto mais disseminada for essa inovação. Portanto, para que uma MPME de base local seja sustentável no mercado, ela terá que inovar, não por espasmos como deixam a entender os referidos gurus do empreendedorismo, mas de modo sistemático e estruturado, como coloca Drucker395, com foco nos gargalos e explorando de forma inovadora os não gargalos, conforme orienta Goldratt396.

A originalidade do modelo reside no fato de que a adoção destes conceitos essenciais à sustentabilidade da MPME deve ser materializada através de práticas de gestão (sistemáticas) facilmente assimiláveis pelos gestores e funções essenciais do negócio, levando-se em conta todas as restrições de recursos inerentes aos pequenos empreendimentos. Aliás, este é o principal ponto defendido por March & Simon. As regras têm que ser úteis e fazerem sentido.

Não se pode exigir que o gestor analise tudo, pois ele tender-se-á a se perder na abundância de informações. O mesmo deve analisar apenas aquilo que está sob seu poder de interferência:

aquilo que é vital para a tomada de decisão.

Outro fator a destacar no modelo é a adaptação de práticas de gestão consagradas em organizações de renome no Brasil e no mundo397 à realidade de empresas que atuam em âmbito regional, apenas utilizando-se de recursos preexistentes e pelo desenvolvimento de procedimentos e métodos de fácil aprendizado, implementação e controle.

Nesse contexto, o modelo torna-se de fácil apropriação privada ou pública, pois os recursos a serem investidos são relativamente modestos, tanto para a implementação autônoma por parte de uma MPME, quanto para a implantação coletiva através de políticas

393 MARCH; SIMON, op. cit., 1981.

394 SCHUMPETER, op. cit., 1985.

395 DRUCKER, op. cit.,1985.

396 GOLDRATT, op. cit., 2002.

397 FNQ, 2007.

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públicas398. Cabe relembrar que a amostra pesquisada engloba 24 MPMEs e 17 ramos de atividades (da indústria, comércio e serviços), ramos estes que podem ser encontrados nas mais variadas regiões do país.