2 MPMEs E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
2.2 MPMEs e Desenvolvimento Regional Endógeno
A moderna teoria do desenvolvimento regional endógeno é a referência aqui adotada para a avaliação das políticas públicas voltadas ao enfrentamento das desigualdades regionais.
De acordo com Amaral Filho, é possível definir desenvolvimento endógeno como
(...) um processo interno de ampliação contínua da capacidade de agregação de valor sobre a produção, bem como da capacidade de absorção da região, cujo desdobramento é a retenção do excedente econômico gerado na economia local e/ou a atração de excedentes provenientes de outras regiões. Este processo tem como
49 DOLABELA, op. cit., 1999, p. 134.
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resultado a ampliação do emprego, do produto, e da renda local ou da região, em um modelo de desenvolvimento regional definido50.
Sem negar a correção essencial da definição anterior, vale chamar a atenção para o fato de que ela define o desenvolvimento endógeno a partir de suas consequências – a retenção/apropriação local de parcela crescente do valor agregado e do excedente social – e não por suas determinações causais. De acordo com Paiva51, os fundamentos de um tal processo de internalização da apropriação do valor agregado em geral, e do produto excedente, em particular, se encontram na mobilização de recursos produtivos de propriedade dos agentes econômicos que habitam o território. Em particular, é preciso que os processos de inovação e acumulação sejam definidos e controlados por agentes internos, para que os seus frutos sejam apropriados internamente e o processo de desenvolvimento assuma, plenamente, um caráter endógeno. Por oposição, se a inovação e o investimento são definidos desde fora e o excedente social é apropriado por agentes externos, não há como caracterizar um processo de desenvolvimento territorial como endógeno.
Vale observar, ainda, que, para Paiva, não existe qualquer oposição entre desenvolvimento endógeno e articulação com o exterior. Pelo contrário: o crescimento “para fora”, assentado na identificação e exploração de uma base de exportação é o padrão clássico de desenvolvimento endógeno de regiões periféricas.52 Referenciando-se na tradição que vai de Adam Smith a Douglas North (passando por Rosa Luxemburgo, Michal Kalecki e João Manuel Cardoso de Mello), Paiva defende que a exportação é um instrumento particularmente eficaz de enfrentamento dos limites internos de mercado e de alavancagem da inovação e da acumulação. Desta forma, sempre que este processo de integração com o exterior for controlado por agentes internos e determinado por seus interesses, o desenvolvimento decorrente do mesmo será também endógeno.
Nesse sentido, parece evidente que todo o processo concreto de desenvolvimento envolve a participação ativa de agentes internos e externos ao território, que repartam das mais diversas formas o valor agregado e o excedente social gerado no interior do mesmo. De
50 AMARAL FILHO, Jair. Desenvolvimento regional endógeno em um ambiente federalista. Planejamento e políticas públicas, Brasília, n. 14, p. 37, dez. 1996.
51 PAIVA, C. A. O que é uma região de planejamento com vistas ao desenvolvimento endógeno e sustentável?
In: Anais das primeiras jornadas de economia regional comparadas. Simpósio E4-07. Porto Alegre: PUC-FEE, 2005a. p. 4 – 5.
52 A este respeito veja-se PAIVA, C. A. Smith, Kalecki e North e os fundamentos de uma teoria geral do desenvolvimento mercantil-capitalista de regiões periféricas. Textos para Discussão FEE. Porto Alegre: FEE, 2007. Disponível em: <http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/publicacoes/pg_tds_detalhe.php?ref=010>.
Acesso em: 12 jun. 2009.
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sorte que – tal como se entenda a proposta interpretativa de Paiva – mais do que caracterizar um processo de desenvolvimento como estritamente endógeno ou exógeno, o que se tem, de fato, são distintos graus de endogenia e exogenia. Um processo de desenvolvimento será tão mais endógeno quanto mais os movimentos de inovação e acumulação que se encontrem na sua origem forem articulados e controlados por agentes internos.
Ora, ao se tomar o desenvolvimento endógeno desta perspectiva, não parece haver qualquer conexão entre esse fenômeno e o tamanho das empresas que lhe dão sustentação.
Mas essa aparência é enganosa, por dois motivos.
Desde logo, entende-se – na esteira de Paiva53 – que seja possível diferenciar os territórios ao longo de um entre dois extremos: territórios polarizadores e territórios periféricos. Os territórios polarizadores são aqueles cujo processo de desenvolvimento capitalista já se desdobrou – entre outras características – num grau de concentração interna de capital que se expressa na emergência e consolidação de grandes grupos empresariais de base endógena54. Os territórios periféricos são aqueles cujo processo de acumulação interna não se deu. De sorte que, ou a economia regional é caracterizada (senão exclusivamente, pelo menos essencialmente) pela presença de MPMEs de base local, ou a economia regional é caracterizada pela presença de MPMEs de base local que são polarizadas por (e, no limite, subordinadas a) empresas de porte maior cujo controle patrimonial é externo (seja ele multinacional, como no caso das fumageiras do Vale do Rio Pardo, seja ele nacional, como no caso da economia de enclave do Pólo Petroquímico de Triunfo).
Dessa forma, não parece haver espaço para dúvida de que a endogeneização do desenvolvimento – no sentido que foi dado a este termo acima – nos territórios periféricos passa, necessariamente, pela alavancagem do potencial inovativo e de acumulação das MPMEs, que são as (virtualmente) únicas organizações produtivas de base rigorosamente local. Mas isto não é tudo. Ainda que de forma matizada, a alavancagem da capacidade competitiva e de crescimento autônomo das MPMEs cumpre um papel importante no desenvolvimento endógeno dos territórios polarizadores. Isso porque o volume de operações e o volume do excedente apropriado pelas grandes empresas sediadas nos territórios polarizadores são de tal ordem que, usualmente, transcendem a capacidade de absorção regional. Ou, dito de outra forma: a grande empresa não tende a se “externalizar” (e, no
53 PAIVA, op. cit., 2007.
54 Para uma caracterização detalhada da relação entre desenvolvimento capitalista, acumulação, concentração de capital e desenvolvimento de grandes grupos empresariais, veja-se o capítulo 23 do Livro 1 de MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. 23. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
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limite, a se internacionalizar, multinacionalizar, globalizar) gratuitamente: este é um desdobramento virtualmente impositivo do seu tamanho. E se parcela expressiva do excedente social produzido na periferia continua sendo drenada para os territórios-sede das grandes empresas, esse excedente tende a ser apropriado por uma minoria e não se transforma necessariamente em força mobilizatória da sustentação da acumulação local.
Mas se as grandes empresas não têm amarras territoriais, seu próprio desenvolvimento no interior dos territórios polarizadores alimenta a emergência de uma ampla e diversificada rede de MPMEs que prestam serviços aos proprietários dos fatores (capitalistas, trabalhadores, rentistas, etc.) mobilizados por aquelas primeiras. E o crescimento dessas empresas – mais “territorializadas”, mais “enraizadas” que as empresas que as polarizam – tende a se tornar um determinante tão ou mais importante da dinâmica econômica dos territórios polarizadores quanto à dinâmica das próprias empresas líderes55.
Como se os argumentos acima não bastassem, existe uma forma particular de organização das MPMEs que garante às mesmas a plena hegemonia dos processos dinâmicos, mesmo no interior dos territórios polarizadores. Refere-se aqui os sistemas produtivos locais e, em especial, aos distritos marshallianos56. Dentre os diversos autores que teorizaram este padrão de organização produtiva, saliente-se a contribuição de Becattini57, assentada na observação dos distritos industriais marshallianos do nordeste italiano. Reporta o autor que a identidade de valores com a comunidade local, a capacidade de integração produtiva, a variedade de atividades profissionais oferecidas e a facilidade de troca de conhecimentos que caracterizam estas pequenas empresas criam um ambiente favorável à formação empreendedora. Além disso, tais distritos favorecem a formação de um importante reservatório de trabalhadores a domicílio ou em tempo parcial. Este ambiente, por um lado, amortece parcialmente as flutuações externas, graças aos ajustamentos orçamentais internos próprios de indivíduos e famílias, atenuando assim os efeitos do ciclo econômico sobre a
55 Se é permitido o apelo a uma exemplificação essencialmente impressionista, pode-se dizer que as taxas de investimento, o padrão inovativo e a qualidade do atendimento das mais diversas empresas de serviços de base local que atuam em Tóquio, Xangai ou Nova Iorque são pelo menos tão importantes para a determinação da dinâmica econômica destas megalópoles quanto à dinâmica de acumulação e inovação das multinacionais sediadas nas mesmas. Na verdade, estas cidades não perdem suas funções de pólos econômicos mundiais – a despeito dos elevados custos de operação no seu interior – em função da qualidade e da diversidade dos serviços disponíveis em seu interior. E parcela não desprezível destes serviços – altamente especializados e voltados a públicos diferenciados – é prestada por MPMEs.
56 Para uma tipologia de clusters onde são apontadas as peculiaridades dos SPLs e, dentre estes, dos distritos marshallianos, vide PAIVA, C. A. Aglomerações, arranjos e sistemas produtivos locais: o que são, como se diferenciam e quais as políticas mais adequadas ao seu desenvolvimento. Redes. Santa Cruz do Sul, v. 10, n. 3, p.
67 – 78, 2005b.
57 BECATTINI. In: BENKO; LIPIETZ, op. cit., 1994. p. 19 – 31.
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estrutura industrial de base do distrito; por outro lado, alimenta e regenera o reservatório de recrutamento dos pequenos empresários.
Na visão do mesmo autor, a grande empresa tende naturalmente ao imobilismo diante da freqüente resistência à introdução de inovações tecnológicas, pois as decisões importantes parecem ser tomadas por uma minoria. Na pequena empresa do distrito marshalliano, há vários elementos de dinamismo e renovação por se tratar de uma população de empresas independentes, pequenas e médias, que se dedicam a fases intermediárias do processo de produção. Tais empresas são governadas por um grupo aberto de empresários, através da subcontratação, e se apoiam em várias unidades fornecedoras de serviços à produção, bem como de trabalhadores a domicílio e em tempo parcial.
Garofoli58 também argumenta no sentido de valorizar as pequenas empresas, em especial, ao se referir ao caso italiano. O autor sustenta que, neste caso, a capacidade de resistência dos sistemas territoriais de pequenas empresas não deriva da economia informal, da evasão fiscal ou da utilização do trabalho clandestino, mas sim da conjugação de variáveis consistentes e complexas (econômicas e extra-econômicas), em última análise, ligadas a redes de interdependências produtivas entre as empresas. Reporta o autor que os sistemas italianos de pequenas empresas adquiriram grande importância no plano internacional, sobretudo, porque os mesmos representam muitas vezes as áreas na ponta do progresso, tanto em termos tecnológicos como em matéria de inovação organizacional dos diferentes setores ou produtos.
Isso se confirma, por um lado, pela predominância dos fatores-qualidade na explicação da competitividade internacional dos setores essencialmente baseados em distritos industriais; e, por outro lado, pela relevante exportação de tecnologia e pela presença de estratégias de internacionalização da produção de pequenas e médias empresas (ou de associações delas) implantadas nestes sistemas locais.
Gurisatti59, ao distinguir a macrorregião do Arco Alpino como detentora de um novo modelo de produção industrial, reporta que as pequenas e médias empresas são as principais fontes de crescimento do emprego e dos investimentos em quase todos os setores da economia local. Uma característica desta região é que os trabalhadores autônomos e os microempresários representam um percentual notável da força de trabalho, sendo que o crescimento econômico ainda é baseado em setores e produtos tradicionais de “baixo conteúdo tecnológico” (em particular vestuário, calçados, móveis, produtos de decoração de interiores, máquinas especializadas, dentre outros produtos em metal). Contrariando o que
58 GAROFOLI. In: BENKO; LIPIETZ, op. cit., 1994, p. 33 – 47.
59 GURISATTI. In: COCCO et al., op. cit., 1994, p. 77 – 79.
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ensinam os manuais de economia, a Europa do Arco Alpino, segundo o autor, soube encontrar uma trajetória de crescimento baseada na conservação do ambiente e da comunidade local e na maior valorização do saber prático (tácito-contextual), em relação ao saber científico e aos conhecimentos high-tech. Essa macrorregião inseriu-se na competição global ocupando posições de grande relevo e fazendo apelo a recursos relativamente limitados, sobretudo do ponto de vista financeiro, empresarial e infra-estrutural.
Diante da complexidade para reprodução deste modelo, Gurisatti pondera que já existem especialistas ligados às teorias organizativas e às técnicas empresariais desenvolvendo algumas hipóteses de solução: o que é apresentado como um grande sucesso do mercado deve, na realidade, ser atribuído a uma forma específica de governança ou planejamento organizativo. O referido modelo substitui a organização empresarial clássica da grande empresa e, embora assuma formas diversas em contextos sociais e institucionais distintos, é passível de ser codificada. Trata-se da interação sistemática empresa-região através de um método de planejamento que o autor chama de landscape design. Este método constitui uma intervenção sistemática nas características (DNA) de uma região ou território, que serve como guia para os diversos operadores-empresários e contribui para o sucesso da indústria sem a necessidade de um acordo formal, da aceitação de uma ordem hierárquica ou de um controle vertical das atividades. Essa intervenção baseia-se na aplicação de práxis empresariais baseadas em uma mistura de cooperação e competição, público e privado; em um comprometimento dos atores; na divisão dos lucros; no trabalho com objetivos determinados e na autonomia de cada unidade econômica.
Tais elementos, que vários economistas americanos e japoneses indicam há algum tempo como base para uma possível reforma do modelo empresarial clássico, são todos aplicados de forma intensa no nordeste italiano e na Europa do Arco Alpino. Estes territórios (em parte públicos e em parte privados) desenvolvem a função de integradores (fatores coagulantes) de grandes organizações não hierárquicas ou não fordistas. Gurisatti demonstra que, no modelo tradicional de produção (organização integrada ou organização fordista), a análise de mercado, o processo decisório, lucros e investimentos de capitais estão concentrados em um único ponto posicionado no vértice da cadeia de valor. No modelo de distrito industrial (ou organização não-fordista), ocorre o contrário: a subdivisão das tarefas empresariais, lucros e investimentos entre um grande número de operadores-empresários.
Nesse modo de produção, o grau de participação nas decisões estratégicas do sistema (cadeia) é muito alto em todos os níveis, pois todos, se pretendem sobreviver, devem estar em
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condições de conhecer e prever o sucesso ou insucesso dos diversos produtos ou das diversas lideranças. Cada empresário provê por conta própria uma parte dos investimentos necessários à cadeia e determina, consequentemente, as premissas de sua própria participação também na distribuição do lucro total do sistema, no fim do processo de valorização.
Ao abordar políticas públicas, o mesmo autor coloca como oportuno que o suporte dos agentes locais de desenvolvimento seja dirigido a grupos de empresas e não a empresários em separado. Gurisatti avalia como indispensável um mínimo de concentração de pequenas empresas (em um setor e em um território definido) para alavancar um processo de especialização, um sistema de serviços voltados para elas e uma possível divisão de pedidos, experiências e recursos.
Para o autor, aprender a planejar o contexto em que se realiza a produção vai se tornar uma competência essencial dos gestores do futuro e dos administradores locais interessados em um desenvolvimento não-fordista. O gestor não-fordista ou especialista em planejamento econômico e territorial deve estar em condições não apenas de escolher a melhor localização para os investimentos, mas também de aprender a intervir fora dos limites da entidade em que trabalha, para participar da modificação das características do território e do contexto.
Em que pese, porém, os argumentos dos autores acima referidos em favor das MPMEs e de políticas públicas capazes de melhorar a sua condição, os pequenos negócios ainda encontram, em sua trajetória, um grande número de obstáculos.