2 TEORIA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS, POLÍTICA E DIREITO
2.2 Complexidade e Diferenciação Funcional
2.2.2 Complexidade e Contingência
A construção de hidrelétricas implica em diversas possibilidades, podendo ser elas positivas ou negativas. Nesse contexto, as decisões relacionadas à geração de energia elétrica por meio da hidroeletricidade apresentam elevado grau de contingência pela razão de desencadearem várias possibilidades de comunicação. As consequências das decisões relacionadas ao assunto podem levar ao surgimento de riscos – desequilíbrios ambientais, expectativas de vida pessimistas para a população ribeirinha, entre outros.
A complexidade na teoria dos sistemas é uma condição de sua operabilidade. Não se busca a ideia de unidade, mas justamente de diferença; a relação de causa e efeito (muito difundida pelas teorias clássicas) é evitada nesta teoria pela ocorrência da complexidade, que possibilita a análise do sistema e da comunicação e, também, do sistema e entorno. (NEVES; NEVES, 2006)
Complexidade significa forçar a selecionar. A inevitabilidade da seletividade significa contingência, ao passo que contingência significa risco. Qualquer estado completo de coisas se baseia na seleção das relações entre os elementos sistêmicos, os quais, por sua vez, são utilizados para constituírem-se e conservarem-se. A seleção situa e qualifica os elementos, ainda que para isto tenham sido possíveis outras racionalidades. A contingência informa sobre a possibilidade de falha ainda que na situação mais favorável. (LUHMANN, 1998)
Em relação ao sistema do Direito, por exemplo, ainda que as leis e decisões pareçam ser perfeitas quando são elaboradas e aprovadas para determinado tema relevante, posteriormente, após novas informações, pesquisas e apreciações, a norma criada pode se revelar desastrosa e ineficaz. Um exemplo foi a utilização em larga escala do Dicloro-Difenil- Tricloroetano (DDT), um inseticida muito conhecido e de baixo custo, utilizado por agricultores para controlar pestes agrícolas. Seu uso era autorizado mas após pesquisas seu
uso foi proibido por volta dos anos 70 em virtude dos efeitos nocivos ao equilíbrio natural no meio ambiente e ao ser humano.8
Por contingência entende-se aquilo que não é necessário, nem impossível. O conceito de contingência indica um elemento de respeito às alternativas possíveis – indica que o que é atual (e, portanto, possível) é admissível de outras maneiras (e, portanto, não é necessário). A contingência é a possibilidade de que algo seja diferente do que é. Um fato é contingente quando se observa como seleção de um âmbito de possibilidades. (CORSI; ESPOSITO; BARALDI, 1996) Assim deve-se entender o conceito de contingente, quando aquilo que pode ser como é (foi, será), mas também pode ser de outro modo. (LUHMANN, 1998)
Quando os elementos não se associam, é necessário que haja seleção e, havendo isso, indica a contingência. Para haver estabilidade no sistema é imprescindível a ordem de seus elementos e, para que a ordem seja reconhecida precisa haver complexidade, o que torna possível que algo diferente seja comunicado. A evolução não detém o crescimento dos sistemas ao passo em que não é mais possível unir cada elemento a outro elemento e, ainda, de controlar as irritações vindas do entorno, por isso a seleção dos elementos nos sistemas é indispensável. (LUHMANN, 2010)
O conceito de complexidade se relaciona intimamente com o problema da contingência. Luhmann refere que o mundo é caracterizado pela sua contingência, seja no mundo da realidade como também no plano do possível. Sendo assim, a realidade pode ser diversa do que é, bem como o possível também pode ser diferente daquilo se espera. (LUHMANN, 1998) Como o ambiente sempre tem a complexidade maior que a do sistema, o que induz redução de complexidade por parte do sistema, são necessárias estruturas que articulem as relações entre os elementos para a redução da complexidade. Essas estruturas são capazes de facilitar as operações seletivas com a finalidade de restringir as possibilidades de relação entre elementos. (VILLAS BÔAS FILHO, 2009)
Referidas estruturas dizem respeito, na sociedade, a estruturas de expectativas que ou permitem a eliminação da complexidade e da contingência ou possibilitam conservá-las em
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O Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT) se tornou um dos mais conhecidos inseticidas de baixo custo. Começou a ser utilizado na Segunda Guerra Mundial para eliminar insetos e combater as doenças emitidas por eles como a Malária, Tifo e Febre amarela, era usado também por fazendeiros para controlar pestes agrícolas. O DDT demora de 4 a 30 anos para se degradar, o principal problema é sua ação indiscriminada, que atinge tanto as pragas quanto o resto da fauna e flora da área afetada, além de se infiltrar na água contaminando os mananciais, esse inseticida interrompe o equilíbrio natural no meio ambiente. O uso do DDT foi proibido por volta dos anos 70, em virtude de seu efeito acumulativo no organismo, dentre os malefícios causados por ele está o enfraquecimento das cascas de ovos das aves, envenenamento de alimentos como carnes e peixes. Alguns estudos sugeriram que é cancerígeno, provoca partos prematuros, causa danos neurológicos, respiratórios e cardiovasculares. Informações disponíveis em: <http://brasilescola.uol.com.br/quimica/ddt.htm>.
um nível ―suportável‖. (VILLAS BÔAS FILHO, 2009, p. 131) Para uma análise mais adequada da sociedade descrita por Luhmann, é importante entender o conceito de dupla contingência. De acordo com exposição do mesmo autor (2009, p. 132) a dupla contingência, que está relacionada à designação de seleção, e foi incorporada por Luhmann da teoria de Parsons, ―consiste basicamente na constatação de que tanto ego como alter observam suas recíprocas seleções como contingentes‖.
Sendo o ego o Direito (por exemplo), ao observar o alter (Política), não adota o mesmo sentido desta – mas sim, observa-a a partir dos seus próprios elementos, formando, no seu interior, um alter ego. Ou seja, o sentido que o sistema político quis dar a uma lei na sua elaboração e aprovação irá se tornar diverso quando esta for interpretada pelo sistema do Direito. Por isso a possibilidade de se ter uma decisão jurídica, sobre a instalação de hidrelétricas, até mesmo oposta daquilo que se decidiu na política.
O controle de constitucionalidade faz parte da estrutura da ordem jurídica brasileira e é um instrumento de garantia da supremacia constitucional e um exemplo interessante a ser mencionado desta possibilidade de oposição jurídica à norma elaborada pela Política. O controle de constitucionalidade concentrado é exercido pelo Supremo Tribunal Federal e consiste na verificação de (in)adequação de leis federais ou estaduais diante da Constituição Federal. (VELOSO, 2000)
O controle de constitucionalidade difuso é exercido por qualquer juiz ou Tribunal e se refere a discussão da (in)constitucionalidade da lei ou ato normativo que representa condição de possibilidade para o julgamento do mérito da causa. O controle de constitucionalidade evita a transposição da Constituição por norma incompatível com as suas determinações. (STRECK, 2004) Estas são demonstrações importantes de como o sistema jurídico atua ao interpretar de modo incompatível com suas operações a comunicação do sistema político.
As expectativas adquirem, no contexto da dupla contingência, valor de estrutura para a construção dos sistemas em evolução e, portanto, uma maneira própria de realidade (valor de união). (LUHMANN, 1998) Desse modo:
[...] a dupla contingência pressupõe que a constituição do mundo social se apresenta a partir de um horizonte de dupla perspectiva, o que torna imperioso que a ordem social se apoie em mecanismos de coordenação das seleções reciprocamente imprevisíveis e contingentes de alter e ego. [...] É por isso que Luhmann ressalta que, num contexto marcado pela dupla contingência, como é o caso do mundo social, é essencial erigir estruturas de expectativas reflexivas, que possam dar conta não apenas das condutas alheias, mas também de seu caráter seletivo. (VILLAS BÔAS FILHO, 2009, p. 132)
A contingência serve como modelo para explicar a relação entre um alter e um ego, opostos em suas respectivas necessidades e possibilidades: alter depende que se estimule ego, e vice-versa. Ela é o ponto de partida para os problemas de coordenação de seleção nos sistemas sociais, enquanto as possibilidades de se comunicar e de pensar são somente possibilidades: podem ocorrer de modo diferente das expectativas. Entende-se como possibilidade de decepções e necessidade de correr riscos. Em relação à dimensão social, este impasse se constitui como dupla contingência – toda seleção depende do alter ou do ego. (LUHMANN, 2010)
A complexidade obriga à seleção, que significa contingência, a qual significa risco. Os sistemas sociais possuem estruturas que são constituídas na forma de expectativas sobre expectativas. A expectativa é a antecipação de uma possibilidade que pode, ou não, se produzir. E é essa dupla possibilidade que caracteriza a contingência de toda a experiência, ou seja, a questão da decepção é inerente à composição das expectativas. (LUHMANN, 2006)
Na sociedade moderna, o Direito livra-se dos condicionamentos externos (da natureza, da razão, das classes) e funda-se sobre si mesmo, como direito positivo, incorporando o resultado de si próprio e estabilizando a aquisição evolutiva da sociedade. O que se faz necessário para o Direito moderno é a sua contingência, é a referência a si mesmo, o fechamento operativo. Por essa razão não se refere o Direito ao problema da justiça ou da distribuição. O Direito deve reproduzir a sua diferença como resultado de diferenciação; e, como ele não se funda em princípios, e sim os constrói, o problema do Direito não são os princípios - os quais são construídos pela sua própria aplicação-, mas as diferenças que o Direito produz e com base nas diferenças que se reproduz como Direito. (DE GIORGI, 1997)
O sistema do Direito é definido funcionalmente como o que utiliza as possibilidades de conflito com a finalidade de generalizar congruentemente as expectativas comportamentais normativas. A generalização é a possibilidade de orientações de sentido que podem ser mantidas em situação diferentes, de modo que se obtenham consequências semelhantes. A principal esfera de variação de sistema é que o que é direito hoje pode não sê-lo amanhã. (NICOLA, 2013)
O Direito na dimensão social é dominado pela situação da dupla contingência – experiências de alter e ego. Os procedimentos para a seleção do Direito são institucionalizados, na medida em que os procedimentos que definem as decisões atuam como filtros que selecionam as expectativas normativas disponíveis na sociedade, conferindo-lhes validade. (NICOLA, 2013)
E é sob esta perspectiva que é observada a questão da construção de hidrelétricas, tanto na questão ambiental como na social. Em relação ao meio ambiente, existe legislação abundante mas que nem sempre é considerada sob o prisma de direito fundamental, pois outros interesses, muitas vezes, são relevados. Já no plano social, existe uma legislação absolutamente escassa em relação à seguridade social das populações atingidas pelo impacto da obra dos barramentos. Normalmente, tanto a questão ambiental como a social serão dimensionadas posteriormente ao início das obras, as quais nunca atingem um resultado concreto e expressivo.
E com o fim de elucidar os aspectos mais relevantes da teoria dos sistemas abordada na pesquisa, a autopoiese e a sociedade serão melhor elaboradas nos trechos a seguir. A designação destes elementos é importante para a construção de um embasamento teórico capaz de analisar a problemática do estudo, bem como do risco exposto pelas hidrelétricas.