Para Bellato (1986), o desenvolvimento do agronegócio é promovido pela sua intensa capacidade de integração entre os vários agentes e, em alguns momentos, pela subordinação desses agentes aos processos de integração e aos contratos de produção. Existem duas formas básicas de integração: a horizontal e a vertical. Para o autor, a integração horizontal é a união ou a associação de duas ou mais unidades de produção na mesma hierarquia, constituída sob controle de uma única empresa ou associação de produtores. Para a integração vertical, entende-se a união de estágios ou setores produtivos em hierarquias diferentes no mercado sob o controle, também, de uma única empresa ou conglomerado.
A relação entre os agentes do complexo agroindustrial, para o autor, é melhor especificada quando demonstrados os tipos de integração vertical que envolvem as unidades produtivas e os demais segmentos industriais. O primeiro tipo de integração vertical, não reputada como integração real, acontece quando
o produtor rural adquire os suprimentos de quem ele deseja e vende a produção a quem lhe paga o melhor preço, sem que haja vinculação hierárquica ou contratos. O segundo tipo de integração vertical se dá quando as relações de controle são localizadas e pontuais entre o produtor rural e uma determinada empresa componente da cadeia agroindustrial, sendo reputada como quase- integração. O terceiro tipo de integração vertical se dá estritamente para atingir o objetivo da maximização da lucratividade e da ampliação da competitividade, a partir de instrumentos de controle dos padrões de qualidade, do uso adequado de insumos, principalmente quando a sua utilização demanda conhecimentos tecnológicos e há escassez de capital para sua aquisição. Também, esse tipo de integração pode ser entendido como uma forma de capacitar os produtores rurais a alcançar padrões de produção determinados pelo conglomerado, partindo do pressuposto da inabilidade técnica e gerencial dos produtores. Finalmente, a quarta forma de integração vertical acontece quando os produtores rurais estruturam arranjos organizacionais em forma de cooperativas e associações para atuarem em estágios diferentes da produção. Aqui, independe a separação entre uma empresa centralizadora ou uma cooperativa. Afirma, ainda, o mesmo autor que, tradicionalmente, as cooperativas ficam com parcelas de mercado com poder menor de acumulação de capital e menor rentabilidade.
Kageyama et al. (1990) explicam que o setor agroindustrial é formado por quatro segmentos diferenciados em termos descritivos. Um segmento moderno, industrializado e complexo, formado por uma integração vertical entre indústrias de insumos e equipamentos, a produção agrícola e agropecuária e a agroindústria processadora, com ritmo próprio e estratégias competitivas e de crescimento integradas e combinadas. Como exemplo, temos os complexos avícolas (milho, rações, produção das aves e indústria processadora). O segundo segmento é formado por agroindústrias processadoras, com alta capacidade tecnológica e tecnificadas, mas sem vinculação com os setores fornecedores de
equipamentos e insumos agrícolas, formando um complexo agroindustrial incompleto. Um terceiro segmento de atividades é destinado ao fornecimento de maquinário e insumos especiais modernizantes da agricultura, sem, no entanto, constituir-se uma forma de complexo. Finalmente, o quarto segmento é formado a partir de um conjunto produtivo em base semi-artesanal, não modernizado, e sem qualquer tipo de relações intersetoriais.
O uso generalizado do termo empresa agrícola, para explicar o setor agropecuário, é extremamente simplista, principalmente na classificação dos produtores rurais, seja por não levar em conta a heterogeneidade das organizações envolvidas e os diferentes níveis de interesse empresarial, ou mesmo por causa de uma miopia teórica no estudo da administração rural voltada para a formulação de políticas públicas compensatórias ou não.
Tal opinião foi externada por Alencar & Moura Filho (1988) que formulam a seguinte qualificação das unidades de produção: latifúndios, empresa agropecuária capitalista, empresas familiares e unidade de produção camponesa. Os latifúndios são extensas áreas agricultáveis, com níveis elevados de comercialização, mas com capitalização baixa. São constantes o emprego de mão-de-obra contratada ou formas de parceria no processo produtivo. As empresas agropecuárias capitalistas são aquelas com intensivo processo de comercialização e capitalização. São modernizadas e tecnificadas pela inclusão de equipamentos e insumos industrializados na produção. As empresas familiares são eminentemente compostas por força de trabalho familiar, com relativo nível de comercialização e capitalização. As unidades de produção camponesa também empregam a mão-de-obra familiar, porém, com baixo nível de comercialização e sem capitalização. Salientam os autores que as empresas familiares, mesmo com relativa capacidade de comercialização e capitalização, apresentam renda líquida baixa, o que determina sua simples manutenção no setor, sem que haja possibilidade de acumulação e a necessidade da sua
vinculação a outras agroindústrias do complexo. Em situação similar encontram- se as unidades de produção camponesas. Enfim, a agregação dessas típicas unidades de produção ao setor modernizado da agricultura atende a dois objetivos: garantir renda e trabalho para pequenos produtores, traduzido em última análise pela sobrevivência e assegurar, para a agroindústria, o fornecimento constante de matéria-prima dentro de padrões técnicos.
Porém, Alencar (1997) e Alencar et al. (2001) sintetizam a discussão sobre complexos agroindustriais (CAI) e enfatizam a posição nada confortável
dos pequenos produtores rurais. Recorrendo aos ensinamentos
microeconômicos, a estrutura de uma cadeia agropecuária apresenta situações de mercado com características de concorrência imperfeita, quando os setores a montante (fabricantes e fornecedores de bens de capital) e os setores a jusante (processadores, transformadores e distribuidores) mantêm relações diferenciadas com o setor agropecuário (Figura 3).
FIGURA 3: Relações de mercado na cadeia agroindustrial. Fonte: Adaptado de Alencar et al. (2001).
Ao analisar as relações entre o setor agropecuário e o setor a montante, verifica-se uma situação de oligopólio caracterizada por um reduzido número de
Setor a montante Setor Setor a jusante
agropecuário
Fornecedor Consumidor Consumidor
Fornecedor
fornecedores que interferem na oferta e determinam preços frente ao grande número de compradores do setor agropecuário.
No entanto, as relações entre o setor agropecuário e o setor a jusante consolidam uma situação de mercado de oligopsônio, configurada pela inversão dos papéis: número reduzido de compradores e grande número de empresas agropecuárias ofertando produtos. Como anteriormente mencionado, o setor a jusante interfere decisivamente no mercado e nos preços. É importante salientar que os setores a montante e a jusante são organizados, dispõem de estruturas de gestão eficientes e eficazes, tecnologia, experiência em mercados nacionais e internacionais, e recebem aporte de recursos financeiros e de investimentos. A conseqüência óbvia percebida na análise é a atribuição ao setor agropecuário de um papel secundário nas relações comerciais, o que o coloca à mercê de imposições de grandes grupos econômicos e conglomerados. Salienta-se, ainda, que a maioria das organizações que compõe o setor agropecuário é de pequenos produtores rurais, como demonstrado anteriormente.
A imbricada configuração dos complexos agroindustriais é explicada por Lamounier (1994) ao comparar atores e capacidade de decisão. Para o autor, em função do tipo de ator, da sua posição, sua capacidade de influência, seu poder econômico e institucional, dois grupos são definidos, a saber: o dos atores com significância efetiva de decisão e o daqueles com reduzida ou nula significância nas decisões das políticas econômicas e agrícolas.
Entre os atores com significância de decisão são enumerados o poder executivo, o poder legislativo, os médios e grandes produtores e a agroindústria, localizada nos setores a montante e a jusante. O poder executivo é assim considerado por sua atribuição constitucional de definidor de políticas públicas, como para o setor agrícola e monetário, e na estruturação de políticas macroeconômicas. Por sua vez, o poder legislativo possui tal significância por suas atribuições de proposição e aprovação de instrumentos legais
regulamentadores, associados aos movimentos das bancadas de parlamentares vinculados ao meio rural.
A capacidade de influência nas decisões do agronegócio é reservada também aos médios e grandes produtores, salienta Lamounier (1994). Tal influência é motivada pela participação efetiva em associações classistas, como a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Confederação Nacional de Agricultura (CNA) ou a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), reconhecidamente mobilizadoras em ações de defesa dos interesses patronais. Ou, ainda, pela ação de grupos de interesse junto ao parlamento e a agentes públicos. Contudo, o autor destaca, ainda, a importância decisória da agroindústria por dominarem os mercados a montante e a jusante no setor agropecuário e por possuírem extensa capacidade de negociação e de influência junto ao poder legislativo.
Ainda segundo Lamounier (1994), os atores com pouca influência nas decisões são os pequenos produtores e trabalhadores rurais, elo fraco da cadeia produtiva. Excluídos das benesses da modernização da agricultura, são compelidos a recorrer às políticas públicas com ênfase na agricultura familiar ou por defesa de movimentos reivindicatórios de organizações não-governamentais (ONGs) que objetivam o resgate da cidadania e melhores condições econômicas e sociais do campo.
Enfim, um contramovimento dos pequenos produtores para um enfrentamento ou para sua simples sobrevivência frente à agroindústria é imperativo e central. Surgem, então, mesmo que esparsamente, experiências associativas e de associações de produtores.
Pontuados os temas sobre globalização, pequenos negócios (urbanos e rurais), associativismo e complexos agroindustriais, a partir de autores escolhidos para compor o referencial teórico do estudo, passa-se a seguir para as discussões das redes organizacionais em múltiplas abordagens paradigmáticas.