5. ANÁLISE
5.2. Complexos Verbais
5.2.2. Ordem dos clíticos pronominais com complexos verbais
5.2.2.2. Complexos com particípio
Nesta seção, trata-se apenas dos 13 dados com a forma do verbo principal no particípio. A tabela a seguir permite observar o comportamento do clítico por variantes da ordem, no total dos dados e em cada um dos três veículos de comunicação.
Jornal cl v1 v2 v1-cl v2 v1 cl v2 v1 v2-cl Total
O Globo 4 – 45% 1 – 10% 4 – 45% 0 – 0% 9
Extra 0 – 0% 1 – 33% 2 – 67% 0 – 0% 3
Meia Hora 0 – 0% 0 – 0% 1 – 100% 0 – 0% 1
Total 4 – 31% 2 – 15% 7 – 53% 0 – 0% 13
Tabela 16. Distribuição dos dados da ordem dos clíticos pronominais em complexos verbais com verbo principal no particípio (geral e por veículo jornalístico)
Primeiramente, cumpre destacar que não apareceu a variante pós-CV com a forma do verbo principal no particípio. Tal fato já era esperado, uma vez que essa
forma, tanto nas recomendações gramaticais quanto em resultados de outros estudos (como os de VIEIRA, 2002; NUNES, 2009; MARTINS, 2009), não tende a acomodar o clítico na posição pós-CV no PB. Vieira (2002) associa esse comportamento ao caráter mais nominal da forma participial (num continuum de nominalização). Esse continuum de nominalização das formas do verbo é visto como “uma escala de conclusão da temporalidade” (p. 324), proposto por Guillaume (apud VIEIRA, 2002). Vieira (2002) comenta que:
Nessa escala, o particípio é a forma nominal integralmente concluída, resultado de um processo em que o verbo se tornou totalmente “detensivo”. O gerúndio constitui a expressão cursiva do verbo, em que uma parte da expressão verbal está concluída (em “detensão”) e outra não está (“tensão”). O infinitivo é, dos “modos quasi-nominais”18, a expressão puramente “tensiva” do verbo e, por assim dizer, a forma não-concluída, o Verbo em pura-potência. (VIEIRA, 2002: 324)
Os resultados de Vieira (2002) também evidenciaram tal realidade, uma vez que, no corpus das lexias verbais simples, não houve qualquer dado do pronome átono junto ao verbo no particípio e, no corpus das estruturas verbais complexas, a posição enclítica à forma participial mostrou-se impedida nas três variedades investigadas (Português do Brasil, Europeu e Moçambicano). A autora conclui afirmando que “sendo o particípio a etapa final da perda do traço tensivo, é natural que o pronome não o acompanhe.” (p. 324).
Na presente investigação, das 13 ocorrências de clíticos, 7 foram realizadas na posição intra-CV sem hífen, totalizando 53%. Dessas 7 ocorrências, 4 pertencem ao jornal O Globo, 2 ao Extra e 1 ao Meia Hora. Vejam-se os dados:
188. Pessoa que tem se mostrado da maior dignidade e integridade moral (coisa de que estamos precisando no Rio). (O Globo-16-10-08)
189. Reforço a indignação dos cariocas que tem se manifestado, lamentando o encerramento no Cine Palácio. (O Globo-24-10-08)
190. É como tenho me sentido. (O Globo-19-03-09)
191. Lamento que os jornalistas não tenham me ouvido sobre as declarações atribuídas a mim, optando pelo relato de “peemebistas”. (O Globo-16-03-09)
18 Para o autor, o modo serve para datar as cronoteses (resultado de cortes no movimento do pensamento sobre um eixo em profundidade) na cronogênese. Os modos – quasi-nominais, conjuntivo e indicativo – constituiriam três graus diferentes (da intervenção na cronogênese mais precoce à mais tardia) de completude da imagem-tempo.
192. O ônibus havia se envolvido em um acidente com vítimas fatais. (Extra-01-02-09)
193. Tem se tornado cada vez “mas” evidente o total descaso do município em relação à conservação das nossas ruas. (Extra-13-04-09)
194. Peço desculpas por ter me expressado mal no seção Boca no Trombone de ontem. Nada tenho contra favelas e seus moradores. (Meia Hora-15-10-09) Os exemplos 188, 189, 190 e 191, retirados do jornal O Globo, registram clíticos na posição intra-CV sem hífen com a estrutura ter + particípio em contextos de atração tradicional. No exemplo 192, tem-se a estrutura haver + particípio, diante de SN sujeito, que, consoante a tradição, não seria um elemento de atração canônica. No exemplo 193, tem-se o verbo ter + particípio em contexto de início absoluto de oração, que, como se sabe, não favorece a posição pré-CV. O último exemplo com essa estrutura, encontrado no jornal Meia Hora, apresenta o verbo ter + particípio e encontra-se antecedido de preposição. Com relação ao tipo de clítico, tem-se, nos exemplos, o me, clítico de primeira pessoa, e o se reflexivo/inerente, os quais, como se observou na análise das lexias verbais simples, são formas pronominais que tendem a estar próximas dos verbos que as regem.
Observa-se que, independentemente da presença de possível elemento proclisador, foi preferida a opção pela acomodação do clítico na posição intra-CV sem hífen. Assim, supõe-se que, nesse tipo de estrutura, o clítico tenda a aparecer no meio do complexo verbal sem hífen. Entretanto, a pouca quantidade de dados não permite que se chegue a muitas generalizações.
No que toca à variante pré-CV, tem-se um total de 31% de dados, que corresponde a 4 ocorrências do clítico, todas encontradas no jornal O Globo. A título de ilustração:
195. Ministro Temporão, se o governo do qual o sr. faz parte quisesse realmente melhorar as condições de atendimento do povo brasileiro na área da saúde já o teria feito. (O Globo-07-09-08)
196. A crise já tem quase um mês e até agora não lhe foi dado um nome. (O Globo-17-10-08)
197. Se o menino não fala inglês é porque não lhe foi ensinado. (O Globo-15-03-09)
198. E fica à mercê do que lhe é proporcionado com o viés de infraestrutura. Rodrigo. (O Globo-20-09-08)
Nota-se que o exemplo 195 apresenta o verbo auxiliar ter no tempo verbal futuro do pretérito, que, segundo a tradição gramatical, não admitiria a colocação do clítico posterior ao verbo. Nesse caso, então, como o verbo principal está no particípio, a opção mais recomendada seria, de fato, a colocação do clítico na posição anterior à lexia verbal complexa. Nos exemplos 196, 197 e 198, aparecem estruturas verbais complexas com passiva e em contexto de elementos proclisadores canônicos – não e que pronome relativo. Tal estrutura, além de não ter exibido a variante pós-CV – fato que se relaciona à forma participial presente em sua constituição –, não apareceu na posição mais natural no PB – intra-CV. Observa-se, assim, que o jornal O Globo obteve 45% de realização da posição pré-CV com o particípio, em contextos em que a tradição gramatical sugere, de fato, a próclise ao auxiliar, como em contexto de elementos tradicionalmente proclíticos.
Além disso, o próprio uso do clítico – lhe – sugere haver maior cuidado com o que está proposto em manuais prescritivos. No caso do jornal O Globo, um jornal que tende a empregar mais estruturas aceitas tradicionalmente, sublinha-se não só o uso da forma pronominal lhe, mas também o fato de as ocorrências da variante pré-CV terem sido registradas, apenas, nesse veículo de comunicação.
Chega-se, por fim, à variante que menos apareceu – considerando que não houve o registro da variante pós-CV – no conjunto de complexos com a forma do verbo principal no particípio: a variante intra-CV com hífen. Esta obteve somente 15% desses dados, o que corresponde a 2 ocorrências, cujos exemplos já foram apresentados, um do jornal O Globo e outro do Extra. Cabe ressaltar que os dados são do pronome o (tê-lo chamado de macaco) e lhe (ter-lhe subido à cabeça), o que reforça o caráter pouco usual dessa estrutura.