5. ANÁLISE
5.1. Lexias verbais simples
5.1.1. Produtividade dos clíticos pronominais
Embora a presente pesquisa não tenha postulado como objetivo a investigação da produtividade dos clíticos pronominais em si, o resultado da coleta de dados chama a atenção pela aviltante diferença do número de ocorrências encontradas em cada veículo jornalístico. Desse modo, observa-se, primeiramente, o comportamento de cada jornal no que se refere à produtividade dos pronomes átonos encontrados em 600 cartas de leitor de cada veículo.
Tabela 1. Número de ocorrências de clíticos pronominais em cada veículo – lexias verbais simples
No que concerne aos dados de clíticos pronominais (cf. tabela 1), observa-se que há uma grande diferença quanto ao número total de dados encontrados nos jornais O Globo, Extra e Meia Hora. No primeiro, tem-se 466 ocorrências de pronomes átonos; no segundo, 145; e no último, apenas 39. Pode-se pressupor que essa discrepância esteja relacionada não só ao tamanho das cartas (que são menores no Meia Hora), mas também ao perfil das cartas presentes nesses jornais e ao próprio perfil dos veículos.
Quanto ao perfil dos veículos, verificam-se diferenças gerais entre os jornais considerados na pesquisa, que aqui se detalham. O Globo trata de diversos assuntos, tais como: economia, saúde, educação, esporte, política; apresenta textos de diversos gêneros textuais, como cartas de leitor, anúncios, editoriais, notícias, crônicas. O jornal Meia Hora exibe menos informações, e, em geral, além de anúncios, apresenta diversas notícias que se concentram nos temas de violência, criminalidade e esportes. O Extra, por sua vez, também trata de diversos assuntos, mas, ao que parece, a maneira de
Veículos de comunicação Total
O Globo 466
Extra 145
Meia Hora 39
abordá-los estaria, na linha de um continuum, entre os outros dois jornais. A título de ilustração, as notícias do jornal Extra exibem informações não tão curtas como as do Meia hora, mas que, em alguns casos, ignoram temas de âmbito nacional, priorizados em O Globo; quanto aos gêneros textuais, o Extra não apresenta, por exemplo, a crônica, e prioriza notícias e anúncios, em geral.
No que se refere ao perfil das cartas de leitor, nota-se, também, que as do jornal O Globo têm algumas características distintas das apresentadas nos jornais Extra e Meia Hora. A diferença revela-se, de início, no título das seções referentes às cartas – Cartas de Leitor, no jornal O Globo; Carta Branca, no Extra; e Voz do Povo, no Meia Hora. Nota-se que os títulos das cartas do Extra e do Meia Hora sugerem que o propósito dessas cartas possa ser distinto do propósito das cartas de O Globo, o que, de fato, ocorre. No Jornal O Globo – que publica 24 textos por dia, alguns referentes ao mesmo assunto –, as cartas são mais longas e mais direcionadas para críticas, de acordo com o interesse e a reflexão dos leitores acerca de temas da atualidade, normalmente aludidos em edições anteriores do jornal. No jornal Meia Hora – que publica somente 8 cartas por dia –, os textos são mais curtos, mais direcionados para reclamações e denúncias de todos os tipos, e apresentam conteúdos de interesse popular mais imediato, como, por exemplo, a indignação pela queda de uma árvore, pela falta de luz, ônibus escasso etc. As cartas presentes no Extra – em torno de 13 por dia – também são, em sua totalidade, voltadas para reclamações e dúvidas, mas há uma seção em que são emitidas opiniões a respeito de alguma questão levantada pelo jornal. Uma vez mais, percebe-se, num continuum entre os jornais, que, enquanto O Globo figura, num extremo, com conteúdo de caráter mais reflexivo e avaliativo nas cartas, e o Meia Hora, em outro, com caráter menos reflexivo, o Extra mescla conteúdos mais populares e alguns mais críticos, em que o leitor teria “carta branca” para demonstrar seus anseios.
Com relação à linguagem utilizada nos jornais – numa observação impressionística das estruturas e do vocabulário usados –, o jornal O Globo parece fazer uso de uma linguagem mais voltada para o padrão culto idealizado na tradição gramatical para contextos formais, apresentando uma variedade lingüística menos popular e um vocabulário mais rebuscado. No jornal Meia Hora, há aparentemente certo desapego ao que se costuma conceber idealmente como escrita culta padrão – o vocabulário empregado, por exemplo, aproxima-se por vezes do chulo –, comportamento que faz supor que se priorizem, em tal veículo de comunicação, uma variedade lingüística mais popular e um vocabulário mais próximo do que se costuma
empregar na oralidade/escrita informal. Já o jornal Extra parece fazer uso de expressões lingüísticas não tão marcadas, nem como prototípicas da escrita/oralidade formal, nem como prototípicas da oralidade/escrita informal, uma espécie de meio-termo. Apresenta-se uma forma de expressão que parece Apresenta-se aproximar de certa neutralidade, que a aproxima não só do discurso oral semiformal, não necessariamente por isso distante de um padrão considerável aceitável dentro da escrita semiformal. A partir dessas considerações, julga-se necessária a exibição de uma carta de cada jornal, para que se possam visualizar características, aqui, descritas:
Jornal O Globo
Este ano, praticamente o Congresso Nacional “trabalhou” somente para resolver as denúncias de vários escândalos que encheram a sua pauta. Somente o caso Sarney tomou mais de quatro meses de constantes sessões prenhes de acusações entre os senadores da casa. Passados os escândalos do clã Sarney, estamos presenciando todos os dias as votações sobre a futura lei eleitoral. É um absurso, todos os anos eles fazem mudanças, sempre para beneficia-los. Em contrapartida, o que se vê nos EUA é o Congresso americano reunido votando soluções para saúde e bens sociais. É uma diferença muito grande. Coitado do nosso povo. (O Globo-13-09-09)
Jornal Extra
Os moradores do bairro Santa Emília querem saber quando a prefeitura vai colocar uma nova ponte na Rua Olavo Bilac. Há oito meses, ela caiu. A prefeitura colocou uma de madeira. Mas nas últimas chuvas, a cena se repetiu e a ponte caiu. É preciso dar uma volta enorme para ir para o outro lado do bairro. (Extra-23-10-09)
Jornal Meia Hora
Basta uma chuvinha e a R. Dr. Augusto Figueiredo se torna o caos. A água suja alaga toda a via e invade nossas casas.
Com base nesse quadro geral que o contato com os três veículos de comunicação faz perceber, supõe-se haver um continuum no perfil dos jornais, e por conseqüência no dos textos, relacionado tanto à norma lingüística praticada (nível vertical da variação) quanto ao registro (estilo), que vai do mais culto e formal ao mais popular e informal. Esse continuum pode ser esquematizado da seguinte forma:
[+ diversidade de temas] [– diversidade de temas] [+ diversidade de gêneros textuais] [– diversidade de gêneros textuais] [+ espírito reflexivo/avaliativo] [– espírito reflexivo/avaliativo]
[+ variedade culta] [– variedade culta]
[+ registro formal] [– registro formal]
O Globo Extra Meia Hora A partir dessa hipótese geral, o desenvolvimento de muitas pesquisas lingüísticas – que não cabem no escopo do presente trabalho – com base no material coletado nos três veículos jornalísticos sob análise colaboraria para a confirmação das hipóteses formuladas. Essas pesquisas permitiriam confirmar se o continuum proposto se aplicaria a temas que, em alguma medida, se correlacionam ao uso e à ordem de clíticos pronominais, contemplando diversos tipos de estrutura sintática (a representação do OD, da expressão do sujeito, da voz passiva, da indeterminação do sujeito, dentre outros temas sintáticos) e comparando diversos gêneros textuais presentes nos jornais. Somente a partir dessas pesquisas, será possível aferir que estruturas são prototípicas ou pelo menos mais produtivas em cada jornal, em cada gênero e como os veículos se diferenciam quanto a cada tipo de construção sintática. No presente trabalho, conforme formulado nos objetivos apresentados na introdução, cabe tão-somente avaliar se, no tema da ordem dos clíticos, o continuum proposto se confirma.
Considerando-se o perfil dos veículos e das cartas proposto, tem-se indícios, ainda, do público-alvo de cada jornal, podendo-se depreender, então, a suposta comunidade de fala estudada. Labov (1978) já previa a importância de se definir a comunidade que se pretende estudar quando da constituição de amostra oral devidamente estratificada. Sem dúvida, é necessário conhecer os indivíduos para que se entendam com mais precisão os resultados obtidos. Guy (2000, 2001), conforme mencionado no capítulo 3, dentre outras considerações, demonstra que há diversas definições de comunidade de fala e sintetiza, em sua proposta, algumas de suas características, aqui retomadas. Entre elas, considera a “densidade de comunicação interna relativamente alta, isto é, as pessoas normalmente falam com mais freqüência com outras que estão dentro do grupo do que com aquelas que estão fora dele” (GUY, 2000: 18). Tal situação faz com que os indivíduos tenham acesso aos usos lingüísticos de outros membros da comunidade, passando, então, a adquirir tais usos. Em relação a isso, Guy (2000: 20) afirma: “fala-se como as pessoas com as quais se fala”. De toda
maneira, salienta que as pessoas não são consideradas como membros de uma comunidade de fala apenas porque partilham usos, mas porque julgam partilhar usos. Assim, segundo o autor, ser membro de um grupo é também intencional, é uma questão de identidade lingüístico-cultural, o que se determina por nossas atitudes sociais e lingüísticas, uma vez que o indivíduo decide a quem deseja se associar.
A fim de se conceber a comunidade de fala a partir de um corpus escrito, caso da presente pesquisa, é necessário observar, feitas as devidas adaptações conceituais, determinados fatores externos (como o perfil social do jornal, por exemplo) e internos à língua (estruturas lingüísticas utilizadas), que fornecem pistas do perfil da comunidade / público-alvo, como feito anteriormente. Apropriando-se da frase clássica de Labov aplicada à análise de dados históricos, o importante é tentar “fazer o melhor uso de maus dados” (LABOV, 1994: 11), trabalhar e explorar o material e as informações que se tem, da melhor maneira possível, para que se chegue a uma análise fundamentada. Como se sabe, quando se trabalha com textos escritos, ainda que contemporâneos, informações imprescindíveis sobre o perfil social dos indivíduos, que escrevem e para quem se escrevem os textos, são difíceis de ser acessadas. Não se sabe, por exemplo, com quem convivem, onde trabalham ou estudam. Dispõe-se, apenas, de determinados elementos que fornecem pistas sobre esses indivíduos.
Feita a descrição dos jornais e de posse de resultados de outras investigações, tem-se por hipótese, no que se refere especificamente ao tema da produtividade dos clíticos, que a pouca quantidade de dados dos pronomes átonos no Meia Hora pode estar relacionada ao fato de ele ser um jornal com menor preocupação com a norma idealizada para a escrita padrão formal, o que se refletiria tanto por parte da redação do jornal, como por parte da produção dos próprios escritores/leitores, ao contrário do que ocorreria no jornal O Globo. Esses veículos estão direcionados a públicos distintos e tendem a exibir estruturas lingüísticas distintas. No que tange ao jornal Extra, supõe-se que, consoante o objetivo de atingir a leitores de perfis mais diversificados, esse veículo não se aproxime, nem se distancie totalmente da escrita padrão formal idealizada, o que o posicionaria entre os outros dois jornais.
Cumpre destacar que a hipótese acima está fundamentada em resultados de outros estudos sobre o tema (DUARTE, 1986; CYRINO, 1996; AVERBUG, 2000; FREIRE, 2005; MACHADO, 2006). Em alguns desses estudos, demonstra-se que a norma objetiva brasileira da modalidade oral, que exibe com freqüência principalmente os clíticos me, te e se, não dá preferência, por exemplo, a clíticos de 3ª pessoa na
representação dos objetos (direto – o, a, os, as – e indireto – lhe, lhes), mas a outras estratégias de representação, como pronomes retos, sintagmas nominais (SN) e zero. Duarte (1986), que pesquisou a representação do objeto anafórico de terceira pessoa no PB, atesta que, na modalidade oral, a tendência é praticamente a de não usar o clítico de terceira pessoa, optando-se pelas variantes objeto nulo, sintagma nominal lexical ou pronome tônico, sendo a primeira a estratégia mais freqüente. Com relação aos dados da modalidade escrita, a autora evidencia, também, uma esquiva ao uso do clítico de terceira pessoa, que, quando utilizado, aparece preferencialmente em posição enclítica (88%), sobretudo com o infinitivo. Entre os registros de Duarte, apenas, 5% são de clíticos, contra 15% de pronome reto, 17% de SN anafóricos e 63% de objeto nulo.
Cyrino (1996), em estudo diacrônico sobre clíticos e objeto nulo em corpus constituído de peças brasileiras, especialmente comédias, atesta que, do século XIX para o XX houve uma queda considerável no uso do clítico de terceira pessoa (4%) e que o preenchimento por um pronome tônico começa a aparecer a partir do século XIX, atingindo 44% no século XX. A autora supõe, com base em análise que assume estar em andamento, que essa mudança tenha sido desencadeada pela origem do objeto nulo. Os registros em Cyrino (1990b) também coletados de peças teatrais de autores brasileiros já revelavam a queda do clítico de terceira pessoa, uma vez que na primeira metade do século XVIII havia 85% de clíticos contra 17% de ausência de clíticos, e já na primeira metade do século XIX, o percentual de clíticos já havia caído para 58% contra 42% de sentenças sem o clítico (e sem o pronome lexical).
Freire (2005), em pesquisa sobre os clíticos acusativos e dativos de terceira pessoa no português escrito brasileiro e europeu do século XX, investiga, a partir de textos de jornais e de histórias em quadrinho, as estratégias para a substituição dos clíticos nas duas funções, distribuindo as variantes – clítico, pronome lexical, SN anafórico e objeto nulo – em um continuum oralidade/letramento (de – oralidade / + letramento até + oralidade / – letramento). Os resultados revelam que, em amostra constituída de 406 dados, embora haja a presença desses pronomes átonos na escrita (43%), já se encontram estratégias de representação do clítico comuns na fala, como o objeto nulo (31%). Ao observar o percentual de cada variante através do referido continuum no PB, verifica que, quanto mais próximo do ponto de maior letramento, maior a tendência ao uso de clítico (73%), e, quanto mais próximo ao extremo de maior oralidade, menor é essa tendência (15%). De toda forma, os dados relativos à variedade brasileira mostraram que nem no extremo (-oralidade/+letramento) o clítico foi
absoluto, encontrando-se em competição com outras variantes. Com relação ao uso do dativo lhe, o autor sinaliza que a variante prestigiada pela tradição foi a variante menos utilizada no corpus, em um total de 155 dados: apenas 26% das ocorrências, contra 32% de objeto nulo e 42% de sintagma preposicional (SP) anafórico. Constata, então, que “as estratégias alternativas à variedade padrão já estão plenamente infiltradas na escrita.” (FREIRE: 2005, 149). A investigação de Freire (2005) comprovou, também no caso do clítico dativo, que este tende a ser mais expressivo no extremo do continuum de + letramento, mas que, ainda assim, o clítico dativo não chega a representar a metade do total dos dados.
Morito Machado (2006), em seu estudo sobre o uso e a ordem dos clíticos na escrita dos estudantes do Ensino Fundamental e Médio de escolas particulares e públicas da cidade do Rio de Janeiro, observou que o clítico de terceira pessoa se mostrou a opção de preenchimento mais utilizada (37%). Entretanto, as outras variantes encontradas, como SN, pronome reto e zero, apresentaram índices de ocorrências em torno de 20%. Ou seja, mesmo em se tratando de corpus escrito, outras estratégias de preenchimento do pronome átono foram utilizadas, ainda que em menor proporção.
Considerando-se a presente investigação, supõe-se que a relevante diferença do número de ocorrências de clíticos entre os veículos – o jornal O Globo, que estaria no ponto extremo oposto ao ocupado pelo Meia Hora, apresenta cerca de 10 vezes mais clíticos do que este – não parece ser aleatória. Reforce-se, entretanto, que, somente com um estudo específico sobre a representação do objeto direto, bem como sobre a expressão da voz passiva e da indeterminação do sujeito – o que não caberia nos limites da presente pesquisa –, será possível confirmar as hipóteses traçadas, aprofundar as reflexões propostas e constatar com mais precisão a diferença entre os jornais.
5.1.2. Ordem dos clíticos pronominais com lexias verbais simples