• Nenhum resultado encontrado

Sistematização dos resultados – lexias verbais simples

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 134-140)

5. ANÁLISE

5.1. Lexias verbais simples

5.1.3. Sistematização dos resultados – lexias verbais simples

Após a detalhada análise da distribuição dos dados e das variáveis relevantes, apresenta-se, no quadro a seguir, a síntese dos elementos condicionadores da ordem do

clítico pronominal em lexias verbais simples no corpus analisado, considerando-se a próclise como valor de aplicação.

Quadro 1

Elementos favorecedores e desfavorecedores da próclise em lexias verbais simples nas cartas de leitor.

Variáveis Elementos favorecedores da próclise Elementos desfavorecedores da próclise Possível elemento proclisador partícula de negação (.100) preposição (.78) elemento subordinativo (.70), SN sujeito (.45)

início absol. de oração. (.20) conj. coordenativa (.07) locução adverbial (.04) Tipo de clítico me, te, nos (.67)

se reflexivo/ inerente (.65)

se indeterminador/ apas (.46) lhe (.40)

o, a, os, as (.03) Tipo de oração subord. desenvolvida (.93)

coordenada sindética (.66)

reduzida de gerúndio (.18) “independente” (.17) reduzida de infinitivo (.12)

Distância zero (.56) uma a cinco sílabas (.15)

seis sílabas em diante (.15) Jornal Meia Hora (.88)

Extra (.72)

O Globo (.38)

Pela observação dos elementos que se mostraram relevantes para a ordem dos pronomes átonos na posição proclítica no conjunto dos dados analisados, alguns fatores em especial merecem ser destacados nesta síntese.

No que se refere ao “possível elemento proclisador”, considerando-se os contextos propostos pela tradição gramatical como “atratores” do pronome, atenta-se ao fato de que o elemento “partícula de negação” foi o único que apresentou 100% de ocorrências do pronome na posição pré-verbal, o que indica a força desse elemento, independentemente da presença de outros contextos. Dentre os demais elementos que atuaram como proclisadores, chama a atenção o fato de a preposição, além de ter sido favorecedora da posição pré-verbal, ter alcançado peso relativo, na aplicação da próclise, superior ao alcançado pelo elemento subordinativo. Constata-se, então, que se encontra realização expressiva de próclise em contexto de elemento proclisador não canônico – preposição.

Em relação ao tipo de clítico, confirma-se a preferência à próclise demonstrada pelos pronomes de primeira/segunda pessoas e pelo se reflexivo/inerente.

Quanto ao tipo de oração, a subordinada desenvolvida dispara no favorecimento à próclise (.93). Cumpre, apenas, relembrar que esse tipo de oração necessariamente apresenta um elemento subordinativo, o que indica a co-atuação de fatores no condicionamento do fenômeno. No que tange ao peso relativo de .66 na aplicação da próclise da oração coordenada sindética, salienta-se que a ocorrência da variante nesse contexto foi acentuada com a presença de elementos possivelmente proclisadores.

A investigação da variável distância permitiu atestar, ainda que timidamente, que a ausência de distância entre o cl-v ou v-cl tende a levar à ocorrência da variante pré-verbal, se comparada à presença de material interveniente entre o clítico e a forma verbal.

Quanto ao jornal, merece destaque o alto favorecimento à próclise no jornal Meia Hora e no Extra, o que se pressupõe ter a ver com o perfil desses jornais – menos comprometidos com a norma culta padrão, em especial, no que se refere à colocação pronominal.

No que se refere especificamente aos elementos desfavorecedores da próclise, evidencia-se, primordialmente, no que concerne à variável possível elemento proclisador, que todos os fatores que não atuaram como elementos favorecedores da variante pré-verbal não são considerados pela tradição gramatical como “atratores”. Destaca-se, no entanto, que a ênclise não foi categórica nem alcançou índices altos nesses contextos. O elemento SN Sujeito, por exemplo, apresentou peso relativo de próclise de .45. Vale lembrar que o tipo de jornal atua diferentemente em relação a tal resultado, pois, como observado na análise dessa variável, enquanto o Meia Hora registra 100% e o Extra alcança quase 100% de ocorrências do pronome átono na posição pré-verbal diante de SN sujeito, O Globo apresenta 71%. De toda maneira, a análise permitiu verificar que houve mais dados de próclise em supostos contextos de ênclise (por exemplo, diante de conjunção coordenativa e sujeito) do que de ênclise em contextos tradicionais de próclise, o que confirma a preferência nas cartas pela variante pré-verbal.

No tocante à variável tipo de clítico, salienta-se o baixíssimo peso relativo, na aplicação da próclise, do clítico acusativo de terceira pessoa, que, como verificado, apareceu exclusivamente na posição enclítica em contexto de infinitivo. As demais formas pronominais, lhe e se indeterminador/apassivador, também atuaram como elementos desfavorecedores da variante pré-verbal.

Quanto ao tipo de oração, salienta-se que todas as orações elencadas como não-condicionadoras da próclise apresentaram baixos índices relativos, comprovando o que é proposto pela tradição gramatical para esses tipos de orações.

A variável distância permitiu a constatação de que, independentemente do número de sílabas entre o cl-v/ v-cl – seja ela de uma sílaba ou de oito sílabas, por exemplo –, o efeito do elemento proclisador diminui quando há material interveniente entre o clítico e a forma verbal. Fundamenta essa informação o peso relativo de .15 para as duas variantes – de uma a cinco sílabas e de seis sílabas em diante.

Em relação ao condicionamento extralingüístico, pôde-se comprovar que, embora a próclise tenha sido a variante mais recorrente nos três veículos, o jornal O Globo não apresentou percentual tão alto (67%) de realização dessa variante como o dos outros jornais (85% no Extra e 92% no Meia Hora), e chegou a atingir somente .38, mostrando-se, assim, desfavorecedor da posição pré-verbal. Verificou-se que ocorrência da posição pré-verbal em O Globo se apresenta mais restrita a contextos que, de fato, favorecem tradicionalmente tal posição, o que não acontece com tanta freqüência no Extra, e não acontece no Meia Hora, que, como já comentado, apresenta próclise de forma semicategórica.

O quadro a seguir resume o comportamento de cada jornal, considerando as três variáveis estruturais mais relevantes ao condicionamento do fenômeno – possível elemento proclisador, (i) tipo de clítico (ii) e tipo de oração (iii). Para tornar possível a comparação entre os jornais, já que nem sempre se dispunha de pesos relativos, foram utilizados apenas os índices percentuais.

Quadro 2

Síntese da concretização das variantes da ordem do clítico pronominal em lexias verbais simples segundo o veículo de comunicação.

O Globo Extra Meia Hora

Próclise Ordem preferencial nos contextos de:

(i) elem. subord. (97%) part. de neg. (100%) adv. (81%) suj. (71%) prep. (64%) (ii) or.desenv. (99%) or. coord. (79%) red. inf. (52%) (iii) se refl. (81%) me/te/nos (67%) se indet./apas. (62%) lhe (69%) Ordem preferencial nos contextos de:

(i) elem. subord. (98%) part. de neg. (100%) adv. (91%) suj. (97%) prep. (79%) conj. coord. (80%) (ii) or.desenv. (98%) or. coord. (93%) red. inf. (81%) (iii) se refl. (89%) me/te/nos (98%) se indet./apas. (71%) o, a (s) (55%) Ordem não marcada16 (praticamente geral)

Ênclise Ordem preferencial nos contextos de:

(i)

in. abs. de or. (98%) loc. adv. (78%) conj. coord. (61%) (ii) or.indep. (54%), red.ger. (78%) (iii) o, a (s) (71%) Ordem preferencial nos contextos de:

(i)

in. abs. de or. (73%) loc. adv. (100%17) (ii) or.indep. (75%), red.ger. (50%) Rara (quase inexistente) 3 ocorrências em contexto de início absoluto de oração / oração reduzida de gerúndio.

O quadro acima ilustra bem a questão do continuum proposto para os jornais, no que tange à ordem dos clíticos pronominais. Ainda que a próclise seja, de modo geral, a variante de maior freqüência nos três jornais, o número de ocorrências e a distribuição dos dados pelos contextos lingüísticos são diferentes. Essas diferenças – descritas e interpretadas ao longo do trabalho – permitem caracterizar O Globo como o veículo que apresenta maior número de realizações condicionadas a fatores de natureza estrutural,

16 A expressão “ordem não marcada” é aqui empregada com o significado de ordem natural. A esse respeito, sublinha-se que um dos subprincípios da marcação determina que estruturas mais freqüentes são tidas como não marcadas, já as menos freqüentes são consideradas marcadas.

respeitando, de forma expressiva ainda que não categórica, a proposta normativa de colocação. Os resultados obtidos para o jornal Extra refletem a influência normativa de forma mais branda, uma vez que exibem índices de freqüência menos expressivos do que os verificados em O Globo e próclise em mais estruturas não recomendadas tradicionalmente. Por fim, o Meia Hora destoa dos demais jornais ao concretizar um sistema de ordem proclítica semicategórico, com apenas 3 casos de ênclise, em contextos tradicionais de aplicação da variante pós-verbal.

Em linhas gerais, o quadro 2 permite postular que: (i) O Globo atende, de forma sistemática, aos condicionamentos lingüísticos verificados na investigação, registrando contextos próprios da próclise e contextos próprios da ênclise; (ii) o Extra atende com menos expressividade aos condicionamentos lingüísticos verificados na investigação, de modo que a próclise figura como ordem não marcada, mas há contextos de restrição; (iii) o Meia Hora tem a próclise como ordem não marcada geral e os casos de ênclise constituem casos isolados de atendimento à norma idealizada.

Diante do exposto, pode-se considerar a ordem dos pronomes átonos em lexias verbais simples nas cartas de leitor de domínio jornalístico como um caso, de fato, de variação, em que se observa com mais freqüência, a preferência pela variante pré-verbal consoante a atuação de bem delimitados condicionamentos lingüísticos e extralinguístico.

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 134-140)