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Capítulo 2. – Contributos teóricos

2.6. Comportamentos de risco e saúde

Todo o comportamento diz respeito a um acto humano, natural ou aprendido, que serve para satisfazer necessidades, comunicar e interagir com os outros. A noção de risco implica a possibilidade de haver consequências danosas. Desta forma, quando falamos em comportamentos de risco associados aos consumos de drogas, falamos da

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existência de uma probabilidade de ocorrência de danos em especial para a saúde, quer ao nível físico, quer ao nível psicológico (Beck e Beck-Gernsheim, 2002; Beck, 1992; Feijó e Oliveira, 2001).

A saúde é um dos valores primordiais da modernidade (Beck, 2002). A saúde prende-se com o bem-estar biopsicossocial, e não só com a ausência de enfermidade. Logo a noção de saúde envolve aspectos multidimensionais, pois implica a relação entre dimensões físicas, psicológicas e sociais. Neste sentido, doença é o mal-estar biopsicosocial (W.H.O. in Last, 1994). A dependência de drogas pode então ser designada como uma doença, em alguns casos, sobretudo quando associada a sintomatologia relativa à privação da substância consumida, sobretudo física, mas também psicológica e quando acarreta ainda vários problemas ao nível social.

Sabe-se que uma parte das substâncias psicoactivas têm efeitos bastante nefastos na saúde, sobretudo se consumidos de determinada forma, como a forma abusiva. Ora algumas destas substâncias provocam dependência, logo o consumo continuado vai trazer consequências sanitárias ainda mais indesejáveis. Hoje em dia a informação acerca dos efeitos secundários da maioria das drogas está relativamente acessível e divulgada, na maioria dos contextos. A preocupação com a saúde deveria ditar um certo afastamento do comportamento do consumo de drogas. No entanto, um grupo significativo de pessoas continua a experimentar e a consumir drogas. As vertentes, recreativa, de sociabilidade, de prazer e de adição parecem ter um peso bastante importante nesta continuidade.

Sabe-se que no âmbito dos programas de combate ao consumo de drogas tem- se privilegiado a informação, isto é, o aumento da consciencialização das pessoas acerca dos efeitos nefastos na saúde provocados pelas drogas. Será que têm tido algum sucesso na mudança de comportamentos relativamente ao consumo? Os estudos realizados têm se debruçado sobre acções de sensibilização e informação específicas, sendo estas avaliadas imediatamente no seu fim. Geralmente é avaliado o aumento do conhecimento mas torna-se mais complicado avaliar as mudanças de comportamento. A médio e longo prazo, as avaliações tornam-se mais escassas (Turner e Sheperd, 1999). Ao nível da dissuasão perceptual, sabe-se que as normas sociais e informais tendem a ser mais eficazes do que as normas legais. Não existindo significativa diferença nos níveis de consumo de drogas nos países onde o consumo

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está criminalizado ou descriminalizado, como é o caso de Portugal (Quintas, 2006). Acresce uma maior necessidade de avaliar se a informação acerca dos efeitos nefastos das drogas produz algumas mudanças nos comportamentos.

Um estudo recente procurou analisar os motivos para a não utilização de drogas ilícitas por jovens em situação de risco, dando especial destaque ao papel da informação como factor de protecção, na prevenção do uso de drogas. Foram entrevistados 62 jovens com idades entre os 16 e 24 anos, provenientes de classes sócio-económicas marcadas pela pobreza. Destes jovens, 32 não utilizavam drogas e 30 consumiam drogas duras. O estudo concluiu que a informação, através do conhecimento dos aspectos positivos e negativos do consumo foi o factor principal na não utilização de drogas ilícitas por parte dos jovens não consumidores, enquanto no grupo dos utilizadores, a ausência ou limitação da informação disponível revelou-se um dos factores de risco para o consumo. A informação transmitida pela família, seguida da observação de experiências de amigos consumidores, tidas como negativas, foram as formas mais eficazes de absorção de informação (Sanchez et al, 2010). Um outro estudo sobre representações sociais sobre álcool e outras drogas em jovens verificou uma correlação significativa entre o aumento da informação e as atitudes desfavoráveis face às substâncias psicoactivas (Carvalho e Leal, 2006).

Para terminar os autores deste trabalho gostariam apenas de referir brevemente o modelo de crenças na saúde.Desenvolvido por Hochbaum, Kegels e Rosenstock nos anos 50 (in Turner e Sheperd, 1999), e posteriormente por Becker na década de 70, este modelo refere que quanto mais uma pessoa valorizar a saúde em vez da doença, mais facilmente adoptará comportamentos que protejam a sua saúde e evitem a enfermidade. A pessoa avalia factores como a probabilidade de ser atingida por determinada doença, os benefícios e as barreiras, inerentes à alteração do comportamento, de forma a proteger-se. Podemos ainda relacionar este modelo com a teoria da acção racional que o reforça, em parte, pois diz-nos que a intenção de uma pessoa adoptar ou mudar um determinado comportamento depende, em parte, das atitudes e crenças que a pessoa tem relativamente a dado comportamento, e às suas consequências. Depende ainda da sua apreciação normativa, que se relaciona com a valorização normativa social, e ainda com algum grau de subjectividade do próprio indivíduo. No entanto, as principais críticas realizadas apontam falhas na relação com

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dimensões, como os hábitos culturais, a influência social e as atitudes. Variáveis como o sexo, a idade ou classe social têm demonstrado diferenças nas regularidades e por isso devem ser tidas em conta.

A relação entre a valorização social da saúde e a adopção de comportamentos que a protejam, como seria de esperar, nem sempre é linear. Outras variáveis complexificam esta equação, e no consumo de drogas, elas podem passar pelo prazer, pela imitação, pela ritualidade. No entanto, e tendo-se salvaguardado esta perspectiva, pode-se esperar que a adopção de comportamentos de protecção da saúde também se verifique em várias situações/pessoas.

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