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Capítulo 2. – Contributos teóricos

2.2. Desvio, estigma e exclusão social

A Escola de Chicago e a sua vocação naturalista contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia do desvio e de uma maior compreensão do fenómeno do consumo de drogas e da toxicodependência.

A construção de uma subcultura foi inicialmente relacionada com esta noção de desvio. Assente na socialização realizada em ambientes que apresentam normas e valores diferentes daqueles que são emanados pela cultura dominante, a apreensão de uma subcultura pode explicar o percurso desviante encetado por alguns indivíduos, em especial em contextos espaciais marginalizados (Cohen, 1955; Miller, 1958).

No entanto, olhando agora para autores como Becker (1973) e Goffman (1986), importantes referências na questão do desvio e do estigma inerente à carreira do toxicodependente, destacam-se estas ideias. A noção de desvio, como o próprio nome indica tem a ver com o afastamento, originado pela diferença, comparativamente a algo que é considerado modelo. Em termos sociais, tem a ver com o desvio à normalidade (socialmente estabelecida), ou seja:

“comportamentos pelos quais indivíduos ou grupos violam as normas de uma sociedade *…+ Não pode ser considerado como algo de objectivo, mas é sempre tal no seio de um contexto normativo e, por conseguinte, relativamente, a um determinado sistema cultural” (Demartis; 2002: 100).

Historicamente, os actos tidos como desvios não são sempre os mesmos nem o são as pessoas consideradas desviantes. Por exemplo, a aceitação ou não do consumo

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de drogas está bastante relacionada com o contexto em que ocorre e com os significados que lhe são atribuídos (Agra, 1995). Se integrado em determinados rituais o consumo pode ser muito bem aceite. A designação de desvio também não é infalível, porque determinadas pessoas podem ser designadas como desviantes, mesmo não o sendo, bem como uma parte dos desviantes pode nunca chegar a ser identificada como tal. Por isso alguns autores nos referem que não é muito pertinente tentar encontrar factores que expliquem o desvio, mas sim atentar na questão da construção de uma identidade desviante, algo que o grupo de toxicodependentes partilha.

Diversas teorias têm abordado o fenómeno do desvio, como as de âmbito biológico ou psicológico. No entanto, aborda-se a teoria da Rotulagem ou Labeling

theory, por se considerar que esta traz importantes contributos para a análise da figura

do toxicodependente. A teoria da Rotulagem remonta a uma posição de Howard Becker. Segundo este o núcleo dos processos desviantes está relacionado com as normas que definem um comportamento como ilícito ou não. Ou seja, nenhum comportamento é desviante por si, só o é, a partir do momento em que passa a ser definido como tal. O problema consiste então em compreender o que os grupos sociais definem como normal ou desviante e para que fins (Becker, 1973; Agra, 1995; Demartis, 2002: 106). Deste modo, o desvio tem a ver com as relações de poder existentes numa determinada sociedade, e varia de cultura para cultura. Está intimamente ligado com as normas legais estabelecidas, mas também com as normas sociais.

Outsider é o termo utilizado para designar a pessoa que não segue as normas

estabelecidas pelo poder social dominante. Pode-se relacionar este termo com a segregação de grupos minoritários, ou mesmo com as pessoas com menor capacidade económica, uma vez que geralmente são grupos que detêm menos poder dentro da esfera da hierarquia social. Daí a relação feita frequentemente entre toxicodependência e pobreza e bairros sociais, não obstante a transversalidade do consumo de drogas. A pessoa etiquetada como delinquente ou desviante, será assim considerada e tratada como tal, aumentando ainda mais o fosso entre si e o resto da sociedade. Edwin Lemert (in Demartis, 2002) refere ainda que quando o indivíduo é rotulado como desviante – desvio primário, existem fortes probabilidades de ingressar numa carreira desviante, pois percepcionando o seu rótulo e aceitando-o como tal,

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cimenta a sua atitude de transgressão – desvio secundário, até porque a própria reacção social acaba por ditar a segregação do indivíduo de determinadas esferas normativas, retirando-lhe recursos, deixando-lhe como única alternativa o percurso desviante.

Segundo Goffman (1986), assistimos portanto na esfera individual à profecia que se auto-realiza. Uma pessoa desacreditada tem a necessidade de estar constantemente a manipular informação (quer para o seu bem estar social quer para o seu bem estar psicológico), mantém laços com o social mas alia-se, ao mesmo tempo, a pequenos grupos desviantes, para poder realizar as suas práticas, de consumo, por exemplo. Se já é uma pessoa desacreditada, pela visibilidade do seu estigma, será discriminada espacial e relacionalmente, e tenderá a ter sociabilidades apenas com o seu grupo desviante (Goffman in Demartis, 2002).

Em relação ao estigma, associado inevitavelmente à figura do toxicodependente mais degradado, como o “junkie” de rua, gostaríamos de citar Goffman (cit in Demartis; 2002: 106):

“Quando um estranho está diante de nós, pode acontecer que haja provas de que ele possui um atributo que o tornam diferente dos outros *…+ um atributo menos desejável. Concluindo, pode chegar-se a julgá-lo como uma pessoa má, perigosa ou fraca. Na nossa mente, é assim desclassificado como pessoa completa *…+ uma pessoa marcada, desacreditada. Semelhante atributo é um estigma *…+ Julgamos, naturalmente, que a pessoa com um estigma não é um ser humano. Partindo desta premissa, praticamos diversos tipos de discriminação, graças aos quais lhe reduzimos, com muita eficácia embora, muitas vezes inconscientemente, as possibilidades de vida”.

O desvio e o estigma apresentam então uma relação estreita. Imagine-se um utilizador de drogas, a quem se descobre a realização de consumos de drogas ilícitos; é rotulado como desviante, como pessoa que não é capaz de seguir as normas; interioriza esta imagem (estigma), e porque é discriminada e não consegue um emprego para suportar economicamente os seus consumos, dedica-se a actividades criminosas, como a realização de furtos, também visto como um desvio, rectificando a sua carreira desviante ou seja, solidificando um desvio secundário.

No que diz respeito à exclusão social, esta não deve ser confundida com pobreza. A pobreza pode definir-se como a privação de rendimentos para satisfazer as

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necessidades fundamentais, como a alimentação e a habitação. Em termos relativos pode-se designar como a incapacidade de manter o nível de vida médio da sociedade a que se pertence (Demartis, 2002). Apesar de se poderem visualizar num mesmo contínuo, pobreza não implica necessariamente exclusão social e vice-versa. A exclusão social deve englobar a falta de acesso a mais do que uma dimensão do sistema social, como a privação à habitação, ao mercado de trabalho ou às oportunidades de educação. Enquanto a pobreza se relaciona essencialmente com a carência económica. No entanto, este é um debate bastante complexo que deixamos para as investigações que incidem sobre estas temáticas.

Roque Amaro (2003) refere que a exclusão social é uma situação de falta de acesso às oportunidades oferecidas pela sociedade aos seus membros. Deste modo, Amaro percepciona a exclusão social como multidimensional, em que são afectadas seis dimensões principais do quotidiano dos indivíduos, a dimensão do ser (personalidade, auto-estima); do estar (pertença social, família); do fazer (realização profissional); do criar (capacidade de concretizar objectivos, acções); do saber (acesso à informação, formal ou informal); e do ter (rendimentos, poder de compra). Como facilmente se depreende várias das pessoas que consomem drogas de forma problemática são excluídas em várias destas dimensões, como a dimensão do ser, do estar ou do fazer.

Em suma e apesar desta breve conceptualização do desvio, do estigma e da exclusão social providenciar importantes contributos para a análise e compreensão da problemática do consumo de drogas, este fenómeno assume formas ainda mais complexas, multidimensionais. É parte integrante da nossa história e da nossa cultura, e não assume sempre a significação de desvio.

Blummer (1982) e os pressupostos do interaccionismo simbólico, e Touraine (1982) e a noção de actor social trouxeram mais contributos para a análise da problemática do uso de drogas. Potenciaram a reequação da relação e da interacção entre os diferentes actores enredados no fenómeno deste tipo de consumo (Fernandes, 1998). Ampliaram o nosso olhar de forma a ver formas mais diversificadas do uso e drogas.

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