• Nenhum resultado encontrado

Comunicação popular e alternativa no Brasil

No documento Download/Open (páginas 56-70)

Capítulo II – COMUNICAÇÃO CONTRA-HEGEMÔNICA

3. Comunicação popular e alternativa no Brasil

Como dito anteriormente, existe uma dificuldade em precisar os conceitos de comunicação alternativa e popular. A palavra alternativa pressupõe uma opção em relação a algo, neste caso específico, à comunicação de massa. Mas, segundo esse critério, poderíamos abrigar a comunicação produzida pelo povo dentro de guarda-chuva que é o conceito de comunicação alternativa. Da mesma forma, podemos dizer que dentro do espectro da comunicação popular se encaixam algumas das experiências da imprensa alternativa de resistência à ditadura.

Diante das diferentes visões expressas por autores que se debruçaram sobre este tema como Bernardo Kucinski, Regina Festa, Cicília Peruzzo, Carlos Eduardo Lins da Silva, entre outros, procuraremos colocar uma série de características que nos ajudarão a definir, não de maneira fechada e esquemática, as semelhanças e diferenças entre as duas modalidades. Posteriormente, essas características nos auxiliarão a entender e precisar onde se encaixa o jornal Brasil de Fato, objeto desta pesquisa, a partir das pistas aqui encontradas.

Cicília Peruzzo, em sua obra Comunicação nos movimentos populares (1998, p. 113), coloca que os estudos sobre comunicação popular, apesar desta não ser um fenômeno recente, se intensificaram a partir dos anos 1970 e 1980. Este período coincide com a criação e o ressurgimento de uma série de movimentos sociais populares, eminentemente urbanos, que certamente procuraram desenvolver meios de comunicação como forma de auxílio e divulgação de suas mobilizações. No artigo A pesquisa em comunicação popular e alternativa, Christa Berger chega à mesma conclusão, ao observar que a partir do surgimento de experiências alternativas na década de 1970, a universidade passa a se interessar em pesquisá- las (1995, p. 15).

Berger observa também (p.16) a imprecisão dos conceitos utilizados para a classificação das pesquisas sobre o tema, o que confirma a dificuldade de delimitação do campo da comunicação popular. Em sua busca por esses estudos, encontrou classificações como: "comunicação alternativa, comunicação das classes subalternas, comunicação participativa, comunicação marginal, comunicação emancipadora, comunicação libertadora, imprensa alternativa, imprensa nanica, imprensa popular, leitura crítica da comunicação". Citando José Marques de Melo (1995, p. 16):

O principal desafio para a organização desta bibliografia foi a delimitação do campo da comunicação popular. Trata-se de um fenômeno que não é novo, mas que constitui novidade pela configuração assumida na conjuntura latino-americana dos anos 80. Revisando o espectro de instituições que atuam no setor da comunicação popular praticando, pesquisando ou estimulando verificamos que os matizes são bastante diferenciados. Donde se conclui que o conceito de comunicação popular mostra-se ainda impreciso, ambíguo, contraditório.

Segundo Christa Berger, a pesquisa em comunicação popular no Brasil é orientada por quatro "linhas mestras". Consideramos importante listá- las aqui, pois nos dão pistas sobre os espaços em que essa modalidade de comunicação se encontra (p. 17).

a. A que tem a imprensa como ponto de part ida. São pesquisas descritivas sobre jornais de operários, sindicais, populares e alternativos.

b. A que busca uma referência teórica para descrever a comunicação popular. Trabalha conceitos de classes subalternas, hegemonia, contra-hegemonia e contra- informação, referenciados, principalmente, em Antonio Gramsci.

c. A que trabalha a recepção das mensagens na perspectiva popular. d. A que relaciona a comunicação com os movimentos sociais.

A partir daí, podemos tirar algumas referências sobre o conceito de comunicação popular. Para começar, podemos deduzir que se trata de algo que tem a ver com povo. Entendemos por povo, a partir das definições de movimentos populares colocadas no primeiro

capítulo deste trabalho, os representantes das classes subalternas, submetidos à dominação econômica e política infringida pelas classes dirigentes. Por outro lado, Cicília Peruzzo nos chama a atenção para o fato de que, em alguns momentos da conjuntura em que há uma disputa que envolva muitas pessoas, como no já citado caso das "Diretas Já", o conceito de povo abarca não só as classes subalternas, mas algo muito mais amplo, "quase toda a nação", diz. "Povo, nesse sentido, é todo um conjunto lutando contra algo e a favor de algo, com vistas ao interesse da maioria" (1998, p. 117).

Em relação aos estudos sobre comunicação popular, Peruzzo destaca três formas distintas de enxergar o conceito de popular: o popular- folclórico, relacionado às "expressões culturais tradicionais e genuínas do 'povo'”, o popular- massivo, circunscrito ao universo da indústria cultural, inclusive trabalhos que tratam da questão das produções conhecidas como "popularescas", e por último, a corrente que encaixa o popular dentro do universo dos movimentos sociais, que se ocupa da comunicação "vinculada 'à luta do povo'" (p. 118-119).

Dentro desta última definição, que nos parece a mais acertada e que será utilizada em nossa argumentação, a autora identifica duas visões sobre o potencial da comunicação popular, que podem coexistir. A primeira concebe a comunicação popular como (p. 119):

Libertadora, revolucionária, portadora de conteúdos críticos e reivindicativos capazes de conduzir à transformação social; ela se concretizaria pelos meios 'alternativos', como contracomunicação da cultura subalterna, colocada em antagonismo com a comunicação de massa.

Já a segunda, mais flexível, enxerga que (p. 119):

A comunicação popular pode inferir modificações em nível de cultura e contribuir para a democratização dos meios comunicacionais e da sociedade, a cuja transformação imediata ela não consegue levar, por suas limitações e contradições e sua inserção numa grande diversidade cultural; e por concretizar-se em espaço próprio, ela não se contrapõe à comunicação massiva.

Um dos aspectos mais importantes para a definição da comunicação popular é o entendimento de seu contexto, tanto em relação ao aparecimento das manifestações como acerca dos espaços sociais e políticos que ocupa. Para Pedro Gilberto Gomes, em O jornalismo alternativo no projeto popular (1990, p. 15), o que caracteriza a comunicação popular é a sua "inserção num contexto alternativo que luta por transformações sociais", sendo ela uma parte desse contexto, que pode ajudar a modificá-lo. O autor frisa que a comunicação popular não tem um fim em si mesma, mas afirma que deve estar vinculada à luta pela conscientização e emancipação das classes subalternas (p. 39).

No caso brasileiro, as manifestações de comunicação popular começam a aparecer em um momento histórico de dupla insatisfação social, primeiro em relação à precarização das condições de vida de boa parte da população, a partir de elementos analisados no primeiro capítulo deste trabalho, e segundo, em relação às restrições impostas pela ditadura militar à liberdade de expressão, representada no campo da comunicação pelas diversas formas de censura que tomaram conta dos meios de massa. Dessa forma, segundo Peruzzo (p. 115):

Criaram-se instrumentos 'alternativos' dos setores populares, não sujeitos ao controle governamental ou empresarial direto. Era uma comunicação vinculada à prática de movimentos coletivos, retratando momentos de um processo democrático inerente aos tipos, às formas e aos conteúdos dos veículos, diferentes daquela estrutura então dominante da chamada 'grande imprensa'. Nesse patamar, a 'nova' comunicação representou um grito, antes sufocado de denúncia e reivindicação por transformações, exteriorizado, sobretudo em pequenos jornais, boletins, alto- falantes, teatro, folhetos, volantes, vídeos audiovisuais, faixas, cartazes, pôsteres, cartilhas etc.

Podemos tirar daí que a comunicação popular se dá em concomitância à luta do povo, obedecendo aos picos e refluxos dos movimentos populares que estimulam o seu desenvolvimento, expressando assim, um contexto de luta e, diferencialmente da mídia de massa, não encobrindo os conflitos sociais. Especificamente nos contextos brasileiro e latino- americano, a comunicação popular se desenrola num espaço de disputa da população por melhores condições de vida e fim da opressão, apresentando-se com uma forma de, segundo Cicília Peruzzo (p. 125):

Corresponder às necessidades de expressão e organização desse movimento de negação e, ao mesmo tempo, de construção de uma sociedade nova. Está articulada a um processo de conscientização-organização-ação mais amplo de setores de classes subalternas.

Assim, a comunicação popular cumpre um papel não só de expressão, mas também de reivindicação e denúncia, além de contribuir para a mobilização do povo, para a elevação de seu nível de consciência sobre as causas das más condições de vida. Isso acontece por meio do acesso à informação contextualizada, já entrando na questão do conteúdo, intimamente ligada ao contexto onde a comunicação popular se insere.

A comunicação popular é vinculada aos interesses das classes subalternas, representando uma iniciativa democratizante ao dar voz aos segmentos sociais que não encontravam espaço de expressão nos grandes meios de massa. Segundo Cicília Peruzzo (p. 126), é democrática também por "transmitir informações a partir das bases, ser constituída

pelo ambiente onde se situa e ajudar a constituí- lo; participar na manifestação dos conflitos entre as classes sociais nos campos dos interesses e da hegemonia"

É preciso não perder de vista que o conceito de comunicação popular compreende processos variados, com diferentes características. Envolvem desde pequenos meios a grandes iniciativas, que não obedecem a uma metodologia uniforme e, apesar de estarem muitas vezes ligadas aos movimentos sociais, não pertencem somente ao seu universo, afinal, nem todo o povo se encontra organizados em movimentos. (PERUZZO, 1998, p. 122). Em relação a essa questão, Pedro Gilberto Gomes ressalta que não são os meios técnicos que definem as iniciativas de comunicação como populares, nem somente os conteúdos, mas sim o conjunto de seu "processo de produção, circulação e uso das mensagens" (1990, p. 41).

Carlos Eduardo Lins da Silva (1981, p. 63) identifica dois fatores determinantes para a conceituação da comunicação popular: a divisão da sociedade em classes sociais e a utilização de um meio periódico que defenda os interesses das classes trabalhadoras. Em relação à produção, o autor isola três formas distintas. A primeira diz respeito às publicações que defendem os interesses das classes trabalhadoras, mas não são produzidas por elas e nem a elas se destinam. A segunda forma é a produção de publicações que defendem as classes trabalhadoras, e, apesar de não serem produzidas por elas, são a elas destinadas. E a terceira compreende publicações feitas e consumidas pelas classes trabalhadoras, sendo obviamente porta-vozes de seus interesses. Apesar das diferenças, o fator que as une é a linha editorial voltada para as necessidades e os interesses das classes subalternas.

O povo é protagonista da comunicação popular, mas tanto as produções que se dão no âmbito das classes subalternas, como as que se dirigem a elas e são feitas por outros segmentos sociais, "quebram a lógica da dominação e se dão não a partir de cima, mas a partir do povo, compartilhando dentro do possível seus códigos" (PERUZZO, 1998, p. 127).

Entre os aspectos positivos da comunicação popular, encontramos: a socialização de conhecimentos que se dá entre os profissionais especializados que se propõem a trabalha r com essa forma de comunicação; a conquista de espaços, tanto para os movimentos nos meios massivos como a consolidação de seus próprios instrumentos; o desenvolvimento de um conteúdo crítico que prima pela descrição abrangente e contextualizada da realidade, evitando assim a fragmentação e contribuindo para a mobilização do povo por mudanças; a manutenção de uma autonomia em relação às instituições públicas e privadas; a reelaboração de valores e a busca da igualdade entre emissor e receptor; sua constituição como serviço de interesse público; a descoberta de identidades mais próximas do povo, sem apelar para a espetacularização das informações; o registro da história das mobilizações das classes

subalternas; a democratização dos meios de comunicação e finalmente, a conquista da cidadania. Logicamente a comunicação popular não está sozinha na tarefa de proporcionar a efetivação de todas as questões colocadas acima, mas é capaz de contribuir uma vez que esteja inserida num contexto mais amplo formado pelos movimentos sociais (p. 158).

Uma das premissas da comunicação popular é a manutenção ao menos de uma perspectiva de igualdade entre emissor e receptor. Peruzzo (p. 142) coloca que a participação popular na comunicação pode compreender vários níveis distintos de envolvimento, desde a transmissão de mensagens até a definição da linha política, do planejamento, chegando ao compartilhamento de todo o processo de gestão do meio.

Sabemos que na prática isso nem sempre ocorre, pois como vimos acima, comunicação popular não é sinônimo de participação. Apesar de existir em diversos casos concretos, a autora observa que em boa parte dos meios a participação do povo ainda é restrita à transmissão de mensagens, como depoimentos e entrevistas, e não efetivada em todos os níveis do processo. Um risco dessa conduta é a reprodução das estruturas autoritárias existentes na sociedade de classes, quando, por exemplo, um grupo toma para si a tarefa de produzir e interpretar as necessidades de informação dos receptores. Essa prática é encontrada inclusive em alguns movimentos sociais (p. 141).

Partindo para a análise da prática da comunicação popular, verificaremos a seguir algumas das limitações e dificuldades enfrentadas por suas experiências, apontadas por Cicília Peruzzo (p. 122) e que se reproduzem também nas iniciativas atuais. A primeira delas é, com certeza, a abrangência. Os meios atingem parcelas muito restritas da população, normalmente aqueles que já estão organizados em movimentos ou ao menos conscientizados acerca dos problemas que afligem as classes trabalhadoras. Vários aspectos podem explicar essa dificuldade dos meios populares em chegar a parcelas mais amplas da sociedade, entre elas temos a tiragem reduzida, freqüentemente por conta dos custos, a inadequação dos meios, ou seja, a opção por determinado tipo de veículo sem a reflexão sobre sua pertinência para os objetivos que se quer alcançar e por último aquele que é listado entre boa parte dos autores com o "gargalo" da comunicação popular, a distribuição. Veremos como isso ocorre de forma mais detalhada.

Em relação à inadequação na escolha do veículo mais apropriado para cada realidade, Cicília Peruzzo coloca que (p. 149):

É comum a utilização de algum tipo de veículo de comunicação sem maiores preocupações com sua apropriação ao público alvo. Chega-se às vezes ao absurdo de se produzir um jornal impresso destinado a uma população de maioria analfabeta ou

a decidir-se por ele quando as condições materiais e de mobilização participativa são mais favoráveis ao jornal mural ou a um sistema de auto-falantes.

Da mesma forma, muitas vezes por escassez de recursos, um meio importante de comunicação é subutilizado ou não utilizado. A autora observa (p. 150) que "boletins, panfletos, cartazes e cartas são bastante explorados", enquanto os instrumentos que demandam elaboração técnica, como os auto- falantes, por exemplo, são menos utilizados.

A carência de recursos financeiros parece ser uma constante nas experiências de comunicação popular. Em muitos casos a população não tem dinheiro para adquirir os veículos, ou nem mesmo para se deslocar ao encontro do grupo que produz um jornal popular. A questão da auto-sustentação da comunicação popular é um ponto muito discutido, pois em muitos casos mostra-se fator determinante para o insucesso de uma série de iniciativas. Sabemos que é complicado manter as produções somente com contribuições do grupo ou comunidade que está ao seu redor. Para Peruzzo (p. 153), "a saída costuma estar em conseguir verbas mediante projetos apresentados a instituições financiadoras ou na arrecadação de fundos com anúncios comerciais, festas populares, donativos". O cerne dessa questão é a contradição que existe entre a tentativa de manter produções que fujam às regras mercantis da comunicação de massa, mas que ao mesmo tempo necessitem de dinheiro para subsistir.

Não podemos esquecer-nos das diversas tentativas de uso das experiências de comunicação popular para fins eleitoreiros e/ou particulares. Cicília Peruzzo observa um crescimento dessa tendência (p. 154).

Em relação ao conteúdo, a autora também constata (p. 151) que comunicação popular apresenta uma série de limitações. Uma crítica constante é o fato de suas produções serem, em alguns casos, extremamente doutrinárias, abusando de uma linguagem não natural, panfletária, repleta de chavões, buscando a conscientização do povo a qualquer custo. Existe um abuso de temas políticos, insistência pela abordagem dos mesmos assuntos e pouco ou nenhum espaço para o entretenimento. Muitas vezes, a adoção de uma linguagem pesada e distante da realidade do receptor, demonstra a tentativa de instrumentalização da comunicação popular negando em parte suas características mais profundas de ligação com o povo. A comunicação popular é vista somente como um meio de conscientização e transformação da sociedade, sem a devida atenção à riqueza do processo, sua produção.

Muitos colocam que a insistência de parte dos veículos da comunicação popular na adoção de uma linguagem restritiva e a não abertura de espaço para aspectos importantes da vida do povo, como o futebol, reforçam a demanda pelas produções da mídia de massa. Trata-

se de certa forma de uma tentativa de diferenciação dos veículos populares em relação aos massivos. Para Peruzzo (p. 132), a "tendência a repudiar a mídia de massa", pode ter contribuído para a opção por uma comunicação popular pouco "atraente", que praticamente ignora aspectos como o "entretenimento, lazer, amenidades, humor", fatores que integram "o dia-a-dia e os anseios humanos e das massas". Existe inclusive uma tendência, observada tanto nos estudos que contrapõem a comunicação popular à massiva, quanto no discurso dos próprios produtores, que tende a enxergar a comunicação popular como pura, ligada às genuínas manifestações da cultura do povo (p. 128), horizontal, democrática e plural, enquanto as produções massivas são despolitizadoras, desmobilizadoras, estimuladoras do consumo e desvirtuadoras da realidade. Não se trata de invalidar essas colocações, mas avaliamos que a caracterização demanda um maior aprofundamento. Concordamos com a autora que aponta a interligação dos dois fenômenos, ambos mediados pela cultura, e por isso, impossíveis de ser avaliados como opostos ou isolados (p. 135). Além disso, para o receptor comum, não existe esse antagonismo (p. 128).

Para Peruzzo, "os meios de comunicação popular, apesar de sua importância e de seu significado político, não chegam a se colocar como forças superadoras dos meios massivos". Os meios da comunicação de massa cumprem um papel distinto no campo do entretenimento e velocidade de informação, enquanto os populares exploram caminhos em que os meios de massa não conseguem penetrar, principalmente se tratando de movimentos sociais (p. 131). Em suma, possuem funções diferentes.

Por outro lado, não se trata de fechar aos olhos aos problemas e circunstâncias que fazem parte dos meios de comunicação massiva. Segundo Peruzzo (p. 131):

Há que se reconhecer o grande poder da mídia e sua manipulação, prioritariamente, a serviço dos interesses das classes dominantes, ma s nem por isso ela deixa de dar sua contribuição ao conjunto da sociedade. Quando quer, divulga campanhas e programas educativos e outros de elevado interesse público. Por outro lado, ao informar, instantaneamente, sobre fatos que ocorrem em qualquer parte do mundo, também propicia entretenimento, preenchendo, assim, necessidades que os meios populares não se propõem e nem conseguem satisfazer. Temos que levar em conta que ela vem sendo aceita tal como é pela maioria da população, o que inclui as classes subalternas. Seu conteúdo, seus formatos e sua linguagem têm muito a ver com o universo cultural de segmentos receptores.

Veremos adiante, ao falarmos sobre a comunicação alternativa, que no contexto específico de construção de meios de resistência à ditadura militar, essa tentativa de contraponto aos meios da comunicação de massa efetivamente aconteceu.

Como colocamos no início do capítulo, muitos autores têm descrito a comunicação popular como alternativa. O termo comunicação alternativa pode causar alguma confusão por compreender elementos como a "imprensa operária, sindical, partidária e popular" (PERUZZO, 1998, p. 19). Apesar de pertencer ao campo da comunicação alternativa, por não funcionar em todos os aspectos da mesma forma que a comunicação massiva – representando assim uma opção – o termo comunicação alternativa é correntemente utilizado de outra maneira. Cicília Peruzzo nos explica que (1998, p. 120):

No Brasil, a expressão "imprensa alternativa" tem recebido conotação específica, entendendo-se por ela não o jornalismo popular, de circulação restrita, mas os periódicos que se tornaram uma opção de leitura crítica, em relação à grande imprensa, editorialmente enquadrada nas regras da censura imposta pelo regime militar, mas confortavelmente assentada na condição de monopólio informativo. Também chamada de "nanica", foi lançada no mercado a partir da década de sessenta, para tornar-se mais freqüente e variada nos anos setenta.

Para Bernardo Kucinski, jornalista egresso de várias experiências da imprensa alternativa e autor de um relevante trabalho de pesquisa sobre o tema, o livro Jornalistas e revolucionários, o termo imprensa alternativa mostra-se mais adequado do que "nanica", que em sua opinião expressa "uma pequenez atribuída [aos meios] pelo sis tema a partir de sua escala de valores e não dos valores intrínsecos à imprensa alternativa" (2003, p. 13). Segundo

No documento Download/Open (páginas 56-70)