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Diretas Já, fim da ditadura, e Constituinte

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Capítulo I – MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

2. Organizações populares e movimentos sociais no Brasil

2.2 Movimentos sociais emergentes, período 1975-1989

2.2.4 Diretas Já, fim da ditadura, e Constituinte

A contribuição dos movimentos sociais e populares surgidos na segunda metade da década de 1975 para o final da ditadura militar é inquestionável. Afinal, tendo ou não avançado em seus objetivos específicos, os movimentos certamente contribuíram para o processo de redemocratização do Brasil, ao inserir no cenário político atores que até aquele momento permaneciam alijados do mesmo.

A partir de 1983, as organizações populares passam a participar do maior movimento cívico da história do Brasil, as Diretas Já, que, a partir de uma campanha deflagrada pelo MDB, mobilizaram milhões de manifestantes (HELLMANN, 1995, p.17).

Apesar da gigantesca adesão ao movimento das Diretas, em 1985 o colégio eleitoral elegeu Tancredo Neves para a presidência da República. Após sua morte, sem ter sequer tomado posse, a presidência é assumida por seu vice, José Sarney. A posse de Sarney, político historicamente comprometido com as oligarquias mais retrógradas da região nordeste do Brasil, e aliado político do regime militar (foi presidente da ARENA, partido do governo militar), marcou o fim da ditadura como sistema político (HELLMANN, 1995, p.17). Mas, o período de transição, iniciado pelo processo de abertura política no fim do regime militar, durante o governo Figueiredo, e continuado pelos presidentes civis após 1985, apesar de longo, pouco significou em termos de mudanças reais nos quadros dirigentes da sociedade brasileira. Nas palavras de Micaela Hellmann (1995, p. 14):

A influência preponderante dos militares e do capital fez com que se abrisse um caminho que levou do governo antigo (militar) ao novo e que se tornou realidade pela continuidade do passado no presente e em virtude de concessões e compromissos pactuados com aquelas forças políticas que queriam continuar no poder.

Alguns movimentos, como o sindical, reivindicaram a mudança do modelo econômico adotado pela ditadura militar, dependente e gerador de desigualdades, subordinado ao capital nacional e estrangeiro. Segundo Hellmann (1995, p. 17):

Enquanto os generais estiveram no poder, os tradicionais latifundiários puderam afirmar o seu poder e industriais e banqueiros nacionais e multinacionais conseguiram adquirir imensas áreas de terras. Desta maneira, o Brasil de destacava também com suas formas ultrapassadas de distribuição de terra, e, apesar das muitas promessas, nunca chegou a ser executada uma verdadeira reforma agrária por causa da pressão da oligarquia rural e da imprensa conservadora.

Em suma, finda a ditadura, permanecem no poder as mesmas figuras que a deram suporte, situação possibilitada pelo já descrito processo de transição pactuada. Mas, durante a década de 1980, a ebulição causada pelo surgimento de inúmeros movimentos sociais e organizações populares começou a dar resultados significativos.

Um deles é com certeza a fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, em 1980 (HELLMANN, 1995, p. 16). Formado por uma mistura heterogênea de intelectuais de inspiração marxista – muitos deles retornando do exílio após a Anistia, em 1979, membros e lideranças dos movimentos sociais surgidos na década anterior – CEBs, organizações de bairro, e sindicalistas responsáveis pelas grandes greves do final da década de 1970, o partido representou uma grande tentativa de unificação das forças progressistas em um instrumento capaz de imprimir mudanças reais à sociedade brasileira.

Em 1983 é fundada a Central Única dos Trabalhadores, a CUT, na cidade de São Bernardo do Campo, São Paulo, durante o 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (CONCLAT), onde estiveram presentes mais de cinco mil pessoas1. No ano seguinte, 1984, trabalhadores rurais resolvem fundar um movimento que seja capaz de lutar pela reforma agrária em nível nacional. Nasce o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, cuja história e análise são os temas do item 3 deste capítulo.

A derrota da campanha pelas Diretas, o governo Sarney e o início da adoção de políticas neoliberais começa a causar impacto na capacidade de mobilização dos movimentos sociais. Mesmo assim, duas grandes lutas ainda seriam empreendidas pelo conjunto dos movimentos até o momento em que começa a ocorrer sua desarticulação.

A primeira delas diz respeito às discussões e a instalação da Constituinte, em março de 1987. Houve grande mobilização para que os movimentos construíssem propostas que contemplassem suas reivindicações. Uma rede de organizações rodou o país promovendo discussões e ações que reuniram doze milhões de assinaturas para a apresentação de 122 propostas (HELLMANN, 1995, p. 20). Mesmo com grande oposição, foi possível incluir no texto da Constituição garantias importantes de direitos sociais, a maioria nunca implementada. Outro aspecto positivo foi o contato travado entre intelectuais, juristas e professores com lideranças das mais diversas organizações populares (HELLMANN, 1995, p. 20).

Mas, as conquistas das forças progressistas em relação à Constituição foram rapidamente abafadas pelo início da campanha presidencial. Segundo a análise de Hellmann

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Informação retirada do documento História da CUT, disponível na página da CUT na internet no endereço www.cut.org.br

(1995, p.45), a pressão coletiva que deveria ter acontecido para garantir que os direitos presentes na nova Constituição fossem regulamentados não aconteceu, dadas as mobilizações para a campanha presidencial. As primeiras eleições diretas para presidente aconteceriam em 1989, depois de mais de 20 anos de ditadura militar.

O candidato do PT, o sindicalista e então metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva, recebeu apoio maciço dos movimentos e organizações populares e chegou ao segundo turno das eleições, disputando com Fernando Collor de Mello, representante direto da elite antiga e conservadora.

A derrota de Lula causou um grande desencanto aos movimentos e organizações populares, e representou, juntamente com o processo de transição conservadora empreendido no final da ditadura, a derrota do projeto político implícito nos movimentos sociais do fim da década de 70 (SILVA, 1995, p. 57). Para Hellmann (1995, p. 45):

O desencanto com o espaço institucional da política, e, não menos, com a pouca extensão do raio de ação dos movimentos sociais organizados foi muito grande. Estes iniciaram um período de perplexidade, relativo fechamento de objetivos e queda no ritmo e na extensão das mobilizações – aquilo que a literatura apressou-se a decretar como o 'fim dos movimentos socia is', um tema que 'saiu da moda’.

Além da grande decepção que a derrota de Lula nas eleições de 1989 causou aos movimentos, a entrada de Fernando Collor de Mello na presidência da República se mostrará decisiva para o período de refluxo em que os movimentos parecem entrar a partir do início da década de 1990. Entre os fatores responsáveis está a desagregação social causada pela adoção integral de um modelo neoliberal para o país, além de mudanças no perfil político e ideológico das instituições apoiadoras dos movimentos. Essas e outras questões serão discutidas no próximo item deste capítulo.

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