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Movimentos sociais e meios de comunicação de massa

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Capítulo III – O SETOR DE COMUNICAÇÃO DO MST

1. Movimentos sociais e meios de comunicação de massa

Pudemos verificar no capítulo II que, assim como os meios de comunicação popular e alternativa possuem interesses, defendem visões de mundo e contribuem para a discussão de projetos de sociedade, o mesmo acontece com os meios massivos. Apesar de procurarem manter uma aura de objetividade e imparcialidade, seus interesses e compromissos estão voltados para a manutenção dos sistemas de dominação perpetuados pelo capitalismo, inclusive participando ativamente desse sistema como empresas geradoras de lucro através da venda de informação- mercadoria.

Antonio Gramsci caracterizou os meios de comunicação hegemônicos como aparelhos de dominação do Estado, ou seja, instrumentos criados para a manutenção do status quo. Esses instrumentos tiveram seu poder de influência na sociedade aumentado nas últimas décadas, a partir de processos levados a cabo mundialmente pela expansão do capitalismo com a globalização e a adoção de um conjunto de medidas econômicas e políticas conhecido como neoliberalismo. Nos países periféricos, essas medidas foram em grande parte responsáveis pelo refluxo dos movimentos sociais reivindicatórios da década de 1990, como pudemos observar no capítulo I. Indo além da análise localizada, podemos afirmar que os efeitos da expansão do neoliberalismo puderam ser sentidos em todos os países do globo, a partir da redução de gastos estatais com políticas sociais (nos locais em que chegaram a ser implantadas), aumento dos índices de desemprego e violência urbana.

Paralelamente a esses processos, o mundo passou por uma revolução tecnológica a partir da introdução dos computadores e da internet no cotidiano de um grande número de pessoas. O crescimento do fluxo de informação e a demanda por notícias cada vez mais velozes e em tempo real deram novo fôlego à indústria de produção de bens simbólicos – a chamada indústria cultural, à qual pertencem as produções da comunicação massiva. O resultado deste processo, colocado de forma resumida por Maria da Glória Gohn no livro Mídia, terceiro setor e MST, é a ampliação de poder da mídia na sociedade, fazendo com que ela passe a funcionar mais efetivamente como mecanismo de controle, um verdadeiro "quarto poder" (2000, p. 9). Gohn define o termo mídia como (p. 19):

O conjunto de instituições , negócios ou organizações que produz e transmite informações para determinados públicos [...] A mídia inclui jornais, rádio, estações de televisão (canais regulares e cabo), magazines, boletins, mídia computadorizada online, mídia interativa via computador, filmes e vídeos.

Atualmente, a mídia pode ser compreendida como campo de poder e espaço de sociabilidade. Gohn sustenta que, a partir dos anos 1990, os meios de comunicação tomaram um espaço muito significativo na formação da opinião pública e na influência em acontecimentos conjunturais, exercida tradicionalmente por instituições como os partidos, movimentos sociais, sindicatos etc. A autora acredita que a perda do enfoque crítico e a aceitação de valores disseminados por grupos economicamente poderosos, transformaram o papel da mídia, de contestadora para divulgadora do consenso em torno do neoliberalismo (2000, p. 20).

Apesar de fazerem parte do "establishment econômico e financeiro", defendendo assim interesses contrários aos dos trabalhadores organizados em movimentos populares, os meios de comunicação cumprem um papel importante junto às organizações, contribuindo muitas vezes para seu crescimento, a partir da divulgação de suas lutas e, em alguns casos, para sua destruição, a partir da construção que fazem de sua imagem (GOHN, 2000, p. 22).

Muitas vezes, as representações criadas pelos meios massivos de comunicação são as únicas formas de divulgação das mobilizações dos movimentos sociais para um público mais amplo, já que os meios criados no âmbito desses movimentos costumam ter abrangência mais restrita. Atualmente, podemos medir o grau de influência e expressividade de um movimento social pelos fatos e imagens que conseguem produzir e veicular nos grandes meios de comunicação, até porque os movimentos costumam utilizar esse "prestígio" como forma de pressionar os órgãos estatais. Os meios comerciais, obedecendo a seus interesses de classe, logicamente não cedem grandes espaços para que os movimentos imponham suas reivindicações e explicitem seus objetivos. Inclusive, boa parte de suas mobilizações é freqüentemente ignorada pelos meios massivos como estratégia para torná- los invisíveis diante do público. Para Maria da Glória Gohn (2000, p. 23):

A mídia tem retratado os movimentos segundo certos parâmetros político- ideológicos dados pela rede de relações a que está articulada. Os interesses políticos e econômicos formatam as considerações e as análises que configuram a apresentação das informações, denotando um processo onde a notícia é construída como mensagem para formar uma opinião pública sobre o acontecimento, junto ao público consumidor, e não para informar este mesmo público.

Christa Berger, em seu livro Campos em confronto (2003, p. 41- 42), aprofunda a questão da manipulação exercida pelos grandes meios na cobertura de mobilizações sociais, normalmente escamoteada atrás dos falsos princípios da imparcialidade jornalística. Coloca também que, por outro lado, os movimentos não podem prescindir de sua relação com a mídia massiva:

Todo leitor que acompanhou a cobertura de alguma reivindicação social na qual esteve envolvido – seja um professor em greve, um colono sem-terra, um funcionário público de instituição em vias de privatização – sabe por experiência que o jornal não foi isento. Pode até ter trazido as duas versões, mas a legenda na foto, o número de manifestantes, a palavra que designa o movimento, tomam posição. E a posição negada em nome do princípio liberal do jornalismo – a imparcialidade – é que confirma a que veio a imprensa. É consenso sabê-la arauto da perspectiva histórica da burguesia e, assim, sustentação do capitalismo. A perspectiva dialética ensina que nesta dinâmica, no entanto, existem contradições: ela é também a única possibilidade de um movimento social fazer ouvir suas queixas e a conquista da democracia passa pela sua aprovação.

Trata-se de uma contradição enfrentada diariamente pelos movimentos, pois ao mesmo tempo em que precisam dos grandes meios para atingir um público amplo e pautar suas reivindicações para o conjunto da sociedade, percebem que dificilmente encontrarão espaços para a contextualização de suas lutas e divulgação de suas mobilizações do ponto de vista de seus interesses na mídia massiva. Diante deste quadro, os movimentos possuem duas linhas de atuação. A primeira seria a busca por brechas para expor suas demandas e necessidades ao grande público dos meios de comunicação de massa. Essa busca significa tanto a profissionalização e treinamento de pessoas que tentarão estabelecer relações mais próximas com os meios e com os profissionais que neles trabalham, como a organização de mobilizações cada vez mais "midiáticas", ou seja, mais passíveis de despertar o interesse dos grandes meios em cobri- las. Sobre este último ponto, Christa Berger (2003, p. 43) observa que os movimentos desenvolveram o que chama de "cultura de mídia", ou seja, "um saber intuitivo que informa grupos (culturais e políticos) de que precisam atravessar a mídia para obter estatuto de existência".

A segunda linha pressupõe a construção de meios próprios de comunicação, onde os movimentos possam se expressar de maneira mais aberta, sem a preocupação com o choque de interesses. A questão que se coloca é, mais uma vez, a abrangência desses meios populares, que acabam atingindo apenas participantes e simpatizantes dos próprios movimentos (BERGER, 2003, p. 24).

Veremos que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra tem optado por seguir nas duas linhas descritas acima, especializando seus quadros para que aproveitem, a

partir de um trabalho de assessoria de imprensa, as brechas para inserir seus pontos de vista nos meios de comunicação de massa e ao mesmo tempo, procurando desenvolver meios próprios e diversificados, que auxiliem o movimento na tarefa de atingir públicos mais amplos com suas reivindicações.

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