3. COMUNIDADES QUILOMBOLAS BRASILEIRAS
3.2. COMUNIDADE QUILOMBOLA RURAL IMPLICADA NO ESTUDO
Devido à complexidade do tema, bem como o fato de envolver uma quantidade significativa de situações a serem investigadas, essa pesquisa se centrou na comunidade quilombola Angelim 1, localizada a dois quilômetros da Vila de Itaúnas, distrito do município de Conceição da Barra, na região norte do Espírito Santo, um balneário que recebe turistas de
18 Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm>. Acesso em dezembro/2017.
todo o território nacional, durante todo o ano. Porém, com maior incidência no verão (dezembro a fevereiro) e no inverno (julho). O critério de escolha primordial foi a abertura de lideranças da comunidade à participação nesse estudo.
Localiza-se, ainda, na zona de amortecimento do Parque Estadual de Itaúnas (PEI), uma Unidade de Conservação da Mata Atlântica vinculada ao Instituto de Meio Ambiente do Espírito Santo (IEMA), entre o monocultivo do eucalipto e a Vila de Itaúnas num contexto socioambiental e espacial marcado pela degradação ambiental; queimadas; poluição dos rios Itaúnas e Angelim; diminuição dos peixes; proibição da caça e diminuição da terra disponível para a agricultura familiar. Desse modo, buscam alternativas de produção que passam pela fabricação da farinha de mandioca, do beiju, da goma, entre outros derivados da mandioca, que são comercializados em feiras, nas vilas e cidades da região. A mandioca, junto com a criação de animais de pequeno porte, pesca e caça fazem parte das tradições quilombolas (PASINI, 2014; FERREIRA, 2010). A religiosidade também está presente nas famílias da comunidade Angelim, tendo como padroeira da comunidade Santa Clara, celebrada no mês de agosto com ladainhas e encontros familiares e vizinhos, com partilha de alimentos, contação de histórias e encerramento com o “forró”; incluindo o Ticumbi, uma manifestação cultural de ancestralidade africana, que se realiza no mês de janeiro.
A situação do território Angelim 1 se encontra atualmente em processo de elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação. Embora ele esteja demarcado extra- oficialmente pelo INCRA, a titulação é morosa e a delimitação das fronteiras da comunidade é fluida e dinâmica, pois muitas famílias residentes no território não sabiam do pertencimento à comunidade quilombola Angelim 1. Desse modo, para efeito dessa investigação a comunidade foi delimitada considerando as 41 famílias cadastradas pela agente comunitária de saúde que lá atua. Esse estudo foi autorizado pela Presidente da Associação de Agricultores e Agricultoras da Comunidade Quilombola Angelim 1 (AACQUA), Senhora Claudentina Trindade Alves, sendo substituída, em abril de 2017 pelo Senhor Terezino Trindade Alves.
De acordo com Pasini (2014, p. 54), a comunidade quilombola Angelim 1 estava constituída em 2014 por cinco núcleos familiares, a saber: (i) Núcleo Familiar Batista Silvares, (ii) Núcleo Familiar Jesuino Santos, (iii) Núcleo Familiar Zeferino, (iv) Núcleo Familiar Timbohyba, (v) Núcleo Familiar Guimarães (Figura 15).
Figura 15. Distribuição espacial dos grupos familiares da comunidade quilombola Angelim 1, em 2014. Fonte. Extraída de Pasini (2014, p. 55).
As principais referências da comunidade Angelim 1 são o rio Angelim; o Porto dos Tocos, onde ficavam as canoas que transportavam as farinhas de mandioca no período escravagista, pertencente à família Batista/Silvares; os grupos familiares; as lagoas (atualmente todas estão secas); o local anteriormente ocupado pela escola que, atualmente, se divide entre a Igreja Católica “Santa Clara” e o restaurante quilombola (atualmente, fonte de conflito entre o núcleo familiar Batista/Silvares, que inclui a família Trindade Alves e o núcleo familiar Guimarães).
Recentemente, em 2015 foi incorporada a “retomada”, que se caracteriza por lotes de terras pertencentes à Fibria Papel e Celulose ocupados por famílias da comunidade e de outros municípios, demarcados pelo INCRA como território quilombola Angelim. A “retomada” é uma forma que as famílias remanescentes de quilombos encontraram de reaver seu território e manter sua ancestralidade, pois “Neste espaço dos ‘pretos’, a ‘terra era à rola’, designando a vastidão de ‘terras soltas’ que permitiam a alternância e mudança de moradia, conforme o uso e a produção que se desejasse fazer” (FERREIRA, 2010, p. 25, grifos da autora).
De acordo com Pasini (2014, p. 95), entre os anos de 2010 e 2011, os quilombolas da comunidade Angelim 1 apoiados por outras comunidades da região do Sapê do Norte e parceiros externos; entre eles, estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo e diversas
organizações da sociedade civil “agregando em torno de 200 pessoas. Com machado, eles derrubaram eucaliptos que ocupavam a Lagoa do Murici, que ainda estava adensada com eucaliptos” e fizeram as primeiras retomadas de parte das terras consideradas como pertencentes ao território Angelim 1 (Figura 16).
Figura 16. Áreas das "retomadas" consideradas partes do território quilombola Angelim 1. Fonte. Extraído de Pasini (2014, p. 94)
Essa situação levou a Fibria Papel e Celulose a se aproximar e ouvir a comunidade. A primeira demanda da comunidade à empresa foi a solicitação de apoio para resolução da dificuldade de acesso à água “Com a poluição do córrego Angelim, as mudanças climáticas na região, a diminuição dos córregos e rios, a seca e a ocupação das lagoas pelo eucalipto, as famílias têm muita dificuldade de acesso à água” (Idem, 2014, p. 96). Assim, a Fibria construiu um poço em terras do núcleo familiar Batista Silvares com a promessa de construir nos outros núcleos familiares, o que não se efetivou e acabou gerando mais conflitos na comunidade.
A partir de 2011, a Fibria iniciou a implementação do Programa de Desenvolvimento Rural Territorial (PDRT), em quatro estados brasileiros, como o objetivo de estreitar laços com as comunidades afetadas em seus territórios de atuação, incluindo a comunidade quilombola Angelim 1.
O PDRT19 é um “programa que capacita agricultores familiares, organizados em
associações e redes para produção de culturas variadas e a criação de pequenos animais” (FIBRIA, 2016-17) orientado por três eixos: (i) assistência técnica às famílias da agricultura
familiar; (ii) utilização de tecnologias de baixo custo, minimizando o impacto ambiental; e (iii) “orientação para o acesso a políticas públicas, que ampliam possibilidades de comercialização de produtos” disponibilizando uma equipe de técnicos que atuam sistematicamente com os agricultores. A partir dos anos de 2016 promove a transição da agricultura tradicional para a agroecologia, qualificando sua equipe técnica que forma os agricultores familiares.
A atuação da Fibria na comunidade Angelim 1 é marcada por aproximações e recuos. No ano de 2011 construiu o poço de captação de água e em 2012 contribuiu para a construção de um restaurante quilombola no espaço considerado do núcleo familiar Batista Silvares, que também levou a diversos conflitos internos, levando ao fechamento do restaurante em 2014, dissolvendo a organização comunitária da Angelim 1 em núcleos familiares. Entre os anos de 2014 e 2015 foram constituídas quatro associações de moradores, entre elas a AACQUA. A dissolução dos núcleos familiares e posterior constituição das associações se deve ao fato de a coordenação do PDRT ter adotado o critério de disponibilização de recursos e parcerias somente a pessoas jurídicas e não mais a pessoas físicas, em função dos conflitos internos cada vez mais acirrados em torno da distribuição da água e do fechamento do restaurante quilombola, que têm dividido famílias com laços de parentesco bem próximos (sobrinhos, tios, primos).
As “retomadas” com ocupação de terras demarcadas pelo INCRA como pertencentes ao território da comunidade Angelim 1, mas de propriedade legal da Fibria, continuam ocorrendo desde 2011; a mais recente ocorreu em agosto de 2018. Essas “retomadas” têm atraído pessoas e famílias de diversas localidades, gerando mais conflitos internos na comunidade. Para resolução desse problema, a empresa disponibilizou um hectare de terra (denominado “área de recuo”) para cada família associada, em regime de comodato com as associações, a ser utilizado por elas na ampliação dos cultivos da agricultura familiar e/ou implantação de equipamentos de uso comunitário, tais como: construção da sede da associação e construção e/ou revitalização das casas de farinha. Os lotes de terras ocupadas por famílias que não estão em regime de comodato em “áreas de recuo” disponibilizadas pela empresa não são atendidas pela equipe do PDRT e se encontram em situação de litígio.
Desde 2015 o PDRT adotou a estratégia do engajamento comunitário por meio de disponibilização de insumos, equipamentos e assistência técnica rural às famílias que aceitaram implantar hortas familiares de base agroecológica, realizando acompanhamentos mensais com dois planejamentos anuais, realizados no início e no final de cada ano para avaliação comunitária do ano anterior e planejamento coletivo do plano de ação para o ano
seguinte, respectivamente. Atualmente, sete famílias associadas à AACQUA se beneficiam desse programa e realizam entregas no Programa de Aquisição de Alimentos, implementado pelo governo brasileiro para fortalecimento da comercialização da agricultura familiar.