2.1. EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
2.1.2. Educação de jovens e adultos na sociedade do conhecimento e da informação
2.1.3.1. Termos e sentidos da educação de jovens e adultos
No vasto campo da aprendizagem e educação de jovens e adultos ao longo da vida (AEA) ou educação de jovens e adultos (EJA), Osório (2005) destaca a contribuição das CONFINTEAs realizadas pela UNESCO para construção de um modelo teórico-prático da educação de jovens e adultos em função das finalidades específicas para as quais se orienta, a partir de cinco aspectos, a saber: (i) conceito de globalidade e continuidade, (ii) perspectiva de “essencialidade”, (iii) perspectiva de liberdade estrutural, (iv) perspectiva de utilidade e (v) perspectiva de liberdade individual e de grupo. Estes aspectos envolvem uma pluralidade de termos que ajudam a compreender os sentidos e as finalidades específicas orientadoras da EJA (Quadro 4).
O conceito de globalidade e continuidade se refere a um processo que busca o desenvolvimento pessoal, social e profissional com a finalidade de melhorar a condição de vida, tanto pessoal como da coletividade. O caráter globalizante da educação permanente e da educação de jovens e adultos diz respeito a acontecer em todos os espaços e tempos da vida, a estar implicada em diferentes níveis do sistema educativo (OSÓRIO, 2005), partindo da educação básica que se transforma em formação contínua compreendendo diferentes dimensões das práticas educativas (formal, não formal e informal) e permite uma pluralidade de agentes e instituições (instituições educacionais, à distância utilizando tecnologias de informação e comunicação, clubes, associações, museus, bairros, comunidades rurais, etc.).
Quadro 4. Termos e sentidos da educação de jovens e adultos.
Conceito Termo Finalidade Termos
relacionados Globalidade e continuidade Educação permanente. EJA no modelo da educação permanente
Satisfação das aspirações individuais das pessoas para melhorar a sua condição de vida
Educação contínua. Desenvolvimento
comunitário Perspectiva de
“essencialidade” fundamental. Educação Educação de base
Dotar as pessoas dos conhecimentos e das competências elementares (alfabetização e formação básica) Educação compensatória. Educação de “segunda oportunidade” Perspectiva de liberdade estrutural Educação “extra-
escolar” Não limita a EJA às atividades sistemáticas e organizadas oficialmente no sistema regular
de ensino
Educação não formal e informal
Perspectiva de utilidade Educação
profissional
“Educação obreira, educação contínua, educação para as diversas situações e problemas
da vida (educação sanitária, educação para a saúde, etc.)
Formação contínua, ensino profissional Perspectiva de liberdade individual e de grupo Educação popular. Educação aberta Educação em função do contexto e da realidade social
Formação contínua, ensino profissional Fonte. Elaborado pela autora adaptado de Osório (2005, p. 115-118).
Para Silvestre (2013), a educação e a formação de jovens e adultos se vinculam à alfabetização e à formação profissional e devem contribuir para a humanidade com uma educação/formação básica para todos, considerando diferentes tipos e formas de processos educativos de formação e de aprendizagem “onde se valorizam a complementaridade dos espaços e tempos dessa mesma educação, suscitando e desenvolvendo o desejo de continuar a aprender (a aprender a desaprender) rumo a uma educação/formação permanente, ao longo de toda a vida e comunitária” (p. 141). Este autor destaca a educação/formação permanente tanto para o empoderamento pessoal como para o empoderamento comunitário.
Nesse sentido, Silvestre (2013) converge no sentido de globalidade e continuidade da educação de jovens e adultos referido por Freire (1987, p. 41, grifos do autor), que ocorre na perspectiva da educação problematizadora em que “se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com
que e em que se acham”, provocando, paulatinamente, no indivíduo a consciência de sua
própria “inconclusão” que o impulsiona na busca permanente do “ser mais”.
Quanto ao conceito do termo de “essencialidade”, Osório (2005) faz distinção entre alfabetização e alfabetização funcional, destacando os dois tipos de analfabetismo: o propriamente dito e o funcional. No contexto atual, o analfabetismo é visto a partir de oito características, quais sejam: (i) não-escolarização ou subescolarização; (ii) iletrismo, insuficiência de leitura; (iii) utilização não operativa da escrita em situações da vida cotidiana;
(iv) deficiência, desvantagem e inadaptação; (v) características de algumas minorias culturais, nacionais ou imigrantes; (vi) subqualificação no contexto laboral; (vii) vertente cultural da pobreza; (viii) efeito generalizado da cultura de massas (“maiorias silenciosas”). E a alfabetização é definida pela UNESCO (2016, p. 20) como a capacidade que um indivíduo tem de “identificar, entender, interpretar, criar, comunicar e computar materiais escritos e impressos associados a contextos diversos” que lhe permita desenvolver todo o seu potencial e a sua efetiva participação social. A alfabetização funcional é definida pela capacidade de uma pessoa poder participar de todas as atividades nas quais “a alfabetização é necessária para o funcionamento de seu grupo e comunidade e [garantir] que ela continue a usar a leitura, a escrita e a aritmética para seu próprio desenvolvimento e [...] de sua comunidade”.
Quanto ao termo que se refere ao sentido de liberdade estrutural, as Conferências realizadas pela UNESCO (Nairobi, 1976; Hamburgo, 1997; Belém, 2009 e Incheon, 2015) reconheceram processos educativos não formais e informais para jovens e adultos em diferentes espaços (clubes, associações, centros comunitários, empresas) com flexibilização de tempos; diversidade de conteúdos e variedade de métodos, não limitando os processos educativos destinados à EJA somente à educação formal.
Do ponto de vista da utilidade da educação de jovens e adultos na perspectiva da formação profissional, Osório (2005) a concebe em dois sentidos: num sentido amplo, engloba a formação profissional contínua em que as atividades formativas possibilitam melhorias na vida laboral do indivíduo, estando ele ocupado ou desempregado; num sentido limitado, se reduz às atividades formativas direcionadas às melhorias ou adaptações de pessoas ocupadas, ao longo de sua vida laboral.
Nesse sentido, os sistemas TVET (Technical and Vocational Education Training) ilustram bem a utilidade da educação de jovens e adultos na perspectiva da formação profissional para o crescimento econômico de um país por meio da educação e formação técnica, difusão tecnologias e incentivo a uma maior demanda por habilidades que possibilitam a um país sair de um ciclo vicioso de baixas habilidades para um ciclo virtuoso de altas habilidades (Figura 4), promovendo o desenvolvimento sustentável que se traduza em qualidade de vida para as pessoas e para o ambiente (MAROPE, CHAKROUN & HOLMES, 2015).
Figura 4. De um ciclo vicioso a um ciclo virtuoso.
Fonte. Marope (2009, In: MAROPE, CHAKROUN & HOLMES, 2015, p. 21).
O termo liberdade individual e de grupo se refere à capacitação política visando uma mudança na sociedade e remete à educação aberta que se faz em espaços, tempos, conteúdos, acesso, métodos flexíveis com acesso para todos, utilizando ferramentas tais como a internet, rádio e televisão, e se realiza também por meio da educação popular, definida por Osório (2005, p. 175) como “[…] um processo de formação e de capacitação para alcançar o objectivo de criar, através da acção-organização das pessoas, de uma sociedade nova de acordo com os seus interesses”.
Na perspetiva de Freire (1976, p. 92-93), a educação popular se vincula ao “saber democrático” que exige uma educação que seja capaz de reconhecer o saber popular e a sua efetiva participação política nos processos decisórios que dizem respeito à sua comunidade, à sociedade, ou seja, “uma educação que levasse o homem a uma nova postura diante dos problemas do seu tempo e de seu espaço. A da intimidade com eles” e com a sua cultura. Assim, Freire (1976) propôs o círculo da cultura, que pode ser considerado um bom exemplo de educação popular, porque propicia a construção coletiva de um projeto educativo adequado a cada contexto, centrado numa educação como prática para a liberdade (Figura 5).
Figura 5. Educação como prática para a liberdade. Fonte. Elaborada pela autora com base em Freire (1976).
O projeto educativo no círculo da cultura se integra numa dinâmica sistêmica e interdependente: cultura, diálogo, método de alfabetização e investigação temática, reflexões sobre oprimido e opressor, conscientização e perfil necessário ao educador popular. Essa dinâmica trata sobre a humanização das pessoas, seguindo seus caminhos na convivência respeitosa com o outro e consigo mesmas, assumindo responsabilidade pela própria emancipação. Isso exigirá um educador sensível às pessoas e ao contexto comunitário, comprometido com os educandos. Tem a ver com a construção da dignidade das pessoas e da comunidade. É na comunidade que a educação de jovens e adultos pode exercer o seu papel conscientizador e emancipador da situação de alienação e de opressão.
Ainda sobre a educação popular na perspetiva do método freireano, Engesbak, Tønseth, Fragoso & Lucio-Villegas (2010) afirmam que as contribuições do pensamento de Paulo Freire para uma educação popular se encontram no caráter participativo do método educativo, que surge como alternativa ao sistema educativo atual, que se tem pautado numa visão reducionista da educação ao longo da vida que submete a educação à preparação das pessoas para o mercado de trabalho, mas não para a vida.
De acordo com Brandão (s/d, p. 51, grifos do autor), a educação popular pode ser pensada numa dimensão político-pedagógica com as classes populares “como um trabalho
Coordenador e alfabetizandos Diálogo como condição essencial: participação efetiva dos educandos na construção do processo educativo Palavras geradoras como tema de debate entre todos
os participante Tomada de
consciência da situação real vivida
coletivo e organizado do próprio povo, a que o educador é chamado a participar para contribuir, com o aporte de seu conhecimento ‘a serviço’ de um trabalho político que atua especificamente no domínio do conhecimento popular”. No entanto, este autor concebe a educação popular numa dimensão mais ampliada do que a educação de jovens e adultos (com a qual é muitas vezes confundida) e apresenta três tendências sucessivas em que a educação popular se manifesta: (i) numa educação que se dirige ao povo como instrumento de conscientização; (ii) num trabalho pedagógico de convergência entre educadores e movimentos populares, no qual há prevalência da prática popular sobre a prática pedagógica dos educadores, a qual não se constitui como um fim em si mesma, mas remete ao saber popular; (iii) na educação popular realizada pelo próprio povo por meio de reflexões sobre o seu fazer político em qualquer nível e construindo o seu próprio conhecimento, dispensando a presença de um educador profissional. Assim, o povo pode participar com seu conhecimento para resolução de problemas comuns reais, identificados coletivamente pela comunidade em que se inserem as pessoas das classes populares, fortalecendo o saber popular.