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Os Regimentos Internos das Casas Legislativas expressam de modo mais evidente a independência e a autonomia do Poder Legislativo, pois disciplinam as matérias relativas às atividades exercidas pelas Casas Legislativas e o funcionamento delas. Ao Congresso Nacional cabe disciplinar o trabalho conjunto da Câmara dos Deputados e do Senado. Esses atos regulados pelas normas internas denominam-se atos interna corporis do Poder Legislativo. 231

Destarte, o que são atos interna corporis no processo legislativo?

Os atos interna corporis no processo legislativo são os atos regulados por meio de Resolução promulgada pelo Legislativo no exercício de sua autonomia constitucional,

231 BARRETO, Derly e Silva Filho. Controle dos Atos Parlamentares pelo Poder Judiciário. São Paulo:

disciplinam as fases do processo legislativo e influenciam diretamente na tomada de decisões e vontades dos parlamentares.232

Os Regimentos Internos são diplomas normativos que são aprovados pelos parlamentares por meio de um processo legislativo e promulgado pelo presidente da respectiva Casa Legislativa. Além de ter força normativa, a Resolução regulamenta os trâmites internos no âmbito do Legislativo, tratando de uma série de normas que regem as atribuições e direitos dos parlamentares, para a garantia da lisura do processo legislativo.

Nesse sentido, há atos regulados que são autoaplicáveis, ou seja, independem de deliberação de outros parlamentares para sua aplicabilidade. Basta a vontade de apenas um Deputado ou Senador para que o ato seja exarado. Em outras palavras, não depende o ato de aprovação por Comissão ou Plenário para que ele tenha eficácia imediata, pois trata-se de uma garantia regimental do parlamentar.

Os atos internos do Legislativo revelam a sua autonomia e independência e são disciplinados de modo a adaptar o funcionamento da Casa Legislativa e o processo legislativo próprio à Constituição Federal.233 São exemplos de atos interna corporis gerais:234 (i) os realizados pelas Mesas,235 como na direção das atividades nas sessões legislativas, e para as

232 Derly Barreto conceitua atos parlamentares como aqueles exarados pelo parlamentar no exercício de sua

competência constitucional para dispor sobre o seu regramento interno, com fundamento na autonomia institucional de que detém o Poder Legislativo para estabelecer e aplicar as suas próprias normas sem a interferência de outro Poder (BARRETO, Derly e Silva Filho. Controle dos Atos Parlamentares pelo Poder Judiciário. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 99).

233 Preâmbulo da Resolução 17, de 1989, que aprova o Regimento Interno da Câmara dos Deputados.

234 Gerais, pois, estes exemplos, tratam de atos que disciplinam o funcionamento das Casas Legislativas e o

processo legislativo, e não somente os atos internos que envolvem o processo legislativo em si.

235 Prevê o art. 15 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados: “À Mesa compete, dentre outras atribuições

estabelecidas em lei, neste Regimento ou por resolução da Câmara, ou delas implicitamente resultantes: I – dirigir todos os serviços da Casa durante as sessões legislativas e nos seus interregnos e tomar as providências necessárias à regularidade dos trabalhos legislativos, ressalvada a competência da Comissão Representativa do Congresso Nacional; II – constituir, excluído o seu Presidente, alternadamente com a Mesa do Senado, a Mesa do Congresso Nacional, nos termos do § 5º do art. 57 da Constituição Federal; III – promulgar, juntamente com a Mesa do Senado Federal, emendas à Constituição; IV – propor ação de inconstitucionalidade, por iniciativa própria ou a requerimento de Deputado ou Comissão; V – dar parecer sobre a elaboração do Regimento Interno da Câmara e suas modificações; VI – conferir aos seus membros atribuições ou encargos referentes aos serviços legislativos e administrativos da Casa; VII – fixar diretrizes para a divulgação das atividades da Câmara; VIII – adotar medidas adequadas para promover e valorizar o Poder Legislativo e resguardar o seu conceito perante a Nação; IX – adotar as providências cabíveis, por solicitação do interessado, para a defesa judicial e extrajudicial de Deputado contra a ameaça ou a prática de ato atentatório do livre exercício e das prerrogativas constitucionais do mandato parlamentar; X – fixar, no início da primeira e da terceira sessões legislativas da legislatura, ouvido o Colégio de Líderes, o número de Deputados por Partido ou Bloco Parlamentar em cada Comissão Permanente; XI – elaborar, ouvido o Colégio de Líderes e os Presidentes de Comissões Permanentes, projeto de Regulamento Interno das Comissões, que, aprovado pelo Plenário, será parte integrante deste Regimento; XII – promover ou adotar, em virtude de decisão judicial, as providências necessárias, de sua alçada ou que se insiram na competência legislativa da Câmara dos Deputados, relativas aos arts. 102, I, q, e 103, § 2º, da Constituição

providências necessárias que garantam a regularidade das ações dos parlamentares, análise de pedidos de informação de Ministros do Estado; (ii) pelas respectivas presidências, como ao conceder a palavra ao parlamentar, instituição da ordem-do-dia, convocação de sessões legislativas; (iii) no Plenário, como a deliberação sobre requerimento para a realização de sessão extraordinária, decisão acerca de votação por escrutínio secreto, aprovação de regulamentos relativos a serviços administrativos; (iv) nas Comissões, citam-se as votações de projetos que se sujeitam a aprovação do Plenário, determinação de realização de diligências, perícias, inspeções e auditorias de natureza contábil, financeira, operacional e patrimonial nas unidades administrativas do Poder Legislativo, solicitação de audiências para análise de matéria sujeitas a sua apreciação; (v) aos Presidentes, solicitação de vistas, convocação de reuniões, nomeação de relatores.236

Diante de os exemplos acima serem de atos interna corporis que regulam tanto o funcionamento da Casa Legislativa quanto o processo legislativo, cabe a identificação isolada dos atos internos que disciplinam as fases de elaboração do processo legislativo. Para tanto subdividem-se os atos em dois: (i) atos interna corporis que independem de deliberação das Comissões e do Plenário; (ii) atos interna corporis que podem ou não depender de deliberação das Comissões ou do Plenário.

Federal; XIII – apreciar e encaminhar pedidos escritos de informação a Ministros de Estado, nos termos do art. 50, § 2º, da Constituição Federal; XIV – declarar a perda do mandato de Deputado, nos casos previstos nos incisos III, IV e V do art. 55 da Constituição Federal, observado o disposto no § 3º do mesmo artigo; XV – aplicar a penalidade de censura escrita a Deputado; XVI – decidir conclusivamente, em grau de recurso, as matérias referentes ao ordenamento jurídico de pessoal e aos serviços administrativos da Câmara; XVII – propor, privativamente, à Câmara projeto de resolução dispondo sobre sua organização, funcionamento, polícia, regime jurídico do pessoal, criação, transformação ou extinção de cargos, empregos e funções e fixação da respectiva remuneração, observados os parâmetros estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias; XVIII – prover os cargos, empregos e funções dos serviços administrativos da Câmara, bem como conceder licença, aposentadoria e vantagens devidas aos servidores, ou colocá-los em disponibilidade; XIX – requisitar servidores da administração pública direta, indireta ou fundacional para quaisquer de seus serviços; XX – aprovar a proposta orçamentária da Câmara e encaminhá-la ao Poder Executivo; XXI – encaminhar ao Poder Executivo as solicitações de créditos adicionais necessários ao funcionamento da Câmara e dos seus serviços; XXII – estabelecer os limites de competência para as autorizações de despesa; XXIII – autorizar a assinatura de convênios e de contratos de prestação de serviços; XXIV – aprovar o orçamento analítico da Câmara; XXV – autorizar licitações, homologar seus resultados e aprovar o calendário de compras; XXVI – exercer fiscalização financeira sobre as entidades subvencionadas, total ou parcialmente, pela Câmara, nos limites das verbas que lhes forem destinadas; XXVII – encaminhar ao Tribunal de Contas da União a prestação de contas da Câmara em cada exercício financeiro; XXVIII – requisitar reforço policial, nos termos do parágrafo único do art. 270; XXIX – apresentar à Câmara, na sessão de encerramento do ano legislativo, resenha dos trabalhos realizados, precedida de sucinto relatório sobre o seu desempenho. Parágrafo único. Em caso de matéria inadiável, poderá o Presidente, ou quem o estiver substituindo, decidir, ad referendum da Mesa, sobre assunto de competência desta”.

236 BARRETO, Derly e Silva Filho. Controle dos Atos Parlamentares pelo Poder Judiciário. São Paulo:

5.2.1 Atos interna corporis que independem de deliberação das Comissões ou em Plenário

Alguns atos independem de deliberação. Daí que se forem restringidos há vício no processo legislativo passível de ser anulado interna ou externamente. São eles: (i) o pedido de vistas para análise da proposta legislativa; (ii) o requerimento de informações; (iii) a solicitação de leitura do projeto, substitutivo, voto em separado, emendas, informações do processo; (iv) a realização de audiências públicas quando a matéria assim o exigir; (v) a verificação nominal de votação; (vi) a verificação de presença nas Comissões ou em Plenário e a suspensão da sessão quando dentro do espaço de tempo regimental; (vii) o requerimento de destaque apresentado por bancada de Partido.

Consequentemente, se houver abuso de direito sobre esses atos, deve haver o controle interno para a invalidade do ato e externo por existência de uma ilegalidade, e desrespeito à prerrogativa do parlamentar ao devido processo legislativo.

5.2.2 Atos interna corporis que podem ou não depender de deliberação das Comissões ou do Plenário

São os atos que dependem da vontade política da maioria presente na Comissão ou no Plenário, pois há a possibilidade de requerer-se a votação da solicitação realizada pelo parlamentar por meio de requerimento. Consistem em atos realizados ou não, tais como requerimentos para a realização de audiências públicas sobre matéria objeto de proposta legislativa, além das matérias em que há a previsão legal para a sua realização; término do prazo para deliberação de matéria na Comissão;237 encerramento do prazo para propor emendas na Comissão ou em Plenário;238 requerimento de adiamento de matéria objeto de deliberação; requerimentos de pé de pauta, de inversão da pauta, de preferência para votação de projeto ou de substitutivo.

Há requerimentos que são verbais ou escritos e após realizados são de imediato despachados pelo Presidente, são ele os que solicitam: (i) a palavra ou a sua desistência; (ii) permissão para falar sentado, ou da bancada; (iii) leitura de qualquer matéria sujeita ao conhecimento do Plenário; (iv) observância do regimento; (v) retirada, pelo autor, de

237 Esses prazos podem ser diferenciados também a depender do regime da matéria, se em regime de urgência,

prioridade ou dentro do procedimento comum, ordinário.

238 O prazo pode ser reaberto por requerimento aprovado pelo Plenário. Se a matéria estiver com a discussão

requerimento; (vi) discussão de uma proposição por partes; (vii) retirada, pelo autor, de proposição com parecer contrário, sem parecer, ou apenas com parecer de admissibilidade; (viii) verificação de votação; (ix) informações sobre a ordem dos trabalhos, a agenda mensal ou a Ordem do Dia; (x) prorrogação de prazo para o orador na tribuna; (xi) dispensa do avulso para a imediata votação da redação final já publicada; (xii) requisição de documentos; (xiii) preenchimento de lugar em Comissão; (xiv) inclusão em Ordem do Dia de proposição com parecer, em condições regimentais de nela figurar; (xv) reabertura de discussão de projeto encerrada em sessão legislativa anterior; (xvi) esclarecimento sobre ato da administração ou economia interna da Câmara; (xii) licença a Deputado. Nesses casos, se houver indeferimento o autor poderá solicitar que o Plenário seja consultado, sem discussão nem encaminhamento de votação, que será feita pelo processo simbólico de votação.239

Advirta-se que há requerimentos realizados necessariamente por escrito, despachados pelo Presidente da Casa, após ouvir a mesa, e também requerimentos que necessitam da aprovação do Plenário.

No que concerne aos requerimentos despachados pelo Presidente, são eles: (i) informação a Ministro de Estado; (ii) inserção, nos Anais da Câmara, de informações, documentos ou discurso de representante de outro Poder, quando não lidos integralmente no momento da remissão ao texto. Caso haja o indeferimento pelo Presidente, cabe recurso ao Plenário.

Por sua vez, os relativos às matérias previstas no art. 117 necessitam da aprovação do Plenário para a sua realização, incluem-se entre eles os requerimentos que não são tratados pelo Regimento Interno e os que solicitam: (i) representação da Câmara por Comissão Externa; (ii) convocação de Ministro de Estado perante o Plenário; (iii) sessão extraordinária; (iv) sessão secreta; (v) cancelamento de sessão em dia certo; (vi) retirada de projeto da ordem do dia da sessão; (vii) prorrogação de prazo para a apresentação de parecer por qualquer Comissão; (viii) audiência de Comissão, quando formulados por Deputado; (ix) destaque para votação em separado, emenda, substitutivo; (x) adiamento de discussão ou de votação; (xi) encerramento de discussão; (xii) votação por determinado processo; (xiii) votação de proposição, artigo por artigo, ou de emendas, uma a uma; (xiv) dispensa de publicação para votação de redação final; (xv) urgência; (xvi) preferência; (xvii) prioridade; (xviii) voto de pesar; voto de júbilo ou louvor.

239 Vide art. 114 do RICD.