1. BASE TEÓRICA E CONCEITUAL DO ESTUDO
1.3 Conceito de enclave econômico e atividade mineradora
A noção de enclave econômico decorre de evidências que apontam para a quase ausência do estabelecimento de ligações em cadeia entre uma atividade – caracterizada, em geral, pela presença de uma ou mais empresas de grande porte, voltadas para a exportação – e outros segmentos econômicos, presentes no mesmo território de abrangência, indicando, portanto, baixa capacidade de integração da atividade com a economia regional/local.
Tal circunstância tende a resultar em elementos inibidores da promoção de um desenvolvimento regional autossustentado e, consequentemente, da possibilidade de estimular-se a formação de uma base produtiva diversificada, capaz de contribuir para a redução da dependência da economia local em relação à própria atividade exportadora.
Para muitos autores, a introdução de uma atividade mineradora, em uma região, constitui, por suas características, um exemplo típico de enclave econômico. Cardoso e Faletto (1970), por exemplo, ao formularem a chamada “teoria da dependência”, classificam regiões típicas de exploração mineral, voltadas basicamente para exportação, como enclaves, por evidenciarem reduzida capacidade de absorção de mão-de-obra, elevada concentração de capital e baixa ou ausente definição de linkages15, ou seja, de elos econômicos capazes de gerar alternativas de produção e trabalho.
Teorias, como a da Base Exportadora, de Douglas North, e dos Fatores de Dinamismo Regional, de Hirschman – ambas já comentadas neste capítulo –, ajudam a identificar se determinada atividade econômica tem condições de ser desencadeadora de desenvolvimento ou, ao contrário, se sua presença acaba resultando, de forma limitada, na base econômica local, assumindo, em certa medida, características de um enclave econômico.
A Teoria da Base de Exportação define que a renda de uma região é determinada pelo desempenho da sua base exportadora. Em tese, ao instalar-se em uma região, um grande empreendimento exportador pode gerar efeitos multiplicadores na economia regional, incrementando a renda e o emprego de outras atividades não vinculadas à atividade principal, a exportadora. O efeito multiplicador será tanto maior, quanto mais a atividade exportadora
15 A ausência de capacidade de criação de ligações econômicas relevantes das atividades enclávicas acaba
demandar insumos produzidos na região, absorver mão-de-obra local, estimular o incremento de novos investimentos produtivos, que usam como matéria-prima produtos da base exportadora, e tiver poucos vazamentos da renda interna. Uma base de exportação, com pequeno efeito multiplicador, pode constituir em um enclave econômico, com a região dependente e vulnerável, em relação a ela.
Hirschman (1976), por sua vez, identifica pelo menos seis tipos de efeitos encadeadores que, no sentido oposto, poderiam credenciar uma atividade a exercer um papel relevante na dinâmica regional, onde estão presentes, bem como gerar ligações importantes com outros segmentos da economia:
i) efeitos de encadeamento para trás, que deflagram um processo de indução de
atividades de suporte, como empresas fornecedoras;
ii) efeitos de encadeamento para frente, que repercutem nas firmas demandadoras
de produtos e serviços;
iii) efeitos de encadeamento de consumo, que se refletem no estímulo à ampliação do comércio e na instalação de indústrias de bens de consumo, em função da renda distribuída na região;
iv) efeitos de encadeamento de natureza fiscal, que possibilitam incrementos da receita pública, por meio dos impostos arrecadados, e o consequente aumento da capacidade de investimento de governos locais;
v) efeitos de encadeamento interior, que decorrem da introdução regional de
outras atividades econômicas pelos agentes envolvidos diretamente na atividade original; e
vi) efeitos de encadeamento exterior, que promovem a inserção de novos investidores relacionados indiretamente com a atividade original.
Na perspectiva da sociedade da região, onde se instala um grande empreendimento de exploração mineral, como o caso da CVRD, no Sudeste Paraense, uma pergunta relevante é: Quais os benefícios que poderiam advir desse grande investimento para as atuais e futuras gerações da região?
A experiência da exploração industrial de minérios, ocorrida na Amazônia, na década de 1940, com as jazidas de manganês, na Serra do Navio, no Amapá, demonstrou reduzida
capacidade de integração à economia local e, quando a empresa Icomi – responsável pela extração – encerrou suas atividades, em 1997, pouco deixou de legado ao desenvolvimento regional.
Diversos autores analisaram esse caso e as constatações coincidiram em que se tratou de um enclave econômico. Um desses estudos, feito pelo professor Maurício Monteiro (2005a), resultou em um diagnóstico, que apontou as seguintes características da presença da Icomi, no Amapá, sintetizando os possíveis efeitos da presença das atividades extrativas minerais, na economia local e regional:
i) dificuldades de enraizamento dos processos de desenvolvimento; ii) baixa capacidade de absorção da mão-de-obra local;
iii) pouco expressivo volume de receita tributária, decorrente da atividade mineradora, se comparado com o faturamento das empresas mineradoras; iv) reduzida capacidade de difusão tecnológica;
v) reduzida capacidade de gerar efeitos “para frente e para trás” na diversidade local;
vi) inúmeros problemas ambientais, decorrentes da forma com que se deu a valorização dos recursos minerais; e
vii) forte expansão populacional, nas localidades próximas a atividade mineradora, gerando ocupação desordenada.
No caso, porém, da exploração mineradora da CVRD, no Sudeste Paraense, a resposta para pergunta feita não será necessariamente a mesma da referida à exploração de manganês na Serra do Navio, que convergiu para a definição de um típico padrão de enclave econômico. De fato, no Sudeste Paraense, a frente da mineração, que se expande e consolida, ao longo das últimas quatro décadas, sob o comando da CVRD – dadas as características típicas de atividades extrativas minerais – sugere, em tese, tratar-se de um conjunto de atividades com perfil potencial de enclave. Entretanto, as evidências deixam margem a uma avaliação dúbia, quanto à associação entre as atividades mínero-metalúrgicas e o desenvolvimento sócio-econômico regional. Como indica o professor Maurício de Abreu Monteiro, do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia – NAEA/UFPA:
“Enfrentam-se limitações analíticas ao se buscar compreender as atividades mínero- metalúrgicas e suas repercussões nos processos de desenvolvimento regional a partir da noção de enclaves. Embora as atividades mínero-metalúrgicas não tenham se mostrado capazes de impulsionar processos de desenvolvimento de base local, elas têm impulsionado mudanças significativas na Amazônia oriental brasileira, de tal forma que deram novos contornos a algumas estruturas sociais regionalmente preexistentes além de edificar outras” (MONTEIRO, 2005a: 181).
Um dos objetivos desta tese é entender até que ponto a presença da grande atividade mineradora, no Sudeste Paraense, pode dar origem a um enclave.