Com o aumento das discussões sobre fraude, a promulgação da lei anticorrupção e a ampliação da necessidade de um ambiente organizacional com melhores controles internos (integração de sistemas, por exemplo), as organizações passaram a valorizar a importância de Governança e de compliance, sem considerar seus conceitos como mero cumprimento normativo, mas entendendo-os como um conjunto de regras e normas, procedimentos éticos e legais, que visam a orientar o comportamento da empresa, no mercado em que atua; além disso, tem-se entendido que tais programas devam modificar as atitudes e os comportamentos dos funcionários, dentre eles, os profissionais responsáveis pela implementação da área de
programa de integridade(CANDELORO; RIZZO; PINHO, 2012).
Da parte do Governo, após a promulgação da Lei Anticorrupção, os órgãos regulamentadores e fiscalizadores, como por exemplo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), passaram a ter uma responsabilidade maior, no sentido de implementar controles que mitiguem operações fraudulentas, nas organizações, durante suas análises. Da parte das organizações, metodologias que abordam o gerenciamento de riscos foram desenvolvidas e vêm sendo aplicadas. Como exemplo, cita-se a ISO 31000 (International Organization for
Standardization – Organização Internacional para Padronização), criada em 2009, com o
objetivo de fornecer um padrão de controles internos voltados ao gerenciamento de riscos. A ISO 31000 criou uma ferramenta para gestão de diversos tipos de riscos, a ser otimizada em qualquer organização, independentemente do segmento em que esteja inserida e de seu porte. Outra iniciativa do setor privado no processo de desenvolver ferramentas para orientação sobre controles internos, gerenciamento de riscos e prevenção de fraude, é o projeto do Committee of
Sponsoring Organizations of Treadway Commission (COSO – Comitê de Organizações
organizações a desenhar controles internos alinhados com suas estratégias e objetivos de negócios.
A implementação de uma política de programa de integridade, aumenta os custos das organizações, relacionados a controles de fraude, de corrupção e de atos ilegais, ações relevantes, tanto em termos financeiros para as empresas, quanto para a construção ou manutenção de sua reputação (CANDELORO; RIZZO; PINHO, 2012). Por outro lado, uma maior mitigação do risco de fraude poderá aumentar o lucro das organizações, quando consistir de ações bem implementadas, a partir do momento em que sejam minimizados os custos com investigação, sanções e honorários advocatícios envolvidos com a fraude detectada - e quando detectada. Concomitantemente, em se tendo melhor estrutura de controles internos, que possam prevenir, detectar ou sanar riscos de fraude, a reputação da organização tende a ser melhor, o que incrementa seu valor de ações e de mercado. Ou seja, os benefícios, decorrentes da implementação de controles que mitiguem o risco de fraude, tendem a ser maiores, do que os custos decorrentes de fraudes em ambiente sem programa de integridade (CANDELORO; RIZZO; PINHO, 2012).
Dessa forma, com o objetivo de fundamentar o objeto de estudos desta pesquisa, definir-se-á, a seguir, o conceito de fraude.: À luz da análise ortográfica, a palavra fraude é derivada do latim fraus, que significa ato de fazer mal, enganar e quebrar regras (SILVERSTONE; SHEETZ, 2004).
No âmbito organizacional, o conceito de fraude tem sua origem no início das atividades de comércio e, apesar dos avanços regulatórios que se seguiram à Lei Anticorrupção (12.846/2013) e das operações policiais que investigam casos de suborno, lavagem de dinheiro e outros atos ilícitos, fraudes corporativas ainda existem e são pouco detectadas. No escopo deste estudo pode-se identificar que o conceito de fraude precisa ser discutido à luz das normas contábeis e com base na definição dos órgãos que regulam a profissão dos auditores independentes.
Como definido pelas normas de auditoria, configura-se fraude: qualquer erro
intencional nas demonstrações contábeis (INTERNATIONAL STANDARDS on AUDITING,
ISA 240, parágrafo 2).
A teoria que dá suporte à presente pesquisa é a do Triângulo da Fraude, que é resultado do estudo de Cressey (1953). Esse estudo postulou a seguinte hipótese final:
[...]Pessoas confiáveis se tornam violadores da confiança quando elas se consideram como tendo um problema financeiro que não pode ser compartilhado, e estão cientes
de que este problema pode ser resolvido secretamente pela violação de confiabilidade financeira e conseguem aplicar, à sua própria conduta, verbalizações que lhes possibilitem ajustar seus conceitos de si mesmas como pessoas confiáveis como usuários de fundos e propriedades que lhes foram confiados (CRESSEY, 1953, p.30).
Segundo Cressey (1953), a ocorrência de fraudes é condicionada à existência conjunta de três dimensões: pressão financeira, oportunidade e racionalização. A pressão financeira corresponde a problemas financeiros decorrentes de situações que não são acessíveis ao indivíduo gerando o medo de perder a posição ocupada (por não atingir metas, por exemplo), de não alcançar ou de não conseguir manter um dado padrão de vida, ou ainda, a vivência de problemas financeiros pessoais. A oportunidade refere-se à existência de conhecimento necessário e à posse de informações sobre os pontos falhos de governança corporativa, gerando assim a oportunidade de resolver o problema não compartilhado, mas de forma que venha a romper com normas, regras, etc, geralmente visando algum ganho não compartilhado. E a racionalização é o processo de racionalizar o ato, como justificável e/ou aceitável considerando o contexto no qual ocorre.
Figura 2 - Triângulo da Fraude
Fonte: Adaptado de Cressey, 1953
Dessa forma, à luz da teoria do triângulo de fraude, pode-se dizer que:
(a) motivação/pressão: a fraude pode ser cometida por indivíduo motivado por seus problemas financeiros e/ou pressão por alcance de meta.
(b) Oportunidade: as fraudes são mais oportunas diante da ineficiência no ambiente de controles internos, bem como pela ausência de fiscalização e/ou legislação aplicada.
(c) Racionalização: justificativa para cometer a fraude e/ou possibilidade de criar situações/razões para que o responsável pela irregularidade possa justificar seus atos. Ex. “Sempre foi feito dessa forma”; “eu desconhecia as regras da empresa”.
Com base no exposto, o presente estudo está fundamentado no conceito do Triângulo da Fraude. Entende-se que seja possível desenvolver nudges que afetem a decisão do indivíduo, de forma a impedir a ação de cometer uma fraude e que, de alguma forma, esses nudges se relacionem com as dimensões estabelecidas por Cressey (1953): motivação (pressão), oportunidade e racionalização.