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NUDGES – ELEMENTOS FACILITADORES PARA INSTITUCIONALIZAR

INSTITUCIONALIZAR MIMETICAMENTE A PREVENÇÃO DE FRAUDE EM PROGRAMAS DE INTEGRIDADE

Nudges são instrumentos utilizados pelo governo e pelas organizações, para dar um

“empurrãozinho” nas decisões a serem tomadas, de preferência um empurrão na direção certa, respeitando-se a liberdade de escolhas. Podem ser utilizados, portanto, tanto para o bem, quanto para o mal, conectando-se, dessa forma, ao conceito de ética (KESSLER, 2015). Obviamente, espera-se de um governo e de decisores éticos e íntegros, que os empurrões sejam em direção

às decisões teoricamente mais benéficas para a sociedade. Dessa forma, segundo Thaler e Sunstein, 2009, o conceito de nudge é:

Um nudge, assim como usamos o termo, é qualquer aspecto da arquitetura de escolhas que altera o comportamento das pessoas em uma determinada direção sem proibir nenhuma opção ou alterar significativamente seus incentivos econômicos. Para ser considerado como um mero nudge, a intervenção deve ser fácil e barata de evitar. Nudges não são mandatórios. Colocar uma fruta aos olhos do consumidor pode ser considerado um nudge. Banir comida não saudável, não. (THALER e SUNSTEIN, 2009)

O uso de nudges tem como objetivo mudar o comportamento dos indivíduos em uma

desejada direção socialmente benéfica. O custo de implementação de nudges são baixos, sua amplitude em políticas públicas é alta e o seu uso deve resultar em mudança comportamental de forma substancial (THUNSTROM; GILBERT; RITTEN, 2018).

O conceito de nudge foi amplamente abordado em economia comportamental e vem

sendo utilizado por alguns governos, em prol de empurrões em decisões mais benéficas à Sociedade e que, portanto, visem ao coletivo, como o exemplo de Chicago: o governo implementou nudges em formato de urbanização, quando adotou listras em estradas, de formas mais largas e mais estreitas, dependendo do local, com o objetivo de minimizar o risco de acidentes (KESSLER, 2015) e, assim, diminuir gastos com coberturas de seguros, reembolsos a danos causados a terceiros, dentre outros custos, para indivíduos e para o governo.

Enquanto a econômica tradicional desconsidera os efeitos emocionais nas tomadas de decisões, a economia comportamental aborda que os indivíduos são diferentes, sendo que seus comportamentos possuem vieses (julgamentos), os quais dependem de características socio-econômicas, conhecimentos e crenças (culturas e valores). Em assim sendo, as tomadas de

decisões, segundo economia comportamental, são impactadas por emoções e nudges evocam

emoções. Dessa forma, o impacto dos nudges difere de pessoa para pessoa (THUNSTROM;

GILBERT; RITTEN, 2018). Em pesquisas sobre os impactos dos nudges em categorias de consumidores, nota-se que as emoções influenciam as decisões a serem tomadas, uma vez que a dor sentida quando gasta-se recursos torna-se importante para o comportamento dos consumidores, sendo que essa dor varia de acordo com o perfil de cada consumidor, tendendo a sentir mais dor aquele consumidor que gasta mais do que intencionalmente gostaria

(spendthrifts, desprendidos) e aquele consumidor que gasta menos do que intencionalmente

gostaria (tightwads, avarentos) (RICK; CRYDER; LOWENSTEIN, 2007).

Pelo fato de existirem emoções atreladas ao efeito de tomadas de decisões, a avareza e o desprendimento tornam-se características importantes nas tomadas de decisões, uma vez que essas duas características possuem impactos semelhantes em autocontrole e impactos

diferentes em termos de autorregulação. Por outro lado e em adição aos desprendidos e aos avarentos, houve a classificação dos consumidores cuja reação ao consumo é mais inelástica, esse grupo de consumidor foi classificado como sem conflitos (unconflicted) (RICK; CRYDER; LOWENSTEIN, 2007). Assim, os nudges podem influenciar sensivelmente as decisões a serem tomadas, por atuarem, inclusive, como um lembrete de custo de oportunidade, que refere-se ao fato de avaliar o custo da decisão não tomada.

Em outra pesquisa sobre o impacto dos nudges em investidores de fundo de pensão, obteve-se como resultado que os investidores com crenças equivocadas e que recorreram a consultores financeiros responderam mais eficientemente aos nudges, enquanto que os investidores com educação financeira ou aqueles que reconhecem não possuírem educação financeira recorriam menos aos consultores e reagiram menos eficientemente aos nudges

(ANDERSON; ROBINSON, 2017). Em outras palavras e como dito anteriormente, os impactos

dos nudges variam de pessoa para pessoa, pois também variam de acordo com o conhecimento

de cada indivíduo, uma vez que o indivíduo que possui conhecimento de regras, normas, regulamentações podem ser menos impactados pelos nudges, como demonstrou tal pesquisa.

É importante ressaltar que, atrelado ao conceito de nudge, está o conceito de liberdade de escolha. Os indivíduos são livres para tomarem suas decisões, de forma a fazerem suas escolhas. Sobre a arquitetura das escolhas, Kessler comenta:

O segundo conceito importante é o de Arquitetura da Escolha. Esse é o nome dado ao processo de elaboração do método a ser utilizado para que melhores decisões sejam tomadas por parte daqueles que enfrentam uma situação de escolha. Porém, é importante deixar claro que só se pode considerar um nudge aquelas intervenções onde a liberdade de escolha é mantida. Em outras palavras, não se deve induzir alguém a tomar uma atitude sem que este possa arbitrar a priori ante as possibilidades. Este ainda é um assunto muito polêmico, pois a autonomia individual é algo considerado sagrado no mundo ocidental. (Kessler, 2015)

Uma vez que este estudo aborda o uso de nudges para a prevenção e o combate a fraude em programas de integridade, tal abordagem é feita de forma a incentivar decisões éticas, como comentado por Todd Haugh:

Incluindo empurrões ao comportamento ético, a utilização privada da arquitetura de escolha especifica-se para tornar os funcionários mais éticos. Essa ferramenta comportamental oferece uma nova abordagem para promover a tomada de decisões éticas dentro da corporação, a fim de diminuir o risco de conformidade associado à irregularidade do funcionário. Esses nudges são fáceis de implementar, têm o potencial de causar impacto desmedido e estão em voga tornando-os particularmente atraentes. Não surpreende, portanto, que a orientação ética comportamental esteja na vanguarda da estratégia de conformidade corporativa. Algumas das maiores e mais respeitadas empresas dos Estados Unidos veem o nudge como o futuro de suas iniciativas de conformidade.” (Haugh, 2017, p. 686)

Como um contraponto à teoria de nudges, há a teoria denominada Janelas Quebradas

(Broken Windows Theory), desenvolvida a partir de 1982 pelo cientista político James Q.

Wilson e pelo psicólogo criminologista George Kelling, com o objetivo de analisar a correlação entre criminalidade e desordem, sendo esta teoria utilizada para fins de políticas de segurança pública nos Estados Unidos da América. Em resumo esta teoria foi embasada em um estudo de ação e reação, realizado por meio de abandonar um veículo impecável em um bairro nobre de Nova Iorque e outro veículo em mesmo estado em um bairro pobre na mesma cidade. Como consequência do abandono dos dois veículos, notou-se, neste estudo, que após determinado período o veículo abandonado no bairro nobre permaneceu intacto, enquanto que o veículo abandonado no bairro pobre teve suas partes e peças furtadas, sendo destruído o restante (KELLING; WILSON, 1982).

Em continuidade ao estudo, quebraram uma janela do veículo abandonado no bairro nobre e notou-se que após um período, este veículo também foi furtado e destruído. Com base nesta experiência, concluiu-se que o movimento de destruição não está relacionado à pobreza, mas sim ao descuido, ao desleixo. Esta teoria foi estendida a um edifício em que o mesmo resultado foi obtido: uma janela quebrada iniciou o processo de destruição de outras partes do edifício devido a impressão de abandono e indiferença. Portanto, esta teoria concluiu que a desordem e a tolerância representam o prelúdio a crimes maiores, concluindo-se que o policiamento de crimes menores poderia minimizar a incidência de crimes mais graves (KELLING e WILSON, 1982).

Comparando-se a teoria das janelas quebradas à teoria de nudges, pode-se concluir que ambas teorias abordam o gatilho que desencadeia a ação e a reação, ou seja, ambas teorias abordam o comportamento induzido / incentivado, a psicologia social e seus efeitos sobre crimes, sendo que no caso da Teoria das Janelas Quebradas, crimes de segurança pública e, no caso da Teoria de Nudges, crimes de sonegação e imposições de multas de trânsito.

O objetivo primordial de implementar uma política de nudges é tornar a vida mais simples e segura, preservando a liberdade de escolha. Nudges também têm a função de facilitar a interação dos indivíduos com o governo, ou de garantir que seus objetivos sejam alcançados.

Os nudges devem ser transparentes, para serem efetivos, sendo essa transparência alcançada

pelo fato de sua divulgação não ser escondida. Vale ressaltar que o uso de nudges evita a coerção, por manter a liberdade de escolha, sendo essa uma importante vantagem em sua aplicação (SUNSTEIN, 2016), valendo lembrar que, como mencionado anteriormente, os

indivíduos possuem vieses comportamentais, o impacto do nudge pode variar de pessoa para pessoa (THUNSTROM; GILBERT; RITTEN, 2018).

Em um guia prático desenvolvido por Sunstein (2016), o autor elencou dez importantes

nudges, os quais estão dispostos no Quadro 5.

Quadro 5 - Tipos de nudges

Denominação Objetivo e/ou exemplo

1 Regras-padrão

Apresentar regras-padrão para inscrição automática em programas de poupança, previdência, seguros, etc.: nudges utilizados de forma a minimizar gastos e a tornar mais rápido o processo decisório de indivíduos que devam fazer uma escolha.

2 Simplificação

–Apresentar rotinas que possam simplificar a burocracia existente em programas do governo: nudges a serem utilizados para simplificar programas existentes complexos e, assim, maximizar a adoção desses programas.

3 Uso de normas sociais

Dar ênfase ao que a maioria das pessoas deve fazer, como por exemplo, votar: esse tipo de nudge tem por objetivo informar ao indivíduo o que a maioria dos outros indivíduos faz, ou o que a maioria deveria fazer, em termos de normas sociais. Na Irlanda, há um nudge mencionando que a maioria das pessoas paga seus impostos dentro de seus prazos de vencimento, ou seja, pontualmente. Esse tipo de nudge tem por objetivo reduzir comportamentos criminosos, como no exemplo irlandês, diminuir a evasão fiscal.

4 Aumento na facilidade e na conveniência

Tornar visíveis as opções de baixo custo, ou de alimentos mais saudáveis: esse tipo de nudge tem como objetivo tornar o processo de escolha mais fácil, ou seja, facilitar o processo de escolha.

5 Divulgação

Divulgar informações importantes para a tomada de decisão: os nudges de divulgação têm como objetivo prover uma informação transparente e importante, para facilitar a escolha;

Denominação Objetivo e/ou exemplo (continuação)

6 Advertências gráficas ou diversas

Apresentar advertências para alertar sobre o prejuízo de fumar: o objetivo desse nudge é advertir o indivíduo em relação a um comportamento indesejável.

7 Estratégias pré-compromissórias

Apresentar estratégias pré compromissórias, de modo que os indivíduos tenham comprometimento em determinada linha de direção: esse tipo de nudge tem por objetivo aumentar o comprometimento com uma ação e minimizar a procrastinação.

8 Lembretes

Deixar disponíveis mensagens por e-mail (ou por outros meios), para lembrar de uma ação a ser tomada: esse tipo de nudge serve para lembrar o indivíduo sobre alguma ação a ser tomada.

9

Indução a intenções de implementação (você planeja viajar nas férias?)

Apresentar propostas de indução de comportamentos em formato de questões, como “você pretende viajar?”. Esse tipo de nudge sugere perguntas a serem feitas a indivíduos, com o objetivo de induzi-los à intenção de implementação. Em linha com o objetivo desta pesquisa, a formulação de perguntas que induzam indivíduos a implementar um programa de integridade, de forma a prevenir o risco de fraude, poderá ser uma abordagem sobre um tipo de nudge, que venha a contribuir para tal implementação.

10

Informar às pessoas sobre a natureza e as consequências de suas escolhas passadas

Disponibilizar mensagens que apresentem as consequências de escolhas feitas. Esse tipo de nudge tem como objetivo informar dados históricos, de gastos com energia elétrica, por exemplo, para que os indivíduos tenham consciência de seus atos passados e possam ser influenciados a consumirem menos energia. Fonte: Sunstein, 2016

À título de exemplo de nudges tem-se os avisos de renovação de seguros (de carro, casa, etc.), quando do acesso de usuários a suas contas correntes. Nesse caso, a instituição financeira vislumbra minimizar o risco de esquecimento de renovação de seguro, bem como garantir sua receita. Para o indivíduo, esse nudge minimiza o risco de não renovação e foi caracterizado por Sunstein (2016) como nudge de regra-padrão (Quadro 5). Outro exemplo de

nudge é a lombada, a qual leva os indivíduos a reduzirem velocidade em determinado trecho de

uma via pública, de forma transparente e simplificada. Esse nudge foi tipificado por Sunstein como nudge de simplificação (Quadro 5).

Estudiosos de nudges afirmam que o custo de sua implementação é baixo, o que propicia uma adoção rápida em termos de tomadas de decisões. A institucionalização de nudges

pode ocorrer pela criação de equipes de “intuições comportamentais”, como foi estabelecido nos Estados Unidos e no Reino Unido. Essas equipes teriam acesso amplo e transparente às

informações, sendo seus objetivos claros: crescimento econômico, preservação ambiental, combate à pobreza, combate à corrupção pública e privada, por exemplo. O tamanho dessas equipes e seu formato pode variar, de acordo com a estrutura governamental do país. A forma de institucionalizar nudges é, portanto, por meio de especialistas em nudges, em programas a serem implementados, contando com apoio e acesso providos pelo governo (SUNSTEIN, 2016).

Em outras palavras, conectando-se nudges com programas de integridade, pode-se dizer que os nudges tendem a apoiar a institucionalização desses programas nas organizaçõ por meio de dar um “empurrão” em decisões mais éticas a serem tomadas pelos responsáveis pela

implementação desses programas; além disso, após implementado, os nudges podem

influenciar os usuários dos programas em direções mais corretas e integras, sendo nudging uma outra forma de atingir as metas dos programas de integridade em contraponto às formas normativa (leis, regulamentos e normas) e coercitiva (SUNSTEIN, 2016).

A teoria de nudge foi criticada do ponto de vista de seus efeitos no longo prazo, sendo mencionada como uma forma de diminuir autonomia, dignidade, liberdade e bem-estar (SCHUBERT, 2015). Para contrapor isto, Sunstein, 2016, argumentou que nudges respeitam a liberdade de escolha e devem influenciar os indivíduos preferencialmente nas decisões mais corretas do ponto de vista coletivo, considerando-se ética como base de escolhas (SUNSTEIN, 2016).

Assim sendo, esta pesquisa será fundamentada na escolha de quais nudges poderão ser usados na prevenção e combate às fraudes em programas de integridade.