Tendo a Educação Infantil como principal objeto de discussão deste trabalho, se faz necessário a proposta de conceitua-la à luz das contribuições de alguns autores e documentos que a oficializa como direito social da criança enquanto cidadã brasileira, e, ao mesmo modo, ponderar a oferta desta como direito ao ensino de qualidade. Porém, a concepção abrangente que envolve a Educação Infantil nos propõe sumariar as considerações apenas acerca de
algumas bibliografias. De tal forma, é importante expedirmos a relatividade científica que naturalmente acompanha sua linguagem e sistemática quando da apreciação formal de um objeto de estudo, neste caso, Educação Infantil.
A propósito, sendo este um olhar conjunto entre o nível de ensino e a faixa etária tida como primeira infância, as considerações realizadas a seguir também dão significados aos direitos previstos em alguns documentos que preceituam a legalidade subjacente ao contexto da Educação Infantil. Tal qual, as contribuições conceituais descritas a seguir foram percebidas a partir da legislação educacional brasileira, subentendendo que os pressupostos políticos e legais devem caminhar juntos, inclusive, para não distorcer o entendimento de que as políticas públicas são políticas de Estado e não dos governantes.
Importante enfatizar que além da científica, a relatividade cultural deve ser considerada, pois, a cultura de determinado grupo social é dinamizada por seus anseios e tradições. Nesse sentido, a Resolução nº 5, de 17 de dezembro de 2009, diz que a Educação Infantil é opcional, cabendo a cada comunidade indígena decidir o que lhe convém a partir do convívio das crianças com seus familiares no cotidiano das aldeias. É “Garantida a autonomia dos povos indígenas na escolha dos modos de educação de suas crianças de 0 a 5 anos de idade [...].” (BRASIL, 2010, p 3).
Com esse contraste cultural, o entendimento de infância concebido dentro dos grupos de culturas indígenas, por exemplo, não se alinha ao pensamento ocidental de criança/infância, sendo a Educação Escolar Indígena a modalidade de ensino preceituada pelas leis educacionais brasileira.
Destarte, de acordo com a Constituição Federal de 1988, passa a ser definido e fixado a proposta de proteção integral a criança no que tange seus direitos sociais, e nestes, o direito à educação de qualidade desde os primeiros anos de vida. Ratificando o exposto, o artigo 227 da mesma lei anuncia que,
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, a dignidade, ao respeito, à liberdade à convivência familiar e comunitária, além de mantê-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL, 1988).
Percebe-se que a abordagem realizada pela lei maior do país ao citar necessidades básicas como alimentação, saúde e lazer, confirma a precisão de conceituar a Educação Infantil num olhar que ultrapasse o contexto escolar. Ou seja, que considere a criança como um sujeito de intervenção de suas
ideias mediante a sociedade ao qual está inserida, considerando, claro, as peculiaridades físicas, cognitivas e psicológicas próprias desta faixa etária.
O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) promulgado em 13 de julho de 1.990, pela Lei nº. 8.069, em cumprimento constitucional no Art. 1º diz que: “Esta lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente” e “a proteção integral ao desenvolvimento e formação nos aspectos: cognitivos, afetivos, físicos, sociais, moral, espiritual e cultural em condições de liberdade e dignidade”. Souza (2007, p. 7), ainda alega que, “a criança é um sujeito social, investigado, observado e compreendido a partir de perspectivas investigativas e teóricas distintas”.
Pensando nisso, pode-se inferir ao contexto da educação formal grande responsabilidade pelas contribuições acerca das representatividades que a Educação Infantil possui ao período de infância da criança, visto a necessidade do professor diante de sua responsabilidade docente de tornar a criança protagonista dos objetivos de ensino propostos em sala de aula.
O direito social da criança por uma Educação Infantil de qualidade está prescrito também na LDB (lei nº 9.394/96) em seus artigos 29 e 30, cujo estabelecem que,
A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. A Educação Infantil será oferecida em: I – Creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – Pré-escolas, para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade. (BRASIL, 2010, p. 25-26). De fato, não considerar a natureza complexa que envolve a construção da subjetividade de uma criança vai de encontro às teorias pedagógicas mais modernas. São pressupostos teóricos que conceituam o educando como um sujeito autónomo em suas criações e não como um depósito passivo à autoridade exacerbada da escola e professor. Ao passo que, estas teorias divergem da premissa de educação escolar onde professor é visto como o único dono do saber, corroborando com as abordagens tradicional e tecnicista propagadas pelos “paradigmas conservadores da educação”. (BEHRENS, 2011, p. 40).
O respeito à dignidade e aos direitos das crianças, consideradas nas suas diferenças individuais, sociais, econômicas, culturais, étnicas, religiosas etc.; o direito das crianças a brincar, como forma particular de expressão, pensamento, interação e comunicação infantil; o acesso
das crianças aos bens socioculturais disponíveis, ampliando o desenvolvimento das capacidades relativas à expressão, à comunicação, à interação social, ao pensamento, à ética e à estética; a socialização das crianças por meio de sua participação e inserção nas mais diversificadas práticas sociais, sem discriminação de espécie alguma; o atendimento aos cuidados essenciais associados à sobrevivência e ao desenvolvimento de sua identidade. (BRASIL, 1998, p. 13).
Por certo, fundamentado na concepção de desenvolvimento integral da criança os Referenciais Curriculares Nacionais para Educação Infantil – RCNEI surgiram para auxiliar no combate às práticas de ensino que ignoram a dimensão das emoções e sentimentos que as crianças em suas interações sociais, inclusive, as interações realizadas no contexto escolar, se propondo e propondo a escola a uma educação para a cidadania.
A concepção de atendimento integral à criança no contexto da educação formal ganhou reforço no ano de 2.009 quando publicado as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil. Considerando este documento a criança é concebida da seguinte forma:
Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura. (BRASIL, 2010, p. 12).
Bem como, o objetivo deste documento é o compromisso pela formação de cidadãos autônomos, críticos e participativos através da interação que o contexto escolar oferece com seus pares, professores e toda a comunidade escolar ao qual está inserida. Propõe a mediação de um ensino transformador e contundente ao imediatismo, proporcionando uma aprendizagem que repercutirá em toda a vida individual e coletiva do aluno.
Ao propósito, é por meio da prática pedagógica mediada pelo professor no âmbito da escola que o ensino pode ser considerado como uma ação que ratifica a educação formal enquanto direito social e individual do ser humano. Direitos estes anunciados nos pressupostos legais publicados por leis nacionais e internacionais que vislumbram, em sua essência, aprimorar a qualidade da educação e de vida do ser humano desde a primeira infância.
Obviamente, a aprovação desses documentos como oficiais e normativos não surgiu de maneira impertinente. Todos, são fruto de décadas de discussões fomentadas desde muito tempo atrás. Podemos dizer que de certa forma são documentos bem definidos no que tange assegurar o bem-estar de todos enquanto cidadãos brasileiros na sua integralidade de direitos e deveres. Inegavelmente, apesar de grandes avanços é notório que a concepção de criança que temos na atualidade é um constructo provisório, como igualmente foi em momentos anteriores ao que estamos.
Como resultado, podemos subentender que na atualidade a concepção de criança e infância está constituída de forma ampla sobre a pauta dos pressupostos legais e pedagógicos em que a criança passou a ser considerada e inserida na sociedade como pessoa cidadã de direitos preenchidos mediante as leis vigentes na sociedade a qual está inserida.
Assim, podemos perceber o ensino e a educação com variáveis facetas. A priori, conjecturamos o enfoque formal e significativo de ambas na construção da aprendizagem do aluno. No entanto, seus significados possuem dimensões que ultrapassam o contexto escolar, dificultando efetivá-los como direito social. Pois bem, é partir deste momento que a educação se torna dependente da vontade política dos governos e governantes.