O projeto de Napoleão Bonaparte para transformar a cidade de Paris em modelo de capital e centro de atração do mundo, embora questionado, gerou investimentos em museus, construções e espaços de releituras das ações dos conquistadores romanos conciliados aos investimentos tecnológicos que surgiram após a Revolução Industrial.
Inspirando-se em projetos mundiais, os alunos do IFRO também puderam delinear nas oficinas de pinturas e esculturas a dimensão de arte nos espaços da instituição. Realizaram pinturas de telas, de murais e paredes e suas produções proporcionaram interação com os demais públicos, seja por meio de fotografia nas selfies compartilhadas em redes sociais ou até mesmo em blogs.
No trabalho de produção das pinturas, foi necessário estabelecer um projeto carregado de significados. Por meio de esboços e estudos, os alunos apresentaram aos professores os objetivos de suas produções artísticas, inclusive problematizaram diversos temas sociais.
Para Foucault (1984, p. 14), definir as condições nas quais o ser humano “problematiza” o que ele é, e o mundo no qual ele vive, é a tarefa de uma história do pensamento, acompanhado de simbologias e signos.
Deste modo, os alunos indígenas ou não indígenas puderam demonstrar o que pensam em termos culturais em diversas expressões artísticas e múltiplas identidades.
Na obra de Stuart Hall (2006), verificamos a ideia de construção de identidades dos sujeitos, passando a ser compreendida no momento de interações com o outro. O sujeito pode assumir identidades diferentes em momentos distintos, como uma profusão de imagens. As imagens como representações, diferentemente do texto escrito convencional, não são menos importantes. As poesias e arquiteturas são elementos que narram histórias e também expressam culturas e imagens em seus contextos.
Ao refletirmos sobre o fazer da sala de aula na concepção de Freire (1997), é necessária a leitura de mundo, uma leitura que extrapola os muros, uma leitura sem fronteiras. Neste ponto, perceberemos que as imagens constituem uma importante forma de veicular ideias e informações, em alguns momentos em substituição aos textos escritos.
As oficinas carregaram dupla função: por um lado, o conhecer histórico de artistas, por outro lado, a associação do conhecimento histórico com as culturas locais. Conhecer pelo fazer, ou seja, pelas representações artísticas e depois contextualizar foi uma das práticas aplicadas a partir da abordagem triangular por Ana Mae Barbosa (1991), que destacou os seguintes princípios: leitura da imagem, objeto ou campo de sentido da arte (análise, interpretação e julgamento), contextualização e prática artística (o fazer). Esse pensamento possibilitou entender a história da arte e seus propósitos estético ou comunicativo enquanto expressões de ideias, emoções ou formas de ver o mundo.
Na produção dos discentes, desenvolvemos estudos de conhecimento da Arte sobre alguns períodos históricos e seus respectivos artistas que, apesar de terem enfrentado problemas diversos, deixaram importante legado, principalmente os artistas do expressionismo, movimento com características do primitivismo – valorização das simplicidades ingênuas sem os vícios das academias. Esse movimento destacou como expressão as angústias e conflitos pessoais de uma época, demonstrando que a obra artística e os apreciadores estão vinculados. Entre os artistas estudamos Edvard Munch, Vincent Van Gogh e Francis Bacon.
A artista Anita Malfatti, mulher de uma época onde a maioria dos homens eram detentores de poder, com má formação congênita em um dos braços e mãos, tornou-se integrante da Semana de Arte de 1922 a convite do colega Mario de Andrade. Anita estudou na Alemanha e
realizou sua primeira exposição no Brasil em 1917. Suas obras mostram o contato com novas culturas plásticas, diferentes leitura e interpretação da arte brasileira que era presa a valores acadêmicos e de valorização de modelos e padrões europeus do passado.
O impressionismo como tendência artística rompeu com o clássico e com influências de culturas estéticas orientais. Seus exemplos podem ser constatados nas obras de Vincent Van Gogh e até mesmo artistas contemporâneos como Iberê Camargo no Brasil.
No IFRO, os debates sobre Artes demonstram entre os jovens outras formas de valorar suas próprias características, sem apego a juízo de valor. O imprescindível foi estabelecer rupturas com o medo pré-estabelecido diante de uma cultura dominante atrelada ao sistema capitalista e reproduzida constantemente no interior das instituições de ensino.
Nas oficinas de Artes foi possível trabalhar detalhes subjetivos e particulares. Muitos destes aspectos podem ser observados nas obras de Francis Bacon, filósofo que usava uma diferente fisionomia para se representar, ou seja, o autorretrato. No expressionismo de Jean Michel Basquiat, foi possível perceber diferentes artefatos culturais.
A seguir, apresentamos algumas representações artísticas de observação em que uma discente desenhou a outra. Percebemos, de acordo com seus relatos, a ideia de libertar-se de preocupações por achar que não sabia desenhar com traços mais expressivos e gestuais.
Ilustração 4 - Um desenho.
Fonte: Bosquê.
Segundo a aluna, ocorreu uma espécie de libertação e o desenho foi elaborado sem a preocupação estética, ou seja, se estava feio ou bonito. Os riscos no papel corroboraram para estabelecer processos de aprendizagem e autoconfiança.
A ilustração a seguir é uma gravura realizada por uma aluna que vivia conflitos com seus pais separados. Ela apaixonou-se e interessou-se pelo escultor Bernine do Barroco após assistir um dos documentários da BBC. A discente expressou: “mesmo exemplar aos olhos do clero que diferenciava do
a rocha dura do mármore em carne suave, que sensibilidade”. A partir daí
iniciou-se em sala de aula e nas oficinas uma enquete sobre os fãs de Michelangelo Merisi Caravaggio e Gian Lorenzo Bernini. Com esta observação de afinidades, os jovens do fundão da sala de aula ficaram com o pintor da técnica chiaroscuro Caravaggio, porque se identificaram com possíveis traços de rebeldia no artista. Já as alunas da frente preferiram o escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini, tanto pela imagem de um bonito jovem quanto por sua postura.
Ilustração 5 - Mais um desenho.
Fonte: Bosquê.
Nas oficinas também foram desenvolvidas atividades de escultura em barra de sabão. O debate versou sobre as ações de Aleijadinho e suas artes em pedra sabão do período Barroco tardio no Brasil, mais um dos exemplos de superação das limitações. Deste modo, os debates repercutiram no interior da escola e as atividades culminaram com uma exposição das esculturas, que destacou valores antagônicos.
Ilustração 6 - Escultura em barra de sabão.
Fonte: Bosquê.
Nas atividades desenvolvidas nas oficinas, foram perceptíveis as repre-sentações dos alunos que apresentaram histórico de vulnerabilidade social e consequente mutilação. Nas expressões artísticas os jovens se comportaram como construtores de formas e ideias, em uma profusão de processos criati-vos. Embora inicialmente tenham relatado baixos rendimentos escolares, se apresentam como integrantes de uma sociedade diversificada, possuidores de importantes experiências sociais e culturais.
Entre os relatos coletados por nós destacam-se aqueles dos estudantes, que se reconheceram como sujeitos únicos, originais e capazes de atos de criação e/ou autoria. Uma análise nesse sentido se torna viável com a recusa da noção de cultura estática.
Foi possível constatar o repúdio à ideia comum de cultura como um sistema rígido. Percebemos, nas interações com os jovens, a vivacidade das relações sociais que, em um dinamismo constante, apresentaram trocas, conflitos, negociações, acomodações e ressignificações.
Ignorar a existência de vozes destoantes nos processos educacionais corresponde em certa medida à negação de culturas diferenciadas. Na História da Arte, percebemos a existência de sujeitos que produziram referenciais no campo das Artes, mesmo enfrentando problemas de diversas ordens.
É preciso que as diferentes formas de conhecimento sejam colocadas em pé de igualdade em um diálogo significativo e “é exatamente esse diálogo que tem sido suprimido pelas monoculturas que nos dominam.” (SANTOS, 2004, p. 46).
A arte procura levar à percepção de questões vinculadas à existência, questões de conflitos que nem sempre são fáceis de serem abordadas, principalmente com jovens integrantes de instituições conservadoras e burocráticas; “virar a página” significou romper com a tradição hegemônica cultural.
Os alunos que anteriormente se julgavam inferiores, seja pela composição étnica e/ou baixo desempenho escolar, promoveram reflexões e repensaram seus conceitos. Externaram características diferenciadas, pintaram em torno de 30 painéis e ajudaram a organizar exposição artística no município de Guajará-Mirim.
Ilustração 7 - Exposição da produção artística.
Fonte: Bosquê.
Em síntese, foi possível realizar debates sobre iconografias, esculturas, arquiteturas, monumentos e pinturas. Procuramos definir melhores práticas de olhar o outro e se ver diante dos outros olhares.
Considerações
A partir das obras de artes elaboradas pelos alunos nos espaços escolares, principalmente as pinturas em colunas, paredes, murais e painéis, foi possível perceber a superação de muitas dificuldades enfrentadas pelos jovens nos cotidianos. No lugar da automutilação, os estudantes passaram a melhor compreender as diversas atividades obrigatórias relacionadas às disciplinas dos cursos técnicos integrados. Se antes tudo era pesado, agora com as atividades em oficinas de artes tudo ficou agradável.
As atividades desenvolvidas nos ajudaram a perceber o quanto são impor-tantes os espaços destinados às artes, seja em sala de aula ou especificamente em ateliês escolares, lugar para o desenvolvimento de aulas práticas.
Por meio das observações, foram constatadas mudanças no comportamento dos jovens alunos “depressivos” e isolados. Uma das explicações diz respeito à ideia de arte e seus vínculos com a “terapia” e, consequentemente, o fortalecimento da personalidade.
A possibilidade de instigar cada vez mais os alunos a se apropriarem dos estudos característicos das Artes e de criarem obras artísticas variadas de acordo com cada período histórico permitiu desenvolver a melhor interpretação e releitura de culturas na pluralidade. O ensino da Artes nos propiciou a fruição de comunicações e linguagens em conexão aos contextos culturais.
O desenvolvimento desta pesquisa enfatizou a importância de interações cognitivas de leituras e produções de imagens e esculturas, movimentos e percepções de manifestações artísticas no contexto escolar. Corroborou para o repensar dos posicionamentos dos jovens sobre suas capacidades intelectuais.
Os alunos se sentiram confiantes e expuseram parte significativa de seus conflitos e/ou problemas, ao mesmo tempo em que buscaram solucioná-los. A diminuição dos casos de automutilação foi constatada ao final das atividades.
Referências
BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva/ Fundação Ioschpe, 1991.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1984.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra,1997.
HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo
Populacional 2010. Consultado em: 11 de dez. 2016.
RANGEL , Valeska Bernardo. Releitura não é cópia: refletindo uma das possibilidades do fazer artístico. Disponível em: http://www.revistas.udesc. br/index.php/nupeart/article/download/2534/1895. Acesso em 20 de agosto de 2018.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Papel da produção de conhecimento na transformação social. In: Seminário Internacional “O papel da sociedade
civil nas novas pautas políticas”. São Paulo: ABONG, set. 2004.
VIEIRA, Ricardo. Mentalidades, escola e pedagogia intercultura. Revista Educação, Sociedades & Culturas, 1995. n.º 4, (pp.133 – 134), Edições Afrontamento, Porto.