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Conhecimentos sobre unidades de medida convencionais e não convencionais de comprimento

Neste eixo de interesse, originalmente não presente no trabalho de Pompeu (2017), buscamos compreender quais são os conhecimentos que nossos entrevistados apresentam ao longo de sua trajetória de vida sobre as unidades de medida não convencionais e também convencionais, aprendidas em seu cotidiano, bem como as unidades aprendidas na escola e como se expressam a esse respeito. Quando questionada sobre seu conhecimento a respeito do que são unidades de medidas convencionais, Laura diz:

[...] se não me engano elas recebem este nome devido à criação do homem no decorrer da vida social. Bom isso foi que aprendi na minha formação, estou certa?” (Ana)

Virlene: Medidas? O que é medida?

Laura: Uai, é o negócio que a gente usa pra medir, ah não sei explicar direito, mas é isso, é tudo que precisamos para saber distância, né?

A fala da entrevistada expressa seu reconhecimento de que as unidades de medida são criações humanas, mas sente em dúvida, ao perguntar se está certa. Há que se considerar que tanto as unidades convencionais quanto as não convencionais são criações humanas, ainda que as primeiras sejam empregadas como padrão, dada a necessidade de todos ao redor do mundo “falarem a mesma língua”. Quando questionados sobre qual unidade de medida utilizam para realizar atividades do campo, Laura diz que “uai, para os canteiros acho que a trena, né? Porque eu tenho lá em casa, mas dei até para os outros porque não sabia usar, aí fiquei nervosa e dei”. (Laura).

Quando Laura é questionada sobre mais alguma unidade de medida que seja de seu conhecimento, dentre as várias possíveis de serem estudadas na Educação Básica, ela relata:

Virlene: Você só conhece a trena para medir?

Laura: Sim, só ela há tem a régua que mede 30 metros, né?

Virlene: Não, 30 centímetros, mas o metro também usa para medir.

Muitas vezes os instrumentos de medida seriam usados em atividades de cultivo para cada um em seu respectivo trabalho, mas relatam não saber usar, e devido a isso deixam de lado a unidade de comprimento mais usada, como relatou Laura.

Fernando, quando questionado sobre seus conhecimentos sobre unidades de medida, apresenta-se leigo com relação às unidades que conhece, porém demonstra o conhecimento do campo que construiu no decorrer de sua vida, e denota confusões: “Uai, as que eu uso pra medir que são as palmas da mão, meus passos (risos). A senhora sabe como chamam as minhas, porque a deles é convencional?”.

Ana, no excerto que segue, demonstra uma fala mais urbana e escolarizada ao apresentar a dificuldade em dialogar sobre seus conhecimentos a respeito de unidades de medida com seu pai, relatando que não queria aceitar o modo dele de medir devido ao conhecimento que ele já apresenta sobre as unidades de medidas.

Nossa, aí que era difícil porque meu pai nunca queria aceitar meu modo de medir, que é mais prático. Por exemplo, para medir cerca, para saber a distância certa de cada poste de madeira, eu sugeri usar a trena, mas ele disse que já sabia a distância certa. Perguntei como ele tinha tanta certeza, ele simplesmente disse que pelo passo dele. Na hora me veio a vontade de dar risada, mas ele estava tão certo que me convenceu, aí percebi que para ele era muito difícil em se adaptar com as unidades de medidas convencionais porque,

para mim, que tive conhecimento na escola, é fácil porque além dos professores também tinha os livros didáticos para nos auxiliar e tirar possíveis dúvidas. (Ana).

Destaque-se que os participantes acreditam que as unidades de medidas não convencionais são utilizadas apenas por eles no campo, e que mais ninguém as utiliza, como expressa Fernando: “Hum [...] pode sim, porque ninguém usa, né? Só a gente do campo, então vamos inventar o nome disso aí que você disse, aí seremos o criador das unidades doida que uso aqui na roça porque, professora, uma coisa eu garanto, esse povinho aí da cidade não sabe usar não, só eu mesmo que sei”. (Fernando).

O modo como cada aluno conhece sobre unidades de medida de comprimento é muito válida, ainda que por vezes não percebam tal valor. O uso de partes do corpo como medidas de comprimento é histórico e ainda muito usual, sendo importante para sociedade como um todo e, no caso deste participante, é a referência por ele utilizada em seu trabalho, voltado a seu sustento.

Considerações finais

Com a realização deste trabalho foi possível perceber, a partir das falas dos participantes, que a ausência do uso de metodologias voltadas para o ensino na modalidade EJA é muito grande, visto que relatam o fato de os professores não demostrarem domínio para o trabalho com o perfil de estudante atendido. A maioria dos alunos da EJA se sente desmotivada porque quando estudavam não eram atendidos quanto às suas dificuldades no trabalho com Grandezas e Medidas.

Os professores, com suas metodologias tradicionais, voltadas a outros perfis de estudante, desenvolveram seu trabalho na EJA da forma com que já estão mais familiarizados, ainda que, pelos relatos aqui apresentados, não chegava próximo à realidade de cada aluno que vinha do campo e que já tinha conhecimentos oriundos de seu mundo-vida.

Quando mencionadas as unidades de medidas convencionais e não convencionais o desconforto com o assunto evidenciou ser grande: Laura, Fernando e Ana relatam que voltaram aos estudos também para “melhorar de vida” e acreditavam que, terminando os estudos, consequentemente conseguiriam um “bom trabalho”, adequado às suas necessidades materiais e também pessoais.

A maneira com que os conteúdos sobre as unidades convencionais e não convencionais de comprimento lhes foi apresentada pelo professor os deixou

desmotivados, pois as dúvidas que tinham dentro e fora da sala de aula não foram esclarecidas de forma que entendessem, para que também pudessem utilizar este conhecimento no campo, em suas formas de existência.

Mesmo não tendo os conhecimentos que os professores esperavam, Laura, Fernando e Ana utilizam unidades de medida de comprimento convencionais e não convencionais em seus trabalhos, ainda que a maneira como usam não são identificadas diretamente com as medidas de comprimento escolares, que conhecemos.

Um trabalhador que usa os passos para medir a distância de um canteiro para o outro, por exemplo, sua esposa que teve a ideia de usar uma trena para tanto mesmo que, pela suposta “falta de conhecimento”, doaram o instrumento de medida por acreditarem que medir usando partes do corpo seria mais prático do que usar uma unidade de medida convencional, são momentos em que o diálogo do não escolar com o escolar poderia ser explorado no âmbito da escola.

Entendemos com esta pesquisa que devemos reformular os métodos e as estratégias de ensino de Matemática, particularmente para estudantes da EJA, uma vez que o movimento de ensinar e aprender com este público é multidirecional, todos trazem conhecimentos e suas “bagagens de vida” e que precisam ser valorizadas, mostrando que todo o conhecimento construído a cada dia, seja relativo a unidades de medida convencionais ou não convencionais é válido e que será, sim, usado não só por eles, mas por todos que necessitarem medir algo e não tiverem um “instrumento de medida convencional” por perto.

A entrevista com cada um também nos fez enxergar que as dificuldades de vida muitas das vezes são consequências da mudança para a cidade, pois deixam de viver no campo para irem à cidade em busca de melhorias de vida quando no campo teriam melhores oportunidades pois lá trabalham para o próprio sustento, sem que fossem tão expropriados por seus empregadores na cidade. No campo podiam manter-se, plantavam, colhiam e criavam animais para vendas.

Por fim, como avaliação de todo este processo, entendemos que com a entrevista cumprimos os objetivos previamente delineados para este trabalho de conclusão de curso e que possibilita levantar outras questões: Quais seriam as percepções dos professores de Matemática da EJA caso tivessem contato com os depoimentos de cada aluno? Como a coordenação pedagógica das escolas pensaria em atuar quanto ao trabalho com os métodos empregados pelos professores da EJA?

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Capítulo 9

HISTÓRIA E ARQUITETURA: