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Guacira Lopes Louro (2003, p. 59), referindo-se à escola como uma instituição construtora de diferenças, descreveu que “[...] é preciso que os sentidos precisam estar afiados para que sejamos capazes de ver, ouvir e sentir as múltiplas formas de constituição dos sujeitos implicados na concepção, na organização e no fazer escolar.”

Isto é, é nos espaços escolares meninas e moças vão sendo “fabricadas” e lentamente colocadas nos lugares socialmente a elas reservados. Para essa autora “a escola delimita espaços. Servindo-se de símbolos e códigos, a instituição escolar afirma o que cada um pode [ou não pode], separa e institui. A escola informa o ‘lugar’ dos pequenos e dos grandes, dos meninos e das meninas.” (LOURO, 2003, p. 58).

Cabe lembrar que o ensino de economia doméstica no Brasil remonta aos anos de 1909, quando o Decreto n. 7.566 de 23 de setembro de 1909 criou nas capitais dos estados brasileiros as Escolas de Aprendizes de Artífices, destinadas ao ensino profissional primário e gratuito, nas quais jovens deveriam aprender um ofício para atender as exigências da industrialização cujas

“[...] ideias de progresso, modernidade e ordem social” eram o objetivo dessas escolas que visavam “[...] preparar estudantes para as funções práticas[...]”. (FERREIRA, 2014, p. 70).

No âmbito de nossas pesquisas, no Grupo de Pesquisa e estudos em História da Educação, Instituições e Gênero - GPHEG4, foram desenvolvidas algumas pesquisas a respeito de escolas voltadas para a escolarização feminina. Em uma dessas escolas, investigada por Cleicinéia Oliveira de Souza, uma escola católica, calvariana, feminina apontou que “[...] a instrução das mulheres seguia normas próprias, com a intenção de as manter no local que lhes fora reservado: o lar.” (SOUZA, 2017, p. 59).

Outra pesquisa a respeito de uma escola salesiana, em Porto Velho, Rondônia, a exemplo de nosso objeto de pesquisa, identificou que naquela instituição escolar a educação das moças era “voltada a uma educação conservadora e preservadora das tradições religiosas e socialmente construída. As moças, além das disciplinas de conhecimentos gerais, aprendiam as prendas domésticas, como o bordado, o francês, a música, regras de etiqueta.” (PRADO, 2017, p. 139).

Na EDMA, as Irmãs Salesianas em Cuiabá também seguiam o mesmo formato de ensinamentos, como demonstrado por Souza (2017) e Prado (2017). Em 1950, na EDMA meninas e moças aprendiam, além da leitura e escrita, os ensinamentos de corte e costura, tricô, bordado, o curso completo de arte culinária e datilografia. (EDMA, 1952, p. 64).

Os discursos e a formação das meninas e moças na EDMA, voltavam-se para o incentivo do dever da mulher no cuidado com o lar, com a família e com a educação dos filhos. Podemos dizer que qualidades femininas eram inseridas nos planos de ensino e às alunas eram necessárias virtudes como a bondade, a doçura, a moral. A concepção de cuidado era visto como “uma missão, um dever” natural das mulheres como “dom”, uma obrigação apropriada a elas, na qual o caráter da “boa mulher”, da “esposa ideal” era firme e constantemente ressaltado nas aulas ministradas, bem como divulgado no jornal da Igreja à qual a EDMA estava subordinada.

O caráter é por todos considerado o lado mais importante numa esposa. ‘Um caráter firme supera a falta de beleza e de outros predicados’ - Ela não precisa ser perfeita, mais profundamente feminina. ‘O homem é o dia de trabalho, a mulher o domingo.’ - significa isso uma honra para o sexo fraco. Deve ser a camarada e a companheira com quem se combina tudo e a que, por uma perfeita harmonia sem

limites, se está ligado. [...] sentimento maternal e femini-lidade, inclinação e gosto para os trabalhos domésticos e prendas femininas, são considerados requisitos indispensá-veis. A moça deve ter um bom coração e uma alma nobre, pois sobre seus ombros pesará a importante tarefa da edu-cação dos filhos. [...]. (A CRUZ, 1953, p. 1- 2).

Analisando o excerto, compreendemos que a educação das meninas e moças na EDMA encontrava-se organizada professando determinados e claros preceitos religiosos, implicando inclusive na determinação de que as estudantes se envolvessem com os trabalhos missionários, nos quais elas deveriam aprender e ser responsabilizar pelos cuidados com os doentes, no zelo com a casa, com os filhos, com o marido e com a comunidade, em específico a religiosa.

A seguir, na mesma publicação, o destaque era para as qualidades que a mulher deveria cultivar. A mulheres não precisariam mais do que possuir uma cultura geral que lhes permitisse um «prático conhecimento doméstico» para educar bem seus filhos. A mesmo periódico destacava que elas deveriam ser dedicadas companheiras, seguir a religião como garantia de uma moral pura e segurança de felicidade conjugal.

Ela deve sentir nos seus deveres de mãe a maior felicidade e alegria. Qualidades morais e espirituais são uma absoluta necessidade. Ela deve ter uma verdadeira estima, bondade amorosa de que só a mulher é capaz. Todos evitam que moças sejam superior intelectualmente. Não ignorante, nem doutora. Uma cultura geral, prático conhecimento doméstico, e um coração bem formado, são o bastante. “A mulher deve reconhecer como seu maior dever, ser uma verdadeira esposa e mãe e educar bem seus filhos. Dedicada e companheira e sempre auxiliar seu esposo nos trabalhos. Deposita-se grande valor na religião como fator de educação. Portanto, exige-se da mulher uma profunda e verdadeira religiosidade como garantia de uma formação cristã, pois a mãe, nos filhos é seu espelho. Isso significa uma moral pura e a segurança dos requisitos necessários à felicidade conjugal. (A CRUZ, 1953, p. 1- 4).

Destacamos que o periódico a Cruz, do qual retiramos o excerto, era um jornal católico publicado desde os anos de 19105, pelo Seminário Episcopal

5 Em 1910, o periódico A Cruz entrou em circulação. Daniel Freitas de Oliveira (2016) descreveu que desde seu primeiro ano de existência, A Cruz foi impressa no seminário administrado pelos frades franciscanos. Durante o ano de 1911, o periódico consolidou-se em Cuiabá, obtendo um número crescente de assinantes, anunciantes e correspondentes.

da capital, Cuiabá, contando com artigos escritos por padres, bispos, uma correspondente internacional, enfim pessoas do meio religioso católico que dele se muniam para publicar matérias que contemplassem como deveria ser a conduta dos fiéis católicos, buscando impor “comportamentos adequados” principalmente às mulheres.

No fragmento descrito prepondera o intuito de conscientizar leitoras e leitores do periódico para problemas contemporâneos que pudessem ameaçar o modelo patriarcal das famílias cristãs cuiabanas e mato-grossenses.

O catolicismo conservador e tradicional, no período, pregava um modelo de família ideal na qual “a mulher deve reconhecer como seu maior dever, ser uma verdadeira esposa e mãe e educar bem seus filhos.” Por conseguinte, prescrevia a idealização de uma mulher cuja escolarização deveria excluir certas disciplinas e conteúdos relacionados aos “[...] deveres do sexo viril e particularizar-se com outras que as tornem plenas daqueles que lhes são privativos; porque em verdade, interessa mais a mulher fazer economia doméstica do que economia política e o governo dos filhos e da casa, ao dos povos.” (A CRUZ, 1960, p. 2).

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