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5. CAPÍTULO 2

5.1. CONCEITOS, PROBLEMÁTICA, DINÂMICA

Nas páginas anteriores mostramos uma percepção macro da Arquitetura do Medo, algumas abordagens que são pertinentes ao tema. Também delimitamos o objeto empírico em um recorte urbano e conceituamos a arquitetura em análise. Vimos como os fenômenos (signos) que são indícios do medo e da segregação urbana, qualificam um tipo de arquitetura e a constituem conceito de projeto de espaços contra o medo, principalmente, o da violência nas cidades.

A Arquitetura do Medo que investigamos, e tal como a definimos em capítulo anterior, é um fenômeno ubíquo no território brasileiro. Faz parte da forma urbana e é, tanto como a cidade, “[...] uma estratificação histórica codificada e resulta de uma multiplicidade e heterogeneidade de práticas, ações desejos.28

Considerando nosso objeto empírico de investigação a partir da definição acima, buscaremos, neste capítulo, mostrar que multiplicidades podem compor a investigação, como se configura essa heterogeneidade de práticas, ações e desejos envolvidos na constituição da cidade e da Arquitetura do Medo, mais particularmente, como já foi definida e recortada, tanto espacial quanto conceitualmente no capítulo anterior. Nosso objetivo especifico, neste capítulo, é proporcionar o conhecimento de uma questão fundamental da tese: como essa Arquitetura do Medo tornou-se paradigma da proteção residencial nas cidades, e mostrar a singular importância desta arquitetura na área pesquisada, como modelo de tendência a ser propagado nas cidades, mais exatamente, onde aspectos socioeconômicos se assemelham aos do recorte e refletem desequilíbrios da ecologia social que levam à polarização de diferenças na heterogeneidade da vida urbana, social, econômica, política e cultural brasileira, mais particularmente relacionadas à Fortaleza. Estes desequilíbrios podem ser vistos como resultado de políticas, (saberes, poderes e subjetividades) de construção da cidade, em que se hierarquizam usos, priorizam-se investimentos de melhoria urbana, fragmentam-se e

28 MAGNAVITA, Pasqualino Romano. Micropolíticas Urbanas e Processos de Subjetivação. Anais XIII Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. 25 a 29 de maio de 2009. Florianópolis-Santa Catarina- Brasil.

segregam-se espaços e classes sociais. Nesta análise tentaremos mostrar como os modos de construção de subjetividade capitalística podem convencer que os desejos são “falta”, (em oposição ao desejo como produção, discutido mais adiante) e que sua realização passa pelo consumo e que os modos de construir a cidade e de atender às necessidades da vida urbana são os da lógica do capital. Fazendo-se uso da construção da subjetividade capitalística, busca-se condições de se investir prioritariamente onde há mais retorno de capital, fazendo da produção do espaço urbano uma forma de acumulação que tem

[...] a capacidade de oferecer sobrevida às relações capitalistas que passam a ter na valorização imobiliária uma das principais estratégias para a produção e concentração da riqueza social. Por isso é que na contemporaneidade se torna fugidio o espaço social da vida cotidiana, uma vez que se impõem, com força desmedida, o espaço-mercadoria, privatizado e instrumentalizado pela valorização do capital.( LENCIONI, 2010, p. 2 )

São para as denominadas “áreas nobres” das cidades, as que apresentam potencial de retorno de investimento, a que são direcionadas políticas de valorização e crescimento urbano – o que não significa necessariamente desenvolvimento – com implantação de infra-estrutura29 e serviços favoráveis à reprodução do capital, com destaque para o turismo30 e especulação imobiliária. Neste sentido, a possibilidade de construção de moradias seguras é vista com grande interesse, tanto para a indústria da construção quanto para a indústria do medo, ambas em parceria, construindo espaços de segurança dentro de condomínios habitacionais verticais fechados, deixando zonas de medo nos espaços públicos das vias e praças urbanas. Essa é a importância desta arquitetura do medo: um grande potencial de lucro para os investimentos imobiliários, que identificamos no recorte em análise e que se assemelha a muitas outras encontradas nos territórios de cidades brasileiras que sofrem processo de crescimento da violência urbana, sem perspectiva de redução. A proteção intencionada por esta arquitetura reduz o medo, mas, pouco ou nada interfere nas multiplicidades de sua motivação: a

29 Uma apresentação do provimento desigual de serviços de saneamento na cidade de Fortaleza por ação do Estado, associada apropriação do solo urbano pelo mercado imobiliário , pode ser verificada em: BENTO, Victor Régio da Silva. Centro e periferia em Fortaleza sob a ótica das disparidades na infraestrutura de saneamento básico / Victor Régio da Silva Bento. – Fortaleza, 2011

Tese de mestrado em: http://www.uece.br/mag/dmdocuments/victor_regio_dissertacao.pdf 30 Ver: PAIVA, Ricardo Alexandre, A metrópole híbrida:o papel do turismo no processo de urbanização da Região Metropolitana de Fortaleza. (pag. 52/321)

violência e seus processos geradores; a falta de educação, de oportunidades de emprego, precárias condições de moradias, perceptíveis nas mais de quinhentas favelas em Fortaleza31. Limitadas oportunidades de emprego, falta de educação, desequilíbrios familiares, ineficiência para a questão da violência contribuem também para a insegurança e o medo no cotidiano da vida nas cidades. São problemas ou desequilíbrios da ecologia social que resultam em luta pela sobrevivência e, em muitos casos, na violência dos roubos, assaltos e outros crimes registrados no cotidiano das cidades. O registro da violência urbana se dá em todo o território brasileiro e suas causas são investigadas por diversos laboratórios da violência nas universidades brasileiras. Saberes especializados sobre a violência poderão esclarecer as razões dos crimes, mas dificilmente, teriam uma fórmula de eliminá-los sem implementação de políticas de redução da fome, do desemprego, do uso das drogas, citando apenas algumas. As violências e os medos são produção e vítimas de si mesmas em processos de auto-reprodução, subjetivação e dobras contínuas. São muitas as violências e medos nas cidades. Entre tantas, há principalmente a violência e o medo da miséria, do abandono, das desigualdades, das diferenças que segregam e que em parte constituem e são constituídas também pelo que se pode denominar o medo dos pobres e o medo de pobre32 na sociedade brasileira. O capitalismo fabrica as necessidades, os desejos e as condições de consumo que alimentam uma dívida difícil de quitar. As dívidas fáceis dos cartões de crédito ilustram bem este processo consumista e de endividamento.