2 A CONSTELAÇÃO POLÍTICO-INSTITUCIONAL GLOBAL: O LUGAR DA UNESCO
2.5 CONCEITOS DE REDE
Com o intuito de fundamentar essa opção conceitual, se faz necessário explicitar aqui algumas definições e afiliações conceituais em torno da idéia de rede – uma categoria que vem sendo recorrentemente utilizada por cientistas sociais como recurso conceitual para compreender a “física social” da modernidade (URRY, 2004 e 2005). No entanto, cabe destacar que com o propósito de potencializar noção de rede, será acionada aqui também a categoria de configuração social, cara ao empreendimento teórico do sociólogo Norbert Elias. Isto porque, tal categoria mobiliza um potencial analítico mais promissor, já que seus pressupostos não veiculam tendências reificadoras, como assim o fazem algumas correntes teóricas que abordam o conceito de rede.
Decerto, as idéias de entrelaçamento, interconexão, interdependência são os vetores mais significativos que constituem o conceito de rede e talvez resida aí seu potencial heurístico para a compreensão da conformação social contemporânea, a ponto de se tornar uma espécie de categoria onipresente em uma diversidade de disciplinas como nas ciências sociais, na física, na matemática, na biologia.
A idéia de rede é antiga. Na mitologia grega, o mito do Minotauro já indicava um possível delineamento do conceito de rede, através da metáfora do fio de Ariadne emblematizando as imagens de tecimento por entre a malha intrincada de corredores que constitui o labirinto. Na Antiguidade a concepção de rede ganha paradigmática associação com o corpo humano quando Hipócrates o correlaciona ao funcionamento do organismo ao definir o corpo como uma gigantesca via de comunicação entre veias e órgãos. Desse modo, por muitos séculos, a noção de rede permaneceu identificada à morfologia do corpo humano.
Somente na segunda metade do século XVIII, o conceito extrapola os limites da biologia para então “sair” das fronteiras do corpo e passar a ser utilizado como representação de fenômenos sociais. É através do empreendimento teórico de Saint-Simon que o conceito de rede começa a ganhar sua versão moderna, qual seja uma “estrutura artificial de gestão do espaço e do tempo” (MUSSO, 2004, p.16). Lançando mão do pressuposto do organismo-rede, ou seja, da idéia de que o corpo se mantém vivo pela circulação, o projeto filosófico do pensador francês baseava-se na possível construção de uma comunhão religiosa (no sentido etimológico de re-ligare) entre os homens, tendo na comunicação o caminho por excelência da manutenção deste vínculo.
Como observa Dias (2005, p.16), sustentado nos princípios do socialismo utópico, o projeto político-filosófico de Saint-Simon tinha como objetivo a melhoria do território da França tendo em vista a construção de relações sociais mais equânimes. Tal meta seria alcançada através de um engenhoso projeto de edificação de redes de comunicação sobre o território (organismo) francês de modo a assegurar uma ampla malha de circulação de todos os fluxos (econômicos, sociais e políticos), garantindo assim a melhoria na condição de vida da população. Se Saint-Simon utilizou o conceito de rede para pensar a mudança social, tomando as redes de comunicação como mediadores técnicos de tal mudança, para Musso (apud Dias, p.17), foram os epígonos simoneanos os responsáveis pela inversão epistemológica do conceito. Segundo o autor, as redes passam a ser doravante entendidas, por pensadores como Chavelier, como elemento mesmo produtor das relações sociais, embutindo aí o senso “revolucionário” (no plano político) que o conceito ainda porta nos dias atuais, qual seja: a potencialidade da rede técnica produzir por si só a transformação social (Dias, 2004). Nesse momento, segundo Musso, o conceito teria sido vulgarizado e ganhado o estatuto de objeto-símbolo – feição ainda recorrente se considerarmos o determinismo tecnológico que determinados pensadores atribuem às redes informático-comunicacionais na organização espaço-temporal das sociedades contemporâneas.
Se tomarmos como referência a noção de rede a partir do conceito definido por Michel Serres (apud Musso, 2004, p.30), qual seja: a rede entendida como “uma pluralidade de pontos (picos) ligados entre si por uma pluralidade de ramificações(caminhos), onde o pico é a interseção de vários caminhos e, reciprocamente, um caminho põe em relação vários picos”,
não seria a tessitura processual das relações humanas desde sempre redes por excelência? Instituições como a família, as organizações, o Estado não foram constituídas a partir da interdependência de uma pluralidade de “picos” conectados por uma multiplicidade de “ramificações”? Se o elemento mais festejado no conceito de rede é a idéia de que vivemos no tempo da conectividade qual seria a distinção, então, entre os processos sociais que marcaram outros períodos sócio-históricos e as configurações sociais contemporâneas se tomarmos o vetor “interdependência” como parâmetro de análise?
Sem sombra de dúvida, na contemporaneidade, o conceito é retomado em grande medida devido ao acirramento e aceleração sem precedentes dos fluxos das mais variadas ordens, a saber: de pessoas, de bens, de informação, de capital. Por certo, a agudização da circulação de fluxos tem proporcionado impacto na configuração social contemporânea, fato que elevou a categoria de rede a uma espécie de guarda-chuva conceitual que abrange as mais variadas experiências de organização social contemporânea (RUBIM et al, 2006).
A partir da segunda metade do século XX, o incremento das redes técnicas de transporte, comunicação e informação favoreceu a inflação da noção de rede. Tal contexto contribuiu para edificação de discursos e postulados teóricos que imputaram às redes um papel determinante nas transformações sociais, conformando-as como “sujeito capaz de criar condições sociais inéditas e de estruturar territórios” (DIAS, 2005, p.13). Autores como Castells (1999), lançam mão da metáfora da rede pra conceber a morfologia da sociedade contemporânea, sustentando que a lógica de interconexão em rede altera os processos sociais de forma substantiva, nas mais diversas searas da vida: seja no plano produtivo, do poder, ou da cultura, tendo na tecnologia da informação a base material dessa nova arquitetura social.
Não se pode negar que as tecnologias de informação trouxeram profundas transformações para as experiências humanas, principalmente na forma de vivenciar tempo e espaço. Contudo, há críticos que sustentam que essas teorias acabaram por substancializar em demasia o fenômeno das redes. Ao atribuírem à nova base material a propriedade de imputar mudanças na estrutura social, os arautos das novas tecnologias acabaram por conceder às redes um status de “super-ente” auto-regulado, deixando eclipsada toda a complexidade dos processos sociais que delineiam a organização social contemporânea. Por trás desse
“organismo planetário” (a rede), existem os homens e as instituições nas suas relações – assimétricas – de interdependência. Ao evocar noções como democracia, flexibilidade, horizontalidade, descentralização, a categoria de rede acaba por não considerar as relações de poder inerentes a toda e qualquer relação de reciprocidade, esterilizando, assim, a heuristicidade do conceito para uma diversidade de configurações sociais específicas.
Com o sentido de apaziguar a tendência substancializadora que, por vezes, a noção de rede evoca, torna-se válido, para o presente estudo, acionar o arcabouço conceitual do sociólogo Norbert Elias em torno da noção de configuração social. Desse modo, vale ressaltar que idéia de rede aqui utilizada será combinada com o potencial analítico que o conceito de configuração social oferece. Isto porque tal perspectiva metodológica neutraliza possíveis lufadas estruturalistas que algumas correntes teóricas lançam mão ao forjarem a idéia de rede. John Urry (2004, 2005), por exemplo, dá margem a tal tendência ao lançar a metáfora comteana de física social, em que lateja uma idéia de ordem imanente. Manuel Castells (2000, 1999), por sua vez, por vezes acaba substancializando o fenômeno das redes ao lhe conceder um status de ente autônomo, dotado de vida própria. Impressão confirmada, por exemplo, na seguinte passagem do seu texto Materials for na exploratory theory of the network society, publicado no periódico British Journal of Sociology, em 2000:
Networks, as social forms, are value-free or neutral. They can equally kill or kiss: noting personal. They process the goals they are programmed to perform. All goals contradictory to the programmed goals will be fought off by the networks components. In this sense a network is an automaton(grifos meus). But, who programmes the network? Who decides the rules that the automaton will follow? Social actors, naturally. Thus, there is a social struggle to assign goals to the network. But once the network is programmed, it imposes its logic to all members(actors). Actors will have to play their strategies within the rules of the network”(grifos nossos).(CASTELLS, 2000, p.16)
A categoria de configuração social cara ao empreendimento teórico de Norbert Elias tem o mérito de aplacar tais tendências reificadoras. Isto porque traz expressamente em seus pressupostos a compreensão de que constelações sociais são conformadas por seres humanos, em suas múltiplas pressões e constrangimentos, criando assim um padrão mutável de organização social que se altera e se renova no compasso das alterações desses mesmos laços de interdependências entre os indivíduos (ELIAS, 2006, 1999). Como o próprio autor sinaliza,
o conceito de configuração serve como recurso metodológico que neutraliza a polarização conceitual recorrente entre a idéia de indivíduo e sociedade, recorrente nas análises dos fenômenos sociais. Numa perspectiva de síntese, o conceito de configuração permite que se opere analiticamente com a idéia de que as pessoas podem ser pensadas, simultaneamente, como indivíduo e como sociedade (ELIAS, 1999, p.142).
O caráter heurístico mais alvissareiro que o conceito de configuração oferece para a análise do objeto ora em questão, refere-se à dimensão das relações de poder que regula as figurações sociais – ponto fulcral para compreensão das redes sociais que hoje conformam a esfera da cultura. O autor explica que mais do que um conceito de caráter substancial, a idéia de poder deve ser entendida, sobretudo, como relação14. Nesse sentido, a conformação que determinada figuração social ganha está condicionada às lutas e retenções de recursos que os agentes disputam entre si. É justamente na flutuação dos equilíbrios de poder que reside o caráter mutável das configurações sociais e este equilíbrio flutuante é “uma característica estrutural do fluxo de cada configuração” (ELIAS, 1999, p.143).
Como o próprio Elias adverte, a categoria de configuração serve à análise de grupos restritos como também de organizações sociais mais complexas, como sociedades formadas por milhões de pessoas interdependentes. Salienta ainda que para a análise de configurações mais amplas, deve-se eleger elos de interdependências específicos de modo a permitir a operacionalização da análise (p.143). A advertência do autor será aqui levada em consideração. Isto porque será priorizado como objeto de análise uma específica rede de interdependência que se conformou em torno do processo social que culminou na elaboração da Convenção da Diversidade Cultural pela Unesco em 2005. Tal cenário implica contemplar a diversidade de atores sócio-políticos (governos, organizações não-governamentais, organismos internacionais, elites intelectuais, redes sociais e personalidades) que se envolveu na complexa trama social que se forjou em torno da questão da diversidade cultural a partir de meados da década de 1990.
No rastro ainda das pegadas teóricas de Norbert Elias, considerar tal perspectiva metodológica significa tentar contemplar as oscilações na balança de poder entre os agentes
14 Max Weber (2004) já havia antecipado uma abordagem similar ao tema do poder em seu texto “Categorias fundamentais da sociologia compreensiva”, editado no compêndio Economia e Sociedade (vol.1).
que compõem as redes de reciprocidades sócio-funcionais. Assim, ainda que se eleja a Unesco como instituição heurística do fenômeno que aqui se quer analisar, considerá-la apenas como um dos “picos” ou “nós” da rede extensa que se teceu em torno da normatização da idéia de diversidade cultural significa observá-la no equilíbrio mutável de forças, muitas vezes opostas entre si. A contenda em torno da definição do status dos bens culturais, ponto fulcral que marcou o processo negociador da Convenção, é exemplar das disputas e conflitos de interesses entre os agentes enredados na configuração social que se forjou em torno da construção de um marco regulatório para o tema da diversidade cultural. A mirada analítica se direciona justamente para o modo peculiar como a disputa entre os recursos (econômicos e simbólicos) se tece entre os agentes, conformando assim encraves específicos de poder. 2.6 NORMATIVIDADE GLOBAL COMO A PRIORI SOCIAIS
Para as finalidades da presente pesquisa, o aspecto mais alvissareiro sobre o papel que os organismos internacionais vêm protoganizando nas últimas décadas refere-se justamente a sua atuação na construção de uma espécie de normatividade global, ou, para usar uma expressão de Edwin Harvey (1991), de uma “superlegislatura internacional”. Como vimos, para alguns pensadores tal fenômeno sinaliza o processo de formação de uma governança mundial. Segundo Theborn (2000, p.174), tal normatividade, tecida pelas elites globais, é forjada por um conjunto de regras de teor doutrinário que regulam os termos sobre o que se é considerado certo ou errado. Em sua obra, Karns e Mingst (2004) oferecem um panorama do crescimento espetacular do conjunto de normas, instrumentos internacionais e marcos regulatórios (incluindo aí tanto as leis internacionais de caráter vinculante, como também as chamadas soft laws cujo teor se aproxima a espécies de recomendações sobre comportamentos) que hoje constitui e regulamenta a agenda política internacional. Esses mecanismos tornaram-se fundamentais para o funcionamento da engrenagem que faz girar a chamada governança global. Guillaume Devin (2007) em sua análise sobre o papel do Direito para as relações internacionais reconhece que a atividade normativa internacional a partir de 1945 conheceu um acentuado alargamento de sua abrangência e diversificação de suas formas, dos seus domínios de aplicação e dos atores que participam de sua elaboração (não somente os Estados, mas ONG’s, OIG’s e outros atores). Tal contexto, segundo o autor, gera efeitos ainda incertos para a regulação jurídica internacional uma vez que a extensão da
produção normativa internacional é acompanhada de uma normatividade cada vez mais variável. A título de exemplificação, entre 1951 e 1995 mais de três mil tratados internacionais foram acordados. Instrumentos esses que hoje abrangem uma variada gama de temas indo desde convenções sobre meio ambiente (camada de ozônio, mudança climática, biodiversidade) passando por leis sobre direitos humanos, comércio, controle de armas e propriedade intelectual.
Diante de tal contextualização, torna-se quase que inescapável não alinhar a atuação da Unesco a essa tendência contemporânea que algumas instituições vêm assumindo na tarefa de forjar uma agenda mundial para a esfera política, atuação essa emeblematizada pela elaboração de resoluções e convenções sobre determinados temas, cujas pretensões são universalizantes. O exercício de poder dessas instituições não é pequeno, uma vez que o ato de conformar uma agenda internacional é estabelecer prioridades e categorias de compreensão social que se legitimam ao se universalizarem. Como bem aponta Devin (2007, p.94): “non seulement le droit international est ‘ordenateur’, mais il est aussi ‘producteur’ en ce sens que les régles sont ‘constitutives’ de références, d’attentes ou de conduites”.
A problemática sociológica mais sutil acionada pelo fenômeno da constituição de uma normatividade global, e, diga-se de passagem, pouco explorada pelos pensadores, diz respeito ao tema da construção dos a prioris sociais, ou seja, das categorias de compreensão mais amplas que modelam e informam novas narrativas e práticas sociais ao tempo em que produzem novas subjetividades. Como veremos nos próximos capítulos, eventos como a institucionalização de instrumentos internacionais como a Declaração e a Convenção da Diversidade Cultural, adotadas pela Unesco, a realização de conferências internacionais e a produção de novos sujeitos, a exemplos das redes sociais RIPC e RIDC, é um claro exemplo sobre o modo como a categoria “diversidade cultural” tem sido forjada nos últimos anos, além de serem empiricamente ilustrativos sobre o modus operandi destas instâncias internacionais de parametração de sentido.
Na tradição sociológica, Émile Durkheim (1989) é o pensador que primeiro deu relevo à questão da construção social das categorias de entendimento, porquanto do conhecimento, quando se dedicou ao estudo dos sistemas religiosos de povos primitivos australianos. Nesse
sentido, a religião é compreendida pelo autor como os primeiros sistemas de representação social produzidos pelo homem e fonte de toda produção do conhecimento gerado pela humanidade. Contrariando as teses kantianas acerca dos a priori, compreendidos como faculdades inerentes à razão, Durkheim postula a tese de que as categorias do pensamento são essencialmente construtos sociais, logo, produtos exemplares do modo específico de constituição e organização das coletividades. Num golpe de genialidade, o mestre inaugural da sociologia rompe com o legado kantiano acerca da natureza do conhecimento humano ao conceder uma dimensão histórica às faculdades da razão. Nessa direção, o imanentismo das categorias de entendimento, defendido por Kant, ou seja, a tese de que conhecimento é independente do sujeito individual, portanto, da experiência e das impressões do sentido, bem como o subjetivismo exacerbado caro aos empiristas, cai por terra quando Durkheim propõe uma nova compreensão para a natureza do conhecimento. Na letra do autor, as categorias são “representações essencialmente coletivas, elas traduzem antes de tudo estados de coletividade; dependem da maneira pela qual essa é constituída e organizada, da sua morfologia, das suas instituições religiosas, morais econômicas etc.” (DURKHEIM, 1989, p.45).
Ora, se o mestre francês conserva de Kant o caráter universal das categorias do entendimento, reconhecendo-as como espécies de molduras sólidas do pensamento, seu ponto de inflexão em relação à Kant reside na compreensão de que o conhecimento se origina a partir das representações coletivas, conferindo-lhe, assim, um caráter eminentemente social. Entendidos como produtos das representações coletivas, os a priori são históricos, e não apenas lógicos.
Farias (2005, p.15) observa que o reconhecimento por parte de Durkheim da necessidade das categorias para o raciocínio humano o leva a entendê-las como conceito ao tempo em que consagra o potencial dos a priori à universalização. Isto porque, continua o autor, as categorias podem ser transmitidas a uma pluralidade de espíritos, independentemente da extensão das redes sociais, nos quais estão implicados. Nesse sentido, completa Farias, o conceito é tomado por Durkheim como “representação coletiva por excelência, na medida em que é a plenitude da representação impessoal, geral e externa a qualquer dos estados de consciência individual”(p.15).
Como se sabe, no conjunto da obra de Émile Durkheim, o tema das representações coletivas assume prioridade analítica em detrimento das representações individuais e torna-se o eixo central de seu arcabouço conceitual. Desse modo, a “sociedade” ganha prevalência em relação ao “indivíduo” no exercício de compreensão da vida social, conservando, assim, a polêmica clivagem entre sujeito e objeto, central às teorias do conhecimento.
É inegável a contribuição inaugural do mestre francês acerca do tema do conhecimento, ao conferir um cárter social às categorias do pensamento. Contudo, seus postulados tornam-se insuficientes para a perspectiva que se pretende considerar nesta pesquisa, pois não contemplam a questão da correlação entre conhecimento e saber incorporado, deixando, portanto, sem solução a clássica dicotomia entre indivíduo e sociedade, circunstância que prejudica uma compreensão de caráter processual e integrativa que aqui se pretende operar. Se a intenção é verificar o modo como os organismos internacionais, entendidos como redes, atuam na constituição e transmissão de categorias orientadoras da compreensão social, se faz necessário, contudo, compreender tal fenômeno em suas múltiplas dimensões, micro e macro. A título de ilustração da problemática, não é de se estranhar, por exemplo, que numa campanha publicitária de divulgação das ações sociais de uma multinacional brasileira do ramo da construção civil, uma adolescente da região do Baixo Sul da Bahia, “beneficiada” pelas atividades sociais da referida empresa, protagonize a cena fornecendo um depoimento marcado por categorias afeitas às agências internacionais de desenvolvimento. Se não houvesse uma complexa rede de agentes (ONG’s, agências internacionais de fomento, empresas privadas, agentes comunitários) conjugando disposições e interesses em comum, disputando recursos e posicionamentos seria possível detectar na fala de uma jovem, moradora de um longínquo rincão do Brasil, categorias como capital social e desenvolvimento humano?
Nesse sentido, as categorias de entendimento produzidas pelas redes transacionais de