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SEÇÃO 1 PODER POLÍTICO: ELEMENTOS DE INTRODUÇÃO

1.2 Classificações Tradicionais do Poder: o “Poder Para” e o “Poder Sobre”

1.2.2 Concepção de “Poder Para” em Parsons e Arendt

Uma outra concepção fundamental a respeito do poder envolve um conjunto de teorias que se articulam em torno do denominado “poder para”.

Essa segunda concepção atribui um conteúdo diferenciado ao poder, e suas linhas gerais podem ser reveladas, exemplificativamente, nas definições de Talcott Parsons (1967) e de Hannah Arendt (1970). Apesar das grandes diferenças entre as obras destes dois teóricos, há uma estreita confluência no que se refere a um papel de integração ou a uma função “positiva” do poder, notadamente na esfera política.

Ao se referir especificamente ao conceito de poder político, Talcott Parsons destaca a importância do poder como um “conceito-chave” na tradição ocidental. Diz ele que a problemática do poder emerge especialmente em pelo menos três contextos, como tratados pela literatura.

O primeiro contexto, argumenta esse estudioso, está relacionado à dispersão do seu conceito, “[...] à tendência, na tradição de Hobbes, de tratar o poder simplesmente como a capacidade generalizada de obter objetivos finais nas relações sociais, independentemente dos meios empregados ou do status de ‘autorização’ para tomar decisões ou impor obrigações”. A amplitude dessa idéia, alerta ele, torna praticamente inviável entender o poder como um mecanismo “específico” a ser considerado. O segundo, prossegue ele, é que “há o problema da relação entre os aspectos coercitivos e consensuais”. Talcott Parsons não identifica um tratamento satisfatório para essa questão na teoria, não se podendo aceitar a exclusão recíproca das idéias extremas de que ou o poder descende como forma de coerção ao dominado, ou de que o poder se realiza por consenso e livre vontade, mas sim a necessária combinação delas como um mesmo fenômeno. O terceiro, por fim, está relacionado à idéia de que “poder é um fenômeno de soma-zero, o que quer dizer que há uma ‘quantidade’ fixa de poder em qualquer sistema relacional e, logo, qualquer ganho de poder por parte de A precisa por definição ocorrer pela diminuição do poder à custa de outras unidades […]” (PARSONS, 1967, p. 298-299). Esse último ponto está diretamente relacionado às “teorias dos jogos”, e constitui um aspecto importante da sua concepção, na medida em que afirma, pelo menos implicitamente, que o poder admite outro resultado possível que não seja quantitativamente relacionado com o seu exercício, e, do ponto de vista lógico, vai permitir justificar um poder que não seja de pura dominação ou coerção.

Talcott Parsons também identifica uma relação entre os aspectos políticos e sociais da sociedade. Na sua análise, ele considera quatro “afirmações gerais” sobre essa perspectiva. A primeira diz respeito à concepção de teoria política, que “[...] assim concebida é um esquema conceitual que lida com um conjunto limitado de variáveis primárias e suas inter-relações, as quais se encontram operando em todas as partes concretas dos sistemas sociais”. Esta é a idéia de integração da política como um subsistema, junto com a economia, dentro do sistema social, com o compartilhamento de categorias e funcionalidades, por exemplo. A segunda, como decorrência da anterior, é que “[…] o sistema empírico no qual a teoria política nesse sentido se aplica é um subsistema da sociedade definido analiticamente, ‘funcional’, e não por exemplo, um tipo concreto de coletividade […]”; logo, prossegue o estudioso que a política de uma “[...] sociedade é composta pelas formas nas quais os componentes relevantes do

sistema total estão organizados com referência a uma de suas funções fundamentais, especificamente ação coletiva efetiva na realização dos objetivos das coletividades”. A realização de objetivos, como aponta ele, é simplesmente “[...] o estabelecimento de uma relação satisfatória entre as coletividades e certos objetos no seu meio que incluem tanto outras coletividades como categorias de personalidades, como por exemplo ‘cidadãos’”. Isso significa que todo processo político envolve a organização dos meios, sua gestão, o estabelecimento de objetivos e mesmo a busca de recursos. A terceira afirmação é a de que “o paralelo para a ação coletiva no caso da política é, para a economia, a produção”. O paralelo que ele estabelece é o de que o sistema político também envolve necessidade de ajuste às “demandas”, também exige mobilização de recursos para atendê-las e também gera “valor adicionado” pela combinação dos múltiplos fatores, mais do que seria criado individualmente e sem sua concertação. A quarta “afirmação geral”, por fim, é de que a análise política, como define, “[...] é paralela à econômica no sentido de que um lugar central nela é ocupado por um meio generalizado envolvido no processo de interação política, que é também uma ‘medida’ de valores relevantes”. O “poder”, nesse sentido, é um “meio generalizado”, com estrutura similar e associável ao papel do dinheiro na economia (PARSONS, 1967, p. 300-301).

Ao explicar sua concepção de poder, Talcott Parsons observa uma analogia possível entre o poder na política, de um lado, e a criação ou circulação de crédito na economia, de outro. Explica: “poder é aqui concebido como um meio de circulação, análogo ao dinheiro, dentro do que é chamado de sistema político, mas notadamente sobre suas fronteiras para dentro de todos os três outros subsistemas funcionais da sociedade [...]”. Adiante, conceitua o poder como “[...] a capacidade generalizada de garantir a eficiência de obrigações vinculantes entre unidades em um sistema de organização coletiva quando as obrigações são legitimadas com referência a sua relevância para objetivos coletivos [...]”, e, prossegue, “[...] onde em caso de recalcitrância há uma presunção de coerção por sanções situacionais negativas – independentemente de qual seja a efetiva agência de coerção” (PARSONS, 1967, p. 306 e 308).

Hannah Arendt expõe conceito similar de poder. De acordo com esta autora, o poder “[...] corresponde à habilidade humana de não somente agir, mas de agir de forma concertada. Poder nunca é uma propriedade de um indivíduo; ela pertence a um grupo e permanece existindo somente ao longo do tempo em que o grupo permanece unido”. Na sua concepção, o “poder” é o sustentáculo das instituições políticas e existirá enquanto as pessoas o apoiarem. Como se observa, não tem relação direta com algum “relacionamento de comando e

obediência” (ARENDT, 1970, p. 40 e 44) e é essencialmente consensual (ver também: ARENDT, 1986).

Para esta estudiosa, ademais, torna-se fundamental retomar o conceito até então esquecido de Aristóteles sobre o homem como “animal político” e disso como seu telos na existência. Indo adiante, ela consegue reconstruir a ponte que liga o exercício da política como razão de ser do indivíduo na coletividade e confere a isso um significado positivo ou construtivo ou integrador da vida em sociedade. Tomando emprestada a terminologia empregada por Edgar Morin, pode-se dizer que ela tenta “religar” os saberes do exercício da política pelo homem e da construção da vida em sociedade (MORIN, 2001).

Ao analisar a definição de Hannah Arendt sobre o poder, Jürgen Habermas qualifica-o como um “conceito comunicativo de poder”. Além disso, identifica nele um claro “conteúdo normativo”, vinculado ao papel que a autora reserva-lhe no espaço do discurso político: “Hannah Arendt considera o desenvolvimento do poder como um fim em si mesmo. Poder serve para manter a práxis de onde ele irradia”. De acordo com este autor, o poder “[...] consolida-se e corporifica-se em instituições políticas as quais garantem exatamente aquelas formas de vida que estão centradas no discurso de reciprocidade”. Concluindo, diz Jürgen Habermas que o poder, assim, “[...] manifesta-se (a) em ordens que protegem a liberdade; (b) na resistência contra forças que ameaçam a liberdade política, e (c) naquelas ações revolucionárias que fundam novas instituições de liberdade” (HABERMAS, 1986, p. 77).

A relação entre ambos os conceitos de poder é tratada de modo distinto por Talcott Parsons e Hannah Arendt. O primeiro admite a existência de um “poder sobre”, mas que corresponde a uma espécie do gênero maior do que ele denomina de “poder para”. A última, por sua vez, identifica apenas o “poder para” como verdadeiro poder, e qualifica o “poder sobre” como uma manifestação de violência.

Embora apresentem diferenças nas suas compreensões individuais, os dois autores, no entanto, compartilham pelo menos duas identidades. A primeira é a de que ambos propõem visões normativas do poder, contrastando com Max Weber, com sua perspectiva empírica de poder. A segunda, que aqui interessa diretamente, é a de que tanto um quanto o outro tratam de um “poder para” alguma coisa.

Essa problemática dos dois sentidos de poder é enfrentada de forma unificada por outros teóricos, que entendem ser possível a convivência de ambos os conceitos, cada um em âmbito específico.

Torben Bech Dyrberg, por exemplo, trata a dicotomia entre “poder para” e “poder sobre” sob a denominação de concepções “assimétrica” e “simétrica”.

A primeira envolve uma concepção assimétrica, na qual o poder pressupõe conflitos de interesses em torno de vantagens, estabelecendo relação de controle, superioridade ou subordinação de um agente sobre outro, no qual um ganha na proporção da perda do outro, como um jogo de soma zero (DYRBERG, 1997, p. 2). Assim, trata de um “poder sobre”, fundado na ação ou vontade individual e de caráter restritivo ou limitador sobre outros indivíduos. Essa primeira visão, capitaneada por Max Weber, é de longe a mais difundida, como se conclui de inúmeros exemplos já citados. No seu conceito, está evidente, além da abordagem empírica, a pressuposição de um tipo de relacionamento entre indivíduos no qual um está ou se coloca em posição de inferioridade relativa ao outro.

A segunda diz respeito a uma concepção simétrica, na qual o poder é uma “capacidade coletiva” firmada sobre um consenso, em que todos podem ganhar, como um jogo de soma positiva. Concebe, portanto, um “poder para”, fundado na ação ou estrutura coletiva e de natureza produtiva (DYRBERG, 1997, p. 2-3). Nessa segunda visão, despontam as teorias de Talcott Parsons e Hannah Arendt, como expostas.

Independentemente da denominação utilizada (“poder para” e “poder sobre”, ou concepções “assimétrica” e “simétrica”), há diferença conceitual marcante entre as visões.

A concepção de “poder para”, porém, recebe críticas. Observa Steven Lukes, em referência aos conceitos atribuídos a Talcott Parsons e Hannah Arendt, por exemplo, que “estão em desacordo com os sentidos centrais de ‘poder’ como tradicionalmente compreendido e com as questões que sempre centralmente preocuparam os estudiosos do poder. Eles consideram a locução ‘poder para’, ignorando ‘poder sobre’”. Por isso, argumenta Steven Lukes, “[...] poder indica uma capacidade, uma facilidade, uma habilidade, não um relacionamento”, e vai mais adiante, ao sustentar que essa visão retira o interesse principal do estudo do próprio poder, na medida em que ele é exercido sobre pessoas (LUKES, 2004, p. 34, grifo do original).

Gerhard Goehler, em contrapartida, não compartilha dessa visão unilateral de Steven Lukes ao criticar as concepções de “poder para”, e vai mais longe na inferência que se pode extrair da comparação dos conceitos de Max Weber e Hannah Arendt. Observa esse teórico que ambos se referem a dois tipos diferentes de relacionamento, e, assim, empregam o mesmo termo para tratar de coisas distintas. De um lado, “Max Weber compreende poder em termos de um relacionamento no qual uma pessoa dirige sua vontade a outra pessoa com o propósito de sujeitá-la a seu poder”; de outro lado, e em oposto, “[...] Hannah Arendt concebe o poder como um relacionamento entre pessoas que se desenvolve na forma de comunicação e ação integrada, e não é primariamente dirigida a outras pessoas de fora” (GOEHLER, 2000, p. 43).

Este autor prossegue, propondo uma nova terminologia para se referir a esses dois tipos de relacionamento ou, mais precisamente, a esses dois sentidos de poder. Afirma Gerhard Goehler, sinteticamente, que “[...] a formulação de Max Weber diz respeito a poder transitivo, enquando a de Hannah Arendt diz respeito a poder intransitivo. Esses termos são derivados da gramática”. No caso desse debate, então, “[p]oder é transitivo quando se refere a outros (por exemplo, a realização da vontade de outro, mencionada acima). Poder é intransitivo quando se refere de volta a ele mesmo” (GOEHLER, 2000, p. 43, grifos do original).

A importância da concepção de Gerhard Goehler sobre poder “transitivo” e “intransitivo”, seus desdobramentos sobre as categorias fundamentais da política e suas inúmeras contribuições para a compreensão do poder político contemporâneo serão analisadas em profundidade mais adiante.

Em seguimento, pode-se introduzir a concepção “tridimensional” de poder de Steven Lukes, que pretendeu reunir as diversas abordagens do poder de forma sistemática e complexa, e exerce grande influência até hoje nos estudos do poder.