SEÇÃO 1 PODER POLÍTICO: ELEMENTOS DE INTRODUÇÃO
1.3 Multidimensionalidades do Poder: de Lukes a Foucault e Bourdieu
1.3.2 Poder e Discurso e sua Prática em Foucault
Michel Foucault apresenta contribuições importantes à compreensão do poder, em especial porque parte de pressupostos diferentes, e rompe com a linha genealógica do debate de “poder sobre” e “poder para” e abre os horizontes para uma visão alargada do poder. A sua visão, além de ampliar o enfoque, revela uma face “positiva” do poder e expõe os elos entre poder e saber, notadamente na prática discursiva.
Ao tentar identificar os conceitos de poder, o autor apresenta dois sentidos diferentes. Em primeiro lugar, ele identifica um “economismo na teoria do poder”, porque este é interpretado como um direito, quase uma “commodity”, segundo um determinado modelo legal de delimitação do poder. Diz ele: “[p]oder é aquele poder concreto que todo indivíduo detém, e cuja cessão parcial ou total permite ser estabelecido o poder político ou a soberania”. Segundo seu entendimento, trata-se de uma concepção do século XVIII, embebida no contratualismo e que tem a opressão como seu contraponto: “[a] concepção do poder como um direito original que é renunciado para o estabelecimento da soberania, e o contrato, como uma matriz do poder político, fornece os seus pontos de articulação” (FOUCAULT, 1994, p. 26-27 e 30).
Em segundo lugar, Michel Foucault aponta para um outro esquema interpretativo, não mais fundado no contrato, “mas de acordo com aquele de guerra-repressão, e, neste ponto, repressão não mais ocupa o lugar que opressão ocupa em relação ao contrato […]”. Para ele, então: “nesta visão, repressão não é nada mais que a realização, dentro do continuado conflito da sua pseudo-paz, de um perpétuo relacionamento de força”. Na sua explanação, o autor faz uma analogia com a conhecida concepção de Carl von Clausewitz sobre a guerra. Explica Michel Foucault que “[...] poder é guerra, uma guerra continuada por outros meios. O reverso dessa assertiva de Clausewitz que guerra é a política continuada por outros meios tem um triplo significado [...]”. De acordo com ele, o primeiro é o de que “[e]la consiste em ver política como sancionadora e mantenedora do desequilíbrio de forças que era exibido na guerra”; o segundo significado marcante é o de que essa inversão conceitual no poder revela que, como uma categoria de conflito político, os conflitos baseados em poder (ou com ele ou por ele) e “[...] as alterações nas relações de forças, o favorecimento a certas tendências, [...], que surgem dentro desta ‘paz civil’ – que nenhum desses fenômenos em um sistema político deve ser interpretado exceto como continuação da guerra […]”; e, para finalizar, diz o autor que “[o] terceiro, e último, significado a ser atribuído a essa inversão do aforismo de Clausewitz é que o resultado final pode ser apenas o resultado de guerra, isto é, de uma competição de forças, a ser decidida em última análise pelo recurso a armas” (FOUCAULT, 1994, p. 29-30).
Ao resumir sua abordagem inicial sobre o poder, sustenta Michel Foucault existirem dois “esquemas de análise do poder”: “[o] esquema do contrato-opressão, que é o jurídico, e o esquema de dominação-repressão ou guerra-repressão, para o qual a oposição pertinente não é entre o legítimo e o ilegítimo, como no primeiro esquema, mas entre conflito e submissão”. Ao qualificar essas duas teses, aponta esse estudioso que: “[u]ma sustenta que os mecanismos do poder são aqueles da repressão. Por uma razão de conveniência, eu denomino ela de hipótese de Reich”. E, em complemento, a “[...] outra argumenta que a base do relacionamento de poder reside no embate hostil de forças. Também por conveniência, eu devo denominá-la de hipótese de Nietzche” (FOUCAULT, 1994, p. 29-30).
Em um artigo, Michel Foucault aprofunda ainda mais o problema do poder na sua perspectiva.
Inicialmente, ele distingue os dois tipos ou significados de poder. Primeiro, um tipo “[…] que é exercido sobre as coisas e dá a habilidade de modificar, usar, consumir ou destruir elas – um poder que decorre de atitudes diretamente inerentes ao corpo ou fornecidas por instrumentos externos. Vamos dizer que aqui isso é uma questão de ‘capacidade’”. Segundo,
“[...] o que caracteriza o poder que estamos analisando é que ele traz para dentro relações entre indivíduos (ou entre grupos)” (FOUCAULT, 2003, p. 135).
Mais além, ele distingue o ator da instituição relacionada ao poder: “[...] se nós falamos do poder de leis, instituições e ideologias, [...] de estruturas ou mecanismos de poder, isso é somente até o ponto em que nós pressupomos que certas pessoas exercem poder sobre outras” (FOUCAULT, 2003, p. 135).
Michel Foucault entende o poder como um processo em curso. Por isso, o exercício do poder não é apenas “[...]uma relação entre ‘parceiros’, individuais ou coletivos, mas é uma forma pela qual uns agem sobre outros. Isso quer dizer, é claro, que não existe uma entidade poder, com ou sem letra maiúscula; global, massiva ou difusa; concentrada ou distribuída”. Para ele, “[p]oder existe somente como exercido por uns sobre outros, somente quando ele é posto em ação, até mesmo, por certo, quando adscrito a um campo de possibilidades disponíveis esparsas baseadas em estruturas permanentes”. Da mesma forma, “poder não é uma questão de consentimento” (FOUCAULT, 2003, p. 137).
Este pensador também dissocia em detalhes as relações de poder das relações de violência. De um lado, “[d]e fato, o que define um relacionamento de poder é que ele é um modo de ação que não atua direta e imediatamente sobre outros. Ao invés disso, ele atua sobre suas ações: uma ação sobre uma ação, sobre possíveis ou reais futuras ou presentes ações”. De outro, “[u]m relacionamento de violência age sobre um corpo ou sobre coisas; ele força, ele dobra, ele quebra, ele destrói, ou ele separa todas as possibilidades”. Além disso, aponta o autor que “[o] pólo oposto dela pode ser apenas passividade, e se ela se depara com alguma resistência, não há outra opção além de derrubá-la”. Um relacionamento de poder, entretanto, “[...] pode ser articulado somente com base em dois elementos que são indispensáveis se realmente se trata de uma relação de poder: que ‘o outro’ (aquele sobre quem o poder é exercido) é reconhecido e mantido até o final como um sujeito que age”, e, que, ainda, “[...] diante de um relacionamento de poder, um amplo conjunto de respostas, reações, resultados e possíveis invenções pode ser aberto” (FOUCAULT, 2003, p. 137-138).
O elo entre consentimento e violência, por conseguinte, também é analisado por ele: “[o]bviamente, o estabelecimento de relações de poder não exclui o uso de violência mais que isso acontece com a obtenção de consentimento; não há dúvida de que o exercício do poder não pode ocorrer sem um e outro, freqüentemente ambos ao mesmo tempo”. De toda sorte, o autor deixa claro que, embora consentimento e violência sejam instrumentos ou efeitos do poder, “[...] eles não constituem o princípio ou natureza básica do poder” (FOUCAULT, 2003, p. 138).
Michel Foucault também desnuda a relação entre poder e o significado amplo de “governo”: “[b]asicamente, poder é menos uma confrontação entre dois adversários ou seu embate mútuo que uma questão de ‘governo’. A esta palavra deve ser atribuído o significado mais amplo que ela tinha no século dezesseis”. Diz o autor francês que, naquela época, o termo “[...] não se referia apenas a estruturas políticas ou à administração de Estados; ela igualmente designava a forma pela qual a conduta de indivíduos ou grupos podia ser dirigida – o governo de crianças, pessoas, comunidades, famílias, doentes”. Por isso, ela envolvia formas de sujeição política constituídas por instrumentos legítimos e igualmente outros diversos “modos de ação” que tinham por objetivo influenciar “as possibilidades de ação de outras pessoas”, e, assim, o sentido de “governar” equivalia a “estruturar o possível campo de ação de outros”. O autor assegura que a melhor relação para o poder no sentido histórico está “[...] não no lado da violência ou do combate, nem no dos contratos voluntários (todos os quais podem, na melhor hipótese, ser apenas os instrumentos do poder), mas, precisamente, na área daquele singular modo de ação, nem conflitivo, nem jurídico, que é o governo” (FOUCAULT, 2003, p. 138).
Ao se definir o exercício do poder como uma capacidade de ação sobre outros indivíduos ou coletividades, imediatamente vem à tona a relação do poder com a liberdade. Diz o autor que o poder exerce-se apenas sobre sujeitos dotados de liberdade e enquanto detenham essa condição: “[c]om isso, nós queremos dizer sujeitos individuais ou coletivos que se defrontam com um campo de possibilidades nas quais diversos tipos de condutas, diversas formas de reagir e modos de comportamento estão disponíveis” (FOUCAULT, 2003, p. 138-139).
De acordo com Michel Foucault, as relações de poder podem ser analisadas apenas se questões específicas forem previamente consideradas. Ele aponta para cinco aspectos: (a) “o sistema de diferenciações que permite a alguém agir sobre as ações de outros”: know-how, linguagem, status e capacidades, por exemplo; (b) “os tipos de objetivos perseguidos por aqueles que agem sobre as ações de outros”: manter o status ou lucros, por exemplo; (c) “modos instrumentais” ao exercer o poder: por meio de controle, ou regras, ou constrangimento, ou ameaça, por exemplo; (d) “formas de institucionalização”: como família, Estado, exército, por exemplo; e (e) “os graus de racionalização”: nível de complexidade instrumental, ou capacidade de ajustar a cada situação específica, por exemplo (FOUCAULT, 2003, p. 140-141).
Este estudioso, na amplitude do seu conceito de poder, também explicita o fato de que relações de poder não são encontradas apenas no denominado “campo político”, porque elas
espalham-se “em toda a rede do social”. Ele observa que não existe um “princípio de poder primário” a dominar toda a sociedade em todos os seus aspectos, mas que todas as possibilidades abertas para um sujeito agir sobre os demais são compartilhadas socialmente e, por isso, “[...] vários tipos de disparidade individual, ou objetivos, de certa aplicação de poder sobre nós mesmos ou outros, de maior ou menor parcial ou universal institucionalização e maior ou menor deliberada organização, irão definir diferentes formas de poder”. Essas formas e situações de governo de uns sobre outros são bastante diversificadas: “[...] elas são superpostas, elas se entrecruzam, limitam e em alguns casos anulam, em outros reforçam, uma a outra” (FOUCAULT, 2003, p.141).
O papel do Estado, nesse contexto, é muito relevante e diretamente relaciona-se com o poder: “É certo que, em sociedades contemporâneas, o Estado não é apenas uma das formas de específicas situações de exercício de poder – mesmo que seja a mais importante –, mas que, de certa forma, todas as outras formas de relações de poder precisam se referir a ele”. O autor adverte que “[...] isso não é porque elas sejam derivadas, mas sim porque as relações de poder vêm mais e mais sob o controle do Estado (embora esse controle estatal não tem a mesma forma em sistemas pedagógicos, jurídicos, econômicos ou familiares)”. Por isso, explica: “[u]sando aqui o sentido restrito do termo ‘governo’, alguém poderia dizer que relações de poder têm sido progressivamente governamentalizadas, quer dizer, elaboradas, racionalizadas, e centralizadas na forma e sob os auspícios de instituições estatais” (FOUCAULT, 2003, p. 141).
A percepção mais ampliada de poder desenvolvida por Michel Foucault perpassa toda a sociedade como um todo.
O poder é compreendido na sociedade não apenas como algo negativo, mas também marcadamente positivo. Diz ele: “[o] que faz boa a detenção do poder, o que faz ela aceitável, é simplesmente o fato que ela não apenas pesa sobre nós como uma força que diz não, mas ela oportuniza e produz coisas, ela conduz ao prazer, constrói saber, produz discurso”. Assim sendo, observa o autor que essa dimensão deve ser considerada “[...] como uma rede produtiva que corre através de todo o corpo social, mas muito mais que uma instância negativa cuja função é repressão” (FOUCAULT, 1980, p. 119).
A modernidade faz-se acompanhar da emergência de uma nova “economia do poder”, altamente racionalizada e exercida pelo Estado de forma sistemática e com respaldo de instituições específicas e de grandes dimensões (como todo o aparato policial, de arrecadação e de controle do indivíduo, por exemplo), e munidas de técnicas sofisticadas para garantir a eficiência de sua atuação. Segundo este autor, contrastando com o período histórico anterior,
foram adotados “[...] procedimentos que permitiram aos efeitos do poder circular de uma forma ao mesmo tempo contínua, ininterrupta, adaptada e ‘individualizada’ através de todo o corpo social” (FOUCAULT, 1980, p. 119).
A compreensão tradicional do poder, segundo este teórico, está fortemente vinculada à concepção do próprio Estado, da soberania e do próprio regime de dominação fundado na “lei” ou em um sistema jurídico, ignorando outros aspectos igualmente relevantes. Todavia, ambos os conceitos de poder estão intimamente relacionados na prática da vida em sociedade. Destaca Michel Foucault que em nenhum aspecto ele desmerece o papel do Estado, mas apenas afirma que as relações de poder vão muito além do Estado em dois sentidos: “[p]rimeiro e acima de tudo porque o Estado, por toda a onipotência de seus aparatos, está ainda longe de ser capaz de ocupar todo o campo de relações de poder existentes, e, além disso, porque o Estado pode operar apenas com base em relações de poder já existentes”. A sua concepção compreende o Estado como “superestrutural” em inúmeras redes de poder que envolvem a família, a tecnologia, o saber e outras tantas, que se encontram “[...] em relacionamentos condicionantes-condicionados com um tipo de ‘metapoder’ que é estruturado essencialmente ao redor de um certo número de grandes funções proibitivas”, mas ele adverte que “[...] esse metapoder com suas proibições pode apenas se manter firme e estável onde ele estiver enraizado em uma série de múltiplas e indefinidas relações de poder que fornecem a base necessária para as grandes formas negativas de poder” (FOUCAULT, 1980, p. 122).
A visão ampla de Michel Foucault sobre o poder traz várias contribuições à sua compreensão. Há pelo menos três características marcantes na sua concepção sobre o poder que lhe permitem se diferenciar dos pensadores que o antecederam no exame desse tema.
Em primeiro lugar, este teórico evidencia o caráter relacional do poder. Nesse sentido, o poder não pode ser pensado como algo materializado, mas sim como algo que depende da intersubjetivização e que se efetiva no seu âmbito.
Em segundo lugar, ele desenvolve um conceito não-normativo de poder. Este, para Michel Foucault, em sentido amplo, não é apenas aquele emanado da atuação do Estado, como fundado ou não em um “contrato social”, ou como responsável monopolístico pelo exercício da “violência legítima”. Pensando assim, ele revela que as relações do poder não acontecem apenas no plano da juridicidade ou da violência. Nesse sentido, não existe poder apenas no Estado, e tampouco o Estado é seu único agente ou depositário, não estanto, portanto, vinculado tão-somente ao exercício da soberania ou da supremacia política.
Mais do que isso, a “rede” de poderes na sociedade não decorre apenas do Estado, mas da própria produção de “saberes” em âmbitos singulares. A definição do “louco”, do
“doente”, do “aluno” ou do “criminoso”, por exemplo, é o resultado de um exercício de poder de menor amplitude, mas que constitui uma “microfísica do poder”, e, assim, um poder.
A esse poder, vincula-se um saber ou saberes correlatos. Há uma direta associação entre o exercício do poder disciplinar e a constituição de saberes, seja como instrumentos para sua eficiência, ou seja, mesmo, como legitimadores do seu exercício.
Exemplifica Michel Foucault de diversas formas e em várias obras essa constatação. O exercício do poder disciplinar sobre o “louco”, por exemplo, acompanha-se da criação de instituição para seu domínio (hospital psiquiátrico), de um conjunto de técnicas para esse fim (psiquiatria e terapias), assim como um corpo de especialistas (psiquiatras) e um conjunto de normatizações sobre essa atividade (efeitos jurídicos, por exemplo, do reconhecimento dessa condição), revelando a construção de inúmeros saberes, como teorias e práticas em torno do exercício desse poder 4. Isso ele realiza ao contrapor um papel “negativo” a um “positivo”, como a repressão e a dominação do homem, de um lado, e a “produção” ou a “disciplina” ou o “controle”, de outro.
Em terceiro lugar, demarca este teórico que a dúplice categorização do poder é característica da sociedade moderna capitalista que se afirma a partir do fim do século XVIII e início do século XIX. O tipo de controle social que se exerce a partir de então, aponta ele, não decorre apenas da repressão do Estado, e, mais, não seria possível apenas na sua base.
A visão de Michel Foucault sobre o poder tem sua singularidade destacada por Steven Lukes, mas não o isenta de críticas por parte deste.
Steven Lukes, após discorrer sobre as suas três dimensões do poder, e referir a importância do estudo de Michel Foucault, destaca que ela está fundamentada em duas razões: “[a] primeira é que ele influenciou largamente nosso pensamento sobre o poder, através de muitos campos e disciplinas, notavelmente estudos culturais, literatura comparada, história social, antropologia, criminologia e estudos das mulheres”; e a “[...] segunda é que a abordagem de Foucault tem sido apontada como reveladora de uma ‘quarta dimensão do poder’ […]” (LUKES, 2004, p. 88). Steven Lukes também reconhece que a análise do teórico francês está construída de forma bem original. De um lado, ele desenvolve os elos entre poder e saber e suas relações com os mais variados campos do conhecimento; de outro, enfatiza os efeitos do poder sobre o indivíduo, considerando suas mais diversas manifestações. O poder, ao mesmo tempo em que pode reprimir e punir (sentido negativo), também conduz a produzir
4 Sobre outras manifestações do poder e suas articulações, ver outras obras específicas de Foucault (por
(sentido positivo), mas consiste em um mecanismo de controle sobre o indivíduo (LUKES, 2004, p. 88 e 91).
Steven Lukes, todavia, discorda da idéia de que Michel Foucault apresenta uma visão radicalmente nova do poder. Na sua análise da obra dele, conclui resumidamente que em certas passagens “expressa hesitação” quando desenvolve a idéia de que o poder “constitui” o sujeito “livre”, e que, mais além, “[...] Foucault ele próprio, no final, largamente se retratou disso”. Afirma, ainda, que um dos seus propósitos de analisar o pensador francês exatamente “[...] é sugerir que nenhum dos estudos sustenta as afirmações extravagantes feitas por Foucault e tantos outros que seu pensamento oferece uma visão ultra-radical do poder que tem implicações profundamente subversivas sobre como nós pensamos liberdade e racionalidade” (LUKES, 2004, p. 106-107).
A crítica de Steven Lukes a Michel Foucault, porém, deve ser vista com reserva por pelo menos dois motivos.
Em primeiro lugar, não é pertinente atribuir “hesitação” ou “retratação” ao autor francês. A obra de Michel Foucault pode merecer críticas por analisar o poder de forma assistemática, na medida em que não teve por objetivo desenvolver um estudo específico sobre o poder (ao contrário de Steven Lukes, nas suas duas formulações teóricas), mas sim sobre a construção do saber, das práticas e dos discursos na sociedade contemporânea. Desse modo, a emergência do poder sempre de forma incidental não revela hesitação ou incoerência. A singularidade da abordagem de Michel Foucault, neste aspecto, decorre do fato de ele introduzir uma visão mais ampla do poder, que, por isso, radica no cruzamento de outras manifestações (até por vezes insuspeitas) das relações humanas na sociedade contemporânea, não podendo, por isso, partir da visão do “poder sobre” (do dominador ao subordinado), mas dos espaços em que se exerce e sua articulação com os saberes.
Em segundo lugar, e exatamente por isso, a obra do teórico francês tem o mérito de revelar a articulação do poder com o saber por meio do discurso. Nesse sentido, e antecipando a exposição que será aprofundada mais adiante, Michel Foucault consegue com muita propriedade religar os conceitos de saber e de poder e, especialmente, revelar a dinâmica de seu funcionamento no mundo contemporâneo. Basta relembrar que até recentemente (e inclusive na obra de Steven Lukes) o poder era compreendido como um obstáculo (ou corrupção) ao saber, e Michel Foucault foi um dos primeiros a identificar que o poder, ao mesmo tempo em que torna possíveis e legítimos alguns saberes ou significados, também obstaculiza outros, principalmente quando estabelece “condições de possibilidade” no saber (e no discurso). Por isso, não apenas “oprime” e “limita”, mas também “constrói” e “produz”.
Gerhard Goehler aponta diretamente para essa limitação teórica na obra de Steven Lukes, e, assim, de sua própria compreensão: “[q]uando Lukes escreveu Power (1974), o relacionamento entre poder e saber era um em que o poder era entendido como corrompendo